Um espaço para expressar, conhecer e reflectir as mais altas, fundas e amplas experiências e possibilidades humanas, onde os limites se convertem em limiares. Sofrimento, mal e morte, iniciação, poesia e revolução, sexo, erotismo e amor, transe, êxtase e loucura, espiritualidade, mística e transcendência. Tudo o que altera, transmuta e liberta. Tudo o que desencobre um Esplendor nas cinzas opacas da vida falsa.
O CAMINHO DA SERPENTE
"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".
"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga. E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"
Raimon Pannikar partiu ontem deste mundo. Recebo uma notícia que já aguardava. Estive para me encontrar com ele em 14 de Janeiro deste ano, para o entrevistar para o primeiro número da revista "Cultura ENTRE Culturas", que dirijo. O encontro foi cancelado uns dias antes, devido ao seu extremo cansaço. Ainda enviou um texto, que publiquei no referido número e que deve ter sido uma das últimas, senão a última, das suas intervenções públicas, pois logo a seguir recebi uma circular para os amigos dizendo que se retirava de todas as aparições públicas directas e indirectas e pedindo que nos mantivéssemos em contacto pela oração, na fase final da sua vida. Foi o grande mentor de um verdadeiro diálogo intercultural e inter-religioso, ainda muito longe de acontecer, e deixou uma obra enorme, verdadeira ponte entre Oriente e Ocidente, lamentavelmente muito desconhecida ainda. Admiro-o imenso e tive a honra de prefaciar o seu livro "O diálogo indispensável. Paz entre as religiões" (Zéfiro, 2007), entre nós praticamente ignorado. Que repouse na Paz e na Luz, transcendentes a todas as religiões e vias!
"Não se pode negar, em qualquer caso, que a atitude intercultural implica um risco e leva consigo a aceitação da vulnerabilidade humana. Porém, se não aceitamos este risco, tudo desembocará num "choque de civilizações", isto é, numa guerra de culturas, que se prolongará como nos últimos seis mil anos de história humana, na qual a cultura da guerra prevaleceu sobre a cultura da paz. Esta transição de uma cultura da guerra a uma cultura da paz é o desafio de vida ou de morte com que se enfrenta a humanidade contemporânea. [...]
A interculturalidade é um imperativo humano do nosso tempo. Para que tenha lugar a mutação de uma cultura de guerra numa cultura de paz, a mudança deve alcançar o domínio do mythos e não somente o do logos; do que se depreende que havemos de modificar os nossos mitos e não apenas as nossas ideias. Esta transição, este passo (pesah, pascha), [...] é a tarefa principal da filosofia intercultural, é o desafio intercultural do nosso milénio. Note-se que falamos de desafio intercultural e não somente ético. [...] O desafio da interculturalidade não pode reduzir-se a um discurso ético. Não há que nos espantarmos de que o desafio intercultural seja tão subversivo como enriquecedor ao passo que difícil.
Cada cultura crê nos seus próprios mitos e, quando nos esquecemos do carácter relativo das convicções que estão encerradas (e compreendidas) no mito, corremos o risco de converter em absolutos as ideias e os valores de tal cultura. Este é o perigo das culturas que se fecharam em si mesmas ou que estão convencidas da sua superioridade. O encontro com outras visões do mundo que são incompatíveis com a nossa não apenas nos causa incómodo, mas também nos torna inseguros, faz-nos perder o equilíbrio. [...]
A abertura à interculturalidade é verdadeiramente subversiva. Desestabiliza-nos, contesta convicções profundamente enraizadas que damos por garantidas porque nunca as colocámos em discussão. Diz-nos que a nossa visão do mundo, e portanto o nosso próprio mundo, não são únicos. [...]
Porém, ao mesmo tempo, a abertura à interculturalidade é enriquecedora. Permite-nos crescer, sermos transformados; estimula-nos a tornarmo-nos mais críticos, menos absolutistas e amplia o campo da nossa tolerância. Ademais faz-nos descobrir as próprias raízes da nossa cultura, esses pontos de intersecção para um crescimento harmonioso dessa mesma cultura. [...]
