“Nous ne sommes rien, ce que nous cherchons est tout.”
Olav H. Hauge
Quem assim falava era poeta e hortelão, "jardineiro" do seu jardim e a sua voz erguia-se das terras do Norte, para si mesmo e para o outro homem que o ouvia: o leitor. O polo da tua busca era a interioridade, as tuas palavras eram magnéticas como dizias que a palavra deveria ser. Não mágicas, magnéticas. A tua bússola apontava à profundidade e interioridade da tua voz e da tua alma de louco, de poeta. Diziam: o sábio de Ulvik está à sombra da árvore a ver a luz arrefecer na outra face da folha. E havia sempre dois que te acompanhavam enquanto escrevias na silente voz da cascata ao norte, o fruto uno que prendias na boca. E tu, à sombra da velha árvore, passavas por várias águas a palavra até cair dentro do teu coração o fruto nítido e limpo de um som real, talvez o som de um pássaro a cantar sobre os canteiros das rosas. E esse território era um livro desenhado na pele e nas pétalas. Um poema como uma casa. Dizias: je veux qu'un poème soit tel que tu puisses habiter dedans. Esse era o veículo que usavas para transitar entre o que é e cabe no teu corpo e na tua alma e o que te sonhavas palavra e leitura. Habitaste as noites de Holderlin e gastaste os olhos a ler os poetas que haviam de povoar-te o jardim. Toda a vida a viagem se fez por dentro das palavras. A viagem em que a palavra viajava com o seu duplo, e cada coisa era outra e a mesma de outro modo de ser ela mais nítida e real. Um deus de pedra sagrou-te em poema que era para ti rosas selvagens “on a chanté les roses./ Je veux chanter les épines/ et la racine qui s'accroche/ au rocher dur,/ dur comme la main maigre d'une jeune fille.”Os melhores dos teus poemas, dizias, tinham sido escritos à sombra das árvores olhando a natureza e os ramos como mãos claras na mão com que seguravas o que nela cabia de nada-poema. Gotas no vento, a fina, pacífica e clara voz de uma simplicidade e densa precisão. Transformavas, irmão poeta, a maldição do poeta e do poema em clara sílaba, luz contida na palavra que alumia o bosque. Disseste: “Écrire de la poésie est nécessaire, vivre ne l'est pas” e eu acreditei. Quantas vezes terei dito que mais do que a poesia é o mistério que a vela que pode fazer aparecer quem, por nada ser, pode ser tudo. A tua palavra era aberta para o mundo, o poeta que me visita por vezes fecha-se sobre si mesmo, mas abre em desejo caminhos de claridade para os teus poemas , para o norte profundo e para as folhas do bosque. Oiço o poeta e o meu coração também aponta ao norte magnético das palavras:
“Quand je me réveille, un noir
