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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Sacralização da Mulher
Ao procurarmos todavia possíveis fontes desta notável sacralização da mulher e do amor a ela, numa obra que se destaca pela narrativa do aprendizado de Cristo no Oriente bramânico e budista, não podemos todavia esquecer aquela tradição que, seja hindu ou budista, tem como uma das características principais o reconhecimento e a veneração da divindade ou sacralidade da mulher, assumindo ainda plenamente a vocação da sexualidade para a abertura religiosa e espiritual da consciência. Referimo-nos à tradiçao tântrica que, embora com diferenças no hinduísmo e no budismo, faz da mulher e do simbolismo feminino feminino do absoluto, objecto de uma devoção particular. Se no primeiro existem rituais preliminares à união sexual em que a consorte é venerada como uma deusa, no segundo, a par disso, o décimo-quarto interdito tântrico, nas escolas budistas tibetanas da Nova Tradução, é o de "Desprezar as mulheres", que, pelo contrário, devem ser consideradas como manifestações da "sabedoria" e como "dakinis" (entidades femininas subtis). Toda a forma de misoginia é assim uma falta grave. Há nas palavras de Issa, a nosso ver, uma nítida atmosfera tântrica, sendo bastante plausível, a verificar-se uma veracidade histórica do manuscrito descoberto por Notovich, que este Cristo desconhecido haja sido iniciado nas fontes espirituais daquela que é poventura a sabedoria mais profunda de todas as regiões por si visitadas - se bem que os primeiros textos tântricos propriamente ditos sejam posteriores, é de supor que tradição oral os precedeu -, ou que a narrativa acerca da sua viagem ao Oriente haja sido objecto de uma parcial releitura tântrica.
Paulo Borges, Prefácio O Cristo Desconhecido, in Nicolas Notovich, A Vida Desconhecida de Jesus Cristo, Lisboa, Mundos Paralelos, 2005, pp.29-30
segunda-feira, 10 de maio de 2010
"Não façais da Casa de meu Pai uma feira."
Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira.»
Mt 21, 12-16
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
"Reconhece o que está diante do teu rosto"
"Jesus dizia:
Reconhece o que está diante do teu rosto
e o que te é oculto te será desvelado"
- Evangelho de Tomé, 5.
Reconhece o que está diante do teu rosto
e o que te é oculto te será desvelado"
- Evangelho de Tomé, 5.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
O Caminho da Santidade
«Permite, Senhor, que vá primeiro sepultar o meu pai.» Tornou-lhe Jesus: «Deixai os mortos sepultar os seus mortos. Tu, porém, vai e proclama o Reino de Deus.»
»Seguir-te-ei, Senhor, mas primeiro, permite que vá a casa despedir-me.» Respondeu-lhe Jesus: «Quem empurra o arado e torna a olhar para trás, não é idóneo para o reino de Deus.»
Lucas, IX; 62
José Flórido, Reencontrar Agostinho da Silva o Poeta e o Poema, Zéfiro, p.89
(...)
Segunda Velha:
Eu tinha um marido muito bom, cumpridor, amigo da sua família. Bem me custou educá-lo na obediência, no dever e na regra, a trabalhar para que nada faltasse. Mas, depois que o ouviu [Jesus], fez-se santo e ninguém o pode aturar. Exaltando-se: Quem é que pode aturar um santo? Um santo é um desastre para uma família; pelo menos, enquanto está vivo. Um homem que nã tem costumes, que dá tudo o que tem, que dá o ordenado, que sai e entra a toda a hora, diz o que sente e não quer saber da família!
Um Homem:
A verdade.
Segunda Velha:
Que é santo e que depois que é santo se tornou o escândalo do meu bairro e se dá com a canalha da rua! Um chefe de repartição! E falta à repartição, falta a tudo, até falta aos seus deveres conjugais, depois que é santo!
Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia em sete actos, Assírio e Alvim, 2007, pp.42-43
(...)
Será o amor imparcial/objectivo pela humanidade compatível com o amor parcial/subjectivo pela família? Não serão as obrigações conjugais um entrave para o pleno cumprimento do homem/humanidade? Implica a renúncia o abandono de entes familiares e amigos?
O Drama do Amor
Diabo para Jesus:
Desprezaram-te e escarneceram-te. Vês tu. Sou eu que domino o mundo, porque o mundo não é senão luta, egoísmo, interesses e vaidades. Porque o fizeste assim, se foste tu que o criaste? Os homens dilaceram-se numa guerra atroz de que tu és o culpado, para afinal se deixarem dominar por mim. Tu criaste o homem, mas eu forneci-te o barro. Criaste o mundo, mas eu dei-te a matéria de que ele é feito. O meu riso é o sangue dos homens. Palpita-lhe nas artérias! E o sol não é mais do que uma brasa do inferno! O Deus talvez seja eu! Porque, demais a mais, é preciso que saibas: eu não abuso; contenho-os. Na realidade quem os contém, não és tu; sou eu. Se não fosse eu!... Sou o medo! É com o medo do Diabo que as mulheres não se atrevem a ir até ao fim dos seus desejos. Contenho muitos crimes. Os assassinatos que se sonham dentro de cada família, não se realizam, as mais das vezes, porque lhes meto medo! Neste vasto mundo, a mulher seria pior que o homem, se não fosse a minha sombra. Escuta, filho! O drama do amor, somos nós dois que o temos conseguido equilibrar. Eu, dum lado, a puxá-los para baixo, para a animalidade; tu, do outro, a levá-los para cima, para a espiritualidade. Mas se não fosse a animalidade, já o mundo tinha acabado. E eu quero saber em que te havias de entreter.
Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes, Jesus Cristo em Lisboa, tragicomédia em sete actos, Assírio e Alvim, 2007
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