O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 20 de março de 2008

Distâncias

“A atitude com que me aproximo do outro é,
também, a atitude com que me aproximo de mim mesmo”.

Buber

quarta-feira, 19 de março de 2008

O vazio (2)

Penso que o reconhecimento do vazio dos fenómenos pode ser fruto do seguinte pensamento:

os fenómenos são contingentes

e, desse modo,

não existirem é uma possibilidade, tão real como a de existirem.

Por isso,

na visualização de um fenómeno, podemos negá-lo (mentalmente, com a outra possibilidade, a de ele não existir),

e ver o que se não pode ver, a saber, o vazio respeitante a esse fenómeno.

O fenómeno comporta, em si, a sua negação (e esta frase daria pano para mangas).

[edit: mas pergunto - serão os fenómenos realmente vazios ou inexistentes? Ou será que a realidade é plena? O que significa dizer que algo é substancial ou insubstancial, num sentido não lockeano de substância? O que é um sentido não lockeano de substância? Não sei a resposta a estas questões... mas penso, normalmente, que o mundo não é cheio/pleno, tal como apregoado nos textos taoístas - o vaso vazio - e que tudo assenta no vazio, isto é, no Nada... que chegamos a um ponto da nossa investigação em que nos deparamos com um Abismo que é coisa nenhuma e que dá para coisa nenhuma - falamos então do incriado, não só como nonada, mas como realmente Nada, Silêncio, Ausência, Não-Ser -, infinito... e isto caso queiramos manter o realismo e não um idealismo como parece ser o caso da doutrina Advaita Vedanta... uma grande questão é que tecemos e nos prendemos a elaboradas teorias que mais não são do que ilusões relativas a um mundo que é absolutamente fenomenal, como se de um sonho se tratasse - pergunto: haverá um mundo, uma existência, por mais ínfima que seja, para lá dos fenómenos? Ou tudo o que temos são fenómenos gerando fenómenos, sonhos gerando sonhos? Em que creio? Ainda não me decidi, mas creio, aparentemente e sem esforço meditativo, no Abismo... ligando este post ao anterior, qual será a melhor religião para mim? Eu, que tanto critiquei os monges, que até já pensei tornar-me num... Penso que tenho e temos de ter mais confiança nas nossas intuições, em busca de uma ontologia verdadeira... Paz.]

Religião - um remédio para a mente?

Mais uma passagem do livro "Conselhos espirituais do Dalai Lama", da editora Verus, p.14. Agora no que refere ao papel da religião na cultura humana:

"As religiões são um remédio, no que diz respeito à relevância de seu papel na cura do sofrimento humano. Na prática da medicina, o que realmente importa não é o preço de determinado remédio, se é muito caro ou não, mas sim que ele cure a doença do paciente. De modo semelhante, há uma variedade de religiões com suas diferentes filosofias e tradições. O objetivo ou propósito de cada uma é curar as dores e a infelicidade da mente humana. Não é uma questão de indicar qual das religiões é superior. A questão é saber qual delas poderá curar com mais eficácia uma determinada pessoa."

petição internacional p/ Tibete


Esta é uma petição internacional pedindo ao governo chinês para respeitar os direitos humanos no Tibete e que procure dialogar com o Dalai Lama.Gostariamos que fosse assinada em todo o mundo pelo menos por 1 milhão de pessoas.Muito obrigado pela sua ajuda - basta clikar no link:
http://www.avaaz.org/en/tibet_end_the_violence/98.php/?cl_tf_sign=1




O bom de assinar uma petição é que tentamos mudar o mundo que nos rodeia.

Sileno Dançante

Estátua Ébria

Mesmo quando ousa falar à multidão é com a alma que dança, o Sileno.
Sileno é o homem desterrado, ritmado pela profunda melodia do silêncio...Sileno silente que escuta o Nada...abre os braços para que ele se derrame como resposta à pergunta que não fazemos.
Sileno poeta, respondendo à pergunta que não formulamos…agora que partes, deixa que alguns te digam, Sileno:
há também os que dançam, como essa outra estátua que cobre o rosto e sozinha se dirige para o cais da partida, na Hora Absurda, e só não parte porque ainda escuta estes versos de uma tragédia que o não foi por lhe faltar a música e o coro…
"O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
O teu silêncio recolhe-o [ao seu coração partido] e guarda-o, a um canto...
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
E o teu silêncio é uma cegueira minha..."

