Um espaço para expressar, conhecer e reflectir as mais altas, fundas e amplas experiências e possibilidades humanas, onde os limites se convertem em limiares. Sofrimento, mal e morte, iniciação, poesia e revolução, sexo, erotismo e amor, transe, êxtase e loucura, espiritualidade, mística e transcendência. Tudo o que altera, transmuta e liberta. Tudo o que desencobre um Esplendor nas cinzas opacas da vida falsa.
O CAMINHO DA SERPENTE
"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".
"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga. E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"
Acabara eu de conhecer Alguém (afinal nada estava perdido, já não havia qualquer motivo para desistir de tudo, era esta a luz que há tanto procurava) e pergunto-lhe, por ser esse o centro da minha investigação espiritual, se terá havido, por ventura, algum encontro entre a neurobiologia da consciência (Damásio) e a psicologia budista. A nossa comunicação fazia-se, nessa altura, exclusivamente pela internet, e a resposta que eu esperava, na caixa do correio electrónico, tardava a chegar. Pensei que Alguém deveria ser uma pessoa muito ocupada, que não tinha tempo para procurar a resposta, que talvez se tivesse esquecido, ou que talvez nada soubesse sobre o assunto, e até nem quisesse saber. Por fim, e dada a demora cada vez mais longa, tomei a ausência de resposta como um claro «não sei e acabei por me esquecer da questão». Tempos mais tarde, encontrámo-nos pessoalmente e a primeira coisa que Alguém me disse foi «peço desculpa por não ter dado continuidade à sua questão», ao que respondi «não há qualquer problema». Alguém nada mais acrescentou ao seu pedido de desculpas, pelo que imediatamente deduzi que não valia a pena insistir no assunto.
Passados dois anos encontrei, por acaso, um livro que respondia clara e afirmativamente à minha antiga pergunta. Alegremente surpreendido, não pude deixar de me sentir indignado. Como era possível que Alguém não me tivesse dito nada?
Hoje, não tenho a menor dúvida sobre o que terá motivado o silêncio de Alguém: divergências académico-intelectuais... Mas, caramba, onde está a fraternidade e a colaboração entre colegas? Será eticamente correcto silenciar informações dessa natureza? Não estamos todos a trabalhar para o mesmo propósito?
Depois desta, foi a questão sobre o Zen e Fernando Pessoa. Era um assunto que me interessava muito, havia uma investigadora que o estava a estudar e eu pretendia entrar em contacto com ela. Desta vez não pedi qualquer informação a Alguém, mas sim a um seu colaborador muito próximo. Novamente, silêncio...
Pendia a espada ao peito e numa assombrosa eminência suspenso o punho era cristal desferindo brilhos de oculta luz. No escuro fundo, a folha embainhada.
O nada dentro do nada e tudo o que lá não existe O espaço em potência dentro do espaço em potência, potenciado ela ausência do muito e do pouco que pudesse lá caber, que pudesse lá estar ou ser
Mas, o nada está lá e o vazio também Juntos, fazem companhia ao silêncio que tinha acabado de chegar Ou, se calhar, sempre lá esteve e nunca ninguém tinha dado por ele
Numa loja de roupa em saldos experimentei um casaco em cujos bolsos pus as mãos. Num dos bolsos estavam uns documentos: um cartão de farmácia, um cartão de crédito e um papel saído duma caixa multibanco que dizia: "Captura de cartão. Por segurança retemos o cartão. Consulte o seu banco".
O que terá sido feito?
Hipóteses para ir a votos na caixa de comentários:
a) A portadora do cartão pôs, por distracção, no bolso do casaco ao experimentá-lo os papéis que trazia na mão, que ia ali num instante à rua levantar dinheiro e/ou comprar qualquer coisa à farmácia, sendo que o papel que informava acerca de cartão retido dizia respeito a outro cartão que não aquele pois se aquele não estava retido. Ou então era aquele que esteve retido e já não estava porque a senhora consultou o banco para recuperá-lo.
b) Alguém encontrou perdidos aqueles cartões e resolveu pô-los num bolso de casaco à venda para, além de outras coisas, causar surpresa a quem lá metesse a mão.
c) Alguém roubou ou encontrou os cartões e tentou utilizar o cartão de crédito mas não resultou. Então, para se livrar de provas de uso de cartão doutrem, pô-lo, porque não?, num bolso de casaco sem dono.
d) Alguém da loja resolveu fazer um estudo de comportamentos com câmaras a filmar pondo dentro dum bolso um cartão já não funcional de modo a observar as reacções das pessoas se o encontrassem.
e) Outras que me escapam.
Claro que fiquei com os cartões.
Que deverei fazer doravante?
1) Ir a uma máquina multibanco e inserir o cartão que provavelmente ficará retido enquanto me filmam e consequentemente me identificam como roubadora ou apropriadora do cartão que não tem o meu nome e, para evitar que isso não aconteça, ir disfarçada, nada de espalhafatoso para não dar nas vistas.
2) Fazer, tentar fazer uma compra - como não é preciso marcar código de cartão - e, no caso de ausência de crédito, dizer "Ah, espere lá, pago com dinheiro".
