O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 30 de abril de 2008

Eros e palavra no feminino

(Estou a escrever isto do departamento, hihihihihi;-)...)

A menina que aos 10 anos queria ser freira acabou ontem de ler o delicioso "Contos de Escarnio/Textos grotescos" da escritora Brasileira Hilda Hilst. Este livro e a historia dos amores de Crasso e Clodia e faz uma satira comico-erotica aos costumes e mentalidade do meio intelectual e artistico Paulista.

Neste livro, a genial Hilda Hilst assume na perfeicao um papel masculino - Crasso, um libertino - que bebe a vida e as mulheres a trago ate que se apaixona por Clodia, pintora lesbica que gracas a ele se "converte" a heterossexualidade e abandona a sua anterior especialidade de pintora de vulvas para passar a pintar falos.

Nao obstante o tema picaro (ou talvez gracas a ele), este livro "desce" a niveis bastante profundos de reflexao metafisica - A fronteira dubia entre o sublime e o grotesco, o absurdo da condicao do ser humano, animal eternamente aspirante a qualquer coisa que el@ nao percebe o que e, Eros e Thanatos como os gemeos siameses que fazem o mundo girar, o ridiculo da mentalidade racional-tecnocratica e da tecnificacao do ser humano, o tragico sempre a espreita por detras das maiores realizacoes do espirito humano ...

Um dos aspectos do livro que me chamou a atencao e um traco que tem em comum com toda a literatura erotica escrita por mulheres: As mulheres, quando se referem aos seus amantes masculinos, so sao capazes de passar para a palavra sensacoes, factos, sentimentos, reaccoes a qualquer coisa. Falta as mulheres escritoras a capacidade, para a qual Hilda Hilst teve de se transvestir num personagem masculino - de expressar verbalmente nomes ou adjectivos que exprimem o abismo de volupia e de dissolucao do ego e das convencoes sociais que representa um verdadeiro amante.

Ate agora, pelo menos na lingua Portuguesa, tal capacidade so foi desenvolvida por homens.

O escultor Fernao, personagem do romance "Um Amor Feliz", de David Mourao Ferreira, que entrava em extase e sussurrava "Ah Deusa, ah Putinha", enquanto criava uma figura feminina a partir de um pedaco de barro, ao mesmo tempo que pensava na sua amante.

O personagem Crasso, de "Contos de Escarnio", que ternamente chamava Clodia de "Prostitutissima" e "Putissima amada", possivelvemente em reminiscencia de certas praticas da antiguidade.

E nos, mulheres hetero e bissexuais, com que palavras transgressoras podemos objectivar o misto de sagrado e de lascivia, o assustador extase e o fascinante vislumbre de morte e de um alem que desencobrimos nos nossos amantes masculinos?

Em vez do costumeiro "x fez isto", "y disse isto", "sinto isto por Z", que ternos e obscenos nomes e adjectivos podemos usar para dar forma humana ao abismo de prazer e dissolucao do ego que eles representam enquanto pessoas?

Senhores, querem juntar-se ao debate?

os desenhos de ilda david, ou as nuvens de ilda david, têm em si mesmos uma forma delicada de ser, não nos causam estranheza, apenas um pouco de saudade, e o que em nós fica, por meio de uma queda sensível, é uma agradável sensação, mas não uma imobilidade, é uma enorme vontade de voltar, de saber do caminho de volta, de participar naquela leveza, que mais parece um sonho, transparecendo, ou um movimento, talvez subindo. eis o paradoxo, cuja finalidade não cesso de procurar, isto é, onde, ou quando, e como, podemos nós, ter corpo, ou deixar de o ter, sem cair, ou desaparecer - enfim no espaço, ou por fim no tempo.

terça-feira, 29 de abril de 2008

medo?



ou esperança?

Dia Mundial da Dança


a música aproxima--nos
a dança também!
fotografia de Alfredo Cunha

4ª feira, dia 30, Porto - Conferência de Imprensa "Nova Águia" e Conferência sobre Pascoaes e Pessoa

Estarei amanhã, 4ªfeira, dia 30, no Porto, às 15h00, para a conferência de imprensa de apresentação da NOVA ÁGUIA. Será na Fundação José Rodrigues (Rua da Fábrica Social).
No mesmo dia, pelas 18h00, darei uma conferência na Faculdade de Letras da Universidade do Porto: "Teixeira de Pascoaes e o saudosismo de afinidades neoplatónicas. Fernando Pessoa e o esoterismo antipositivista".

