O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 16 de novembro de 2008

"A morte é uma flor"

Dizem-me que arrefeces. E que tudo dentro de ti escureceu. Venho à tua frente e só por isso não estou onde as lágrimas escorrem dessa fonte que é o olhar endurecido pela dor. Venho para preparar a passagem.
Descubro as escadas, porque não sei se a morte é uma forma de descer ou de subir. Depois talvez possas escolher, como quando te ensinava, o caminho. O caminho é sempre teu. A direcção, o rumo deixo que o escolhas porque te quero sempre entregue à liberdade do pensamento. Mesmo quando arrefeces e as palavras são mais frias dentro de nós, elas indicar-te-ão, vestidas no manto branco do silêncio perene, um norte ou um desnorte. Creio que andarás ainda por perto do reino dos vivos, mas não faças mais como nós fazemos, porque somos sonâmbulos que se perdem da relação entre a vida e a morte. Faz agora o teu caminho e não nos imites ou te deixes chamar mais uma vez.
Penso neste lugar. Parece mais abaixo mas pode ser também um útero em que a terra se levanta para te erguer ou uma morada em que sintas que, como o mar e as ondas, a terra te embala e é a grande mãe onde te fundes. Um útero dentro da terra para descobrires outras mães e outras mulheres fecundas onde inscrevas a luminosidade do teu riso brilhante. Um riso de louco pode parir uma estrela…acho que nunca te ensinei o sentido último deste pensamento, mas sei que te falei deste autor. Ouve-lo? Anda como tu por entre as paisagens do sul e desertas e nunca ouviu vivos. Chegas ao seu reino e, se o encontrares, recebe dele e de Ensor uma máscara para dançares e bailares nos espaços eternos onde a luz nunca é tão breve como aqui. E o teu sorriso não terá fim…
Antes que chegues, certifico-me que te deixei a árvore para ouvires os pássaros e os nomes com que na Terra os homens bons renomeiam a beleza e o instante. Quero que sorrias com a nossa capacidade, quase inexistente, de iluminarmos o fugaz e o passageiro que os pássaros cantam. A árvore é uma parte do bosque e nela moram as palavras inauditas e aquelas com que daqui em diante podes escutar a Terra vista desse lugar longínquo e desse lugar sem tempo. A luz doura-as, às folhas, e com elas espero-te neste lugar fundo da saudade para te soprar os versos que aprendi a ler nos movimentos de Klimt. Klimt não pintava nem escrevia. Deixava-se vagar pelo atelier à espera dos que apareciam ainda com a aura de beleza e juventude intactas. Retirava os movimentos restantes e repousava os mortos na imobilidade de uma visão imemorial. Esse repouso, esse descanso, cobria-o ele soprando a cor do que é eterno sobre os vossos corpos frios. Por isso todos os seus mortos estão revestidos desse brilho que ele conhecia e nenhum de nós partilha: recebia os mortos com folhas de ouro, douradas, que soprava e onde iam escondidas as sílabas do outro mundo. Esta noite soprarei neste atelier onde Klimt e tu descem ou sobem, não sei, os versos órficos que trouxe guardados dos teatros gregos por onde ouvi Sófocles e Ésquilo. Esta noite, e para ti, não serei nem Isabel nem a tua professora, serei como Cassandra, a do grito incontido. Klimt repreender-me-á como a uma sombra viva que o atrapalha. Desviarei o grito para não perturbar os sopros e, no vento, te deixar as múltiplas direcções com que vivos e mortos se podem ainda cruzar.
Dizem-me que inexistes, e, no entanto, ainda és dentro de mim fechado num grito e num espasmo. Um rosto vibrante e aberto por onde te digo, na última lição, a saudade. Queria dizer-te que um túmulo é outra porta e que a minha saudade te oferece o portão da espera, da espera infinita, a Idade de Ouro onde Klimt te pinta, Nietzsche te espera em gargalhadas furiosas e eu deposito a minha amizade numa lágrima que entrego à raiz desta árvore com sede de ti e de nós. E, quando pensares que o lugar onde te espero é ainda escuro, olha para ti e verás que eras tu que polias com folha de ouro a nossa tristeza.
Dizem-me que morreste e eu vejo Klimt andando pelo atelier com folhas douradas para te receber e grito, prometo, noutra direcção. Aqui. Ofereço as lágrimas a um pintor que queira limpar os pincéis com que se escreveu sobre a morte. E a morte é uma flor, como sabia o Celan…



Esta desce sobre ti e não sei onde vai cair ou subir. Mas ela sabe como te encontrar no caminho.

Em memória do meu aluno Diogo Costa, o mais feliz dos alunos que tive, o do sorriso mais feliz e permanente e a quem agradeço a imensa alegria com que contagiou os meus dias e os da turma. À turma que me chamou para estes lugares mais fundos, a Morte e a Saudade, que são a grande sala metafísica da Vida, em particular ao João Moita e à Teresa Neves que estão ou na base da escadas ou no topo das escadas e confiam no que encontro e não procuro. Por confiarem na minha memória e no amor com que nos enlaçamos nas orlas da eternidade.