A cegueira com que contempla, a bailarina do Nada, as paisagens que não existem senão no interior das pálpebras fechadas. As paisagens da alma. Mas também ela chegará dançando e muda. A bailarina de rosto encoberto na vergonha e no medo.

terça-feira, 18 de março de 2008

O vazio

Aqui vai um texto do livro "Conselhos espirituais do Dalai Lama", da editora Verus, pp.54-6, na minha - e porventura nossa - tentativa de melhor perceber o conceito de Vazio, acariciado não só pelo Budismo mas penso que também pelo Taoísmo ou mesmo pelo Hinduísmo, se aplicado aos fenómenos:

"Tentarei explicar a noção budista de sabedoria e seu tipo supremo: a concepção do vazio.
Entre os vários tipos, há a sabedoria de conhecer a variedade dos fenômenos e a de conhecer o modo de ser dos fenômenos. Entre essas duas sabedorias, a segunda - a sabedoria de conhecer o modo de ser ou a natureza final dos fenômenos - é mais importante. Essa é a sabedoria que compreende o vazio.
O que deve ser entendido pelo termo vazio? Há muitas maneiras diferentes de explicar o significado da palavra. Em certo sentido, significa compreender que a pessoa não é permanente, unitária e auto-suficiente. No budismo, todas as escolas concordam com esse tipo de compreensão do vazio. Então, em nível mais sutil, trata-se do vazio da auto-suficiência de uma pessoa, ou seja, a pessoa tem uma natureza, e a mente e o corpo têm naturezas outras além daquela da pessoa. É como um senhor e dois súditos; isto é, em sua natureza, o senhor (pessoa) é distinto dos súditos (mente e corpo). O vazio significa que não existe o estado de pessoa (senhor) separado da mente e do corpo (súditos); que esse tipo de estado é inexistente, ou vazio. Mas há também outro nível de noção errônea quanto à natureza de uma pessoa, no qual vemos a pessoa e a mente e o corpo como sendo da mesma natureza essencial, mas ainda concebemos a pessoa como o chefe, e a mente e o corpo como subordinados que recebem ordens.
Na Escola da Mente Única e na Escola do Caminho do Meio do budismo, também se fala sobre a noção errônea de um 'eu-dos-fenômenos' e sobre uma ausência (ou vazio) de um 'eu-dos-fenômenos'. Nesse sentido, a Escola da Mente Única fala de dois tipos de noções errôneas básicas. Uma é a de que sujeito e objeto são diferentes entidades. A outra noção errônea é a de que os fenômenos existem por meio de seu caráter próprio como referentes de nossas palavras e de nossos pensamentos conceituais sobre eles. Portanto, a Escola da mente Única ensina que há um vazio desses dois tipos de status.
Na Escola do Caminho do Meio, fala-se sobre a noção errônea de que os fenômenos existem de fato ou essencialmente. Como isso é considerado algo que se deve negar, fala-se também, nessa escola, de um vazio da verdadeira existência dos fenômenos. Dentro da Escola do Caminho do Meio, são feitas mais distinções. Uma tradição, a Escola da Autonomia, sustenta que os fenômenos que aparecem para uma consciência não imperfeita - uma consciência que não tem nenhum tipo superficial de erro - de fato existem convencionalmente. Mas então o que eles consideram como verdadeira existência quando dizem que os fenômenos são vazios de verdadeira existência? Para essa tradição, o falso status é que os fenômenos não são firmados à força de se tornarem aparentes para uma consciência não imperfeita, mas são estabelecidos por meio de seu modo exclusivo de ser. Esse status é a verdadeira existência que está sendo negada ou declarada vazia.
Na outra Escola do Caminho do Meio, chamada Escola da Consequência, o pensamento final de Nagarjuna é descrito por Buddhapalita, Chandrakirti e Shantideva. Nesse sistema final, a maneira como os fenômenos aparecem para a consciência não imperfeita - se é que eles existem - é o que deve ser negado no vazio. Na verdade, os fenômenos não existem daquela maneira; existem apenas nominalmente. Assim, o vazio é a ausência desse status exagerado dos fenômenos - como se existissem por conta própria. Portanto, o vazio de tal existência inerente aos fenômenos é a mais sutil não-essencialidade dos fenômenos. E, por fim, esse é o fato percebido pela sabedoria."

