O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta Agradecimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Agradecimento. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Diálogos I

“Escaping from reality”, Rui Fernandes, professor de Artes na ESEN


“Penso que os lugares naturais são animais como nós. A torrente que desce ou a margem que escava são semelhantes à ave que plana à espera no ar ou no burro que trepa hesitando. As abóbadas das cavernas-sombras estão cheias das figuras que as constelações compõem.” Pascal Quignard, Terraço em Roma

É Meaume quem o diz e disse-mo a mim quando atravessava o corredor para ir ter com quem se atrasa a chegar. O livro do Quignard é também a paisagem onde poisam as tuas aves azuis. O céu onde pões a esvoaçar o que geras com movimentos desequilibrados, porque ainda não consegues a harmonia do que sobe acima de ti. As tuas visões planam por cima de ti à espera do ar. Não muito longe, um anjo de Rilke ufana as suas asas e gera em mim a mesma mancha, um rasgão e uma abertura. No corredor, a parede onde encontro quietas as tuas paisagens parecem-me cavernas-sombras de onde saem as criaturas que só existem enquanto te oiço falar. Tu dizes “peixes”, eu digo “anjos”. Tu dizes “mostro-te esta fotografia”, eu “contemplo uma gravura que partilhas e concebes com Meaume”.

“É a matéria que imagina o céu. Depois, é o céu que imagina a vida. Depois, é a vida que imagina a natureza. Depois, a natureza cresce e mostra-se sob diferentes formas que concebe muito menos do que inventa revolvendo o espaço. Os nossos corpos são uma dessas imagens que a natureza tentou junto da luz.” Pascal Quignard, Terraço em Roma

Em particular esta, mas é uma gravura e não uma fotografia de onde, como na chapa originária, sobressai como da massa esmagada pelo buril do gravador, também chamada “berço”, as paisagens antes da predefinição das figuras. Esta gravura é uma tentativa da natureza absorvida pela luz e não consumida pelo tempo. É a matéria que inventa o que o nosso olhar não vê. O céu. É a distância que gera o que não morre. A vida. É a vida que discrimina o que morre e muda. A natureza. Os movimentos seguem-se naturalmente da mudança e da revolta. Ter que nascer e mudar, ter que perecer. Ter que conseguir perpassar por entre os movimentos que reproduzem as figuras: transfigurar a matéria em luz. O corpo. Pode o corpo ser o berço do que dorme em nós até ao despertar vivíssimo do sonho? Fixo o olhar na gravura e nela está uma matéria esmagada que abre passagem ao que a matéria sonha e pode vir a ser pertença do céu, da vida, da natureza, do espaço, da clarividência. Não-lugar onde tudo se co-pertence e é em uníssono vibrar. A luz. Recebes, quando olhas, os fragmentos que acordam da descensão encadeada do gerar da matéria à figura. Nas paredes do teu ver-sonhando, numa espécie de olhar sonambólico que te arrasta para o que ainda não acordou, se a matéria for a caverna, a tua visão é o útero onde as formas, antes da figuras, se desprendem de uma distância que as torna irreconhecíveis para não dizer invisíveis e são como o alvo do Amor. No útero do teu olhar as imagens que permanecem no espírito, como as imagens do Amor são, sem rosto e sem nome, indefiníveis e irresistíveis, e parece que te perseguem na consciência e na inconsciência para te lançar para fora do mundo. A tua visão é assaltada pelo que vem de antes do tempo de haver mundo. Por isso, como Meaume, o que começava por desenhar os motivos em papel azul, o que via os cardos que levantavam no ar a sua cabeça azul, o que sabia que as borboletas azuis, mesmo poisadas, envelheciam, tu conduzes-nos à caverna antes da História e nas paredes azuis do céu revelas o mais vivo, o mais natural, o mais luminoso, para não dizer o mais numinoso, o mais numenal. Há um momento em que me pergunto se não é Deus que de mãos azuis me vem devolver o céu, uma parede onde a minha sombra fosse azul, o meu movimento não deixasse vinco, onde as paisagens ficassem mais nuas e um deserto fosse a última gravura antes do apocalipse, e múltiplos grãos de areia, trazidos no bico de gaivotas envelhecidas, esmagados recuperassem o berço onde ficou suspenso o compossível (?). O possível parece-me próximo, o impossível demasiado doloroso para se repetir.