O nosso terceiro adjectivo convida-nos a ser prudentes e realistas. O encontro entre as culturas é difícil, porque não se trata de um fácil eclecticismo ou de um cocktail arbitrário. [...]
É natural que seja necessário ir com prudência, para evitar cair no fascínio do exótico e sermos assim vítimas de um parasitismo debilitador confundido com uma simbiose enriquecedora"
- Raimon Pannikar, Paz e Interculturalidad. Una reflexión filosófica, Barcelona, Herder, 2006, pp.105-107 e 109-110.
"[...] o nosso ser humano amputa-se no que tem de mais profundo e ainda de mais universal e constante ao longo da sua peregrinação terrestre. Dizendo melhor, o homem "moderno civilizado" intenta cometer este antropocídio precedido por um cosmocídio - sem por isso consegui-lo. De facto, o homem moderno ocidental perdeu em grande parte o sentido da sua existência nua e está constantemente agarrado à sua consciência consciente para subsistir; não "vive" senão quando está desperto, nem se crê homem senão quando pensa ou quer mais ou menos conscientemente, isto é, pensando que pensa e observando-se a querer. A vida tem que ser então "propósito", "pro-jecto" e a oração (ponho por acaso) pensamento e volição... Gostaríamos de sublinhar que dissemos "moderno civilizado" e não homem ocidental - que todacia possui raízes muito mais profundas e mais vivas.
O homem primordial está aí, sabe-se homem. Porém, mesmo sabendo-se homem, não cortou ainda assim o cordão umbilical que o une com a terra e com o céu, porque não se sabe homem enquanto separado, coisa que implica a sua segregação do resto do universo. Sabe-se humus, homem que não está desvinculado da terra nem do céu e sabe que não é monarca absoluto da criação. Se por espiritualidade se entende a forma concreta pela qual o homem realiza a sua obra de salvação, a sua plenitude, a espiritualidade pré-histórica identifica-se com a própria vida do homem, toda ela vivida e considerada como um rito, ou seja, como uma acção sagrada na qual o humano e o divino colaboram para fazer chegar o cosmos ao seu destino. A espiritualidade é rito e o rito é a própria vida. Tudo é uma acção ritual e, por este mesmo facto, por nem sequer vislumbrar a possibilidade da existência de uma esfera profana, o próprio rito não se distingue do conjunto de acções comuns da vida corrente. O homem vivendo "faz", trabalha, forja a sua salvação, porque a vida não é outra coisa senão isto: o caminho para a salvação, a oportunidade de chegar plenamente a ser. A questão não é que o homem deva fazer muitas coisas no caminho e entre elas pôr em prática os meios para salvar-se, não é que a religião seja uma de tantas coisas, ainda que porventura a mais importante das que o homem tem que realizar; a questão é que a própria vida é esta realização ou não é nada. A vida religiosa não tem férias nem pausas, como as não tem o coração. Não há períodos de descanso porque não é uma acção justaposta à vida, ao viver, que desgaste e necessite ser reposta, antes é a própria dinamicidade da existência. A adoração, ou seja, a consagração total e rendida à Divindade ou à Realidade, é considerada como evidente e como pressuposto implícito em qualquer acto. Tudo é latria. Lentamente, o céu separa-se da terra na consciência do homem e então começa a subir ao céu o espírito de Deus que flutuava sobre as águas. Aparece o que logo no Ocidente se chamará idolatria e as novas formas religiosas mais ou menos conhecidas. Aparecerão então os Deuses mais ou menos personificados e em conflito entre si e entre os homens.
Mesmo sem o epifenómeno do que chamamos civilização, o homem pré-histórico é plenamente homem e vive toda a profundidade abissal da sua existência"
1- Coroação (Coroa do Espírito Santo a ser oferecida a SS o Dalai Lama)
(foto: Adama)
The King of Gaps
There lived, I know not when, never perhaps - But the fact is he lived - an unknown king Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps. He was lord of what is twist thing and thing, Of interbeings, of that part of us That lies between our waking and our sleep, Between our silence and our speech, between Us and the consciousness of us; and thus A strange mute kingdom did that weird king keep Sequestered from our thought of time and scene.
