O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 17 de maio de 2009


fotografia " Descending Angel" by John Wimberley

Eis, pois, como é doloroso o derrame da consciência neste pensamento - deixaste de existir! As rosas brancas acabadas de cortar no jardim nocturno, não deixam repousar a cabeça sobre a almofada; talvez esta almofada seja uma nuvem e, nela dormitar, é ter uma cratera,
um mar turbulento, nas raízes do corpo. Este corpo que sobrevive sem o espírito - está morto!
É nesta súbita lucidez, no quarto rodeado de paredes brancas, que divido a sombra. Diria que é uma divisória envidraçada, onde vejo, além - vêem também? - um homem que faz o gesto de um relógio, e executa o movimento dos ponteiros. E não pára. Grito para que pare, mas ele não me ouve; apenas lê o movimento dos lábios, que narra a deslocação de um silêncio ensurdecedor. «Ouve-me!», peço-lhe mais uma vez. É um pedido, que nunca, nas linhas telefónicas já sem ligação, chegou a acontecer no tímpano, a vibração da música.


Liliana Jasmim