Aos Amigos que têm andado mais afastados apelo a que não desemplumem a Serpente. De muitas plumas diferentes ela faz as suas poderosas asas.

Abraços !

P.S. - Farei uma apresentação do meu último livro - "Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes" - no dia 20 de Junho, em Amarante, prevendo-se uma visita à Casa-Museu Teixeira de Pascoaes. Quem estiver interessado em vir deixe aqui o seu contacto.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quem temos medo de desiludir?

Gostaria de saber se alguns de vocês sentem o mesmo que eu - Que se sentem melhor quando estão a caminho de algum estado de ser do que quando o atingem. No meu caso, tenho um medo tremendo de ser definida, enclausurada em papéis sociais, e definhar pela limitação do Ser que estes acarretam. Quando atinjo algum objectivo intelectual, profissional ou social, sinto a necessidade de "desfazer" o que fiz e começar uma nova "viagem" com vista a tornar-me noutra coisa qualquer. Ser uma eterna buscadora, e no movimento constante ter as possibilidades sempre abertas, a possibilidade de comunhão com o Infinito ao alcance dos meus sentidos, do meu sentir e do meu intelecto.

"Quero ser para sempre estudante
e agarrar a ilusão de um instante ..."

Diz aquela canção que cantava, primeiro no coro da escola primária, e depois na Tuna da universidade, da qual fazia parte.

E incrível que a palavra estudante rima com renunciante ... Olho com admiração e uma certa inveja as figuras quase sobrenaturais dos "sadus" Indianos ... As tranças precocemente brancas descendo pelas costas abaixo, as peles curtidas pelo sol, os corpos magros e incrivelmente flexíveis, cobertos apenas por um pano em volta do sexo, a errância constante ... Estes homens são mais ricos do que alguma vez foram os mais poderosos marajás, pois não têm nada que possam chamar seu, e por isso possuem não só toda a India, mas também todo o Universo.

Algum de vocês foi à India e teve algum encontro com um "sadu"?

Durante a minha infância fervorosamente católica, à revelia do agnosticismo dos meus pais (sim, acreditem, quase todas as "meninas más" foram fervorosamente católicas na infância;-) ), alimentei o desejo de ser freira. Impressionava-me a limpidez e a luminosidade dos rostos das Irmãs Doroteias da minha paróquia, a simplicidade das suas vestes, as narrações das suas aventuras em África, a liberdade que elas viviam por não terem de entrar no consumismo desenfreado da indústria da "beleza", da "sedução" e do "status", o de estarem livres dos aspectos mais limitadores dos namoros e dos casamentos, e por isso estarem de coração aberto para todos, especialmente os mais transviados ... E por terem Deus como amante e esposo ...

Impressionava-me, e ainda me impressiona a beleza nobre dos hábitos das Carmelitas Descalças, longos veus negros que, na minha infância de maria-rapaz forçada, obrigada pela minha mãe a ter os cabelos sempre curtos, representavam a longa cabeleira e a feminilidade que não me era permitido assumir ...

Mais tarde, já crescida e muito crítica da hierarquia e do dogma católicos, herética em botão, lembro-me de me sentir transportada a um Absoluto quando visitei o claustro das Carmelitas em Bruges, na Bélgica, e de as ter ouvido cantar na hora do "Angelus", os raios de sol entrando pelas janelas altas e se reflectindo no chão como num filme de Kieslowski (ahhhhh, saudades da Europa ...) ...

Durante vários anos alimentei o desejo de fazer parte de uma ordem de renunciadoras. Os meus pais diziam "não te andamos a educar para isso. Para nunca ganhares dinheiro, para não nos dares um genro e netos, para não seres "nada" na vida" ...

A pressão familiar, o crescimento, e o questionar do catolicismo da minha infância fizeram-me abraçar outros sonhos. No entanto, ainda albergo no meu peito, como um bichinho enjaulado a roer as grades da jaula, o desejo de deixar tudo, levar apenas o que cabe numa mochila, e tornar-me uma "sadu" ambulante ... Viver para o silêncio e a contemplação que me permite viver todos os matizes da experiência humana e transcendê-los, correr todos os cantos do mundo e chamá-los "casa" por não ter um lar fixo que me aprisione.