“ Há no mundo lugares que datam da origem. Esse espaços são instantes onde o outrora se crispou. Tudo conflui neles com a antiga raiva. É o rosto de Deus. É o rasto da força primordial mais imensa que o homem, mais vasta que a natureza, mais enérgica que a vida, tão absorvente como o sistema do céu que precede os três.” Pascal Quignard, Terraço em Roma

Demoro no corredor. Não há afinal quem me venha buscar. O meu lugar é uma fissura crispada da origem e nela entrevejo o que não chegou senão a ser um instante para que confluiu a força primeva, que recua do homem, pela natureza até à vida, até antes da vida, ao céu. Esta gravura com que me visitas no não-lugar não é um motivo consciente para ti, porque tu não comunicas directamente, como Meaume, o personagem, o que vês. A visão vem mediada pela tradução. Tu és um tradutor, não de línguas, mas de seres. As formas são uma reminiscência do informe, o movimento do que está quieto, o poder da força. Não só antes da forma, como antes da cor. O azul é uma súbita metamorfose do grão da chapa original em que Deus gravou, a negro e na sombra, um sonho que teve no corpo do mundo por haver. Tu traduzes o movimento das mãos de Deus a esmagar o grão. O que se desprende desse movimento não tem nome. É uma visita atordoada que se aloja no coração e pulsa nele como um Deus que arde em mim o seu incontido desejo de criar.

Para agradecer a todos os que me dão a ver o que a escrita nunca pressentiria sem a visão rasgada pela dedicação do olhar ao informe, ao deveniente, ao ruinoso, ao instante, ao eterno, ao eterno-instante e ao instante-eterno. Ao Rui que faz o favor de ser meu amigo e me revela o que vê de um mundo a que pertenço por não ser deste. Aos que como ele trazem até mim o que as palavras desconhecem, eu desconheço e com quem vou balbuciando, como na infância. Esse ver que desencadeia o retorno e o avanço sobre o indefinido que nos pulsa suscita em mim uma muito, muito grande gratidão. Que a colham nas minhas tentativas e errâncias para dentro e fora, entre fora e dentro do que vejo na linguagem. Ao Lapdrey que partilha as minhas visões brancas, as noites brancas também. À Saudades que me canta nessas noites longas de visões e vazios.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sem Título

