O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O liquaz, o volátil... e o vazio...

Num ensaio intitulado "O homem e as coisas", Sartre, analisando a poesia de Francis Ponge, a propósito da sua obra "Parti pris des choses" (in "Situações I", Publicações Europa América, Lisboa, 1968, pág. pág. 256) cita um texto notável no qual o poeta escreve sobre a água. Diz ele:

"Líquido é por definição o que prefere obedecer ao peso para manter a forma, o que recusa qualquer forma para obedecer ao peso".

Atrevo-me a pensar que, se fizer uma aplicação analógica deste texto ao elemento ar, ficaria encantado em transformar-me nele. Então eu diria (se o ar falasse, claro):

"Volátil é por definição o que prefere desobedecer ao peso para manter a ausência de forma, o que recusa qualquer forma para obedecer à leveza".

Mas, vendo melhor, talvez eu prefira mesmo é fazê-lo a um nível, simultaneamente, mais denso e mais incorpóreo. Um quase vazio...

Quando o vivenciar, em vez de aqui vir escrever o que disso possa ser dito, calar-me-ei: melhor será, e melhor o dirá.