Se ainda não o fiz, se ainda não peguei na mochila e no bastão e me fiz à estrada a caminho do "Oriente mais a Oriente do que o Oriente" é porque tenho medo de desiludir a família, os amigos ... E o meu próprio ego.

Ainda estou naquela espera infantil de que me digam "vai em paz, não nos irás magoar por escolheres ser "nada" na vida, ao seres "nada" irás realizar um potencial muito maior do que aquele que esperamos ver-te realizar na tua profissão. Não temos mais expectativas nem apego. Apenas Amor."

E vocês, do que têm medo?

sexta-feira, 25 de abril de 2008

NÃO à pena de morte - Campanha Internacional Moratória 2000

Portugal foi o primeiro país Europeu a abolir a pena de morte. Por essa razão, deveriamos dar o exemplo e assinar esta petição, além de a dar a conhecer ao maior número de pessoas possível.Mostremos ao Mundo o melhor de Portugal - O nosso Humanismo.

http://www.santegidio.org/pt/pdm/app.htm

APELO POR UMA MORATORIA MUNDIAL DA PENA DE MORTE

Nós, abaixo-assinados, convencidos de que a pena de morte

* é negação do direito à vida universalmente reconhecido
* é uma pena, cruel, desumana e degradante, não menos abominável do que a tortura
* é incapaz de combater a violência, na realidade é legitimação da violência mais completa: a que destrói a vida humana, em nível de Estados e sociedades
* desumaniza o nosso mundo dando o primado à represália e à vingança, enquanto elimina os elementos de clemência, perdão e reabilitação do sistema da justiça.Convidamos todos, também os que defendem o uso da pena de morte, a refletirem serenamente sobre a necessidade de uma suspensão das execuções.Na verdade
* Hoje, no mundo, mais da metade dos Estados não utilizam a pena de morte, alguns a aboliram totalmente, enquanto outros decidiram, com os fatos, não colocá-la em prática
* As Nações Unidas reconhecem a falta de dados capazes de demonstrar que o seu uso seja um antídoto eficaz contra os crimes mais hediondos
* Há anos os crimes graves não tiveram nenhuma redução significativa nos lugares onde a pena de morte foi reintroduzida
* Existem métodos alternativos de grande eficácia para proteger as sociedades inclusive de quem cometeu os delitos mais horríveis.
* A lógica “vida por vida” é tida como arcaica e inaceitável em grande parte do nosso planeta. Praticamente em toda parte o sistema judiciário procura superar esse modo desumano de tratar pessoas que cometeram crimes, mesmo os mais graves
* Nos países democráticos, o custo da pena de morte é maior do que o da prisão perpétua.

POR TODAS ESSAS RAZÕES,PEDIMOS AOS GOVERNOS DE TODAS AS PARTES DO MUNDOQUE DECLAREM UMA MORATORIA DA PENA DE MORTE

Para assinar, dirijam-se a esta página: http://www.santegidio.org/it/pdm/adesione.htm

A Leitora do Silêncio e da Música

Quando alguém a olhava depois dos estados musicais, de ter dançado e experimentado a embriagante melodia do mundo, M., pedia sempre os poetas mais incomunicáveis. A poesia mais nua e despida de sentido. A poesia que ela repetia para colocar entre os actos.
Vinha da escola e espalhava os textos na relva, os muros mexiam com o frémito da hera e começava a tarefa de os recolher na alma, lê-los. Então lançava sobre mim um pedido silencioso com o livro aberto. Eu lia um poema de Celan. Ela escutava com os olhos fechados e no fim era eu quem fechava os meus. Depois, na imperceptível passagem de uns gestos para os outros e quando já se assinalavam os erros, se escreviam nas margens notas, e antes que a noite fechasse a abertura da luz sobre as páginas, ela aproximava-se de novo e cantava:
A hora que liberta do gelo o teu olhar,
Te faz arregaçar a tua sombra
E arranca aos sinos o seu silêncio quando danças

