quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
DETERMINISMO
os dias continuam
a ficar cada vez mais pequeninos
mais
a serem passeados nos seus carros
meninos
mais
a serem tirados das suas caixas
em noites de concerto das orquestras
violinos
os dias continuam
a ficar cada vez mais
sózinhos
Sentir Pensamentos | Pensar Sentidos
No sentido de divulgar a filosofia para crianças em Portugal e promover o diálogo entre os profissionais da área, o projecto Filosofia para Crianças, Criatividade & Meia Dúzia de Chapéus às Cores® em parceria com o Colégio D. José I vai organizar o I encontro de Filosofia para Crianças e Criatividade, intitulado «Sentir pensamentos | Pensar sentidos».
O evento terá lugar em Aveiro (local a designar), no dia 19 de Fevereiro.
A parte da manhã, aberta ao público em geral, será destinada a comunicações com duração máxima de 30min; e na parte da tarde pretende-se criar um espaço para reflexão conjunta, sendo destinada aos profissionais da área.
Consulte o blog e a página do Facebook.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Paródia de "CarNatal"...
(Permitam-me, Amigos, um pouquinho de ironia. Afinal não tarda aí o "CarNatal", a festa dos Serpentinos loucos, este ano com Paladar dela, (da Loucura, evidentemente. Pois cá vai em homenagem à Fausta, esperando que volte depressa a reabrir o Ferrolho que tanta falta nos faz, já que só nos fica um tal de "MeTheOritos", mas a Serpente não voltará a ser a mesma sem ela...)
;)
Pois então cá vai!
(O que a gente encontra quando não procura!...)
Sem ofensa, evidentemente, para ninguém...
(O que a gente encontra quando não procura!...)
Sem ofensa, evidentemente, para ninguém...
O sol bate nas pedreiras como o aniz em teu rosto orvalhado. a densidade cósmica quando tocas os lábios na toalha da tarde adia a greve. imagina o que seria da tempestade sem obstáculos para derrubar. ou corações sem bocas-de-incêndio. como o vinho azeda também as pernas perdem os seus jeitos náuticos. as aves perdem a permissão de repousar nas linhas telefónicas. a cal para sempre nos bidões. o mar sempre mais além. a literatura resumida a uma estante de sonetos vazios. não olhemos as marés como sequestros. as árvores que sonhamos darão um dia ameixas pelos beirais
Serpente Emplumada: PALADAR DA LOUCURA - LANÇAMENTO DIA 18- 18HS. PRÍN...
Serpente Emplumada: PALADAR DA LOUCURA - LANÇAMENTO DIA 18- 18HS. PRÍN...: "Prefácio “A vida sem fim” Conheci a poesia intensa de Ethel Feldman quando a sua paixão incendiária e luminosa visitou o meu blogue S..."
Belíssimo prefâcio a um livro promissor de autênticos incêndios soteriológicos.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Um «Passeio de Deus» 1
Por Isabel Rosete
Um «O Passeio de Deus»: O Dele, o seu, caro leitor, também o meu e, quiçá, o de mais meia dúzia de criaturas incógnitas, espalhadas, perdidas… por este Mundo, nem sempre com rosto próprio.
A hipocrisia acobarda as mentes das gentes pequenas, sempre com medo de erguerem as suas vozes; o "politicamente correcto" (odeio clichés) cala o dizer aberto dos tachistas por mero compadrio.
Ângelo Rodrigues mostra-se como o arauto des-construtor desta farsa boçal, bastarda e brejeira, que é o Mundo, que naturalmente escapa, que é obviamente invisível aos olhos míopes, aos ouvidos ensurdecidos dos espíritos adormecidos pelo convencionalmente imposto, aos espíritos castrados por um dito puritanismo que, claustrofobicamente, lhes esmaga a possibilidade de uma respiração oxigenada.
Ângelo Rodrigues, no seu «Passeio de Deus» (ou com Deus), é a mais perfeita antítese desta miserável constatação de uma humanidade terrivelmente apática, incapaz de rodopiar nas franjas do seu próprio círculo, imperfeito; de uma humanidade que sobrevive na latência de uma consciência que, a si mesma, já não se conhece.
Ângelo Rodrigues pega o toiro pelos cornos, com a nobreza de todas as pegas de caras. Jamais se emaranha nas labirínticas teias da dissimulação ou do dizer demagógico. A sua Alma epifaniza-se na transparência do seu próprio pensamento astuto, redondo, sem pré-conceitos, e no seu dizer sem freios.