Those supreme purposes that never reach The deed between them and the deed undone He rules, uncrowned. He is the mistery which Is between eyes and sight, nor blind nor seeing. Himself is never ended nor begun, Above his own void presence empty shelf All He is but a chasm in his own being, The lidless box holding not-being's no-pelf. All think that he is God, except himself.
- Fernando Pessoa, Poesia Inglesa, I, edição e tradução de Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p.280.
"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material" - Agostinho da Silva
"A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros"
- Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, tradução de Joana Varela, Lisboa, Dom Quixote, 2000, p.329.
"Quanto aos homens, penso assim: Deus os põe à prova para mostrar-lhes que são animais. Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade.
Tudo caminha para um mesmo lugar:tudo vem do pó e tudo volta ao pó"
- Eclesiastes, 3, 18-20.
"Por isso rogamos a Deus que de "Deus" nos livremos e acolher e fruir eternamente a verdade aí onde são iguais os anjos mais elevados, a mosca e a alma, aí onde me mantinha e queria o que era e era o que queria"
"Na Holanda discute-se agora, alto e bom som, se os animais são máquinas. As pessoas até se divertem a ridicularizar os cartesianos, por estes conceberem que um cão que é agredido emite um som que é similar ao de uma gaita de foles quando é comprimida"
- G. W. Leibniz, Carta de 1648 a Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, in G. W. Leibniz, Philosophical Papers and Letters, Dordrecht, Reidel, 1969, pp.275-276.
“A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como trata os seus animais” - Gandhi
Caminho da Serpente
Sem porquê nem para quê, revolvem-se ventos eternos num espaço infinito. Puro jogo de nada-tudo acontecer. A cegueira de o não ver dá nome e forma, nascer e morrer, ao incriado.Assim me disseram que nasci e existo. Assim acreditei. Cresci vendo-me pele-vermelha a cavalgar nos planaltos livres e selvagens. Depois foram as pontes: tanta excitação quando atravessava uma ponte, sobre as águas ! Adolesci em romantismo e revolta: vislumbre do amor absoluto, conjunção esplendorosa dos amantes no espaço constelados a romper e inflamar todas as coisas; insurreição de cada um e de todos contra a falsa ordem do mundo, pela anarquia e a liberdade. Gritei-o nos palcos, vocalista sem saber cantar, embriagado de insubmissão, em plena fúria punk: queria ver "Lisboa a arder", a arder da Paixão que morria e morre no tédio da vida normalizada e medíocre, mesmo após um ensaio de revolução. Foram os Minas & Armadilhas: desejo de fazer explodir o universo. Nas pausas do Apocalipse e das descidas ao Inferno, em busca da Perséfone que sempre se desvanecia, nos intervalos de mortes e ressurreições múltiplas, estudei Filosofia, onde hoje ensino. Metamorfose da Arqueologia, pois afinal o que nela procurava era o Princípio (Arché), o Primordial, a fonte primeira e última de tudo. Um dia, há mais de um quarto de século, descobri Portugal, a luz de Lisboa e seus miradouros, a barra do Tejo e suas Ninfas, o finisterra atlântico e suas Musas, a sibilina e amorosa língua das Cantigas d'Amigo, de Gil Vicente e Camões, de Vieira, Pascoaes e Pessoa, o Fado cantado e vencido. Estive a 4 de Agosto, com amigos, em Alcácer-Quibir, no ano em que fazíamos 24 anos, a data em que o Desejado se converteu, com a mesma idade, em Encoberto. Descobri Portugal e seu fundo arcaico, a infinita possibilidade aberta sobre a persistente mediocridade e estreiteza da sua vida social e institucional: Ophyussae, a Terra das Serpentes, Oestrímnia, o estro, o transe criador, Lusitânia, a i-lusão dissolvente e libertadora, o V Império, Império do Santo Espírito, arrepio de abraço armilar e fraterno, sem Imperador que não seja a Eterna Criança que somos. Conheci Agostinho da Silva e a filosofia portuguesa, razão atlântica e poética, aberta à alteridade e ao sagrado. Descobri Portugal, a Saudade e com ambos o caminho extremo-ocidental para o Oriente, exterior, interior e secreto, para a Ecúmena e o Infinito. Dei por mim na via budista tibetana, a contribuir para trazer ao finisterra atlântico a sabedoria dos Himalaias que desde António de Andrade demandamos. Uma via para além de todas as ilusões. Sobretudo a de haver vias e quem as percorra, de haver de onde e para onde. Sim, sempre que veja o Buda, mato-o ! Para que assim morra a dualidade que me ofusca. Não o deixo fora de mim, para que de mim me liberte. Assim Cristo pede aos cristãos, que o devorem e por ele sejam assimilados. Tive filhos, da carne e do espírito. Vivi muitas coisas. Fui devorado e parido, repetidas vezes, das entranhas de uma Serpente em chamas. Hoje sei que desde tempos sem início durmo e sonho, em tua companhia, ó universo ! Esfrego os