Agarrava-a com entusiasmo. Muito, e rodopiávamos até ficarmos zonzas. Gritávamos e a hera agitava-se com o movimento dos corpos e da voz. Ela confessava um segredo ao meu ouvido. Um segredo que era, como no poema de onde cantava o refrão, uma luva do silêncio que me lançava aos pés do coração. Depois chorava porque sabia que um segredo é um modo de entregar um modo singular de ser que poderia não ter sido sem aquele sopro rítmico atirado para dentro do meu silêncio. Olhava-a com intensidade e talvez esse fosse o gesto, de todos o mais esperado, aquele que me iluminava e levantava a sombra. Então, ela desenhava com os dedos na minha face o segredo. Era esse gesto que continha a música que dançava quando ela tocava na minha pele. Quando aparecia a primeira estrela, ou ela se exprimia brilhando no nosso olhar, ela deixava cair a cabeça no meu ombro e dizia em hebraico, paz.
Antes de adormecer procurava nos livros espalhados qualquer coisa de raro entre-as-folhas. Perguntávamos o que era, quem era, a coisa, a pessoa, a palavra. Mas não era nada. Procurava com mais avidez. As mãos mexiam-se mais rapidamente. Insistíamos: o que era, quem era, a coisa, a pessoa, a palavra. Não dizia nada. Talvez a irritássemos, feríssemos. Às vezes corriam lágrimas. Então corria para a cama e chorava soluçantemente. Esperávamos que parasse. M., então, dizia: hoje o movimento de ontem não veio. Não se escondeu entre as folhas dos meus livros, destes livros. Não estava lá, mandou outro. Era outro. Amanhã compras outros para ver se o encontro? Como sabes que era outro, – sim procuramos o movimento de ontem noutros livros –, como sabes que era outro? – Perguntávamos e insistíamos. Era outro porque não o ouvi da mesma maneira. - Respondia. Então cantava eu o refrão de um poema que ela sabia de cor e dizia com os lábios sem som:
Só a noite deves deixar falar diante dos olhos:
Só a folha que ouve onde ainda há vento;
Só na gaiola do pássaro

