O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta ódio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ódio. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Aprender a fazer contas

"O amor acrescenta-nos com o que amamos. O ódio diminui-nos. Se amares o universo, serás do tamanho dele. Mas quanto mais odiares, mais ficas apenas do teu. Porque odeias tanto? Compra uma tabuada. E aprende a fazer contas"

- Vergílio Ferreira, Pensar, Venda Nova, Bertrand, 1993, p.243.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Um texto sobre o apego e o amor

Realmente, o apego e a aversão são duas das maiores constantes nas nossas vidas. Pergunto-me se será possível viver sem ambas. Gostaria de viver sem aversão e, na verdade, que me lembre, tenho aversão por poucas coisas; não sou daquelas pessoas que dizem constantemente que adoram ou detestam isto ou aquilo.

Este texto surge a propósito da palestra sobre o Budismo, a que assisti ontem, proferida por Paulo Borges, o dono deste blogue. É que considero o amor uma das grandes libertações, se bem que tantas vezes nos prenda, a nós e aos outros, desta vida, porque algo intuitivamente bom... afinal, quem não gosta de se sentir acarinhado, um pouco de ternura, em suma, amado?

A minha questão, que deixo para o leitor e para os comentadores, é a seguinte: será o amor uma forma de apego? E, se todo o apego é mau, e sendo o amor uma forma de apego, o amor é mau? Ou nem todas as formas de apego são más, a saber, o amor, se for uma forma de apego?

A tese intuitiva e mais superficial é a de que não vale a pena odiar e que vale a pena amar. Mas a tese é superficial: afinal, não vale a pena odiar alguém como Hitler? Quem, no seu perfeito juízo, não odeia, detesta, sente aversão por, Hitler? Quanto a valer a pena amar, parece que é intuitivo que assim é, na medida em que, intuitivamente, é o amor que nos liberta da nossa condição de semi-escravos de um trabalho e subsistência tantas vezes desumanos.

Afinal, não seria muito melhor que a menina do texto de Ana Margarida Esteves fosse amada pela mãe ao invés de ser maltratada? O amor, o carinho, a ternura, não são intuitivamente bons? Penso que sim. Mas não serão também formas de apego? Poderemos amar alguém sem que nos apeguemos a essa pessoa? E esse apego, a existir, é mau? No fundo, estou apenas a repetir as questões do terceiro parágrafo.