O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 27 de maio de 2013

segunda-feira

Hoje é segunda-feira e as velhas contam histórias de quando eram crianças.
Há buracos no asfalto a dar conta da terra que um dia foi fértil. 
Não há andorinhas a cantar no meu quintal. Os galos estão presos, longe da capoeira.
É segunda-feira, sempre à segunda-feira.
Não há um relógio parado a dar conta do tempo sem hora marcada. 
Nasce um pinguim sem hora de parto. Morre um falcão sem atestado deóbito.
Todos os dias, em cada dia, centenas de papeis determinam a vida.
Um homem sofre de amnésia e decreta que o tempo é ausente.
Tão próximo do velho que diz que a morte é presente. Encontra o sorriso de um dia que já não existe.
Todas as segundas-feiras nascem e morrem à segunda-feira.
O tempo de vida de uma borboleta.
O homem fraccionou o tempo. Desprezou o instante fugaz de um sopro que se desdobra noutro.
Adormece a noite na esperança de um novo dia.
Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado, domingo e segunda outra vez.

sexta-feira, 17 de maio de 2013


julgava que tinha perdido um Trabalho Prático de MÉTODOS QUALITATIVOS DE INVESTIGAÇÃO SOCIAL - 9º. semestre -
Universidade de Évora, sendo Professor da Cadeira o distinto Mestre Prof Adrião (ou Adriano - o senhor que me perdoe) Rodrigues.
além dos Métodos Qualitativos, que me agradavam sobremodo e onde colhi nota, também já não sei se 17 se 18, fundamentalmente com base no tal poema que julgava perdido na voracidade dos anos e encontrões da vida

Arrancava com o seguinte título:
A INSTITUIÇÃO REPRODUZ A SOCIEDADE
sendo a instituição uma Fábrica de Tomate onde eu trabalhava

" não sei até que ponto é possível/desejável planificar o trabalho. A
planificação, a racionalidade do trabalho, a burocracia ao fim e ao cabo, só dão má qualidade à vida:
devíamos aceitar esta situação como transitória e ver de que modo poderia ser:
e penso que o exemplo está na maneira como algumas crianças brincam. É daí que o trabalho dos adultos tem que partir.

(da entrevista de MariaIzabel Barreno a " o Jornal de Letras Artes e Ideias - edição de 26 de Maio de 1981)

O PRAZER DA FÁBRICA

penso que o prazer na Fábrica
só é possível na ganga suja de óleo
nas mãos amolecidas
da pasta cor-de-carne dos pimentos

da carnação da massa que escorrega por
túneis de metal Inox
serve as naves como artérias
de ladrilhos
e transborda se derrama
como um corte de faca
e é sangue na limpeza do piso
e cor nas batas muito brancas das mulheres

possível o prazer da Fábrica
só dentro do vapor das nuvens brancas
que nascem nas caldeiras de alumínio

de onde emergem figuras ferrugentas
mas alegres
bons adamastores
que têm cão
mulher e filhos

por cima das bancadas dos mecânicos por gosto
elas próprias omelette- au- rhun dos óleos entornados
da massa consistente que aplacenta as peças
vindas dos cacifos
sopa-de-cavalo-cansado onde se encostam
por gosto
os cotovelos

nas tarefas exatas feitas com amor:
conduzir camiões enroscar parafusos
mudar as flores das jarras rotular produtos

nas tarefas exatas feitas alegria
no colher das amostras no rigor das análises
na limpeza doméstica
das tulhas e dos silos

prazer na Fábrica
não mais na datilógrafa que luta por aumentos
no capataz que exulta
quando o chefe pelo Natal
o presenteia com um mágico envelope