Adormecia e, sem outro desejo explícito na alma, tentávamos desenhar o Anjo da História. Havia sempre o do Klee para atrapalhar a espontaneidade, mas desenhar era a única oração com que nos conseguíamos despedir daquele lugar. Como se só nas folhas dos livros se encontrasse o vento com que poderíamos salvar o Anjo da sua impotência que é como sabemos, de Aristóteles a Agamben, um modo do ser não-ser. E, de súbito atravessados por uma estranha percepção sem contornos, uma sensação do imperceptível aos sentidos, levava-nos à descoberta de que só o acto de ler continha esse movimento de salvação do mundo e dos que sentem o seu coração reduzido, pela injustiça dos homens sobre os homens, ao peso da rocha de Sísifo. E, procurávamos os livros e criámos a comunidade de leitores daquela casa. E todos, não só M., mas os outros, abriam e fechavam livros. Uns mais depressa, outros mais devagar, uns olhando atentamente as letras e os seus traços, em todas as línguas e lendo etimologicamente, outros lendo os sons e alto. Em tom elevado e colocando a voz para descer à origem do poema e do rumor inicial. Outros, em silêncio, vendo para além do sonoro ou não vendo senão a sua própria cegueira e outros ainda juntando os livros num só livro, criando as passagens e colando as citações de uns nos outros. O trabalho era infindável e por vezes desesperávamos de cansaço e de beleza. Quando um veio de desistência se manifestava na testa e nas mãos, na precipitação inesperada do sono, M. , dançando e cantando, serpenteava pela casa:
Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
A tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
As tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
As tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
(…)
As tuas faces, campo de armas da madrugada;
Os teus lábios, hóspedes tardios;
Os teus ombros, estátua do esquecimento;
E, percebendo que todos os livros são o retrato de uma sombra que ainda sopra, ler o sopro de uma sombra que hospedamos nos lábios, abríamos - endireitando os ombros e as costas para sacudir o esquecimento que o cansaço desculpa - os livros. Percebendo que regressávamos aos livros e às páginas, às citações, à sua colecção nas paredes e no corpo, M. lia também e, apesar do tempo a atravessar como a nós, mantive sempre o mesmo gesto absoluto e inquieto de folhear procurando o movimento perdido na infância. Repetia, como o seu único refrão não lido: hoje o movimento de ontem não veio. Não se escondeu entre as folhas dos meus livros, destes livros. Não estava lá, mandou outro. Era outro. Amanhã compras outros para ver se o encontro?
Agora não adormecia com tanta facilidade e nós já não ousávamos desenhar. M. era pintora e desenhava o inaudito. Pintava os sopros. Nós as imagens. Talvez essa fosse a grande diferença entre nós. Nós líamos encontrando imagens, M. lia procurando os sopros. Por isso nos tocava e em cada parte particular do corpo deixava a citação de uma passagem que por ali entrava, era a sua paisagem:
Os teus seios, amigos das minhas serpentes;
Os teus braços, álamos à porta do castelo;
As tuas mãos, tábuas de juras mortas;
As tuas ancas, pão e esperança
E quando chegava repetia a vontade de tocar com que nos largava ao deitar. E deixava passar pelo corredor das mãos com que colava um sopro aos meus ouvidos, o segredo. O segredo que me percorria como um frio que vinha de outro mundo. Era tão frio que me arrefecia o coração. Até que um dia, quando sentada continuava a procurar, ouvi o segredo e M. não estava. Quem me dissera o segredo? De onde vinha? Olhava em redor e nada encontrara. Quem mo soprara destruindo o seu silêncio de anos, o seu estar fechado desde sempre na alma que guarda o imemorial? Quem? E quando perguntei alto, quem? Ninguém respondeu, ninguém disse nada. Intrigada procurei com o olhar e não vi quem o dissesse rompendo o silêncio daquela sala onde estava sozinha sentada a ler. Então percebi as duas coisas que M. sabia e pelas quais talvez me tivesse sido enviada: que um segredo não se diz à linguagem mas ao Silêncio, que o Silêncio tem guardado o inesquecível. Por isso Deus e a Música o habitam como hóspedes, o masculino e o feminino com que a Língua pura foi criada para se ouvir no acto de pensar e no acto de ler. Audição dos sopros e da canção de amor de Deus. Ler e pensar que não são senão o mesmo. Então recebi de novo Platão. Ouvi-o dizer-me que pensar é ler o que está inscrito na alma. O que sopra da alma para a linguagem. Que dialogar mais não é do que uma questão de cadenciar os sopros de cada um com a ordem da alma e não do mundo. O diálogo, a tarefa demiúrgica dos homens para arredarem o ruído e a indefinição do sentido. A definição não a procura do significado, como tinha aprendido, mas um acerto à sinfonia da alma. Aos seus sons. A palavra adequada era afinal um som que irrompe do silêncio de quem lê e de quem pensa. O movimento da alma sobre si mesma, a dança da Verdade, o segredo contado ao Silêncio. Balada de Amor e Saudade.
Atravessei a sala cheia de luz e, despida de sombra, voltei a ensaiar desenhar o anjo de Klee, o Anjo da História. Quando o terminei, ou a imitação estava próxima do reconhecível, acrescentei duas conchas às asas. Um pouco de Mar para dar conta do meu Amar pelas criaturas que moram no fundo sem fundo da Vida. Um anjo com som a Mar e a Amar. Um Anjo para M. me escutar.
Nessa tarde, ao entardecer, sob o relvado continuava a ler. M. chegou com uma folha escrita. Nada que conseguisse ler mas que o poema entre-mãos talvez ajudasse a receber:
Por vezes os amantes, ou aqueles que escrevem,
Encontram palavras que, mesmo que se desvaneçam,
Deixam no coração um lugar feliz –
Porque, sob o que se passa, nascem
Constâncias invisíveis;
Sem que abram qualquer trilho,
Algumas tornam-se estribilhos de dança
Para M., que toda a vida tinha lido sons, confiado nos sons, as palavras não emergiam na superfície da folha pelo que mostram, mas pelo que fazem dançar. Abraçou-me e disse:
Mãe, o teu livro tinha o movimento de Ontem. De outrora. O Anjo que desenhaste moveu-se. Tu tinhas o seu movimento preso no coração.
Abracei-a e gritámos como na infância, até a hera revelar o seu vento livre em direcção ao Tempo em que os homens chamavam liberdade ao movimento da mão que lendo abria as páginas da alma e da História e, fixando lentamente as conchas no lugar das asas, percebi que só o Amor empresta movimento ao instante. Nesse que me era dado viver, o movimento primordial acordara, M. escutara-o e encontrara-o e tudo na História poderia de novo recomeçar. M. tinha-me conduzido, pelos livros, à audição de Deus que soprando por uma flauta criou, com a Música, os sopros ou os sons únicos de tudo. Era noite. A folha com o nome ilegível era agora clara: só a folha onde ainda há vento acolhe a música, e Deus pode morar para se deixar tocar, não ver. Ou a gaiola de pássaro, que aberta ou fechada, nos prepara para a leitura do poema do mundo, que é uma litania, ou um louvor. Um acerto, uma gaiola aberta, onde o nome é o sopro que eleva a natureza da coisa; um desacerto, uma gaiola fechada, onde o nome emudece a natureza de cada qual. Escutando ainda os seus sons:
É a paisagem ressoando, é o badalo de um sino,
É a libertação tão pura do entardecer; -
Tudo sinais que, em nós, anunciam
A vinda de uma figura terna e nova.
Assim se compreende que vivamos num incómodo estranho
Entre o arco longínquo e a flecha tão penetrante:
Entre o mundo demasiado vago para apreender o Anjo
E Aquela que, por excesso de presença, não o deixa vir.
Aprendeu que ler é esperar o estranho, mas essa espera é regulada pelo doseamento na nossa voz do ruído e da Música. O ruído o vago, a Música a excessiva presença que deixa para sempre Deus no invisível da página e da alma. Mas murmurante no seu movimento. Nesse em que só a infância e os sopradores atentos se lembram de procurá-Lo. M. relia Rilke todos os dias e dele colhendo frutos e apontamentos refez o Jardim do Paraíso na sua interioridade, no Jardim do Silêncio. Então, tendo todos aprendido o exercício da leitura, floriam falando e perceberam por que razão a morte é uma flor.