Mensagem privada a uma Camélia

E eu digo: “abraça-me.” E os teus braços fazem-se.
E eu digo: “abrasa-me”. E tu fazes-te em braços.








É neste momento que a camélia, escondida, se ruboriza e a página tinge-se
sem perfume.














Contributos para uma Botânica Feminista:
Sei que tu tens um gineceu. Eu também tenho um androceu. Se fossemos coerentes, nem sequer falávamos. (L)íamos.



Leio-te em braile, cega de tanto te esperar.




Parafraseando as Especialistas:
Amo-te com as pontas dos dedos.


apud Tratado de Botânica, Quasi, 2007

Contempla o Nada que está para lá de todas as coisas. Escuta o Silêncio que está para lá de todos os fenómenos. Aí reside a fresca Liberdade.

Uma brisa primaveril do Norte

Por amor de Odin e Freya, dem uma vista de olhos nesta obra-prima:

http://www.wardruna.com/home/index.html

Ando a ver se convenco o artista a participar neste blogue e a escrever um artigo para a Nova Aguia.

Espero que gostem, ja;)?

"[E]sta vida sao dois dias e um e para acordar das historias de encantar (...)" (Pedro Abrunhosa)

Dia 19, Vigília - Boicote à compra de produtos chineses !

Caros Amigos e Concidadãos,

Perante a gravíssima situação de opressão, violência e violação dos direitos humanos no Tibete e na própria China pelo governo chinês, e perante a passividade real dos governos mundiais, para os quais só contam as questões económicas, tem de ser a comunidade civil a tomar medidas efectivas que obriguem o governo chinês a recuar.
Exortamos assim a que se inicie e divulgue um boicote sistemático à compra de produtos chineses em Portugal e em todas as partes do mundo. Deixemos de ser cúmplices com a construção de uma grande potência económica à custa da opressão e exploração do seu próprio povo, do genocídio do povo tibetano e do apoio a regimes ditatoriais como o da antiga Birmânia !

Passem, divulguem e pratiquem !

Amanhã, 4ª feira, dia 19, 19.00, Vigília em frente à Embaixada da República Popular da China (Rua de São Caetano à Lapa, Lisboa).

Não faltes ! Traz uma vela e um Amigo !

Divulguem !

Subscreve a petição on line:
http://www.PetitionOnline.com/Tibete08/petition.html


ORGANIZAÇÃO:

Grupo de Apoio ao Tibete http://grupodeapoioaotibete.blogspot.com/
União Budista Portuguesa Tel: 21 363 43 63 ( www.uniaobudista.pt)


CONTACTO (Media):

Tm: 91 811 30 21

Que são os nossos corpos senão muralhas construídas por milénios de medo, que uma só carícia certeira pode desmoronar ?

segunda-feira, 17 de março de 2008

improvisaçao sobre o bem e o mal

abelha do bem me traga o mal
mel doce com carne de sol
o bem não tem gosto, falta o sal
o mal é o ultimo arrebol

no céu, ai tem tanta bondade
na terra, não sinto nenhuma verdade
quem ama as nuvens, sente o bem
minhoca na terra a gente tem

tem tudo de tudo no mundo fatal
a mente é nu e matinal
cola o bem na cabeça do mal
quem gosta serpente-coral

quem ama veneno nas veias
quem ama as grande sereias
a odisseia é minha e tua
gosto o dia e gosto a lua

Tao?