A FÁBRICA

a Fábrica é cercada
com arame farpado

tem uma entrada que é um portão enorme
com a casa- dos- guardas frente ao barracão das bicicletas

e um pastor-alemão que é tão simbólico
tão apenas simbólico
como a vedação de arame-farpado
e a casa-dos-guardas frente ao barracão das bicicletas

sim
que a vedação de arame-farpado é fácil de transpor
nada custa franquear o portão enorme
o pastor-alemão nunca morde
nem ladra a ninguém
os guardas
estão invariavelmente bêbedos
mesmo no momento em que se rendem

parece então
que seria mais coerente plantar flores
e árvores em redor
retirar o ar de manicómio
de parada militar
de campo-de-concentração que toda aquela
simbologia podre lhe empresta

assim os operários
chegariam contentes para exercer o seu trabalho
e não para o cumprir

teriam pássaros em volta
e não os tecnocráticos pardais

( há pardais nos Quartéis nos Hospitais
nos Pátios dos Tribunais
nas Paradas das Prisões
nas estátuas dos generais
nas frinchas dos saguões)

pássaros dizia em volta
os esquivos melros os térreos piscos tímidos
andorinhas domésticas fariam
ninhos nos ângulos das naves
os cartaxos brincariam nas peças

não é possível o prazer na Fábrica
onde as coisas engrenam porque são determinadas
comandadas por senhores de batas
  • que produzem a ORDEM

    reprime-se em nome dessa coisa
    ameaça-se com despedimentos
    quem não tome a pílula vendado

    produzir é o lema
  • produzir conforme os cáculos das máquinas
segundo estalecem
compromissos exteriores
:
Ces ; EFTAs ; outras siglas
tão acrílicas tão ásperas
tão “made in”
- filhas dessa coisa
a que chamavamos ORDEM

A ORDEM

vem sempre de cima
tal qual a chuva as trovoadas os coriscos
a caliça dos tetos
as cagadelas incómodas dos pombos

mais de cima sempre mais de cima
mais do que por mais de cima se consiga imaginar

em última instância
a ordem vem de Deus

então não se discute

o chefe-de-fabrico é deus em relação ao capataz

frente à sua imagem
este se recolhe
genuflete
persigna-se
perturba-se
recolhe-se a si próprio

toma a Ordem como quem toma a hóstia
entrelaça os dedos transpirados
semicerra as pálpebras
com os olhos
melancolicamente virados ao vazio

adivinha
para além daquilo que lhe é dado:
deus diz dez
- o capataz já sonha vinte ou trinta

DEUS

deus não dorme
não come – alimenta-se de néctar
algum néctar do Olimpo
rodeado de anjos e arcanjos
  • que raramente são
seus filhos ou mulher

manda pôr na conta
e ordena que enderecem
ao economato celestial

não toma bica
nem bagaço

-liba
  • não defeca
    nem micta

    - segrega

    os operários veem deus
    de baixo para cima
  • respeitam-no num código
  • que se chama de há milénios
  • mandamentos
  • dos quais o primeiro é o seguinte
    :
    amar ao chefe sobre todas as coisas
    e os restantes
    de um teor mais ou menos semelhante

    assim é de facto:
    o chefe é o sustentáculo da Fábrica
  • enquanto unidade de produção
do operário enquanto peça dessa máquina

por inerência
sustentáculo das famílias todas
de todo o operário que há na Fábrica

há pois
que amar ao chefe sobre todas as coisas

o POTLACH

a mulher-da-limpeza é quem
tem menos para dar e quem dá mais

porque o faz diariamente a todos
para receber de todos (se possível)
um poucochinho mais – que cada um
isoladamente tem para lhe dar

a secretária pede-lhe do Bar um Trinaranjus

se as coisas correm bem a nível da chefia
o Trinaranjus que lhe traz a mulher-a-dias serve
se as coisa correm mal
  • não serve

    porque tem borbulhas – se a mulher-a-dias trouxe com borbulhas
    porque não tem borbulhas
    se a mulher-a-dias trouxe
    um Trinaranjus sem borbulhas