Em louvor da oração sapiencial que foi escutar Jean-Yves Leloup na Faculdade de Letras de Lisboa. Em louvor dos que trouxeram livros certos até à minha alma e às minhas mãos. Em louvor de todos aqueles que, sendo invisíveis, são o sopro rítmico com que a vida flúi e se desenvolve como uma melodia e não como uma narrativa. Aos seres musicais que com enlevo e arte desenham no nosso corpo movimentos com que podemos dançar de olhos fechados, na noite escura, sem medo e com confiança ou fé nas paisagens invisíveis.










A Nave dos Loucos

A José Alberto Gil, com muita Saudade

Ignorando de onde, com quem e para onde
uma nau cruza o oceano ignoto
Por pendão um remoinho de línguas de fogo
nas velas um incêndio jamais extinto

A bordo vai Todo o Mundo e Ninguém
animais, deuses e homens de sexo indefinido
Sem tempo consomem os dias
em missas, danças e riso
coisas santas porque inúteis
discursos sábios sem juízo

As populações da costa temem-na,
mas diz-se que a terra canta quando passa
e as colheitas logo superabundam
Também as mulheres se tornam mais fecundas
e concebem filhos que não choram:
os que súbito não desaparecerem
morrerão infantes ou envelhecerão poetas

Se uma trompa entre brumas a anuncia
e em chamas no horizonte a avistam,
os homens entregam às vagas peças de ouro
pão, frutos e flores
as mais velhas garrafas de vinho

Nas igrejas os sinos repicam
os padres proferem sermões inspirados
mas há sempre algo de estranho:
um vitral que em silêncio explode
amantes beijando-se quando a Hóstia é consagrada
imagens tombando na direcção anunciada

Por isso todos se benzem
e intimamente a esconjuram,
a longínqua nau que jamais de terra se aproxima
e insondável segue a sua infinda Viagem,
sem leme nem bússola nem capitão
sem mapa, rota ou razão

Murmuram os loucos e os vagamundos
ouvidos extasiados na sibilina voz do Vento
que a bordo é sempre Domingo de Pentecostes
e numa eterna Folia bailam os inocentes do Senhor,
os eleitos do Profundo:
Todo o Mundo e Ninguém

quinta-feira, 24 de abril de 2008

e sombra

luz!

não tinha planeado ir a este concerto

esgotadíssimo!

mas alguém me acenou com um bilhete

e eu não pude recusar


não fazia ideia de que sabia tantas músicas de Nick Cave de cor (sim, de cor, mas de coração)

deixei-me embalar pela música, pela voz, pelo Coliseu que é um espaço mágico para as multidões...




quarta-feira, 23 de abril de 2008

Copying Beethoven



Trago-vos um extracto do filme Copying Beethoven com os actores Ed Harris e Diane Kruger nos papéis de Beethoven e Anna Holtz, uma jovem compositora, copista.
É só um pedaço entre vários, emocionantes, como a estreia da 9ª sinfonia e Beethoven a ditar a Anna o Hino de Acção de Graças. A fotografia é preciosíssima.