3) Mandar uma carta para a morada que consta do cartão da farmácia - a única morada que consta dos papéis -, carta contendo o cartão e referindo eventuais outras coisas mais que talvez não interessem nem à ex-proprietária do cartão; carta que serviria para fazer circular o cartão tipo message in a bottle e criar um apartado meu para me responderem.
4) Deixar o cartão noutro bolso, agora dumas calças por vender, e desconhecer o destino do cartão; pensar que talvez seja este o propósito de quem o pôs no outro bolso e quem sabe se noutros bolsos à venda antes já esteve.
Tenho de tornar os meus gestos, Usos pragmáticos, funcionamentos quotidianos Um pouco mais barulhentos Um nada mais agressivos Para não estranhar, ou estranhar menos (Se bem que sem entranhar, safemo-nos!) Os ruídos e violências dos outros Dos burburinhos que vão e que passam Dos soalhos a ranger, das portas de armários que batem a desoras Por que farão os vizinhos certos barulhos a certas horas? Por que cantos, esquecimentos das casas andarão, A ver de que arranjos, em que bater, que procurar Tudo, creio eu, tudo sem um nexo, uma precisão (Apenas para não se haverem com o silêncio, ou com o tempo ou consigo, apenas para se não baterem, ou amarem, até se irem embora) Tudo para me atazanar Nem suspeitam, os demoniozinhos Que as minhas saudades são ensurdecedoras, mais do que os seus passos, A sua bricolage ilícita, os seus uivos Todos são surdos às minhas saudades Todos são turvos, apenas se me fazem ouvir Exaustivamente Ouço tanto que não penso quase Quase me esqueço de que pertenço À sociedade secreta da diástole da saudade Na qual nada se pensa, ou reflecte Senão uma curta-metragem de eterno retorno Das tuas sobrancelhas Das tuas veias Do teu aperto Do teu adeus
Vou agora treinar e bater com as portas Bem sei que não voltas Mas sempre torturo alguma vizinhança Nem tudo está perdido!
Peço que se me perdoe o extensão do texto abaixo (coisa de que sempre desgosto), mas estou certo de que o interesse do tema compensará tal facto.
Ondas Cerebrais, Sincronização Hemisférica e a Tecnologia do Sono
Nas últimas décadas, os pesquisadores do sono e do sonho produziram uma quantidade substancial de conhecimento devido sobretudo ao desenvolvimento e aplicação de novas tecnologias. Por exemplo, o electroencefalógrafo, ou EEG, é capaz de monitorizar mudanças nas frequências e padrões das nossas ondas cerebrais. O nosso cérebro produz ondas de correntes que flúem através das ligações neurais. O tipo de onda cerebral é definido pela frequência a que esta pulsa e este tipo particular de pulsação influenciará o nosso estado mental respectivo.
Existem quatro tipos básicos de padrões de ondas cerebrais mas devido à complexidade do cérebro humano existem frequentemente diversos padrões interagindo simultaneamente. É a predominância de um padrão sobre os outros que determina o nosso estado de consciência. Abaixo apresento uma breve descrição de cada um dos quatro principais padrões bem como o seu intervalo de frequência e respectivo estado mental.
Ondas Beta: São as ondas mais rápidas, 13 a 30 Hz. Este é o padrão que obtemos ao monitorizar o nosso cérebro durante o estado de vigília. Ou seja, se neste momento efectuasses um EEG este obteria um aspecto típico de um padrão de ondas Beta. Ondas Alfa: Mais lentas que as Beta, 7 a 13 Hz. Estão normalmente associadas a um estado de maior tranquilidade e relaxamento. Podem ser encontradas durante os estados meditativos mais comuns. Ondas Theta: 3 a 7 Hz. Estão associadas a um estado de grande capacidade de reminiscência, criatividade e visualização, inspiração e conceptualização holística. É o padrão cerebral representativo do sono REM, ou seja, do sonho. Ondas Delta: São as mais lentas dos 4 padrões principais, 1 a 3 Hz. Estão associadas ao sono profundo, sem sonho, e ao transe profundo.
(...) Sabendo as características mentais associadas a cada padrão de ondas cerebrais, tal como foram acima referidas, teríamos uma enorme vantagem em induzir um determinado padrão de ondas de forma a facilitar determinadas actividades mentais. Felizmente existe uma forma para fazer isto e baseia-se no princípio científico da Harmonização. Os sons binaurais (que explicarei mais adiante) podem ser usados para harmonizar ou sincronizar ambos os hemisférios cerebrais num só padrão sinérgico de ondas cerebrais.
O que é então o princípio da Harmonização? É muito simples. Por exemplo, vamos supor que penduramos nas paredes da mesma sala vários relógios de pêndulo e que cada pêndulo se move ao seu próprio passo, desfasado de todos os outros. Com a passagem do tempo os pêndulos tornar-se-ão progressivamente sincronizados, adaptando-se naturalmente o ritmo de cada um até todos os pêndulos se moverem em sintonia, em uníssono. Esta sincronização é o resultado do princípio da harmonização, é um fenómeno físico que ocorre de forma sistemática na natureza sempre que a oportunidade se proporcione.