Todas as palavras, que para o papel em branco transporta, estão, sempre, no seu devido lugar, sem eufemismos, sem rodeios, sem intenções en-cobertas.
A Verdade des-vela-se nos seus poemas e nos seus aforismos, bem à maneira heideggeriana, por mais "absurda" ou "risível" que seja.
Há, na escrita deste homem, a mão de Diónisos, a embriaguez catártica do deus que co-habita nas entranhas Terra, que promove, apologeticamente, o instintivo, o visceral, o libidinal, na sua clareza absoluta, "para além do bem e do mal", afastando a censura tirânica do Supre-Ego, a ilusória beleza e pseudo-perfeição das formas de Apolo, que ludibriam o território dos simples mortais, bi-céfalos.
Também eu aceitei o convite de me tornar "argonauta", embarcando, sem receios, na nave que «mostrará os novos universos poéticos criados pelo autor». Assim estou lendo «O Passeio de Deus».
Por Isabel Rosete
Um «O Passeio de Deus»: O Dele, o seu, caro leitor, também o meu e, quiçá, o de mais meia dúzia de criaturas incógnitas, espalhadas, perdidas… por este Mundo, nem sempre com rosto próprio.
A hipocrisia acobarda as mentes das gentes pequenas, sempre com medo de erguerem as suas vozes; o "politicamente correcto" (odeio clichés) cala o dizer aberto dos tachistas por mero compadrio.
Ângelo Rodrigues mostra-se como o arauto des-construtor desta farsa boçal, bastarda e brejeira, que é o Mundo, que naturalmente escapa, que é obviamente invisível aos olhos míopes, aos ouvidos ensurdecidos dos espíritos adormecidos pelo convencionalmente imposto, aos espíritos castrados por um dito puritanismo que, claustrofobicamente, lhes esmaga a possibilidade de uma respiração oxigenada.
Ângelo Rodrigues, no seu «Passeio de Deus» (ou com Deus), é a mais perfeita antítese desta miserável constatação de uma humanidade terrivelmente apática, incapaz de rodopiar nas franjas do seu próprio círculo, imperfeito; de uma humanidade que sobrevive na latência de uma consciência que, a si mesma, já não se conhece.
Ângelo Rodrigues pega o toiro pelos cornos, com a nobreza de todas as pegas de caras. Jamais se emaranha nas labirínticas teias da dissimulação ou do dizer demagógico. A sua Alma epifaniza-se na transparência do seu próprio pensamento astuto, redondo, sem pré-conceitos, e no seu dizer sem freios.
Todas as palavras, que para o papel em branco transporta, estão, sempre, no seu devido lugar, sem eufemismos, sem rodeios, sem intenções en-cobertas.
A Verdade des-vela-se nos seus poemas e nos seus aforismos, bem à maneira heideggeriana, por mais "absurda" ou "risível" que seja.
Há, na escrita deste homem, a mão de Diónisos, a embriaguez catártica do deus que co-habita nas entranhas Terra, que promove, apologeticamente, o instintivo, o visceral, o libidinal, na sua clareza absoluta, "para além do bem e do mal", afastando a censura tirânica do Supre-Ego, a ilusória beleza e pseudo-perfeição das formas de Apolo, que ludibriam o território dos simples mortais, bi-céfalos.
Também eu aceitei o convite de me tornar "argonauta", embarcando, sem receios, na nave que «mostrará os novos universos poéticos criados pelo autor». Assim estou lendo «O Passeio de Deus».
[1] A obra: Ângelo Rodrigues, «O Passeio de Deus» (Poesia & Aforismo), Editorial Minerva, 2007.
Isabel Rosete
Amamos os outros.
Mas, não amamos
Os outros.
Amamo-nos a nós mesmos,
Centros de todos os Mundos,
De todos os Universos,
De todos os espaços Siderais.
O Egocentrismo
É a nossa
Marca perpétua.
A alteridade
Está aí,
Vemo-la,
Escutamo-la,
E recusamo-nos
A senti-la.
Queremos o outro.
Mas, não queremos o outro.
Queremo-nos a nós próprios,
Apenas em nós próprios,
E não o outro.
Fazemos do outro
Um outro de nós.