    é pretexto pra a reprimir de maneira violenta
    decisiva
dita exemplar
podem apontar-lhe a rua
o retorno à enxada
guardada na pequena dependência do quintal

a mulher-da-limpeza é meiga
solícita
servil
subserviente
vendível
desodorizada assética
- um produto

dá quanto pode dar
à Secretária da Administração
que por seu turno porfiará em dar
aos seus administradores
alguma coisa ainda
às suas companheiras de trabalho

todos nós – operários
técnicos administrativos
prodigalizamos em ofertas diárias
aos nossos superiores

que lambem os beiços
e tudo nos devolvem
numa grandiosa festa pelo Natal

há festões
e árvores enfeitadas em todos os recantos
prendas em caixinhas decoradas para os nossos filhos

e mesas recheadas de leitões assados
-secos como múmias – em postura
de esfinge de Giseh

são nomeadas as pessoas
que recebem os prémios
galardoados os assíduos
os produtivos
em suma – os integrados

quiçá os colaboradores mais íntimos
os tratadores
dessa pomba cinzenta
a que chamámos ORDEM

esta a grande Festa o supremo Ofício
a grande celebração
- o Facto Social Total
em que os deuses se misturam com os homens
o nosso merecido
reconhecidamente
POTLACH

assim de há anos – desde que a Fábrica respira
até que outro processo nasça
na raíz do sistema cariado

penso por exemplo em produção
à maneira (simples)
de como (algumas)
crianças brincam


António J. C. Saias
nº. 94 - 9º semestre



terça-feira, 30 de abril de 2013


O Plantador de Palavras
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.
João Cabral de Melo Neto


Terra e Poesia – duas realidades feitas de uma materialidade que António Saias explora mergulhando incansável em suas potencialidades modeladoras. Isso significa serem esses dois vetores os responsáveis pela dinâmica que alimenta os poemas de (H)ortografias (2012), constituindo sua razão maior: escrever a terra, plantar o poema, cultivar as palavras como sementes e abrir a terra/página à consciência do fazer. São tendências entrecruzadas, não paralelas, mas tecidas conjuntamente no arado arejado a que se entrega o Poeta.
É a “Gen-Ética” (título de um dos poemas) a permitir, por exemplo, a fabricação de produtos inusitados ou a transformação insólita de elementos, como Nenúfar em Flamingo; é a aproximação num mesmo espaço da VÊNUS DE MILO e os parasitas da Hortelã; é igualar o papel à terra suada; é o suor servir-se de tinta e usar a enxada como caneta; é o movimento simultâneo de junção e disjunção no corpo da terra-escrita, “lavras com pa-lavras”; é o alimentar as palavras como as cabras, com grãos e pastos, ordenhando-as para dar bom rendimento.
Acontece que a ligação intrínseca com a terra ou o solo (o baixo, raízes, sementes, água) coexiste com outra: a aspiração ao alto (o céu, o voo, o ar). Alto e baixo, tal jogo dialético já vem anunciado no primeiro poema (ou epígrafe?) de (H)Ortografias:
feijão-de-trepar
:
raízes em terra
e ânsia de voar
Notemos como a verticalização se iconiza nos dois pontos – verdadeiras raízes no solo da página, em contraste com as rimas abertas das alturas /ar/. sugeridas pelos verbos “trepar” e “voar”. Enraizamento e liberdade, imanência e transcendência, apego e desapego – tais tensões perpassam toda a obra de Saias, desdobrando-se em ampla significação. Do corpo entranhado da escrita à materialidade do real, da consciência poética ao posicionamento sócio-político, a poesia de Saias amalgama distintas matérias em seu fazer, tendo como propósito maior a desacomodação de condicionamentos alienantes.

Nesse sentido, chama-nos a atenção a diversidade de formas de composição dos poemas, como se a poesia, terreno fértil à germinação múltipla, resultasse num campo propício a concepções distintas do fazer. Assim, não apenas a moldura/estrutura textual como também as fontes e motivos operacionalizados pelo poeta, bem como sua consciência crítica, revelam uma sensibilidade antenada à cultura literária de que faz parte.
Desse modo, a irreverência à La Alexandre O’ Neill, o espírito breve e sintético dos haicais, o engajamento crítico de cariz neo-realista, lampejos surrealistas à Cesariny, essas matrizes se complementam no percurso poético de António Saias. Sem dúvida, de todo esse caldo cultural o que mais engrossa a textura de suas poesias é a presença de O’ Neill. A série de poemas como “Ponto de Interrogação”, “Ponto Final”, “Acento Circunflexo”, “Cedilha”, instauram em nossa leitura um diálogo com as “Brincadeiras Ortográficas” de O’ Neill. Em ambos os poetas, o espírito lúdico conjuga-se à lucidez crítica no trato com a palavra e o real nela implícito. Por isso, não se trata de uma metalinguagem encerrada nos limites da funcionalidade linguística, e sim de um código estético atento às relações tensivas entre palavra e realidade, representação e traição.
Nos versos “cada um manifesta-se como pode / ou pôde?” (2012, p.86), o pretexto de falar sobre o acento circunflexo abre-se a uma indagação que ultrapassa a questão gráfica para transformar-se num dilema maior: a liberdade do sujeito para sua manifestação é presente ou um gesto do passado? Ou melhor, que convenções ainda pautam as atitudes humanas? A arbitrariedade do signo e leis que o regem tem algo a ver com o arbítrio do ser humano?
Percebemos que a leveza da brincadeira tem a sua contraface, pois torna visível outra via de leitura em que desponta o senso crítico, como no poema “Pragma (para poeta contra novo AO)” (2012, p.81):
SOL
quando está frio apareces
isso me apraz