olhos e tento despertar. O que tarda, porque o sono é muito: vem desde a eternidade, vestido de ignorância e egoísmo. E assim, sonâmbulo e trôpego, verto fortuitos acessos de loucura e lucidez em muitas e desvairadas coisas: orar e meditar, estudar e ensinar, traduzir, escrever poesia, filosofia, romance e teatro, promover associações, conspirar movimentos, construir pontes, rasgar horizontes. "Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva" e "Folia. Mistério de uma Noite de Pentecostes" contêm para já o essencial do que tenho a dizer e propor. Se agora morresse, estaria quanto a isso tranquilo.Conspiro um movimento de libertação universal, que também assuma todo o potencial de sabedoria, amor e universalidade da cultura portuguesa e lusófona, vocacionada para ser uma cultura alternativa, especializada em diálogos, pontes e mediações planetárias. Um movimento que contribua para o que mais importa: a Revolução profunda, que desde sempre urge e tarda, a Revolução do Despertar, a Revolução do desencobrir o Infinito em si e em tudo, no apocalipse de todas as máscaras. Revolução ! Aqui e Agora. Já ! Para o bem de todos os seres vivos, nossos irmãos e irmãs, nossos pais e mães, nós mesmos, desde o não haver início. Para que vivamos o mundo como, no fundo sem fundo, é: Jogo puro, livre e insubstancial, Festa para a qual todos são convidados, eterno e infinito Jardim de Delícias.
Que a Serpente ganhe asas e, dançando no espaço, de si e de tudo se dispa !
ACTIVIDADES
Se estiver interessado em Cursos de Introdução à Meditação Budista e ao Budismo, bem como sobre outros temas, como Religiões Comparadas, Fernando Pessoa, Mestre Eckhart, Saudade, Quinto Império, contacte: 918113021.
LIVROS - PAULO BORGES
Escrever como quem despe peles até se despir de si e desaparecer na aparição de tudo...
Ensaio filosófico, antologias e livros organizados:
1 - Agostinho da Silva - Dispersos (apresentação e organização), Lisboa, ICALP, 1988; 1989 (2ª edição). 2 - A Plenificação da História em Padre António Vieira - estudo sobre a ideia de "Quinto Império" na "Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício", Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995. 3 - Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. 4 – Pensamento Atlântico. Estudos e ensaios de pensamento luso-brasileiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002. 5 - Obras de Agostinho da Silva - Textos e Ensaios Filosóficos - I (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 1999; Lisboa, Círculo de Leitores, 2001. 6 - Obras de Agostinho da Silva - Textos e Ensaios Filosóficos - II (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 1999; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 7 - Obras de Agostinho da Silva - Ensaios sobre Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira - I (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 2000; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 8 - Obras de Agostinho da Silva - Ensaios sobre Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira - II (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 2001; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 9 - Obras de Agostinho da Silva – Estudos sobre Cultura Clássica (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2002. 10 - Obras de Agostinho da Silva – Estudos e Obras Literárias (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2002. 11 - Obras de Agostinho da Silva – Textos Vários. Dispersos (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2003. 12 - (Com Matthieu Ricard e Carlos João Correia) O Budismo e a Natureza da Mente, Lisboa, Mundos Paralelos, 2005. 13 – Agenda 2006. Agostinho da Silva (introdução geral, selecção de textos, introduções específicas e coordenação editorial), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005. 14 - Agostinho da Silva. Uma Antologia (organização e introdução), Lisboa, Âncora Editora, 2006. 15 – Tempos de ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva, Lisboa, Âncora Editora, 2006. 16 - O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (organização, com Duarte Braga), Lisboa, Ésquilo, 2007. 17 - Agenda 2008. Padre António Vieira (introdução e selecção de textos), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007. 18 - A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido (aforismos), Sintra, Zéfiro, 2008. 19 - Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008. 20 – Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008. 21 - A Pedra, a Estátua e a Montanha. O Quinto Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália, 2008. 22 - O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, Lisboa, Portugália, 2008. 23 - A Dor de Deus. Homogeneidade, Diferenciação e Reintegração em Sampaio Bruno, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda (no prelo).