Giramos em círculo,
Nem sempre perfeito,
Em torno do outro,
Em torno de todos os outros de nós.
Um eterno retorno
Ao Ego,
É a marcha perpétua
De todos os nossos passos.
Bifurcamo-nos nos caminhos dos outros
Para nos encontramos,
Sempre,
Que permanecemos dis-persos.
A incessante busca da Identidade
É o traço do nosso Destino
Errante, perplexo, complexo!
Iabel Rosete
Mas, não amamos
Os outros.
Amamo-nos a nós mesmos,
Centros de todos os Mundos,
De todos os Universos,
De todos os espaços Siderais.
O Egocentrismo
É a nossa
Marca perpétua.
A alteridade
Está aí,
Vemo-la,
Escutamo-la,
E recusamo-nos
A senti-la.
Queremos o outro.
Mas, não queremos o outro.
Queremo-nos a nós próprios,
Apenas em nós próprios,
E não o outro.
Fazemos do outro
Um outro de nós.
Giramos em círculo,
Nem sempre perfeito,
Em torno do outro,
Em torno de todos os outros de nós.
Um eterno retorno
Ao Ego,
É a marcha perpétua
De todos os nossos passos.
Bifurcamo-nos nos caminhos dos outros
Para nos encontramos,
Sempre,
Que permanecemos dis-persos.
A incessante busca da Identidade
É o traço do nosso Destino
Errante, perplexo, complexo!
Iabel Rosete
domingo, 12 de dezembro de 2010
Parábola da criança fria
De um antigo pergaminho manuscrito (parece que a sangue de rosa), achado nas margens dum rio que ninguém já recorda, com esta singela dedicatória no reverso da última dobra, virada para quem disso pudesse espantar-se: “ A quem, sem suspeitar, me deu, (que mo não dou) o que a si se não dá”. Por baixo, podia decifrar-se, ainda que a custo, as palavras Donis de Frol Guilhade. Ainda hoje se não sabe quem seja...
1. De mármore, vinda qual lâmina, no limiar seduzia, do simples perigo de ser. Tudo do vago desafiava em fatal (ainda quente) sussurro, qual filha outra de Pallas.
2. Fremia de combates, em brasa fria – xadrez que nela se jogava com dados.
3. Como se em fuga fora sempre, como se em cada coisa de si quisera furtar-se: para nenhures, para longe da criança de seu frio antigo, que de si nela sempre fugisse.
4. Altiva como a verdade sempre menina, era da verdade a areia movediça mesma: em carne de barro, viva como a cal quente que quase atraiçoa a quem serve.
5. Nela a pureza era justa como um teorema, carente de nada, porém querente de não querer já saber, de só querer demonstrar que nada a demonstrava.
6. Profunda como o sono, que no fundo não tinha para conselho ou amigo, entre o extremo lúcido e o insano impossível, quase trágica. Queria só dormir de si, para, ai, de si repousar.
7. Seu olhar, nocturno farol que na testa o íntimo mostrava ignota de si, na vertigem em que se furtava lograva insinuar-se apenas: mal se dava, logo furtava-se.
8. Como Niké, a de toda a justiça fontana, seu olhar-horizonte do mar demandava continentes no cansaço da alma, ao findor do sem fim do estio em cada tarde esquecida.
9. Avistá-la era anúncio do mais postremo destino: no deserto do desencontro, era ela um simples grão de areia em que se encontrava certo sem-lugar. E era o nisso ter-se (da alegria) a memória mais nobre, mas a mais ténue.
breve reflexão desta manhã cinzenta de DOMINGO
porque todos nascemos condenados a morrer
:
=
doença crónica sexualmente transmissível
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
CIGARRA
Canta a cigarra. Desce a colina sem pressa. Inventa o passo, adorna o compasso. Equilíbrio descontinuado. Sonha com a Primavera. Sorri da desfeita do tempo. Um dia nasce o sol, noutro vive apagado.
Na cidade, abraça nos bares, o corpo do viajante. Um passo atrás dita o bom senso. Um passo à frente, adivinha o horizonte. Enquanto dorme, acorda. Enquanto canta, chora. Preguiçosa se entrega na madrugada. Suores a lembrar a montanha. Solitária descobre-se do outro lado.
Canta cigarrra
Canta
que o mal espantas.
No pântano nasce outra flor.
