O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta Aristóteles. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aristóteles. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Filosofia ou arte?

Como poderia o logos dizer o ser, se o verbo é originariamente arbitrário e metafórico? Como a crise do logos arrasta a crise da arché, resta a tragédia do «solo como rio»: «Que buscamos? Uma vida segura face ao trágico possível ou o risco metafórico duma linguagem poética que nos torne nus diante do destino? Uma economia ou um excesso? Monossemia de definições utilitárias ou disseminação polissémica inesgotável duma linguagem aberta ao futuro? Este o ponto mais alto do debate do Ocidente, entre dois dos maiores pensadores que o balizam»(1). Independentemente da validade deste equacionamento, os dois pensadores, Aristóteles e Nietzsche, vivem em contextos histórico-culturais distintos a todos os níveis. Na Poética, embora se defenda uma boa vizinhança entre Filosofia e Tragédia, a racionalidade e a Filosofia estão em alta; em Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral, em particular, e na obra de Nietzshe, em geral, a Arte aparece como feiticeira e metafísica salvadora das proclamadas mortes das duas matrizes do pensamento Ocidental, a saber, a razão (grega) e a fé (cristianismo).

(1) - Fernando Belo, Leituras de Aristóteles e de Nietzsche, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp.175-198

António Azevedo, Pessoa e Nietzsche, Lisboa, Instituto Piaget, 2005, p.201

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Para uma sabedoria entre - Do terceiro excluído ou do tao inter-calado



(Laozi encontra Yin Xi, o guardião da porta do Tibete)

"Do princípio de não-contradição Aristóteles extrai o do terceiro excluído como sua consequência (em gamma, 7): não há nenhum intermediário entre enunciados contrários, pois é preciso necessariamente afirmar ou negar um mesmo predicado, seja qual for, dum único sujeito. Ou é verdadeiro, ou é falso, isso é ou não é, não há meio entre os dois, tal qual o pode ser o cinzento intercalando-se entre o preto e o branco; há, não "dégradé", mas exclusão e resposta apenas por sim ou não. Pois, a partir do momento em que se toma como ponto de partida uma definição, definição que vem ela própria da necessidade em que se coloca o outro de "dar a cada termo uma significação determinada", é suprimida toda outra possibilidade emergindo de "entre" os contraditórios. [...]

A partir do momento em que a contrariedade primeira, a do ser e do não-ser, serve de base a este princípio do terceiro excluído, pretender haver um intermediário entre estes contraditórios "não é dizer nem do ser nem do não-ser que ele é ou que ele não é" (gamma, 7), não é nada mais dizer de todo e o pensamento soçobra, inelutavelmente, desfaz-se e não mais pensa. Entrar no pensamento taoísta, em contrapartida, é precisamente reabrir a possibilidade desse "entre", metaxu, que Aristóteles aqui exclui. Pois a efectividade inesgotável de que "tao" nomeia a fonte, esta capacidade sempre em recuo do visível e que, por aí, se separa das marcas tangíveis que constantemente dele decorrem, essas mesmas que regista a definição, não pode ser apreendida nem segundo a categoria do "há" (you), que descreve o tangível, nem tão pouco segundo a do "não há" (wu), que constata a sua inexistência. Daí a expressão contraditória, desfazendo a sua oposição, que é a única que o caracteriza: "chama-se [o tao] configuração sem configuração, imagem (fenómeno) sem realidade (concreta)" (Laozi, 14). Do tao, poder-se-á também dizer que não é nem um nem o outro e que participa de um e do outro: ele é apreensível-inapreensível, a sua única característica é ser incaracterizável [...]. Pois, pela virtualidade que deve ao seu constante desenvolvimento, a montante do concreto, ele não se deixará acantonar em nenhuma actualização particular que o manifeste no seio do visível. Mas é também dessa efectividade inesgotavelmente operativa, e demasiado subtil e difusa para não permanecer invisível, que procede toda a manifestação de existência.

[...]

Não se apreendendo o tao senão entre os contrários há/não há, a única caracterização que lhe convém será, não a do claro e do distinto, promovidos como são em exigência da razão europeia, mas, exactamente ao inverso, [...], a do "vago" ou do "vaporoso" (hu huang). Como ele não tem nem a opacidade e massividade das coisas, nem tão pouco o estatuto de pura idealidade que serve no pensamento grego, desde Platão, para definir o mundo das Formas e do inteligível, como ele não é nem fenomenal nem abstracto, mas (se) fenomenalizando-defenomenalizando constantemente, não é susceptível nem de contorno definido nem de determinação intrínseca, e o seu único traço marcante é o "indeciso". Enquanto efectividade, não é nem material nem espiritual, a partir do momento em que um seria distinto do outro, mas, evoluindo entre estes pólos, o seu modo é o do subtil e do dissolvido, do desligado e do decantado (wei, jing); apreende-se, não segundo os termos antitéticos da presença e da ausência, [...] mas na sua constante transição, nos estados da reabsorção e da emergência, manifestando-se simultaneamente no modo do ambiente e do evanescente 1".

1 - Cf. o que já notei do pintor chinês que pinta "entre há e não há" (you wu zhi jian), em La grande image n'a pas de forme, capítulos 1-3.

- François Jullien, Si parler va sans dire. Du logos et d'autres ressources, Paris, Seuil, 2006, pp.85-87.

arevistaentre.blogspot.com

sábado, 10 de janeiro de 2009

Melancolia

"Porque é que todos os homens que foram excepcionais [perittoì] em filosofia, na política, na poesia ou nas artes eram manifestamente melancólicos [...]?"

- Aristóteles, Problemata, XXX, 1.