Romance:
Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Lisboa, Ésquilo, 2006.
Teatro:
Folia. Mistério de Pentecostes em três actos, Lisboa, Ésquilo, 2007.
Conto:
A Hieródula, Setúbal, Plurijornal, 1992.
Abertura de "Línguas de Fogo"
AVISO
Esta é a história e o romance da minha e das vossas vidas, caros leitores. Não porque seja uma boa história e um bom romance – vós o sabereis, não eu - , mas porque é a história e o romance do despertarmos de haver nascer e morrer, vida e morte, ser e não ser. A história e o romance do despertarmos da história e do romance de existirmos ou não, de sermos ou não alguém. A história e o romance do Despertar. O Despertar de todos nós no Despertar de alguém que foi um pouco e um muito de todos nós: Agostinho da Silva. Um dos maiores turbilhões de vida, pensamento e acção que têm vindo desinquietar este mundo onde quase todos acima de tudo procuramos a paz do cemitério da vida fácil, fútil e sem sentido. Nascido há um século, após escolher no céu o lugar de nascer na terra, partiu há doze anos, na madrugada do Domingo da Ressurreição. Esta é a história do que nesse momento e a partir daí lhe aconteceu. A história do que nesse momento e a partir daí nos aconteceu. A história do que nesse momento e a partir daí te aconteceu, leitora e leitor. Pois, queiras ou não, gostes ou não, estás aqui, na mais funda e incandescente substância deste livro. E contigo todas as coisas. É tarde de mais ! Tudo o que aqui acontece em ti e no mundo acontece. Mesmo que agora mesmo o largues e devolvas à estante de onde nunca o deverias ter tirado. O que vivamente te aconselho. Duvido é que o consigas. Esta é a história da paixão, morte e iluminação de Agostinho da Silva. A nossa paixão, morte e iluminação e a de todas as coisas. Tudo o que aqui se narra é absoluta e rigorosamente verdadeiro. A realidade e a verdade é que o podem não ser. Seja como for, não escrevo senão o que vejo, ouço, sinto e sei. As entranhas secretas do mundo e da realidade, as entranhas da nossa ilusão, ignorância e maldade e da nossa desilusão, sabedoria e bondade, intimamente entrelaçadas na oculta e libertadora metamorfose de algo a que se chamou Agostinho da Silva. Sim, se quiseres ler este livro tens de estar preparado para te leres e veres ao espelho, vendo que ele afinal não existe e no mais fundo do ser se te dissolve. Tens de estar preparado para leres e veres, intimamente e sem anestesia, aquilo que te desconheces ou que pretendes acima de tudo ocultar. Dos outros e, fundamentalmente, de ti próprio. Tens de estar pronto para visitares todas as mais recônditas possibilidades da vida, da morte e do que há para além de vida e morte. Todas as tuas mais fundas possibilidades, incluindo o que há em ti para além de ti mesmo. Tens de estar pronto para te despires. De tudo e de ti próprio. E sobretudo da ideia de que não andas sempre nu. Se é isso que por esta via queres, tens de acompanhar Agostinho. Tens de agarrar com coragem e firmeza a mão que ele, generoso e forte, agora mesmo te estende e deixá-lo guiar-te, de olhos e coração bem abertos, ao longo da estreita e larga via que percorreu e infinitamente percorre, sempre que haja quem com ele queira ir. Quem com ele queira entrar no real e na sua ilusão, descer às suas alturas e subir às suas funduras, explorar as suas veredas e sendas mais inóspitas. É isso que desejas ? Tens a certeza !?... Não será melhor pousares o livro e regressares ao que te acarinhe, console e distraia ? Se