e sabes
quão pouco me faz
saber

quando me aqueces
se aquecer
se escreve com um C
se com mil SS

No diálogo com o sol desvela-se uma lição que extrapola os muros do academicismo ou do purismo vernacular. Por isso, para além das discussões infrutíferas em torno de acordos ortográficos, o poeta se manifesta como alguém capaz de acolher o que a natureza oferece para ser usufruído sem questionamento. Sentir-se aquecido ou confortado pela realidade natural parece muito mais prazeroso do que aceder às obrigações ou arbitrariedades das injunções institucionais, portanto, pouco importa a ortografia correta de aquecer, o que conta é o SOL maiúsculo que figura no alto do poema.
Evidentemente tal atitude não está a negar a seriedade das convenções, mas sim coloca sob suspeita o radicalismo ou cegueira que cerceiam as ações quando estas se pautam exclusivamente por condicionamentos inoperantes.
A burla, gesto saudável para inverter as posições habituais e categorias preestabelecidas, justifica-se como procedimento poético porque nele está contido o conhecimento ou saber. Ao poeta cabe o papel de investir numa aprendizagem que se desfaz do que se cristalizou, para recuperar o frescor e a originalidade roubados pela institucionalização. Antes cultivar o exótico que o pragmático usual, eis o que nos comunica um poema como “O Grego → O Latim → O Inglês → O Mandarim” (2012, p.80):
não tarda
quem quiser
mandar
em mim