(diálogo entre Anna Holtz e Ludwig Beethoven, a propósito da grosse fuge)
A.H. - Não compreendo, onde termina o andamento?
L.B.- Não termina, flui. Temos de parar de pensar em fim e em princípio – isto é uma coisa viva – como nuvens tomando forma ou a sucessão das marés.
A.H. Mas como funciona, musicalmente?
L.B.- Não funciona, desenvolve-se. O primeiro andamento torna-se no segundo. À medida que cada ideia morre, nasce uma nova.
A Anna compõe obcecada pela estrutura, por escolher a forma correcta. Mas tem é de escutar a voz que fala dentro de si. Eu próprio só a ouvi depois de ficar surdo.
A.H.- Diz que tenho de encontrar o silêncio dentro de mim antes de poder ouvir a música?
L.B.- Isso mesmo. Isso, o silêncio é a chave. O silêncio que existe entre as notas. É quando estiver rodeada por esse silêncio que a sua alma poderá cantar.

But one heart




As I sat sadly by her side - Nick Cave

As I sat sadly by her side
At the window, through the glass
She stroked a kitten in her lap
And we watched the world as it fell past
Softly she spoke these words to me
And with brand new eyes, open wide
We pressed our faces to the glass
As I sat sadly by her side

She said, "Father, mother, sister, brother,
Uncle, aunt, nephew, niece,
Soldier, sailor, physician, labourer,
Actor, scientist, mechanic, priest
Earth and moon and sun and stars
Planets and comets with tails blazing
All are there forever falling
Falling lovely and amazing"

Then she smiled and turned to me
And waited for me to reply
Her hair was falling down her shoulders
As I sat sadly by her side

As I sat sadly by her side
The kitten she did gently pass
Over to me and again we pressed
Our different faces to the glass
"That may be very well", I said
"But watch the one falling in the street
See him gesture to his neighbours
See him trampled beneath their feet
All outward motion connects to nothing
For each is concerned with their immediate need
Witness the man reaching up from the gutter
See the other one stumbling on who can not see"

With trembling hand I turned toward her
And pushed the hair out of her eyes
The kitten jumped back to her lap
As I sat sadly by her side

Then she drew the curtains down
And said, "When will you ever learn
That what happens there beyond the glass
Is simply none of your concern?
God has given you but one heart
You are not a home for the hearts of your brothers

And God does not care for your benevolence
Anymore than he cares for the lack of it in others
Nor does he care for you to sit
At windows in judgement of the world He created
While sorrows pile up around you
Ugly, useless and over-inflated"

At which she turned her head away
Great tears leaping from her eyes
I could not wipe the smile from my face
As I sat sadly by her side

A Saudade, a Canção de Amor e a luz de Deus segundo Nick Cave

"We all experience within us what the Portuguese call saudade, which translates as an inexplicable longing, an unnamed and enigmatic yearning of the soul, and it is this feeling that lives in the realms of imagination and inspiration and is the breeding ground for the sad song, for the Love Song. Saudade, or longing, is the desire to be transported from darkness into light. To be touched by the hand of that which is not of this world. The Love Song is the light of God, deep down, blasting up through our wounds" - Nick Cave, in The Secret Life of the Love Song. The Flesh Made Word. Two Lectures by Nick Cave (CD).

terça-feira, 22 de abril de 2008

Forward de Gomes Leal

*AGUA FURTADA D'UM ORIGINAL*

(A Bruno Blue de Carvalho)


Eu moro altivo é só n'uma trapeira,
Onde as pennas das pombas deixam rastros;
Exposta todo o dia á soalheira...
E onde passa dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

Como na era feliz das serenadas,
As graves castellãs nos seus balcões,
E gothicas varandas recostadas...
--Vejo, em baixo, passar as cavalgadas,
Os enterros e as lentas procissões!...

Professo o culto só do _far niente_
Deitado, todo o dia, num colchão...
Na posição immovel d'um vidente...
Fumando o meu cachimbo, eternamente,
Com os tranquillos modos d'um sultão.

Ó filhas do _spleen_ malfadadas
Vãs poesias sem razão nem senso!
_Ó sebentas_ do estudo empoeiradas,
E tristes quaes sultanas despresadas,
A quem o grão senhor não deita o lenço!...