Este processo é importante pois também possui implicações directas no nosso cérebro, este opera de modo semelhante a uma caixa de ressonância. As ondas cerebrais pulsam a diferentes amplitudes e frequências, dependendo do nosso grau de envolvimento em determinadas actividades. Tal como o pêndulo do relógio, o nosso cérebro pode ficar sincronizado com determinados padrões de ondas se for exposto aos estímulos apropriados. Este é também um processo usado pelos xamãs em diversas tribos indígenas, que usam tambores e chocalhos para harmonizar as suas ondas cerebrais com uma frequência particular e assim entrar num estado de consciência alterado.
Juntamente com o papel desempenhado pelas ondas cerebrais no nosso estado de consciência é também importante discutir a anatomia básica do nosso cérebro e a forma como as suas partes interagem e funcionam. Os nossos cérebros possuem dois hemisférios, esquerdo e direito. O hemisfério esquerdo é linear, lógico, prático e orientado no tempo. Por seu turno, o hemisfério direito prece ser muito mais não linear, abstracto, criativo, holístico e não lógico. Por exemplo, um contabilista usa provavelmente muito mais o seu hemisfério esquerdo enquanto que um artista usa mais o direito. Tendemos a favorecer o uso de um determinado hemisfério consoante a actividade em que estamos concentrados. Assim como existe uma predominância de certas ondas cerebrais dependendo de determinadas actividades também existe a predominância de um dos hemisférios consoante o que estamos a fazer.
Os dois hemisférios estão ligados pelo corpo caloso. Esta estrutura funciona como uma ponte ou conduta entre ambos os lados e pode literalmente ser exercitada e fortalecida mentalmente até se tornar fisicamente maior e mais capaz de transmitir informação entre os dois hemisférios. Sincronizando os dois hemisférios e permitindo que estes trabalhem em conjunto podemos potencializar as nossas capacidades mentais. Basicamente é como ter um computador mais rápido, com os componentes melhor integrados e capaz de aceder mais rapidamente à informação e processamento de dados. Fazendo isto estaríamos literalmente a usar o nosso cérebro de um modo mais eficiente.
E como podemos então fazer isto? Vários estudos demonstraram que a meditação pode conduzir a estados em que o padrão de ondas cerebrais reflecte uma sincronização entre os hemisférios cerebrais. Esta sincronização reflecte um estado especial em que ambos os hemisférios estão activamente envolvidos nas mesmas frequências. Os EEGs de meditadores experientes exibem uma sincronização hemisférica acima do comum bem como a capacidade de atingir estes estados deliberadamente. Ambos os hemisférios podem estar sincronizados em qualquer padrão de ondas cerebrais tais como Alfa ou Theta, ou qualquer outra combinação. Esta característica conduz-nos ao próximo tópico de interesse: os sons ou batidas binaurais.
A melhor forma de explicar os sons binaurais é descrevendo porquê e como são feitos, mas primeiro será melhor abordar um pouco o seu criador. Robert Monroe, o pioneiro das experiências fora-do-corpo, fundou o Instituto Monroe na Virgínia, EUA. Esta é uma organização dedicada ao estudo da consciência e seus estados modificados. Ao longo de anos de pesquisa desenvolveram um processo capaz de alterar sistematicamente os padrões de ondas cerebrais de forma a induzir estados de consciência particulares. Monitorizando os sujeitos em estados alterados, Monroe e os seus colaboradores realizaram experiências com o som para modificar o estado mental de uma forma previsível e controlada. Com o tempo, esta equipa de pesquisadores desenvolveu o processo de criar sons binaurais. Este processo utiliza o princípio da Harmonização acima descrito para conduzir o cérebro a frequências de ondas cerebrais específicas e pré-determinadas.
Criar frequências de sons binaurais é na verdade muito simples, é quase mais fácil fazê-lo do que explicá-lo! Este processo consiste basicamente em aplicar estímulos auditivos em ambos os ouvidos. A ideia é tocar um tom num ouvido e outro tom, ligeiramente diferente, no outro ouvido. Ao processar estes dois tons captados pelo ouvido direito e esquerdo, o cérebro assimila a diferença entre os mesmos e, num efeito de harmonização, entra nesta frequência. Ou seja, se o nosso ouvido esquerdo captar um som com uma frequência de 97 Hz e o direito captar um som com uma frequência de 103 Hz, o nosso cérebro irá percepcionar um diferencial de 6Hz e assim entrará nesta frequência, que se enquadra no intervalo de ondas Theta. De igual forma o nosso comportamento começará gradualmente a alterar-se, entrando num estado de profundo relaxamento e sono.
Ao escutarmos estes sons binaurais podemos percepcionar um tom ondulante (uma espécie de wha wha). O fantástico é que este tom ondulante não está a ser transmitido pelos headphones, este efeito de vibrato é na verdade uma criação da nossa mente, ao sintetizar os dois sons. Quando escutamos um tom num ouvido e outro tom, ligeiramente diferente, no outro ouvido, os hemisférios do nosso cérebro ficam sincronizados e é esta sincronização que produz o tom ondulante.
Demonstração de um padrão de som binaural
Usando esta tecnologia, o Instituto Monroe, e posteriormente outras empresas, desenvolveu uma linha de cassetes e CDs Hemi-Sync (designação da tecnologia de sons binaurais criada e patenteada pelo Instituto Monroe). Usando estes CDs podemos atingir de modo fiável determinados estados de consciência. Existem CDs usando este princípio criados com diferentes propósitos, por exemplo: potenciar a aprendizagem, deixar de fumar, facilitar o sono, promover uma cura mais rápida, induzir sonhos lúcidos e facilitar a ocorrência de experiências fora-do-corpo.
