O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 12 de dezembro de 2010

Parábola da criança fria

 
De um antigo pergaminho manuscrito (parece que a sangue de rosa), achado nas margens dum rio que ninguém já recorda, com esta singela dedicatória no reverso da última dobra, virada para quem disso pudesse espantar-se: “ A quem, sem suspeitar, me deu, (que mo não dou) o que a si se não dá”. Por baixo, podia decifrar-se, ainda que a custo, as palavras Donis de Frol Guilhade. Ainda hoje se não sabe quem seja...

1.        De mármore, vinda qual lâmina, no limiar seduzia, do simples perigo de ser. Tudo do vago desafiava em fatal (ainda quente) sussurro, qual filha outra de Pallas.
2.        Fremia de combates, em brasa fria – xadrez que nela se jogava com dados.
3.       Como se em fuga fora sempre, como se em cada coisa de si quisera furtar-se: para nenhures, para longe da criança de seu frio antigo, que de si nela sempre fugisse.
4.       Altiva como a verdade sempre menina, era da verdade a areia movediça mesma: em carne de barro, viva como a cal quente que quase atraiçoa a quem serve.
5.        Nela a pureza era justa como um teorema, carente de nada, porém querente de não querer já saber, de só querer demonstrar que nada a demonstrava.
6.       Profunda como o sono, que no fundo não tinha para conselho ou amigo, entre o extremo lúcido e o insano impossível, quase trágica. Queria só dormir de si, para, ai, de si repousar.
7.        Seu olhar, nocturno farol que na testa o íntimo mostrava ignota de si, na vertigem em que se furtava lograva insinuar-se apenas: mal se dava, logo furtava-se.
8.       Como Niké, a de toda a justiça fontana, seu olhar-horizonte do mar demandava continentes no cansaço da alma, ao findor do sem fim do estio em cada tarde esquecida.
9.       Avistá-la era anúncio do mais postremo destino: no deserto do desencontro, era ela um simples grão de areia em que se encontrava certo sem-lugar. E era o nisso ter-se (da alegria) a memória mais nobre, mas a  mais ténue.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sim, Sim; Não, Não...


«Seja este o vosso modo de falar: Sim, sim; não, não. Tudo o que for além disto procede do espírito do mal»

Mt. 5:37

(...) Mas porquê? Porque muitas vezes utilizamos a linguagem de um modo preverso; não com o objectivo de esclarecer, mas de confundir. Apenas para convencer os outros da nossa pequena "verdade".

Sim e não. Neste domínio do "sim" e do "não" é a criança, nunca o adulto, o guia e o Mestre. O adulto, a menos que se torne, ele próprio, criança, sempre adultera tudo. Sim e não. «Seja esse o vosso modo de falar». Quando perguntamos a uma criança por que está a construir castelos na areia, talvez nos responda simplesmente «Porque sim»; e, se lhe perguntarmos por que não quer comer a sopa, poderá dizer apenas «Porque não». Não precisa de "filosofias", nem de complexas argumentações. Podem parecer-nos tolas as suas respostas, mas, apesar de parecerem tolas, estão muito mais em conforme com a sabedoria do Evangelho do que com a "lógica" de alguns dos mais brilhantes pensadores.

Isto, porém, não significa que a Filosofia se deva eliminar. Ela constitui um encaminhamento para a sabedoria, sem conseguir, no entanto, resolver em definitivo o problema fundamental da vida.

José Flórido, Reencontrar Agostinho da Silva o Poeta e o Poema, Zéfiro, 2006