é isso que queres eu vou contigo. Farei de novo e infinitas vezes a viagem. Agarraremos juntos a mão do Professor e caminharemos a seu lado, quem sabe se dele e de mais do que ele inseparáveis. Mas não te esqueças: temos de estar prontos para tudo ! Viver, sentir e ver tudo o que há para ver, viver e sentir. A começar pelo que mais deixamos para os chamados “outros”: a dor, a morte e o inferno. Só pela sua experiência em carne viva, para dela libertarmos a todos, ressuscitaremos com Agostinho para a vida e, porventura, dependendo da nossa sabedoria, coragem e amor, para algo além ainda da vida. Mas não esperes que te conte tudo o que vais encontrar. Jamais o faria, mas a verdade é que não posso. Não te posso dizer o que só por ti, despido de ti, encontrarás. Se ainda quiseres, vem então. Entra comigo e com Agostinho neste romance ilusório e verdadeiro, sisudo e louco, contemplativo e insurrecto, onde te arriscas a tudo, incluindo gozar e sofrer, chorar e rir, perderes-te e encontrares-te. E se quiserem vir muitos, de uma só vez, venham pois ! Agostinho tornou-se forte, extremamente forte, e bem aguenta puxar-nos a todos para o fundo de nós mesmos. Para o sem fundo de si, onde já estamos todos, dele e de nós despidos. Se vão gostar ou não, não sei e em absoluto não me importa. Não escrevi para o vosso nem para o meu prazer. Por isso o fiz com todo o deleite e todo o incómodo. Embora num sentido prefira que não gostem. E até ache que em muitas páginas fiz tudo por isso. Pois assim serão mais livres. Mais livres de mais um livro e de mais um autor. Mais livres de se distraírem a idolatrar algo e alguém, esquecendo-se do que verdadeiramente importa em vocês próprios. Se quiserem abandonar os vossos berços e os vossos túmulos venham então. De outro modo não comprem nem leiam o livro. E, se o comprarem e lerem, esqueçam-no e destruam-no o mais depressa possível. Porque esta é, repito e acrescento, a história e o romance das nossas vidas e das nossas mortes, a história e o romance da nossa libertação e do nosso Despertar de haver vida e morte, e isto não se conta, nem escreve, nem pode conter-se em livros. Avisei-vos. Se ainda quiserem vir, dispam-se, não ponham cintos de segurança e não se queixem.
LIVROS INTERESSANTES
LES FOUS D’AMOUR Au Moyen Âge. Orient-Occident
ISBN : 978-2-296-04535 ; Prix 38 € ; 332pages
Être fou d’amour, aimer jusqu’à la folie ! Cette expérience des extrêmes engendre des œuvres d’art. Parole poétique, parole chantée, parole mise en scène…, l’amour, la folie d’amour ne peuvent se dissocier du « chant ».
L’Occident déteste perdre la tête, privilégie le libre arbitre, le contrôle de soi par la raison. Le Fou d’amour qui se perd lui-même au profit d’un autre n’est plus prisé car la valeur prédominante est la stabilité du sujet qui garantit la stabilité de l’individu dans une catégorie de comportements admis, propres à son rang. La maîtrise de soi au moyen de la conscience rationnelle est vue comme la condition même de l’homme éveillé.
Au Proche-Orient, la folie d’amour est l’occasion privilégiée d’approcher l’Unicité divine. L’amour et la beauté sont les plus formidables « éveilleurs » car ils poussent le petit ‘moi’ hors de lui-même. Même relégué au désert, le Fou d’amour est celui qui court la plus haute aventure réservée à l’humain. La folie d’amour conduit le ‘moi’ à son extinction : elle réveille l’homme pseudo éveillé de son sommeil égotique, elle lève le voile qui le séparait de sa propre divinité.