Na cidade, abraça nos bares, o corpo do viajante. Um passo atrás dita o bom senso. Um passo à frente, adivinha o horizonte. Enquanto dorme, acorda. Enquanto canta, chora. Preguiçosa se entrega na madrugada. Suores a lembrar a montanha. Solitária descobre-se do outro lado.
Canta cigarrra
Canta
que o mal espantas.
No pântano nasce outra flor.
Cultura Lusófona, Cultura Universal

O projecto Cultura ENTRE Culturas prolonga-se na página Cultura Lusófona, Cultura Universal no Facebook, para a qual estão todos convidados: http://www.facebook.com/pages/Cultura-Lusofona-Cultura-Universal/172568096097549
Por uma Lusofonia universalista, aberta a Todo o Mundo
ANFIBIOLOGIA
Ainda conseguiu voltar à superfície e pôr outra vez a cabeça fora de água.
Então deram-lhe mais uma bordoada com a pá do remo, sólida e certeira, bem no alto da cabeça.
Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido: «que felizes devem ser os anfíbios!»
Mário-Henrique Leiria
Ao mergulhar definitivamente, engolindo água e sentindo-se ir para o fundo, teve um último pensamento lúcido: «que felizes devem ser os anfíbios!»
Mário-Henrique Leiria
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
PALADAR DA LOUCURA - LANÇAMENTO DIA 18- 18HS. PRÍNCIPE REAL
Prefácio
“A vida sem fim”
Conheci a poesia intensa de Ethel Feldman quando a sua paixão incendiária e luminosa visitou o meu blogue Serpente Emplumada e o da revista Cultura Entre Culturas. Porque a poesia de Ethel é isso: fogo e luz. Fogo de um amor cuja saudade o recria em tudo e luz de quem redescobre a eternidade dessa fusão a cada instante. Poesia de mulher total, que assume todas as possibilidades do feminino, da carne ao espírito, em seu âmago se celebra o encontro-beijo redentor que suspende a ilusão de haver dois:
“Sou a puta da esquina, sou a virgem Maria.
Se o teu tempo for só de um segundo será nele que inventarei a eternidade.
Se o teu tempo for de um compasso, que seja de pausa, porque urge o silêncio.
Se for um desenho que seja branco – tão intenso.
Eterno é o momento quando me beijas por dentro”
É esse o tempo “sem hora marcada”, o “tempo sem tempo” e por isso “com tempo de ser”, epifania que advém no seio da mais funda embriaguez, essa em que a amada se torna o vinho que o amante bebe, em versos cúmplices da atmosfera do grande Rumi:
“Dá-me vinho antes do amanhecer
Com o cálice a transbordar
Banha-me nele até que embriagada
Eu seja o vinho que agora bebes”
O beijo dos amantes culmina num “eterno abraço” que fulgura no “intervalo” do existir, vazio e espaçoso, “modo de ser sem ser”, pois esta poesia, de paixão e “fogo-posto” sob a pele, também o é de desprendimento, o sapiencial desprendimento da vida que, tal o poema, renasce a cada instante da própria morte e voa ainda para além de si, pela comunhão desse “presente” onde cessa todo o “enredo”:
“Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida”
“Nascer e morrer no mesmo dia. Entre nascer e morrer – voar.
[…]
Qual é o enredo da vida quando se encontra o presente?”
Tal como a vida que há nela, também de si mesma esta poesia se evade, ciente de só se habitar o mundo a partir do tácito abandono das prisões do dizer:
“Se quiseres continuar a estar
Abandona a palavra que te prende”
Unindo o que visões mais estreitas separam, aqui é a própria paixão que conduz ao cume meditativo em que a presença do mundo se avoluma na consciência de como é “preciosa” essa “vida” que nas mínimas coisas se agiganta, pelos silêncios intervalares que as fazem cintilar na plenitude do vazio que entremostram:
“Parece que o mundo cresce dia após dia. Uma flor que nunca vi. Uma nota que passou desapercebida. A migalha de pão esquecida na mesa. Preciosa é a vida. Cada intervalo de silêncio ampliado até à plenitude deste imenso e fantástico vazio”
Tudo isto porque Ethel, ou quem por seu nome assina, vem de “Outras Paragens”, esse “lugar desconhecido” que afinal todos trazemos “mesmo junto do coração”. Se “em cada homem o universo se exibe inteiro”, este belo e comovente livro é também de cada um e de todos nós. Assim nos deixemos adubar da consciência disso, para que, como diz a poeta, em nossa mão também possa nascer uma “flor”, a flor de na sua leitura nos lermos, desencantando esse mais fundo sem fundo que em tudo sem tardar nos espera.