E vós teias d'aranhas inquietos
Tecidos, onde o sol brilha e seduz!...
Ó Musas que inspiraes os meus sonetos!
Qual foi o deus, ó astros dos meus tectos!
Que vos creou ao seu _fiat lux_!?

Sois vós que me escondeis, qual caracol,
E servís de cortina e bambinellas...
Quando eu declamo involto n'um lençol,
E as visinhas que estão tomando o Sol
A espreitar-me se põe entre as janellas!...

Ali tenho um cachimbo de cigano
Sobre uns versos que fiz a uma Felicia...
E onde puz um retrato de Trajano,
Dentro d'um casacão diluviano,
Soffrendo como Cesar de calvicia!

Nas paredes estão phrases symbolicas,
E aqui e ali borrados a carvão:
Uma Venus com ar de grandes colicas,
Um santo d'umas barbas apostolicas,
E dous frades jogando o bofetão!

Mais ao pé, tenho as cartas de namoro,
E uma Biblia mui velha onde no fim...
Se pinta o Padre Eterno, em nuvens d'ouro...
Tendo n'um grande pé chinello mouro,
E vestido com ar de mandarim!...

Defronte ri sinistra uma caveira,
A que puz uns bigodes com cortiça...
E d'um truão a loura cabelleira...
E me acompanha a rir da vida inteira
Como um Marte do Papa ajuda á missa!

Ao lado mora-me um visinho manco
Que faz dos sinos unico regallo...
E gosa da união d'um saltimbanco,
Que anda pintado de vermelho e branco,
E toda a noute canta como um gallo.

Defronte uma visinha costureira,
Doce lyrio que treme a um vento vario...
Que canta a manhã toda e a tarde inteira...
E tem deixado cá para a trapeira
Duas vezes fugir o seu canario!...

Toda a noute o sineiro tem secretos
Desejos de espreitar como é que eu passo!...
Imita o som dos sinos indescretos...
E canta, n'uma voz que abala os tectos,
Ao som das cambalhotas do palhaço!

E assim eu vivo só n'uma trapeira...
Onde as pennas das pombas deixam rastros...
Exposta todo o dia á soalheira,
E onde passo dormindo a vida inteira,
Nas visinhanças limpidas dos astros!

Gomes Leal

nada sobre o nada

sobre o nada não esquece a dor
da mente na barca do ser
a arca danada no cabo bojador
no mar tinha visto o ser se perder

o ente, o ser e todos o seres
gente talvez, pessoas se queres
nadando no mar tão salgado
cercado de nada, nada de algo

mais profundo do que o pensar
digerindo o tudo que nada aqui
no ar tinha visto gaivotas - aí!
...que vivem na vida só para voar

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Blasfémias pessoanas e Jean-Yves Leloup, amanhã, 22, sobre a meditação que nos liberta de quem medita

Para quem não tenha nada de melhor para fazer, se queira aborrecer e deixar de perceber o quer que seja acerca de Pessoa, recordo a conferência que farei hoje sobre "A Questão de Deus em Fernando Pessoa". Aí se ouvirão, entre outras blasfémias, coisas como: "Deus existe, com efeito, para si próprio; mas Deus está enganado". Será no Auditório 1 do Edifício 3 da Universidade Católica, pelas 17 h.

O importante é amanhã, 3ª feira, a presença de Jean-Yves Leloup, no Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, pelas 18 h, para uma conferência sobre "O Peregrino Russo: antropologia do hesicasmo e diálogo entre as religiões". A entrada é livre e haverá tradução para português.
"Para João Clímaco, a hésychia não é somente "negação das preocupações racionais", ela é também "eliminação dos pensamentos", no sentido muito amplo do termo. "Não terás a oração pura se estás embaraçado pelas coisas materiais e agitado por preocupações constantes, pois a oração é eliminação dos pensamentos" (De Oratione, 70, P. G. 79, 1181).
Esta ausência de pensamentos é esquecimento de si. Quando a mente está pacificada, o "pequeno eu" desaparece pouco a pouco, abre-se à Alteridade que o funda e repousa-se nela" - Jean-Yves Leloup, Écrits sur l'Hésychasme. Une tradition contemplative oubliée, Paris, Albin Michel, 2003, p.47.