Concluindo, podemos verificar que, devido ao advento da ciência e ao desenvolvimento da tecnologia, a cultura ocidental parece finalmente ter encontrado as suas próprias formas (socialmente aceites) de induzir estados de consciência alterados entre os quais podemos encontrar o sonho, comum ou lúcido. Assim, podemos usar esta tecnologia para nos ajudar a ter sonhos, a potenciar a sua retenção e recordação e até para nos orientar durante os mesmos. Isto é algo que os xamãs ou os monges do Tibete descobriram e fazem desde há séculos usando métodos naturais, no primeiro caso através da ingestão de psicadélicos naturais e no segundo através da meditação e Yoga dos sonhos.
“No meu nascimento [eterno] todas as coisas nasceram e eu fui causa de mim mesmo e de todas as coisas, e se eu o tivesse querido eu não seria, e todas as coisas não seriam, e, se eu não fosse, “Deus” também não seria. Que Deus seja “Deus”, disso eu sou uma causa; se eu não fosse, Deus não seria “Deus”” – Mestre Eckhart, Beati pauperes spiritu...
Ouvi por primeira vez esta canção uma noite de há já vinte e quatro anos num pub chamado El Halcón Maltés, na Corunha. Pires Laranjeira falava de Viriato da Cruz. Era a primeira vez que eu ouvia falar em português tanto tempo e fiquei namorado. Foi este o poema que Pires Laranjeira, brilhantemente, usou para explicar muitas cousas políticas e humanas sobre o poder e a comunicação e suponho que também dos equívocos e mal-entendidos do amor. Aqui o deixo como recordação aos amigos, com um forte abraço para todos. E aproveito também para enviar, novamente, a Saudades, a Luiza e a Isabel o meu reconhecimento pela beleza dos seus escritos ainda que, às vezes, um fique um pouco preocupado pelo sofrimentos ou tribulações dos amigos. Mandei-lhe uma carta em papel perfumado... Por favor, ouçam o Fausto, e um grande beijo e um grande abraço a todos, para todos.
Mandei-lhe uma carta em papel perfumado e com letra bonita eu disse ela tinha um sorrir luminoso tão quente e gaiato como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas espalhando diamantes na fímbria do mar e dando calor ao sumo das mangas
Sua pele macia - era sumaúma... Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas sua pele macia guardava as doçuras do corpo rijo tão rijo e tão doce - como o maboque... Seus seios, laranjas - laranjas do Loje seus dentes... - marfim... Mandei-lhe essa carta e ela disse que não.
Mandei-lhe um cartão que o amigo Maninho tipografou: "Por ti sofre o meu coração" Num canto - SIM, noutro canto - NÃO E ela o canto do NÃO dobrou
Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete pedindo, rogando de joelhos no chão pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigenia, me desse a ventura do seu namoro... E ela disse que não.
Levei á Avo Chica, quimbanda de fama a areia da marca que o seu pé deixou para que fizesse um feitiço forte e seguro que nela nascesse um amor como o meu... E o feitiço falhou.
Esperei-a de tarde, á porta da fabrica, ofertei-lhe um colar e um anel e um broche, paguei-lhe doces na calçada da Missão, ficamos num banco do largo da Estátua, afaguei-lhe as mãos... falei-lhe de amor... e ela disse que não.
Andei barbudo, sujo e descalço, como um mona-ngamba. Procuraram por mim "-Não viu...(ai, não viu...?) não viu Benjamim?" E perdido me deram no morro da Samba.
Para me distrair levaram-me ao baile do Sô Januario mas ela lá estava num canto a rir contando o meu caso as moças mais lindas do Bairro Operário.
Tocaram uma rumba - dancei com ela e num passo maluco voamos na sala qual uma estrela riscando o céu! E a malta gritou: "Aí Benjamim !" Olhei-a nos olhos - sorriu para mim pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
Passaram por aqui tantos bandos de aves que quase taparam o céu. Cada bando seguia em sua direcção, espalhados, disseminados, como pólen pelos ventos da rosa. Levavam vozes. Esperavam silêncio. Moviam as asas em direcção aos lagos, às montanhas, ao deserto; à imensa planura que se põe em fogo para os lados de onde se deita o rei. Da torre Oeste, o mar olhava o céu, o seu refelexo, a sua luz branca. Afinal não caímos no mar, guardamos intactas as gotas na face de uma pérola que brilha no mar tranquilo dos olhos. Mas a terra não chega, a ilha tarda. Do alto da torre e do terraço do mar lembrado adormecem as memórias e os sentidos. Ser a baba da espuma, o respirar da água. Uma saudade divina a saudar o divino corpo dos deuses. Por a terra não chegar nos fomos ao mar, e o mar em nós se foi à ilha que esperava. Ser alma da lembrança, barca do mar a navegar ao leme de uma raíz de luz. À barca! À barca! Pescador de pérolas no coração do mar. Passaram pela torre tantas bandeiras em uma una e única universal e livre. Pátria universal, o mar:templo aberto ao vento da navegação.Embarcai, ó almas que trazeis ao peito uma cruz e uma rosa de saudade. Sobreviventes de todos os desastres, marinheiros de todos os portos; cansados de todas as guerras! É Hora! A ilha chora pelo consolo da Hora, o gesto heróico de nehuma pátria chama. Uma pátria saudosa, a sangrar sobre as feridas da hora tardia. Prefigurando-se ilha, a torre atira ao vento brando, os zéfiros de antes de haver vento. Mesmo antes de haver ilha ela mesmo se fazia espera de si, guardado canto de sereia. E a ilha tinha a forma de um círculo em fogo, e uma pátria morria nessa chama. Antes do aceno dos navios e da viagem. Circumnavegação atenta do sem limite que sonha. É lá!... É lá!... - Gritava a distância. Sorria Amor seus frutos dados. Porque um país que é rosto e fita o longe sempre há-de merecer - segundo o que colher da viagem que se faz no interior de um rio que há-de sempre ser foz- um canto saudoso. Há-de sempre desbravar para além do real, uma ilha coralínea, curvilínea, crisalina e cristalina que, redonda e para além dela, ser, se aproxima em canto à bainha do mar.