Obra cuja “façanha” é nascer do coração, bem entremostra toda a imensidade de onde tão singelas e fundas palavras brotam:
“Quem dera a vida nascesse do fim
E os que tudo esqueceram
Amassem quem nunca aprendeu
Quem dera a vida fosse
Um leve calafrio na espinha
Um beijo na boca
Um tímido ai
Um dia sem data
A vida sem fim”
A vida não é porventura senão isso, Ethel. E este Paladar da Loucura, tão “sem fim” como a vida que canta, confirma o que escreveu Platão:
“[…] o delírio, segundo o testemunho da Antiguidade, é uma coisa mais bela do que o bom senso: o delírio que vem de um Deus é melhor que um bom senso cuja origem é humana” (Fedro, 244 d).
Assim é. Assim seja.
Paulo Borges
“A vida sem fim”
Conheci a poesia intensa de Ethel Feldman quando a sua paixão incendiária e luminosa visitou o meu blogue Serpente Emplumada e o da revista Cultura Entre Culturas. Porque a poesia de Ethel é isso: fogo e luz. Fogo de um amor cuja saudade o recria em tudo e luz de quem redescobre a eternidade dessa fusão a cada instante. Poesia de mulher total, que assume todas as possibilidades do feminino, da carne ao espírito, em seu âmago se celebra o encontro-beijo redentor que suspende a ilusão de haver dois:
“Sou a puta da esquina, sou a virgem Maria.
Se o teu tempo for só de um segundo será nele que inventarei a eternidade.
Se o teu tempo for de um compasso, que seja de pausa, porque urge o silêncio.
Se for um desenho que seja branco – tão intenso.
Eterno é o momento quando me beijas por dentro”
É esse o tempo “sem hora marcada”, o “tempo sem tempo” e por isso “com tempo de ser”, epifania que advém no seio da mais funda embriaguez, essa em que a amada se torna o vinho que o amante bebe, em versos cúmplices da atmosfera do grande Rumi:
“Dá-me vinho antes do amanhecer
Com o cálice a transbordar
Banha-me nele até que embriagada
Eu seja o vinho que agora bebes”
O beijo dos amantes culmina num “eterno abraço” que fulgura no “intervalo” do existir, vazio e espaçoso, “modo de ser sem ser”, pois esta poesia, de paixão e “fogo-posto” sob a pele, também o é de desprendimento, o sapiencial desprendimento da vida que, tal o poema, renasce a cada instante da própria morte e voa ainda para além de si, pela comunhão desse “presente” onde cessa todo o “enredo”:
“Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida”
“Nascer e morrer no mesmo dia. Entre nascer e morrer – voar.
[…]
Qual é o enredo da vida quando se encontra o presente?”
Tal como a vida que há nela, também de si mesma esta poesia se evade, ciente de só se habitar o mundo a partir do tácito abandono das prisões do dizer:
“Se quiseres continuar a estar
Abandona a palavra que te prende”
Unindo o que visões mais estreitas separam, aqui é a própria paixão que conduz ao cume meditativo em que a presença do mundo se avoluma na consciência de como é “preciosa” essa “vida” que nas mínimas coisas se agiganta, pelos silêncios intervalares que as fazem cintilar na plenitude do vazio que entremostram:
“Parece que o mundo cresce dia após dia. Uma flor que nunca vi. Uma nota que passou desapercebida. A migalha de pão esquecida na mesa. Preciosa é a vida. Cada intervalo de silêncio ampliado até à plenitude deste imenso e fantástico vazio”
Tudo isto porque Ethel, ou quem por seu nome assina, vem de “Outras Paragens”, esse “lugar desconhecido” que afinal todos trazemos “mesmo junto do coração”. Se “em cada homem o universo se exibe inteiro”, este belo e comovente livro é também de cada um e de todos nós. Assim nos deixemos adubar da consciência disso, para que, como diz a poeta, em nossa mão também possa nascer uma “flor”, a flor de na sua leitura nos lermos, desencantando esse mais fundo sem fundo que em tudo sem tardar nos espera.