Entre ces deux attitudes de l’Occident et de l’Orient médiévaux, se dessinent de nombreux ponts : les mystiques en sont le plus lumineux.
Claire Kappler, chargée de recherche au CNRS, médiéviste et orientaliste, spécialiste de littérature persane classique, se consacre aux comparaisons entre les cultures du Moyen Âge européen et proche-oriental.
Suzanne Thiolier-Méjean, professeur à l’Université Paris IV – Sorbonne, spécialiste de littérature médiévale occidentale, en particulier en langue d’Oc. A publié des ouvrages sur l’Alchimie.
Peinture de couverture : Isabelle Bazinet, Ó « Les jaillissements de lumière » Graphisme : Pascal Auffinger
LES FOUS D’AMOUR, TABLE DÉDICACE INTRODUCTION Introduction I- AXES ET PERSPECTIVES FOLIE ET RAISON D’AMOUR Philippe Ménard Folie et folie d'amour au Moyen Âge Suzanne Thiolier Qui ama desena « qui aime perd la raison » : la folie d’aimer chez les troubadours Jean-Marie Fritz Translatio stultitiæ Les fous de Dieu entre Orient et Occident Vincent Déroche Byzance a-t-elle eu ses fous d'amour ? Johann Christoph Bürgel L'amour fou chez les Arabes au début de l'Islam Manijeh Nouri-Ortega L'enchantement, la stupéfaction : miroirs de la folie d'amour dans la littérature persane II- ERRANCES ET VÉRITÉ S DU MIROIR SE TROUVER ET SE PERDRE EN L’AUTRE Mireille Séguy Amour fou et folie d’amour dans le Chevalier au lion de Chrétien de Troyes :;de la métaphore poétique au récit romanesque Leili Anvar-Chenderoff L’amour de Majnûn pour Leyli : folie ou sagesse ? Fabienne Pomel L’Écho et le masque : le fou d’amour dans la logique du double et la crise de la communication (Narcisse, Écho, Tristan, Lancelot) Charles-Henri de Fouchécour Le narcisse qui rend fou, selon Hâfez, poète lyrique persan du XIVe siècle Dominique Demartini-Franzini Folie d’amour, folie de mots dans le Tristan en prose :« plus fou même que celui qui s’en va jetant des pierres dans l’eau … » III- ALCHIMIE ET FOLIE D’AMOUR AU PAYS DU CONTE Éric Phalippou Le fou d'amour et la femme noire : ou comment l'Europe s'est approprié un conte indo-persan sur la possession IV- ÊTRES SINGULIERS AU CREUSET DE L’AMOUR FOU David Williams Folle d'amour, sage d'amour : l’amour de Thècle pour l’apôtre Paul Brigitte Saouma Aimer sans mesure : le thème de l’âme-épouse chez Bernard de Clairvaux Dominique de Courcelles Discours de la folie d’amour et discours sur la folie d’amour : la folie d’amour dans quelques œuvres de Raymond Lulle, « homme qui follement parle » Leo Carruthers La sainte folie : Margery Kempe, mystique ou malade ? Claire Kappler La Zoleikhâ de Jâmî : comment une folle d’amour devient maître spirituel V- AU-DELÀ DE LA FOLIE L’ESSENCE DE L’AMOUR Jad Hatem Majnun et sa folie d'amour : je suis Layla Catherine Guimbard « I fedeli d’Amore » : une mystérieuse secte ? Leila Khalifa Dévoilement (Folie) et voilement (Fidélité) dans l’amour chez Ibn ‘Arabî :le fou et le fidèle au secret de Laylâ Ève Feuillebois-Pierunek Désirer la séparation d’avec l’aimé, folie ou sagesse ? L’exemple de ‘Erâqi, poète persan du XIIIe siècle Alain Sainte-Marie L’amour qui fait aimer l’amour. Dans le Nuage de l’Inconnaissance Paul Ballanfat L’amour et l’itinéraire spirituel chez Najm al-dîn Kubrâ CONCLUSION Résumés des communications (en français) Abstracts (en anglais) Les auteurs REMERCIEMENTS www.harmattan-editions.fr