O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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domingo, 30 de novembro de 2008

Bardo - a Fernando Pessoa, no dia da sua transfiguração

Screveste teu livro à beira-mágoa
Por não ser tua a Hora que anunciaste.
Tiveste teus olhos quentes de água
Por em ti não chegar Quem esperaste.

Que houveste tu,
da névoa e da saudade,
senão a mui grande coita
em que por vida andaste,
e a alterosa dor,
em ti sofrida,
da pátria e do povo
que cantaste?

Repousa, amigo,
que mais que o incerto sopro
foste o divino anseio
humano feito,
e,
por haveres desejado e não tido,
deste ao tempo a Hora
em que por tua obra
se conheça o Eleito.

- in Trespasse, Lisboa, Edições do Reyno, MCMLXXXIV, p.74.