não mais em
inglês

inglês
chegou
ao fim
ordens só vou
passar
ou aceitar
em
mandarim

O próprio trocadilho entre “mandar em mim” e “mandarim” revela a habilidade de quem manipula a língua como objeto que se esquiva aos grilhões da seriedade gramatical, tronando-a maleável ao único “idioma” que interessa – o da aventura poética. O poeta dribla, assim, a visão pragmática geralmente associada à língua inglesa, sugerindo atender a outras possibilidades idiomáticas ou alternativas linguísticas, como o mandarim.
É também o jogo verbal, próprio de quem gosta de tomar as palavras como brinquedo, que leva o poeta a criar um diálogo com o poeta brasileiro Manuel Bandeira: “o menino que gostava / de brincar com as palavras / viu uma lagarta às listras // e lembrou-se de chamar-lhe / LAGA_ARTISTA” (2012, p.74). Um outro poeta-criança, também manipulador das palavras, Manoel de Barros, certamente assinaria o jogo inventivo de Saias.
Por outro lado, o gracejo que brota do uso crítico da língua com o propósito de subversão das normas gramaticais pode também descortinar outra face pela leitura: o encanto lírico. No poema “GArçA” (2012, p.77), por exemplo, não somente o destaque gráfico do signo como também o discurso sobre a ave acabam por revelar a outra dimensão da linguagem e da própria ave. É que o mirar-se na água-linguagem, em que despontam qualificações – branca, leve, imponderável, esguia – permite que o reflexo da imagem da ave faça transparecer outro sentido para a garça – a graça. Beleza, recorte singular e poético da ave, num simples anagrama e sugerido pelos breves versos. O “inegável erro / de ortografia” é o que nos permite ler e ver o seu outro lado, o reflexo invertido das letras em que surge, aí sim, a graça no duplo sentido (encanto e humor).
Ao tomar como tema no poema “Bucólico” (2012, p.31) o canto do grilo (outro motivo que nos remete a Alexandre O’Neill), António Saias explora as potencialidades da rima, provocando curiosos efeitos semânticos. Opondo-se à usual sensação de incômodo que advém do canto do grilo, a visão do poeta constroi sensações prazerosas na sua relação com o inseto, pois o encanto e a pulsação vital materializam-se nos encontros sonoros e nas repetições: o que mais me encanta / quando o grilo canta / é saber que é pelas asas / que ele canta / -não pela garganta // ainda mais me encanta / no cantar do grilo / é eu sentir-me vivo//. O encadeamento dos sons guturais e as nasais /anta/ fazem com que o canto vá tomando conta do espaço poético, enlaçado ao eu que o incorpora. Num segundo momento do poema, o canto do grilo permanece, porém, agora, associado ao tempo, como se cantar tivesse o poder de amenizar a passagem do tempo e os contratempos da vida; as rimas e recorrências fônicas dão corpo a essa sensação: atento / contra o vento / ouvi-lo / grilo / canta / contra o tempo.
Entretanto, o bucolismo se reveste de outra dimensão, na medida em que o poeta apresenta-o sob um viés crítico, atendendo a uma vertente mais satírica, como no poema “Manhã Agrícola” (2012, p.28). Em matéria de ecologia, diz o poeta, não servem cantigas enganadoras, pois a realidade concreta e terrena exige outros cuidados. Formigas e toupeiras podem alimentar as fábulas clássicas ou inspirar Cesário Verde em seus poemas, mas na prática agrícola são daninhas, o que revela o lado bem humorado do poeta para quem é preciso entender a diferença entre as esferas literária e a práxis, até para se respeitar a natureza específica de cada uma. Na poesia, espaço em que o trabalho consciente com a linguagem faz coexistirem as duas realidades, tudo é possível porque o senso crítico está lá para denunciar as diferenças: “se precisar de bucolismo no trabalho / arranjo um pintassilgo / ou um canário”, conclui o poeta.
A consciência aguda de Saias não se conforma à imobilidade e passividade, preferindo o caminho da inquietação necessária à derrocada dos valores estabelecidos. É preciso construir outro mundo por meio de um lirismo inconformado, porém, insistente em seu poder de renovação – é o que nos propõe o poema “É Preciso”:
é preciso arrombar uma porta
é preciso inventar um caminho
é preciso uma leira cavada na horta
é preciso uma acha de fogo azinho

é preciso um canhão de certeza de tudo
é preciso uma seara de raiva nos dedos
é preciso outro mundo outro mundo outro mundo
sem brechas nem bruxas nem monstros nem medos (2012, p.12)

Autodeterminada (alimentada pelo anafórico “é preciso”), essa poesia reafirma seu papel junto à realidade histórica, acreditando nas possibilidades de transformação materializadas na linguagem. Transformação legítima porque preparada e armada no seio mesmo da escrita, espaço livre, aberto à emancipação do sujeito criador. A fome, a exploração, as diferenças sociais, as falsidades, a opressão e outros temas são revirados pela pena da escrita: “Fome não apaga / este pão trigueiro // sou ladrão de palavras” (2012, p.63). É graças ao investimento nas potencialidades do signo poético que a realidade se ilumina, fazendo do trabalho árduo com a palavra um análogo do trabalho braçal do homem ligado à terra.