Durante três noites escutei o canto do pássaro. Poisado no parapeito da janela ou no fio do estendal, não sei, o pássaro veio prenunciar-te sob a forma de um encanto. Três dias volvidos e apareces-me assim. Foi ao passar por entre as folhas, na perseguição de uma antiga recordação – tinha seis anos e no baloiço pendurado na árvore, uma pomba branca poisou no meu rosto – digo pois, de uma antiquíssima espera, a do Espírito sobre mim, que assim te reconheci.
Vinhas vestida de azul e trazias nos lábios o sagrado mutismo dos infelizes. Vinhas manhã grega em dia de tenebrosa tempestade. Poisada no meu e mesmo chão, sob a forma de um clarão, como um rasgão e como um vaso pleno do que por mim foi esperado, colheste-me em flor de memória em sangue e viva. As flores que nos colhiam, e que os teus pés encobriam, sofrida a espera de uma revelação ou de uma redenção, eram de uma espécie e cor de sangue diferido, transferido, indefinido. As flores cobriam no chão alguém-ninguém que por ti tinha sido ferido ou em ti tinhas sofrido. Foi então que percebendo, sem saber como e por causa de meu nome, Isabel, todo o mistério das rosas, que corri a buscar aquela passagem em mim, que sei sem corpo de texto, da criança pelo espírito tomada. Essa criança, que me percorria e para ti também corria, vinha para ser tornada mulher, primavera e rainha. Vendo-te assim tão próxima, tão etérea, tão quase divina, não parei de tremer, por saber que foi a minha espera que te coroou, foi ela que te transformou em menina, criança e rainha. Assim, pela primeira vez não cega me vias e eu te recolhia, e havia no teu corpo um ser outro do qual também eu – no teu sem nome como a flor da memória – me compadecia. Era do medo, era do segredo, mas era algures e não alhures, que outros sons originais, em nós se percutiam, assim menina, criança e rainha, parecia que ao receber-te ensandecia, desvairada e louca, enquanto escrevia. Era do espanto, era do encanto, mas lentamente se pressentia que a menina, a criança e rainha me sobrevinham de um mundo, para mim ignoto, em que jamais somente se sofria, enquanto eu nas palavras e nos símbolos, num relance súbito, me expandia. Menina, criança e rainha, perguntava, com que asa da infância cobres ainda o meu rosto de medo com outras antigas penas da lembrança? Tu, menina, criança e rainha, nada me respondias. Tinhas a boa fechada e já nada arrolavas. Dos teus lábios cerrados e a meus olhos confinados confiavas o segredo e o medo e eu, sob a divina mania, no pano da escrita perscrutava-te antiga e ouvia, escrevia e, tolhida e recolhida, neste silêncio dentro do tempo, te inscrevia. Era do tempo, era do desalento, que o teu sorriso se escondia, ele que preso à mão do inverno lentamente te arrefecia e por dentro do teu rosto o esmaecia. Era eu quem, menina, criança, rainha, to pedia para o depor junto ao canto dos pássaros e da rima da poesia. O teu sorriso, menina, criança e rainha ainda dentro te ti ressurgia. Era para dentro de ti que a escrita ria e fugia. Escrita dançarina que contigo se envolvia em movimento-vento, em movimento-lento. As duas tristes dançarinas insufladas pelo vento pairavam sob o poema-canto, no canteiro, no poema com a forma de um campo-campa. As duas dançarinas, a escrita e a rainha, acompanhavam os passos em luta, em luto, do poema em que os mortos e os vivos renasciam. E eram penas o que assim, da escrita saía e na saia da dançarina, docemente nos envolvia. A das aves e a dos mortos. Era como rosto e como corpo, mas já sem desgosto, que assim toda inteira e rarefeita, em castas gotas, me surgias e ungias, a pobre que assim escrevia e te recebia. O poema que da flor da terra remanescia eras tu, menina, criança, rainha, propulsionadora, no meu pulso do impulso, no curso do decurso, da escrita como incerta cartografia e caligrafia das lágrimas na paisagem de um rosto refeito do desgosto. Tu, quase divina em nós, sobre mim descias e comigo, aos céus, subias. Durante três noites escutei o canto do pássaro que vinha do mar – também tu de lá vinhas coberta de lágrimas e escamas, sereia, criança e rainha –, durante três dias escrevi em pranto, em flor de memória e impotente, contra a força da Palavra, mas em vão, Menina (!), o pássaro escrevia agora com os movimentos da minha mão. O pássaro, que vem do mar e se reveste da espuma da onda e só em canto do silêncio se pronuncia, vinha sobre mim como um símbolo que enfim se aproximava para me chamar e ao fundo da arca da Língua me entregar. Eu que nunca compreendi o mundo, eu que nunca contei o tempo, eu que sempre caminhei na direcção do vento, era assim daqui roubada e, de súbito, raptada para o interior de uma aparição, para o esplendor de uma transfiguração. Roubada ao mundo e ao tempo, presa a uma asa de escamas e imersa numa saia de arcaicas lamas, entregava a vida ao movimento enamorado do olhar da alma com a mão. Comum à escrita, na viagem dentro da arca, levavas-me sem rumo por entre o fumo, para além daqui, Além, para em mim cumprir a tarefa espiritual de a vida e a morte renomear e cantar. Dentro de ti serei(a) a que, cantando o verbo morto, deixará o poema renascer e como a flor, reflorescer. É enquanto as rolas arrolam e os cabelos se enrolam que a voz cantando, semeia no corpo, terra canteiro, o poema. Canto em Língua pura, pátria imemorial para os mortos que florescem. O poema, revelas, é a outra eucaristia.
