O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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segunda-feira, 3 de maio de 2010

Colóquio Internacional "Do diabólico ao simbólico: a filosofia de Vilém Flusser" - 3 e 4 de Maio



Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: A Filosofia de Vilém Flusser"
Anfiteatro IV, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Organização: Paulo Borges / Dirk Hennrich; Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa

Segunda-Feira, 3 de Maio

14:30 ABERTURA

15:00 - 15:30 Gustavo Bernardo Krause. - “MEU BEM, VOCÊ NÃO ENTENDEU NADA.” A DÚVIDA DE VILÉM FLUSSER.
15:30 – 16:00 Joaquim Domingues. - O MUNDO NOVO DA LÍNGUA - HOMENAGEM A VILÉM FLUSSER
16: 00 – 16:30 Jorge Leandro Rosa. - A RELAÇÃO COM O INARTICULÁVEL. LINGUAGEM, COMUNICAÇÃO E ONTOLOGIA EM VILÉM FLUSSER.
16:30 – 17:00 – Debate
17:00 – 17: 15 - Intervalo

17:15 – 17:45 José Bragança de Miranda. - A NOÇÃO DE APARATO EM VILÉM FLUSSER
17:45 – 18:15 Jorge Rivera. - SUPERFÍCIES, LINHAS, NÓS: AS OPERAÇÕES DA IMAGINAÇÃO E O PENSAMENTO DE VILÉM FLUSSER.
18:15 – 18:45 Louis Bec. - LE VAMPYROTEUTHIS INFERNALIS: UNE PREUVE D’AMITIÉ (PROJECTION, IMAGES ET VIDÉOS)
18:45 – 19:15 – Debate e encerramento.

Terça-Feira, 4 de Maio

Abertura

11:00 – 11:30 Rui Lopo. - A FILOSOFIA DA LINGUAGEM DE VILÉM FLUSSER
11:30 - 12:00 Dirk-Michael Hennrich. - A “COISA”, EM VILÉM FLUSSER E EUDORO DE SOUZA
12:00 - 12:30 Rodrigo Cunha - O DESIGN SEGUNDO VILÉM FLUSSER.
12:30 - 13:00 Rainer Guldin. - ACHERONTA MOVEBO: DO MEFISTOTÉLICO NA OBRA DE VILÉM FLUSSER
13:00 - 13:30 – Debate e Intervalo para almoço

15:00 – 15:30 – Jacinto Godinho. - O ESPECTADOR DE FLUSSER
15:30 – 16:00 - Paulo Borges. - O DIABÓLICO EM VILÉM FLUSSER
16:00 – 16:30 António Braz Teixeira. - O SAGRADO E A EXPERIÊNCIA RELIGIOSA EM VILÉM FLUSSER
16:30 – 17:00 - Debate

17:00 – 17:15 – Intervalo

17:15 – 17:45 - Apresentação da revista Cultura ENTRE Culturas, com um inédito de Vilém Flusser. Encerramento.

18:30 Louis Bec – ARTAXONOMIQUE ET HYPOZOOLOGIE (na Livraria do Instituto Franco-Português)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Do patriotismo como hábito de preferir o habitual ao estranho




"Sob análise estética verificamos que o habitual é vivenciado como "bonito". esta é a base do patriotismo: a pátria é mais bonita que qualquer outra situação, precisamente porque a sua estrutura fundante passa despercebida. Toda a irrupção que destrua o hábito, toda a "novidade radical", é vivenciada como "feia", horrível. Esta é a base da xenofobia: o estranho é horrível e deve resistir-se a ele"

- Vilém Flusser, in "Da migração dos povos", inédito publicado em Cultura ENTRE Culturas, nº1.

Colóquio Internacional "Do Diabólico ao Simbólico: a filosofia de Vilém Flusser", Anfiteatro IV da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 3 e 4 de Maio.

Um singular pensador checo, que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. Consultem o programa e excertos no blog. A revista Cultura ENTRE Culturas publica um inédito seu e vai ser de novo apresentada no final do Colóquio, no dia 4, pelas 17.30.

vilem-flusser.blogspot.com

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"O diabo é idêntico à língua" ou o pensamento nómada de Vilém Flusser




"A língua materna forma todos os nossos pensamentos e fornece todos os nossos conceitos. É ela a responsável pela nossa cosmovisão e pelo valorizar que sobre ela fundamentamos. Em outras palavras: a língua materna é a fonte do nosso senso da realidade. Com efeito: amor pela língua materna é sinónimo do senso da realidade. Mas de que realidade se trata? De uma realidade relativa. A pluralidade das línguas o prova. Toda língua produz e ordena uma realidade diferente. Se abandonamos o terreno da nossa língua materna, se começamos a traduzir, o nosso senso da realidade começa a diluir-se. [...] O diabo é idêntico à língua. A língua é aquele tecido de maia que se estabelece como véu na superfície da intemporalidade. A realidade ou as realidades que a língua cria é justamente aquilo que temos chamado, até agora, de "mundo sensível". Passaremos, doravante, a chamá-lo de "mundo articulável". E rectificaremos, igualmente, a nossa definição operante do diabo. Temos dito que ele é o tempo. Agora podemos precisar melhor esse termo "tempo". "Tempo" é o aspecto discursivo da língua. E definiremos o diabo como "língua". O amor pela língua materna é a sublimação mais alta da luxúria, porque é a luxúria elevada até ao nível da realidade do diabo"

- Vilém Flusser, História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, pp.91-92.

Realizar-se-á um Colóquio Internacional sobre Vilém Flusser, em 3 e 4 de Maio, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, organizado por Paulo Borges e Dirk Hennrich. Flusser é um originalíssimo pensador checo que escreveu algumas das suas obras maiores em português do Brasil. O presente trecho está vertido em português de Portugal, não castrado pelo acordo ortográfico.

A nova revista ENTRE publicará um estimulante inédito deste pensador genial.

Publicado em:
arevistaentre.blogspot.com

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cáusticos - Da leitura e da escrita como formas de luxúria

"Porque caiu Don Juan na luxúria desesperada? Porque procurava o amor, isto é, a superação do tempo. Porque cai a mente leitora na luxúria da biblioteca? Porque procura o conhecimento, isto é, a superação do tempo. Porque escrevemos? Porque procuramos o silêncio do não precisar escrever mais, isto é, a superação do tempo. É absurdo o que estamos fazendo, Don Juan, leitor e escritor, e é preciso admiti-lo. Mas é um absurdo curioso esse absurdo que estamos fazendo. O mundo dos sentidos, o mundo fenomenal, é absurdo, porque carece de significado. Mas dentro dessa absurdidade todos os atos diabólicos têm um significado: a saber, manter esse mundo absurdo. A absurdidade da qual estou falando agora é absurda dentro da absurdidade do mundo. Trata-se, obviamente, de uma especulação calculada no argumento convulsivo que estou apresentando. Mas nessa especulação calculada reside um germe de esperança. Ler e escrever, aspectos femininos e masculinos da luxúria da mente, têm esse germe de esperança calculada no seu projeto. A luxúria mais evoluída, a luxúria mental, contém o germe da esperança. É um caminho tortuoso e cheio de sofrimento o caminho do ler e do escrever, e geralmente conduz ao inferno. Mas é um caminho acompanhado de esperança. Nem pela luxúria mais desenvolvida está garantido o diabo"

- Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, 2ª edição, pp.100-101.