COM ISTO ME DESPEÇO da SERPENTE
para mim de boa memória

abraço a todos

domingo, 28 de abril de 2013


ESCALADA


começou por deixar
de fumar

por aconselhamento médico
pôs de parte
as bebidas alcoólicas

quando deu por isso
tinha perdido o hábito
salutar

de
respirar

tinha
expirado

quinta-feira, 25 de abril de 2013


O(H)VIBEJA

aí estão as cabras
com os seus brincos
pendurados das orelhas

as vacas e os porcos
com seus piercings
no focinho e nas narinas

os burros
com a sua calma legendária
suas orelhas de abano
de grandes mais eficientes do que auscultadores

os cavalos lazões
castanhos izabela
prontos a serem montados
por meninos e meninas

aí estão os vendedores
de algodão-em-rama e de amendoins
e os cães domésticos
puxando os donos pelas trelas

aí estão as aves exóticas
os papagaios araras
e os garnizés
e os pombos gordos
que nem perus pelo Natal
e os camponeses velhos reformados
a não perderem nada
pelos pavilhões arrastando os pés

aí estão as avós
puxadas pelos netos
atrás dos fumos doces
dos churros das farturas
e os agricultores
perdidos em projetos
que rentabilizem
a ingrata agricultura

a água do Alqueiva
os olivais a rega
sem a qual a planta não tem seiva
o vendedor de máquinas
prometendo a entrega
do tractor New Holland
para virar a leiva

a gente do governo
pródiga em promessas
:
baixa de impostos subsídios sonhos

os putos marginais
virando a Feira das avessas
limpando ao braço
transpirações e ranhos

aí estão os balões
as espadas Excalibur
os pavilhões
de produtos regionais
:
os méis os queijos os enchidos maduros
os cheiros assimilados
a humores corporais

entanto o Sol falece
prós lados de Lisboa
são horas de apanhar o autocarro
- há quem vá de vagar há quem se apresse
há os eternos retardatários
distribuindo ainda
o tinto que há num jarro

até pró ano - a Feira estava boa
podia estar melhor diz a mulher cansada
perde a gente o tempo
por aqui à toa
com o raio da crise
não dá pra comprar nada

NUMA PRAÇA CHEIA DE GENTE


eu só fui ver

eu só queria ver

eu só queria ver-te

eu só queria observar-te

eu só queria sorver-te

perdoa-me Maria

- o que eu queria mesmo
era
um sor-ve-te

sexta-feira, 19 de abril de 2013

 rebanho é uma frase
de ovelhas

parte de um poema
- um verso

por bons ou maus caminhos
quem conduz o rebanho

para todo o lado

é a palavra-
-mestra

P´RA  PULAR  MATINAL


VAI CONTENTANDO A MANADA
COM FALINHAS DE VELUDO
- UMA MÃO CHEIA DE NADA
OUTRA VAZIA DE TUDO

domingo, 14 de abril de 2013


CREPÚSCULO

como as aves
põem ovos

quando se esconde
o SOL
é para pôr

todas as noites
dias novos

CREPÚSCULO


como as aves
põem ovos

quando de esconde
o SOL
é para pôr

diariamente
dias novos

sábado, 13 de abril de 2013


EXPLICAÇÃO DO POEMA

meus poemas são a minha
marcação
de território
na vida eterna

como cão
de qualquer esquina de taberna
faço
mictório

cheiro primeiro
dou meia volta

depois
levanto a perna

quinta-feira, 11 de abril de 2013


(I)MUNDO


escandaloso é o desequilíbrio entre

os "SEM-ABRIGO"

e os "CEM-ABRIGOS"

terça-feira, 9 de abril de 2013


GAIVOTAS

soltas
ao vento
como velas velozes

gritos graves

gaivotas são asas
com aves

segunda-feira, 8 de abril de 2013


JOGO


cuidado
quando lançares o dado
- ele pode
estar viciado

já não te lembras
que foste
tu próprio a viciá-lo?

domingo, 7 de abril de 2013


NOME & PRONOME


uma coisa é ser JOSÉ DE MASCARENHAS

outra bem diferente é ser

o JOSÉ do MASCARENHAS

sexta-feira, 5 de abril de 2013

MINISTRO  MISSIONÁRIO


de missão em missão

até à DEMISSÃO
final

DESPERTAR DE FAUNO


não é mau de todo
ter o sol a me lavar a cara

e ouvir lá fora
a seiva das roseiras
amadurecendo as rosas

ao som distinto
claro

de um apaixonado
rouxinol

quinta-feira, 4 de abril de 2013

NÃO FOI AO TEPÊTE
- foi à RELVA


no meio de tantas
trocas e baldrocas

talvez o ministro
vá ganhar a vida
a vender
PIPOCAS