O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Empatias








“Tu e eu temos de permeio
a rebeldia que desassossega,
a matéria compulsiva dos sentidos.
Que ninguém nos dome,
que ninguém tente
reduzir-nos ao silêncio branco da cinza,
pois nós temos fôlegos largos
de vento e de névoa
para de novo nos erguermos
e, sobre o desconsolo dos escombros,
formarmos o salto
que leva à glória ou à morte,
conforme a harmonia dos astros
e a regra elementar do destino.”

José Jorge Letria, Ode ao Gato

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Algo ainda mais intolerável no sofrimento dos animais do que no dos homens

"Para um homem cuja mente seja livre há algo ainda mais intolerável nos sofrimentos dos animais do que nos sofrimentos do homem. Pois com os últimos é pelo menos admitido que o sofrimento é mau e que o homem que o causa é um criminoso. Mas milhares de animais são inutilmente chacinados todos os dias sem uma sombra de remorso. Se alguém se referir a isso, será considerado ridículo. E esse é o crime imperdoável"

- Romain Rolland, Prémio Nobel de Literatura.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Homens e animais ou de como tudo é "pó" e "vaidade"

"Quanto aos homens, penso assim: Deus os põe à prova para mostrar-lhes que são animais. Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade.

Tudo caminha para um mesmo lugar:
tudo vem do pó
e tudo volta ao pó"

- Eclesiastes, 3, 18-20.

"Vaidade" traduz o hebraico "hebel" (vapor, sopro), que aqui designa o "ser ilusório das coisas", segundo o comentário da Bíblia de Jerusalém.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sobressaltos - Três raças de homens

"[...] se fosse necessário dividir os homens, formariam três raças: os sonâmbulos, que são legião; os racionais e sensíveis, que vivem sobre dois planos e que, sabendo o que lhes falta, se esforçam por procurar o que de modo algum encontram; os espirituais nascidos duas vezes, que caminham para a morte com um passo igual para morrer sós e inteiros, quando acaso não escolhem o momento, o lugar e o modo, a fim de assinalar o seu desprezo pelas contingências. Os sonâmbulos são os idólatras; os racionais e sensíveis, os crentes; os espirituais duas vezes nascidos adoram em espírito o que os primeiros não imaginam e que os segundos não concebem, pois são homens plenamente e, como tais, não irão de modo algum procurar o que obtiveram, nem adorá-lo, pois que eles próprios o são"

- Albert Caraco, Bréviaire du chaos, Lausanne, L'Âge d'Homme, 1999, p.8

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Sobressaltos - "Quem quer que assim conheça que é Brahman, torna-se este inteiro [universo]"

"Quem quer que assim conheça que é Brahman, torna-se este inteiro [universo]. Mesmo os deuses não têm o poder de fazer com que não seja, pois ele torna-se o seu próprio si.
Por isso, todo aquele que reverencie qualquer outra divindade, pensando "Ele é um e eu sou outro", não compreende [correctamente]. É como um animal [sacrificial] para os deuses; e tal como muitos animais são úteis para o homem, assim é cada indivíduo humano útil para os deuses. Ser-nos roubado um único animal é desagradável. Quanto muito mais o é serem-nos roubados muitos! E assim aos [deuses] não agrada de modo algum que os homens saibam isto"

- Brihadaranyaka Upanishad, I, IV, 10.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Cáusticos - Da igualdade de homens e animais na escravidão de ser

"Se considero com atenção a vida que os homens vivem, nada encontro nela que a diference da vida que vivem os animais. Uns e outros são lançados inconscientemente através das coisas e do mundo; uns e outros se entretêm com intervalos; uns e outros percorrem diariamente o mesmo percurso orgânico; uns e outros não pensam para além do que pensam, nem vivem para além do que vivem. O gato espoja-se ao sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali. Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é. Nenhum tenta levantar o peso de ser. [...]
Estas considerações, que em mim são frequentes, levam-me a uma admiração súbita por aquela espécie de indivíduos que instintivamente repugno. Refiro-me aos místicos e aos ascetas - aos remotos de todos os Tibetes, aos Simões Estilitas de todas as colunas. Estes, ainda que no absurdo, tentam, de facto, negar a lei da vida, o espojar-se ao sol e o aguardar da morte sem pensar nela. [...]
Nós outros todos, que vivemos animais com mais ou menos complexidade, atravessamos o palco como figurantes que não falam, contentes da solenidade vaidosa do trajecto. Cães e homens, gatos e heróis, pulgas e génios, brincamos a existir, sem pensar nisso (que os melhores pensam só em pensar) sob o grande sossego das estrelas. Os outros - os místicos da má hora e do sacrifício - sentem ao menos, com o corpo e o quotidiano, a presença mágica do mistério. São libertos, porque negam o sol visível; são plenos, porque se esvaziaram do vácuo do mundo"

- Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, pp.178-179.