
Depois que a sombra chegou, depois de Deus, eu não sabia estar. Eu estava e “era” dentro e fora de mim, em simultâneo e em todas as direcções, mas pensava que era outra coisa. Carne espiritual e luz divina era a Realidade que via. Percebi que deus está dentro das coisas e fora delas, e as atravessa sem lhes tocar, num mesmo olhar cego. Percebi que, para Deus, as coisas são o que são e para os poetas e os místicos, as coisas são “entre elas,” o oco da Realidade. Foi isso que percebi. Pareceu-me a mesma coisa do avesso ou às avessas. Foi isso que me pareceu Isso. No meu sonho acordado, compreendi que é errado fechar os olhos a tudo Isto. Percebi que, mesmo que não visse o sonho e o mundo exterior na sua máxima Beleza e Verdade, mesmo que fechasse os olhos, e os mantivesse fechados algum tempo, como um cego que vê de outra maneira, continuaria a ver o mar, a sentir os perfumes das árvores e das flores; continuaria a ouvir o ruído subtil, acima dos lábios e dos ouvidos humanos: um som divino, em cascata de luz, como um céu que caísse em cima da realidade, através dos olhos de um anjo.
Tenho sonhado este sonho que me sonha, como se fosse a realidade vivida. O sonho é uma porta para ver a Realidade que existe sem portas e para além delas. Desligada do que chamam mundo, mais me aproximava da essência dele, quanto mais isolada, mais crescia dentro de mim o mar que lá havia desde o Princípio, desde a Origem. Sonhar era tão real como viver. Era como aprender de novo: aprender a fazer um laço, quando percebemos que é mais difícil desfazê-lo. Nascemos porque alguém nos encantou e atou o pulso ao mundo e fez um laço. Esse laço desatou-se quando nascemos, e voltou a fechar-se enquanto crescíamos e aprendíamos a esquecer. Esse nó que nos prendia e não nos deixava sonhar, era ilusão. Atámos a esse pulso o mundo que nos rodeava, nomeando-o e “apropriando-nos” dele, para vestirmos o pulso e a carne nus. “Isto é 'meu'! “Eu Sou”! “Eu quero!” Este modo de olhar as coisas foi dando sucessivos “nós” em redor da iludida ideia de posse do mundo e do sonho. De tal modo assim era, que já não podíamos ver a verdadeira vida. Era como se deitássemos água num recipiente partido: quanto mais água entrava, mais saía. E nunca enchia a jarra. Foi por essa janela que o rei assomou, Iabel, a mesma por onde o anjo caíu, na mesma hora, levantado pelas borboletas.