Durante três noites escutei o canto do pássaro. Poisado no parapeito da janela ou no fio do estendal, não sei, o pássaro veio prenunciar-te sob a forma de um encanto. Três dias volvidos e apareces-me assim. Foi ao passar por entre as folhas, na perseguição de uma antiga recordação – tinha seis anos e no baloiço pendurado na árvore, uma pomba branca poisou no meu rosto – digo pois, de uma antiquíssima espera, a do Espírito sobre mim, que assim te reconheci.
Vinhas vestida de azul e trazias nos lábios o sagrado mutismo dos infelizes. Vinhas manhã grega em dia de tenebrosa tempestade. Poisada no meu e mesmo chão, sob a forma de um clarão, como um rasgão e como um vaso pleno do que por mim foi esperado, colheste-me em flor de memória em sangue e viva. As flores que nos colhiam, e que os teus pés encobriam, sofrida a espera de uma revelação ou de uma redenção, eram de uma espécie e cor de sangue diferido, transferido, indefinido. As flores cobriam no chão alguém-ninguém que por ti tinha sido ferido ou em ti tinhas sofrido. Foi então que percebendo, sem saber como e por causa de meu nome, Isabel, todo o mistério das rosas, que corri a buscar aquela passagem em mim, que sei sem corpo de texto, da criança pelo espírito tomada. Essa criança, que me percorria e para ti também corria, vinha para ser tornada mulher, primavera e rainha. Vendo-te assim tão próxima, tão etérea, tão quase divina, não parei de tremer, por saber que foi a minha espera que te coroou, foi ela que te transformou em menina, criança e rainha.
Assim, pela primeira vez não cega me vias e eu te recolhia, e havia no teu corpo um ser outro do qual também eu – no teu sem nome como a flor da memória – me compadecia. Era do medo, era do segredo, mas era algures e não alhures, que outros sons originais, em nós se percutiam, assim menina, criança e rainha, parecia que ao receber-te ensandecia, desvairada e louca, enquanto escrevia.
Era do espanto, era do encanto, mas lentamente se pressentia que a menina, a criança e rainha me sobrevinham de um mundo, para mim ignoto, em que jamais somente se sofria, enquanto eu nas palavras e nos símbolos, num relance súbito, me expandia. Menina, criança e rainha, perguntava, com que asa da infância cobres ainda o meu rosto de medo com outras antigas penas da lembrança?
Tu, menina, criança e rainha, nada me respondias. Tinhas a boa fechada e já nada arrolavas. Dos teus lábios cerrados e a meus olhos confinados confiavas o segredo e o medo e eu, sob a divina mania, no pano da escrita perscrutava-te antiga e ouvia, escrevia e, tolhida e recolhida, neste silêncio dentro do tempo, te inscrevia.
Era do tempo, era do desalento, que o teu sorriso se escondia, ele que preso à mão do inverno lentamente te arrefecia e por dentro do teu rosto o esmaecia. Era eu quem, menina, criança, rainha, to pedia para o depor junto ao canto dos pássaros e da rima da poesia. O teu sorriso, menina, criança e rainha ainda dentro te ti ressurgia. Era para dentro de ti que a escrita ria e fugia. Escrita dançarina que contigo se envolvia em movimento-vento, em movimento-lento. As duas tristes dançarinas insufladas pelo vento pairavam sob o poema-canto, no canteiro, no poema com a forma de um campo-campa. As duas dançarinas, a escrita e a rainha, acompanhavam os passos em luta, em luto, do poema em que os mortos e os vivos renasciam. E eram penas o que assim, da escrita saía e na saia da dançarina, docemente nos envolvia. A das aves e a dos mortos.
Era como rosto e como corpo, mas já sem desgosto, que assim toda inteira e rarefeita, em castas gotas, me surgias e ungias, a pobre que assim escrevia e te recebia. O poema que da flor da terra remanescia eras tu, menina, criança, rainha, propulsionadora, no meu pulso do impulso, no curso do decurso, da escrita como incerta cartografia e caligrafia das lágrimas na paisagem de um rosto refeito do desgosto. Tu, quase divina em nós, sobre mim descias e comigo, aos céus, subias.
Durante três noites escutei o canto do pássaro que vinha do mar – também tu de lá vinhas coberta de lágrimas e escamas, sereia, criança e rainha –, durante três dias escrevi em pranto, em flor de memória e impotente, contra a força da Palavra, mas em vão, Menina (!), o pássaro escrevia agora com os movimentos da minha mão. O pássaro, que vem do mar e se reveste da espuma da onda e só em canto do silêncio se pronuncia, vinha sobre mim como um símbolo que enfim se aproximava para me chamar e ao fundo da arca da Língua me entregar. Eu que nunca compreendi o mundo, eu que nunca contei o tempo, eu que sempre caminhei na direcção do vento, era assim daqui roubada e, de súbito, raptada para o interior de uma aparição, para o esplendor de uma transfiguração.
Roubada ao mundo e ao tempo, presa a uma asa de escamas e imersa numa saia de arcaicas lamas, entregava a vida ao movimento enamorado do olhar da alma com a mão. Comum à escrita, na viagem dentro da arca, levavas-me sem rumo por entre o fumo, para além daqui, Além, para em mim cumprir a tarefa espiritual de a vida e a morte renomear e cantar.
Dentro de ti serei(a) a que, cantando o verbo morto, deixará o poema renascer e como a flor, reflorescer.
É enquanto as rolas arrolam e os cabelos se enrolam que a voz cantando, semeia no corpo, terra canteiro, o poema. Canto em Língua pura, pátria imemorial para os mortos que florescem. O poema, revelas, é a outra eucaristia.




Para a Luíza e para a Sereia. A quem devo a partilha do incomunicável e da verdade. Para as duas chega muito atrasado, bem sei, mas é só numa certa contagem do tempo. Este texto é para o tempo incontável a que chamaremos outros nomes. Uma breve nota também de agradecimento ao João Serra que me ofereceu a fotografia de uma certa composição em que se escreve para haver entrega aos outros, na absoluta entrega e confissão do que se é aos Amigos.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Quando e onde me agradeço

obrigado.
é muito bom mudar repentinamente de ares.
sem compromissos.
sem adiamentos.
sem demoras.
quase se quebra o evitável.
tudo é estranho.
diferente.
novo.
as pessoas.
o lugar.
a intimidade.
o pensamento.
tudo é diferente.
seja talvez essa a maior alegria.
a felicidade em mudarmos o ar que se respira.
nosso bel'prazer .
já agradeci.
VT