Para a Luíza e para a Sereia. A quem devo a partilha do incomunicável e da verdade. Para as duas chega muito atrasado, bem sei, mas é só numa certa contagem do tempo. Este texto é para o tempo incontável a que chamaremos outros nomes. Uma breve nota também de agradecimento ao João Serra que me ofereceu a fotografia de uma certa composição em que se escreve para haver entrega aos outros, na absoluta entrega e confissão do que se é aos Amigos.
1- Coroação (Coroa do Espírito Santo a ser oferecida a SS o Dalai Lama)
(foto: Adama)
The King of Gaps
There lived, I know not when, never perhaps - But the fact is he lived - an unknown king Whose kingdom was the strange Kingdom of Gaps. He was lord of what is twist thing and thing, Of interbeings, of that part of us That lies between our waking and our sleep, Between our silence and our speech, between Us and the consciousness of us; and thus A strange mute kingdom did that weird king keep Sequestered from our thought of time and scene.
Those supreme purposes that never reach The deed between them and the deed undone He rules, uncrowned. He is the mistery which Is between eyes and sight, nor blind nor seeing. Himself is never ended nor begun, Above his own void presence empty shelf All He is but a chasm in his own being, The lidless box holding not-being's no-pelf. All think that he is God, except himself.
- Fernando Pessoa, Poesia Inglesa, I, edição e tradução de Luísa Freire, Lisboa, Assírio & Alvim, 2000, p.280.
"[...] cada vez mais o homem se tem posto e considerado [...] no mundo como o dono do mundo, com o direito de destruir os animais e as plantas, de escravizar os irmãos homens, de transformar a vida inteira nalguma coisa que não tem outro fim senão o de sustentar a sua vida material" - Agostinho da Silva
"A verdadeira bondade do homem só pode manifestar-se em toda a sua pureza e em toda a sua liberdade com aqueles que não representam força nenhuma. O verdadeiro teste moral da humanidade (o teste mais radical, aquele que por se situar a um nível tão profundo nos escapa ao olhar) são as suas relações com quem se encontra à sua mercê: isto é, com os animais. E foi aí que se deu o maior fracasso do homem, o desaire fundamental que está na origem de todos os outros"
- Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, tradução de Joana Varela, Lisboa, Dom Quixote, 2000, p.329.
"Quanto aos homens, penso assim: Deus os põe à prova para mostrar-lhes que são animais. Pois a sorte do homem e a do animal é idêntica: como morre um, assim morre o outro, e ambos têm o mesmo alento; o homem não leva vantagem sobre o animal, porque tudo é vaidade.
Tudo caminha para um mesmo lugar:tudo vem do pó e tudo volta ao pó"
- Eclesiastes, 3, 18-20.
"Por isso rogamos a Deus que de "Deus" nos livremos e acolher e fruir eternamente a verdade aí onde são iguais os anjos mais elevados, a mosca e a alma, aí onde me mantinha e queria o que era e era o que queria"
"Na Holanda discute-se agora, alto e bom som, se os animais são máquinas. As pessoas até se divertem a ridicularizar os cartesianos, por estes conceberem que um cão que é agredido emite um som que é similar ao de uma gaita de foles quando é comprimida"
- G. W. Leibniz, Carta de 1648 a Ehrenfried Walter von Tschirnhaus, in G. W. Leibniz, Philosophical Papers and Letters, Dordrecht, Reidel, 1969, pp.275-276.
