O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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sexta-feira, 22 de maio de 2009

Corpo Casulo

Primeiro Segredo
Há esconderijos nas conchas do corpo.

Mão, cancela que abriga e obriga, concha dos olhos

Casa, casar, casulo, centro, local de onde se parte e aonde se chega

A casa sou eu

corpo casulo

Segredo coreográfico para dançar (aqui)


Cada lugar e cada casa têm o seu tempo próprio. Um tempo secreto.
Cada movimento também.
Encontre as conchas do corpo com as mãos.
Viaje com as mãos entre as várias conchas do corpo.
Encontre um segredo numa das imagens.
Esconda esse segredo numa concha do corpo.
Traga agora o segredo à boca para o contar aos dedos.
Entrelace os dedos e deixe as mãos seguirem o caminho dos braços até o corpo se abraçar a si próprio.
Feche os olhos durante cinco segundos e sonhe com casulos.

1. Gérard Castello-Lopes "Bruxelas", 1958
2. Mona Khun "Ton's creation", 1999
3. Alfredo Cunha "Vila Verde", 1997
4. Georges Dussaud "Agrelos, Serra do Barroso, Trás-os-Montes", Agosto 1981
5. João Tabarra, Paulo Muge
6. Camilla Jessel Panufnik "Immediatly After Birth She Can Hear Her Mother's Hearhbeat again"
7. Alfredo Cunha "Benção do gado, Vila Verde", 1991

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Le dessous des choses - The hidden side of things

Eis o momento
de agarrar o chão
com as mãos,
levantá-lo
como um lençol de luz
e passar por debaixo.
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fotografia de Gilbert Garcin, 2001,
courtesy of Galerie Les Filles du Calvaire
in Uma carta coreográfica
Quarta fábula
A rapariga que inclinava paredes.

Raiz, espalhar casas por todo o lado para fazer o nosso mundo, caminhar para dentro da terra usando as mãos como pás aéreas, pregar a cabeça à terra e existir ao contrário.

Diagonal, abismo, ter os pés colados à terra e desafiar o equilíbrio, inclinar-se sem cair, enterrar-se sem morrer e encontrar-se na inclinação para um beijo de testas.
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Fazer dos dedos as pernas e tornar-se um gigante.
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Danças que prendem
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Fábula coreográfica para dançar (agora)
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Era uma vez uma rapariga que olhou para os seus dedos e viu as suas pernas, pegou no seu braço e fez dele uma parede inclinada.
Essa parede transformou-se no céu que cobre a sua aldeia.
Dos seus caracóis fez uma vassoura com a qual varreu todas as maldades que corriam de boca em boca.
Ponha os braços em forma de ventoinha e abra com o corpo em rodopio muitas pequenas casas redondas e rectangulares.
Com as mãos, revolva o seu cabelo para conhecer como dançam as vassouras.
Faça dos seus dedos as suas pernas e transforme a pele do seu braço numa montanha por onde passeia.
Veja a aldeia de abraços por baixo de si e incline-se para a frente sem cair.
Continue a inclinar-se até ao ponto de se tornar na metade de um telhado gigante que guarda a sua aldeia.
Entretanto, pode limpar as ruas imaginárias desse mundo feito do seu corpo com as pontas do seu cabelo e ver-se a si próprio virado ao contrário e em ponto pequeno.
Agora, encontre alguém a quem encostar a sua testa para sentir o que é o beijo das grandes montanhas.
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Primeira fábula
Coelhos brancos nas pontas dos cabelos

Ar, caminhar sem chão, dormir no ar, escrever arcos com o corpo.

Expirar, transportar em espiral, dar marradinhas no espaço, levitar os braços.

Nascer dos sinos das saias.

Danças sem chão

Fábula coreográfica para dançar (agora)

Antigamente, todos tínhamos mais ar dentro de nós do que agora.
Esse ar dava origem a que no espaço interior dos corpos pudesse haver mais vida. E havia. Havia coelhos que nasciam, cresciam dentro do corpo e faziam todos os homens saltar mais. Saltos muitos e pequenos, saltos em arco, grandes saltos e reviravoltas que levavam os corpos dos homens a saltar. Porque os coelhos dentro de si não paravam de saltar, os homens mantinham-se no ar com muita facilidade. Um dia, os coelhos quiseram fugir e saíram pelas pontas dos cabelos dos homens.
A partir daí, tudo se tornou mais complicado. Os homens, para saltar, tiveram que inventar a dança, ou então sonhar bastante para poderem por vezes dormir no ar.
Experimente o coelho que poderá ter habitado dentro de si. Dê saltos, muitos e pequenos, saltos em arco, grandes saltos e reviravoltas, respire e volte ao princípio.

In Carta Coreográfica – “O corpo como adivinha, A dança como fábula”
AGEN 2009 - ACÇÃO NACIONAL
TERRITÓRIO ARTES