O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

 
óleo sobre tela, Mário Cesariny

em uma entrevista
organizada pela ensaísta italiana Maria Bochicchio
...  


"A poesia é um segredo dos deuses. 
Não é trabalho, 
embora às vezes se possa morrer de trabalho. 
Creio que sou um poeta inspirado, 
no sentido romântico de «daimon» - génio. 
Até ao momento em que o poeta se fecha e parte, voa. 
E depois fica igual aos outros." 

em Autografia II, poema, primeiros versos

E era uma vez este homem
que era um chevrolet
casado com uma mulher de vidro
que era uma colher de prata
Tempos depois sobreveio uma zanga
que era uma criança nua
entre umas tábuas de passar a ferro
e dois elevadores lindíssimos

Metrónomo (disseram eles)

Verdadeira saudade pernilonga
o pára-raios pôs-se a esfalfar romanticamente o toldo
de uma máquina de escrever disposta para o amor às quatro no interior
de um quarto
que era uma planície redonda semeada de vírgulas e violeta
com um pequeno garfo nas costas
que era o amanhecer que é uma árvore
na boca de uma mosca de veludo rosa
(...)

"E note que quando digo poeta não digo fazedor de
poemas, digo poeta, figura bem mais vasta do que
andam a dar a ler aos tipógrafos."


Mário Cesariny de Vasconcelos, pintor surrealista

Fonte | excertos da dissertação de Diana Isabel Fontes Vasconcelos | 
|O Poeta Mago – Presenças da Magia na Obra Poética de 
Mário Cesariny de Vasconcelos|


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Homenagem a Cesário Verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas


Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!


Mário Cesariny de Vasconcelos, in pena capital
Assírio & Alvim; 2ª edição. 1999