O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


Mostrar mensagens com a etiqueta trans-pátria. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta trans-pátria. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Trans-Pátria - Para uma sabedoria da metamorfose

"Os povos, culturas, civilizações, tal qual os homens, não conseguem começar a realizar-se senão limitando-se. Este é, ao mesmo tempo, o modo como surgem para a vida e caminharão para a morte. Tendendo a fechar-se numa exígua e aniquiladora maneira de ser ou conceber, esquecem que aquela limitação pela qual se tornaram possíveis e atingiram a grandeza é a mesma pela qual morrem, quando deixam de a tomar como processo e a tomam como fim. Isto caracteriza, no entanto, os povos, culturas, civilizações, como os homens singulares: obstinam-se em manter-se por aquilo mesmo que os tornou possíveis, esquecendo ou ignorando que para nós, homens, no seio da arquipotente Natureza e perante a subtil solicitação do incriado, só persiste o que incessantemente se renova. "Não iremos além", clamam os pusilânimes no doloroso seio das metamorfoses. Isto significa que o sentido autêntico de verdade os desertou e, com ele, a potência de ser e subsistir"

- José Marinho, Aforismos sobre o que mais importa, Obras, I, edição de Jorge Croce Rivera, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, pp.298-299.

Eis um trecho de um verdadeiro filósofo, expoente maior do pensamento português, lusófono e universal e, por isso, escassamente lido e parcamente compreendido, por aqueles mesmos que o lêem.

Que este trecho possa despertar todos os que tomam por definitiva e eterna, e como um fim em si, a forma transitória e contingente de um ser, uma pátria, uma cultura ou uma civilização. Ai de quem não for Proteu, o deus da metamorfose, figura paradigmática do ser universal, como o grande Antero de Quental anunciou!...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Trans-Pátria - Por uma educação lusófona e universalista ao serviço de uma formação integral

Recordo um dos pontos das propostas para Portugal da secção portuguesa do MIL, na nossa Declaração de Princípios e Objectivos:

"XI – Redignificar, com exigência, os professores e todos os profissionais ligados à
educação, tornando esta e a cultura – não só tecnológica, mas filosófica, literária,
artística e científica - o investimento estratégico do Orçamento de Estado e da
governação. Os vários níveis de ensino visarão a formação integral da pessoa, não
a sacrificando a uma mera especialização profissional. Neles haverá uma forte
presença da cultura portuguesa e lusófona, bem como das várias culturas
planetárias. Um português culto e bem formado deve ter uma consciência lusófona
e universal, não apenas europeia-ocidental"

Este é um dos pontos que mais acarinho e que vejo mais conformes à nossa tradição histórico-cultural de povo em diáspora planetária. Resume algumas das motivações fundamentais do Professor Agostinho da Silva e deveria ser ponto de honra de todos os portugueses e lusófonos, em especial dos aderentes a este movimento. Exorto todos ao esforço por conhecermos melhor a cultura lusófona e aliarmos isso à abertura da mente e do coração às culturas planetárias, como forma de colhermos daí perspectivas renovadas sobre a formação integral do homem e a realização das suas superiores possibilidades. Sem isso não é possível cumprir o grandioso projecto de converter Portugal e a Lusofonia em mediadores do diálogo e harmonia entre todos os povos, culturas, civilizações e religiões do mundo. Sem isso não é possível criar um movimento de opinião e de pressão que leve os nossos responsáveis políticos e culturais a incluir estes imperativos nos currículos de todos os níveis de ensino, desde o primário ao superior. Sem isso não podemos fazer do MIL uma efectiva transformação das mentes e das vidas.
Para tal, proponho que os professores aderentes a este movimento criem um grupo de trabalho que elabore um projecto para a implementação deste objectivo no ensino público. A partir daí podemos inscrevê-lo na bandeira de uma reivindicação concreta e procurar apoio social para ela. Esta reivindicação deve surgir associada à da redignificação social, profissional e humana dos professores e de todos os profissionais da educação. Temos de inverter o processo bárbaro em curso que visa destruir a Cultura hostilizando os agentes da sua transmissão e fazendo da carreira docente, sobretudo no secundário, um tormento e uma sujeição a todas as tarefas menos a de aprender e ensinar. Alguém toma a iniciativa de se oferecer para a comissão coordenadora deste grupo de trabalho?