Irreal como um castelo entre árvores milenares é um poço, como uma serpente, onde se vêem olhos a espreitar-nos por dentro.
A folha brilha na luz de um pingo de chuva alta no muro. Um sopro a desfaz. Tudo respira a humidade dos mitos e a humanidade de nós.
Vejo a flor da neve a florescer nos dedos cor-de-rosa do frio. O rosto encosta-se à inclinação da hora e a água refresca-o, em pingas de nostalgia e fim de tarde.
Cavalga-se o vento numa onda verde, há forças que se manifestam no frio e na ausência de neve. Saudades do branco!
Os rios nascem no peito e vão também na paisagem, como restos de madeira e coisas verdes, à superfície das águas apressadas do Inverno.
Arde um silêncio ao cimo do espelho verde. Arde uma luz de aurora, um fogo, entre as águas
e as searas do vento.
Semeia verões no bico a gaivota arqueada em asas.
Estou assim encostada à vida, como um retrato encostado à mão do rosto. Como uma mão dormente sobre a hora. Um vago azul.
Rasgões de azul vêm chorar entre o musgo e a pedra escura!
É o céu que se baixa para contemplar a torre por onde espreita o olhar.
Toda a hora é uma árvore e todo o ramo uma Saudade da Hora.