O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Festas Bacanais

I

Borrachas, borrachões assinalados,
Que de Alcochete junto a Vila Franca,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram inda além de Peramanca:
Em pagodes, e ceias esforçados,
Mais do que permite a gente branca,
Em Évora cidade se alojaram,
Onde pipas e quartos despejaram:

II

Também as bebedices mui famosas
Daqueles que andaram esgotando
O império de Baco, e as saborosas
Águas do bom Louredo devastando;
E os que por bebedices valorosas
Se vão das leis do Reino libertando;
Cantando espalharei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar Baco, e não Marte.

III

Cessem do Novelão, do grã Barbança
As grandes bebedices que fizeram;
Cale-se do Rangel e do Carranca
A multidão de vinhos que beberam,
Que eu canto doutra gente e doutra lança,
A quem frascos de vinho obedeceram:
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro beber mais alto se alevanta.

IV

E vós, bacanais ninfas, pois criado
Em mim tendes a sede tão ardente,
Se sempre em largo copo espraiado
Festejei vosso vinho alegremente,
Dai-me agora um bom papo despejado
Para beber à perda co'esta gente,
Porque de vossas águas Baco ordene
Um rio para bêbados perene.

V

Dai-me uma vasilha mui cheirosa,
Seja de bom licor, não saiba a arruda,
De Peramanca seja que é gostosa,
O peito esforça, a cor ao gesto muda;
Dai-me igual nome às taças da famosa
Gente vossa que Baco tanto ajuda;
Que se espalhe, e se cante no universo,
Se tanta bebedice cabe em verso.

- Festas Bacanais,
Conversão do primeiro canto d'Os Lusíadas do Grande Luís de Camões
Vertidos do humano em o de-vinho por uns caprichosos actores:
o Dr. Manuel do Vale, Bartolomeu Varela, Luís Mendes de Vasconcelos e o Licenciado Manuel Luís, no ano de 1589.

Lisboa, Apenas Livros, 2007