“A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser avaliados pela forma como trata os seus animais” - Gandhi
Caminho da Serpente
Sem porquê nem para quê, revolvem-se ventos eternos num espaço infinito. Puro jogo de nada-tudo acontecer. A cegueira de o não ver dá nome e forma, nascer e morrer, ao incriado.Assim me disseram que nasci e existo. Assim acreditei. Cresci vendo-me pele-vermelha a cavalgar nos planaltos livres e selvagens. Depois foram as pontes: tanta excitação quando atravessava uma ponte, sobre as águas ! Adolesci em romantismo e revolta: vislumbre do amor absoluto, conjunção esplendorosa dos amantes no espaço constelados a romper e inflamar todas as coisas; insurreição de cada um e de todos contra a falsa ordem do mundo, pela anarquia e a liberdade. Gritei-o nos palcos, vocalista sem saber cantar, embriagado de insubmissão, em plena fúria punk: queria ver "Lisboa a arder", a arder da Paixão que morria e morre no tédio da vida normalizada e medíocre, mesmo após um ensaio de revolução. Foram os Minas & Armadilhas: desejo de fazer explodir o universo. Nas pausas do Apocalipse e das descidas ao Inferno, em busca da Perséfone que sempre se desvanecia, nos intervalos de mortes e ressurreições múltiplas, estudei Filosofia, onde hoje ensino. Metamorfose da Arqueologia, pois afinal o que nela procurava era o Princípio (Arché), o Primordial, a fonte primeira e última de tudo. Um dia, há mais de um quarto de século, descobri Portugal, a luz de Lisboa e seus miradouros, a barra do Tejo e suas Ninfas, o finisterra atlântico e suas Musas, a sibilina e amorosa língua das Cantigas d'Amigo, de Gil Vicente e Camões, de Vieira, Pascoaes e Pessoa, o Fado cantado e vencido. Estive a 4 de Agosto, com amigos, em Alcácer-Quibir, no ano em que fazíamos 24 anos, a data em que o Desejado se converteu, com a mesma idade, em Encoberto. Descobri Portugal e seu fundo arcaico, a infinita possibilidade aberta sobre a persistente mediocridade e estreiteza da sua vida social e institucional: Ophyussae, a Terra das Serpentes, Oestrímnia, o estro, o transe criador, Lusitânia, a i-lusão dissolvente e libertadora, o V Império, Império do Santo Espírito, arrepio de abraço armilar e fraterno, sem Imperador que não seja a Eterna Criança que somos. Conheci Agostinho da Silva e a filosofia portuguesa, razão atlântica e poética, aberta à alteridade e ao sagrado. Descobri Portugal, a Saudade e com ambos o caminho extremo-ocidental para o Oriente, exterior, interior e secreto, para a Ecúmena e o Infinito. Dei por mim na via budista tibetana, a contribuir para trazer ao finisterra atlântico a sabedoria dos Himalaias que desde António de Andrade demandamos. Uma via para além de todas as ilusões. Sobretudo a de haver vias e quem as percorra, de haver de onde e para onde. Sim, sempre que veja o Buda, mato-o ! Para que assim morra a dualidade que me ofusca. Não o deixo fora de mim, para que de mim me liberte. Assim Cristo pede aos cristãos, que o devorem e por ele sejam assimilados. Tive filhos, da carne e do espírito. Vivi muitas coisas. Fui devorado e parido, repetidas vezes, das entranhas de uma Serpente em chamas. Hoje sei que desde tempos sem início durmo e sonho, em tua companhia, ó universo ! Esfrego os olhos e tento despertar. O que tarda, porque o sono é muito: vem desde a eternidade, vestido de ignorância e egoísmo. E assim, sonâmbulo e trôpego, verto fortuitos acessos de loucura e lucidez em muitas e desvairadas coisas: orar e meditar, estudar e ensinar, traduzir, escrever poesia, filosofia, romance e teatro, promover associações, conspirar movimentos, construir pontes, rasgar horizontes. "Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva" e "Folia. Mistério de uma Noite de Pentecostes" contêm para já o essencial do que tenho a dizer e propor. Se agora morresse, estaria quanto a isso tranquilo.Conspiro um movimento de libertação universal, que também assuma todo o potencial de sabedoria, amor e universalidade da cultura portuguesa e lusófona, vocacionada para ser uma cultura alternativa, especializada em diálogos, pontes e mediações planetárias. Um movimento que contribua para o que mais importa: a Revolução profunda, que desde sempre urge e tarda, a Revolução do Despertar, a Revolução do desencobrir o Infinito em si e em tudo, no apocalipse de todas as máscaras. Revolução ! Aqui e Agora. Já ! Para o bem de todos os seres vivos, nossos irmãos e irmãs, nossos pais e mães, nós mesmos, desde o não haver início. Para que vivamos o mundo como, no fundo sem fundo, é: Jogo puro, livre e insubstancial, Festa para a qual todos são convidados, eterno e infinito Jardim de Delícias.
Que a Serpente ganhe asas e, dançando no espaço, de si e de tudo se dispa !
ACTIVIDADES
Se estiver interessado em Cursos de Introdução à Meditação Budista e ao Budismo, bem como sobre outros temas, como Religiões Comparadas, Fernando Pessoa, Mestre Eckhart, Saudade, Quinto Império, contacte: 918113021.
LIVROS - PAULO BORGES
Escrever como quem despe peles até se despir de si e desaparecer na aparição de tudo...
