“Escaping from reality”, Rui Fernandes, professor de Artes na ESEN“Penso que os lugares naturais são animais como nós. A torrente que desce ou a margem que escava são semelhantes à ave que plana à espera no ar ou no burro que trepa hesitando. As abóbadas das cavernas-sombras estão cheias das figuras que as constelações compõem.” Pascal Quignard, Terraço em Roma
É Meaume quem o diz e disse-mo a mim quando atravessava o corredor para ir ter com quem se atrasa a chegar. O livro do Quignard é também a paisagem onde poisam as tuas aves azuis. O céu onde pões a esvoaçar o que geras com movimentos desequilibrados, porque ainda não consegues a harmonia do que sobe acima de ti. As tuas visões planam por cima de ti à espera do ar. Não muito longe, um anjo de Rilke ufana as suas asas e gera em mim a mesma mancha, um rasgão e uma abertura. No corredor, a parede onde encontro quietas as tuas paisagens parecem-me cavernas-sombras de onde saem as criaturas que só existem enquanto te oiço falar. Tu dizes “peixes”, eu digo “anjos”. Tu dizes “mostro-te esta fotografia”, eu “contemplo uma gravura que partilhas e concebes com Meaume”.
“É a matéria que imagina o céu. Depois, é o céu que imagina a vida. Depois, é a vida que imagina a natureza. Depois, a natureza cresce e mostra-se sob diferentes formas que concebe muito menos do que inventa revolvendo o espaço. Os nossos corpos são uma dessas imagens que a natureza tentou junto da luz.” Pascal Quignard, Terraço em Roma
Em particular esta, mas é uma gravura e não uma fotografia de onde, como na chapa originária, sobressai como da massa esmagada pelo buril do gravador, também chamada “berço”, as paisagens antes da predefinição das figuras. Esta gravura é uma tentativa da natureza absorvida pela luz e não consumida pelo tempo. É a matéria que inventa o que o nosso olhar não vê. O céu. É a distância que gera o que não morre. A vida. É a vida que discrimina o que morre e muda. A natureza. Os movimentos seguem-se naturalmente da mudança e da revolta. Ter que nascer e mudar, ter que perecer. Ter que conseguir perpassar por entre os movimentos que reproduzem as figuras: transfigurar a matéria em luz. O corpo. Pode o corpo ser o berço do que dorme em nós até ao despertar vivíssimo do sonho? Fixo o olhar na gravura e nela está uma matéria esmagada que abre passagem ao que a matéria sonha e pode vir a ser pertença do céu, da vida, da natureza, do espaço, da clarividência. Não-lugar onde tudo se co-pertence e é em uníssono vibrar. A luz. Recebes, quando olhas, os fragmentos que acordam da descensão encadeada do gerar da matéria à figura. Nas paredes do teu ver-sonhando, numa espécie de olhar sonambólico que te arrasta para o que ainda não acordou, se a matéria for a caverna, a tua visão é o útero onde as formas, antes da figuras, se desprendem de uma distância que as torna irreconhecíveis para não dizer invisíveis e são como o alvo do Amor. No útero do teu olhar as imagens que permanecem no espírito, como as imagens do Amor são, sem rosto e sem nome, indefiníveis e irresistíveis, e parece que te perseguem na consciência e na inconsciência para te lançar para fora do mundo. A tua visão é assaltada pelo que vem de antes do tempo de haver mundo. Por isso, como Meaume, o que começava por desenhar os motivos em papel azul, o que via os cardos que levantavam no ar a sua cabeça azul, o que sabia que as borboletas azuis, mesmo poisadas, envelheciam, tu conduzes-nos à caverna antes da História e nas paredes azuis do céu revelas o mais vivo, o mais natural, o mais luminoso, para não dizer o mais numinoso, o mais numenal. Há um momento em que me pergunto se não é Deus que de mãos azuis me vem devolver o céu, uma parede onde a minha sombra fosse azul, o meu movimento não deixasse vinco, onde as paisagens ficassem mais nuas e um deserto fosse a última gravura antes do apocalipse, e múltiplos grãos de areia, trazidos no bico de gaivotas envelhecidas, esmagados recuperassem o berço onde ficou suspenso o compossível (?). O possível parece-me próximo, o impossível demasiado doloroso para se repetir.
“ Há no mundo lugares que datam da origem. Esse espaços são instantes onde o outrora se crispou. Tudo conflui neles com a antiga raiva. É o rosto de Deus. É o rasto da força primordial mais imensa que o homem, mais vasta que a natureza, mais enérgica que a vida, tão absorvente como o sistema do céu que precede os três.” Pascal Quignard, Terraço em Roma
Demoro no corredor. Não há afinal quem me venha buscar. O meu lugar é uma fissura crispada da origem e nela entrevejo o que não chegou senão a ser um instante para que confluiu a força primeva, que recua do homem, pela natureza até à vida, até antes da vida, ao céu. Esta gravura com que me visitas no não-lugar não é um motivo consciente para ti, porque tu não comunicas directamente, como Meaume, o personagem, o que vês. A visão vem mediada pela tradução. Tu és um tradutor, não de línguas, mas de seres. As formas são uma reminiscência do informe, o movimento do que está quieto, o poder da força. Não só antes da forma, como antes da cor. O azul é uma súbita metamorfose do grão da chapa original em que Deus gravou, a negro e na sombra, um sonho que teve no corpo do mundo por haver. Tu traduzes o movimento das mãos de Deus a esmagar o grão. O que se desprende desse movimento não tem nome. É uma visita atordoada que se aloja no coração e pulsa nele como um Deus que arde em mim o seu incontido desejo de criar.
Para agradecer a todos os que me dão a ver o que a escrita nunca pressentiria sem a visão rasgada pela dedicação do olhar ao informe, ao deveniente, ao ruinoso, ao instante, ao eterno, ao eterno-instante e ao instante-eterno. Ao Rui que faz o favor de ser meu amigo e me revela o que vê de um mundo a que pertenço por não ser deste. Aos que como ele trazem até mim o que as palavras desconhecem, eu desconheço e com quem vou balbuciando, como na infância. Esse ver que desencadeia o retorno e o avanço sobre o indefinido que nos pulsa suscita em mim uma muito, muito grande gratidão. Que a colham nas minhas tentativas e errâncias para dentro e fora, entre fora e dentro do que vejo na linguagem. Ao Lapdrey que partilha as minhas visões brancas, as noites brancas também. À Saudades que me canta nessas noites longas de visões e vazios.


