O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 22 de novembro de 2009

“- É inútil amaldiçoares as silvas, foi o teu corpo que se arremessou contra seus espinhos…”

Que os teus ouvidos escutem o que desejam. Que os teus olhos vejam o que desejam. Que o teu nariz encontre os aromas que procura. Que a tua boca exprima o que gosta de dizer. Que o teu corpo tenha o prazer que quiser. Que a tua vontade realize aquilo a que aspira.
O ouvido deseja ouvir música, se não o puder fazer, chama-se a isso: entraves ao ouvido. O olhar gosta de contemplar o belo; se não o puder fazer, chama-se a isso: entraves à vista. Aquilo que o nariz precisa é de aromas e perfumes; se não o puder fazer, chamo a isso: entraves ao odor. O que a boca deseja exprimir é sim ou não; se não o puder fazer, chamo a isso: entraves à sageza. Aquilo que o corpo deseja são coisas belas e pratos saborosos; se não o conseguir, chamo a isso: entraves ao bem-estar. O que a vontade deseja é a liberdade e o ócio; se não os puder obter chamo a isso: entraves a todas as tuas tendências.
Todos estes entraves são verdadeiros tiranos. Eliminar estes tiranos e alegremente esperar a morte, seja por um dia, por um mês, por um ano ou por dez anos, eis o que eu chamo alimentar a nossa capacidade de vida.

Kuan Y1 – Wu, in “O verdadeiro clássico do vazio perfeito”


Mensagem e título in “O jardim das oito pedras” de Nioto Jiang,
Edição Areias do tempo; pág. 5 e 25.