Obra cuja “façanha” é nascer do coração, bem entremostra toda a imensidade de onde tão singelas e fundas palavras brotam:
“Quem dera a vida nascesse do fim
E os que tudo esqueceram
Amassem quem nunca aprendeu
Quem dera a vida fosse
Um leve calafrio na espinha
Um beijo na boca
Um tímido ai
Um dia sem data
A vida sem fim”
A vida não é porventura senão isso, Ethel. E este Paladar da Loucura, tão “sem fim” como a vida que canta, confirma o que escreveu Platão:
“[…] o delírio, segundo o testemunho da Antiguidade, é uma coisa mais bela do que o bom senso: o delírio que vem de um Deus é melhor que um bom senso cuja origem é humana” (Fedro, 244 d).
Assim é. Assim seja.
Paulo Borges
Cenário Casa-de-Banho
NEVE
Neva na montanha. Em cada vale o abismo tenta a felicidade de quem se perde pelo caminho.
Gritam as gaivotas no alto mar. Fogem as raposas do caçador.
O Outono ambienta o Inverno. Um colibri descobre-se fora da estação. Perdido, alivia o canto.
Na casa amarela o branco dá conta da cor. Dentro dela, um homem sozinho lamenta o engano.
Adormece, alivia a dor.
Acorda, pede socorro.
Lá fora, neva.
Em cada vale, um rio congelado.
Rema o pescador contra corrente, inventa o isco, mata o peixe.
Fogem as raposas, silencia o colibri.
Uma folha amarela molhada de neve.
Uma flor que não se descobre. Nasce o sol em cada manhã.
Escorrega a neve, pesada de tanto nevar.
Excesso que atormenta.
Foge o peixe da morte certa.
Uiva o lobo com fome.
Uma ovelha desgarrada, grita.
Nascem meninos com frio.
Primavera que tarda.
Monta o cavalo a fémea em hora de fome.
Relincha a égua a violência.
Nasce o pobre.
Sacrifício que não se sustenta.
Na beira da estrada, uma vala.
Em todas descobre-se lama.
Na beira do rio um barco sem dono.
Abandonado
Um homem morre.
Desperta na Primavera.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
sábado, 4 de dezembro de 2010
Visitante
Abriu a porta. Do lado de lá um sorriso deixava adivinhar boa gente.Abriu a janela para arejar a sala. Ofereceu a poltrona do avô. Pediu que se acomodasse enquanto ia à cozinha buscar chá quente do Himalaya. Aquelo rosto era familiar. Reconhecia em seu corpo, abrigo.
Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.
Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada. Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.
A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.
O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.
Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.
Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes.
Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.
Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.
Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.
Dizem que a morte aparece sem avisar.
Todos as manhãs preparava um chá para quem pudesse aparecer no fim da tarde com frio. Anos a fio, bebeu o chá sozinha.
Sentada em frente à poltrona vazia, aquecia as mãos na chávena de chá. Olhava o vazio. Enrolada na manta, lembrava de nada. Não conheceu o dono da casa, seu avô. Inventou que a poltrona teria sido dele e respeitou essa propriedade sem nunca lá se sentar.
A despensa estava cheia de bolachas de canela e gengibre. Quando saía para as compras comprava sempre um pacote, não fosse a casa ficar cheia de gente e faltarem as bolachinhas na hora do chá. Abriu um pacote, esqueceu de verificar que a data de expiração já era de há cinco anos. Pouco importa a data agora. As bolachinhas velhas ainda estavam crocantes.
O tempo dita o limite da vida. É tão curto o tempo de agora. Já quase nascemos fora de prazo.
Da janela da cozinha sentiu a brisa fria do mar. As gaivotas anunciavam peixe morto na beira-mar. A noite estava próxima e corria o risco de passar a hora do chá.
Numa bandeja de prata colocou o bule herdado da casa, as chavenas brancas a lembrarem papel de arroz, um pratinho sem cor repleto de bolachinhas. Umas mais doces, outras picantes.
Ajoelhou-se delicadamente como se seu corpo tivesse perdido o peso. Serviu o chá. Ofereceu ao visitante uma bolacha fora de prazo.
Em frente, sentou-se. Abraçou com as mãos a sua chávena. Enrolou-se na manta velha da casa. Esperou.
Sorriu. Largou a vontade. Notou o cansaço. Sentou-se criança. Partiu.
Dizem que a morte aparece sem avisar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





