O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Percepção do invisível



Ela trazia romãs para saudar a manhã
Não. Ela era a romã saudada
A manhã trazida nos lábios
Os lábios segredam
O invisível correr dos rios fundos.

O rumor da língua indizível dos astros.
Não digo o rumor visível
Oiço a imaginação dos frutos
Frutifico na língua a romã
Imagino o ninimaginável:

A romã fora do mundo
A língua abrasadora da manhã
Desdobra o vento em véu
O oiro nasce
Na matéria original do fruto
Sopram os astros:
lábios, romãs.

Maria Sarmento