Assim, o meu primeiro post pós-ressurreição é um poema de Daio Kokushi, que encontro na obra "Textos budistas e zen-budistas", da editora Cultrix. O poema faz-me lembrar um pouco o espírito taoísta que encontro no "Tao Te King". Aqui vai:

"Há uma realidade mesmo anterior ao Céu e à Terra.
Evidentemente, ela não tem forma, muito menos um nome;
Os olhos falham em enxergá-la,
Ela não tem voz que os ouvidos possam captar.
Chamá-la Buda ou Mente viola sua natureza,
Pois ela então se torna uma ilusória flor no espaço;
Ela não é mente, nem Buda;
Absolutamente tranquila e ainda brilhando de misteriosa maneira,
Ela só se deixa perceber por um olhar puro.
Ela é o Darma completamente além da forma e do som.
Ela é o Caminho que nada tem a ver com palavras.
Querendo atrair o cego,
O Buda divertidamente deixou palavras
Escaparem de sua boca dourada;
Céus e terra então se emaranharam em ramos de roseira brava.
Ó meus bons e respeitáveis amigos aqui reunidos!
Se desejardes ouvir a estrondosa voz do Darma,
Esgotai vossas palavras, esvaziai vossos pensamentos,
Só então podereis reconhecer essa Essência Una,
Pois assim diz o irmão Hui: - 'A Lei de Buda,
Não é para ser abandonada aos meros pareceres humanos.'"

Ressurreição

Caros colegas de blogue e leitores do mesmo, os últimos tempos não foram fáceis e isso tornou-se notório na minha participação neste blogue.

Agora já está tudo melhor, tal é a efemeridade das crises e das não-crises.

É verdade que disse adeus, mas a vontade de continuar neste espaço é maior.

Assim, com a vossa permissão, agora ressuscito e aqui continuarei, embora de forma mais ponderada e diferente - mais calma.

Espero que a minha contribuição seja interessante.

Um bem haja para todos.

Pensar em ti diminui-te. Pensar nos outros engrandece-te. Pensar em todos os seres dá-te a dimensão do universo: infinito, livre de si e de pensar.

domingo, 16 de março de 2008

Oh hora terrivel e grandiosa, tao prenhe de possibilidades. Tenhamos nos a forca de sermos inteiros quando tudo cai.

Manchester, Inglaterra

O vento das fabricas mortas torna presente na alma o que parece ausente aos olhos da carne:

Os urros de dor de todas as almas castradas pela razao predadora que governa o mundo.

Velha Albion, gasta pela tua corrida sem fim na Roda da Fortuna ... Que julgavas ser um caminho recto que te levaria ao Santo Graal, mas acabou aprisionando-te num circulo que se estreita cada vez mais na tua garganta ...

Tu que tantas vezes olhas para nos com desdem, levanta os teus olhos cansados: Nao estaremos a espera do mesmo Encoberto?

Nao seria D. Sebastiao o teu velho Artur rejuvenescido pelas brisas do sul e o amor das Tagides?

Nao serao as chuvas do teu ceu as lagrimas de um coracao que se calou a si mesmo para sobreviver a ilusao do real?

Não à Violência, Sim à Paz

O Convento Sonho - Setúbal manifesta profunda consternação pela violência em Timor e a de que tem sido vítima o Povo Tibetano sob a crueldade do governo chinês.
Repudiamos os actos opressivos e violentos de todos os governos que visam estrangular aquilo que é mais precioso no ser humano, a vida, a liberdade de ser, a identidade cultural de um Povo.
Senhores tiranos deixem em paz quem sempre contribuiu para a harmonia universal! Aprendamos a lição do Tibete, escutemos a voz dos oprimidos e dos verdadeiros Mestres!
Reconhecemos a pertinência e urgência das iniciativas empreendidas pelo M.I.L. no sentido do restabelecimento da Paz.
Quem com ferros mata com ferros morre, assim diz o provérbio. Que a revolta não seja violenta, mas que a História se encarregue de devolver a Paz.
“O reino que virá é o reino daqueles que foram crucificados em todas as épocas, por todas as políticas e por todas as ideologias, apenas porque acima de tudo amavam a liberdade e a consideravam, não ao medo, às restrições e à força, como o grande motor do mundo”

Agostinho da Silva, Textos Pedagógicos II, Educação de Portugal,
Âncora Editora, p.93

free tibete


http://www.myspace.com/freetibet

o Dalai Lama está neste momento a fazer uma declaração na India em directo na CNN
onde afirma que se deve investigar toda a verdade sobre o que se passa em Lhassa.