Ensaio filosófico, antologias e livros organizados:
1 - Agostinho da Silva - Dispersos (apresentação e organização), Lisboa, ICALP, 1988; 1989 (2ª edição). 2 - A Plenificação da História em Padre António Vieira - estudo sobre a ideia de "Quinto Império" na "Defesa perante o Tribunal do Santo Ofício", Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1995. 3 - Do Finistérreo Pensar, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2001. 4 – Pensamento Atlântico. Estudos e ensaios de pensamento luso-brasileiro, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002. 5 - Obras de Agostinho da Silva - Textos e Ensaios Filosóficos - I (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 1999; Lisboa, Círculo de Leitores, 2001. 6 - Obras de Agostinho da Silva - Textos e Ensaios Filosóficos - II (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 1999; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 7 - Obras de Agostinho da Silva - Ensaios sobre Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira - I (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 2000; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 8 - Obras de Agostinho da Silva - Ensaios sobre Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira - II (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora, 2001; Lisboa, Círculo de Leitores, 2002. 9 - Obras de Agostinho da Silva – Estudos sobre Cultura Clássica (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2002. 10 - Obras de Agostinho da Silva – Estudos e Obras Literárias (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2002. 11 - Obras de Agostinho da Silva – Textos Vários. Dispersos (organização e estudo introdutório), Lisboa, Âncora Editora, 2003. 12 - (Com Matthieu Ricard e Carlos João Correia) O Budismo e a Natureza da Mente, Lisboa, Mundos Paralelos, 2005. 13 – Agenda 2006. Agostinho da Silva (introdução geral, selecção de textos, introduções específicas e coordenação editorial), Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2005. 14 - Agostinho da Silva. Uma Antologia (organização e introdução), Lisboa, Âncora Editora, 2006. 15 – Tempos de ser Deus. A espiritualidade ecuménica de Agostinho da Silva, Lisboa, Âncora Editora, 2006. 16 - O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa (organização, com Duarte Braga), Lisboa, Ésquilo, 2007. 17 - Agenda 2008. Padre António Vieira (introdução e selecção de textos), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007. 18 - A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido (aforismos), Sintra, Zéfiro, 2008. 19 - Princípio e Manifestação. Metafísica e Teologia da Origem em Teixeira de Pascoaes, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008. 20 – Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008. 21 - A Pedra, a Estátua e a Montanha. O Quinto Império no Padre António Vieira, Lisboa, Portugália, 2008. 22 - O Jogo do Mundo. Ensaios sobre Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa, Lisboa, Portugália, 2008. 23 - A Dor de Deus. Homogeneidade, Diferenciação e Reintegração em Sampaio Bruno, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda (no prelo).
Romance:
Línguas de Fogo. Paixão, Morte e Iluminação de Agostinho da Silva, Lisboa, Ésquilo, 2006.
Teatro:
Folia. Mistério de Pentecostes em três actos, Lisboa, Ésquilo, 2007.
Conto:
A Hieródula, Setúbal, Plurijornal, 1992.
Abertura de "Línguas de Fogo"
AVISO
Esta é a história e o romance da minha e das vossas vidas, caros leitores. Não porque seja uma boa história e um bom romance – vós o sabereis, não eu - , mas porque é a história e o romance do despertarmos de haver nascer e morrer, vida e morte, ser e não ser. A história e o romance do despertarmos da história e do romance de existirmos ou não, de sermos ou não alguém. A história e o romance do Despertar. O Despertar de todos nós no Despertar de alguém que foi um pouco e um muito de todos nós: Agostinho da Silva. Um dos maiores turbilhões de vida, pensamento e acção que têm vindo desinquietar este mundo onde quase todos acima de tudo procuramos a paz do cemitério da vida fácil, fútil e sem sentido. Nascido há um século, após escolher no céu o lugar de nascer na terra, partiu há doze anos, na madrugada do Domingo da Ressurreição. Esta é a história do que nesse momento e a partir daí lhe aconteceu. A história do que nesse momento e a partir daí nos aconteceu. A história do que nesse momento e a partir daí te aconteceu, leitora e leitor. Pois, queiras ou não, gostes ou não, estás aqui, na mais funda e incandescente substância deste livro. E contigo todas as coisas. É tarde de mais ! Tudo o que aqui acontece em ti e no mundo acontece. Mesmo que agora mesmo o largues e devolvas à estante de onde nunca o deverias ter tirado. O que vivamente te aconselho. Duvido é que o consigas. Esta é a história da paixão, morte e iluminação de Agostinho da Silva. A nossa paixão, morte e iluminação e a de todas as coisas. Tudo o que aqui se narra é absoluta e rigorosamente verdadeiro. A realidade e a verdade é que o podem não ser. Seja como for, não escrevo senão o que vejo, ouço, sinto e sei. As entranhas secretas do mundo e da realidade, as entranhas da nossa ilusão, ignorância e maldade e da nossa desilusão, sabedoria e bondade, intimamente entrelaçadas na oculta e libertadora metamorfose de algo a que se chamou Agostinho da Silva. Sim, se quiseres ler este livro tens de estar preparado para te leres e veres ao espelho, vendo que ele afinal não existe e no mais fundo do ser se te dissolve. Tens de estar preparado para leres e veres, intimamente e sem anestesia, aquilo que te desconheces ou que pretendes acima de tudo ocultar. Dos outros e, fundamentalmente, de ti próprio. Tens de estar pronto para visitares todas as mais recônditas possibilidades da vida, da morte e do que há para além de vida e morte. Todas as tuas mais fundas possibilidades, incluindo o que há em ti para além de ti mesmo. Tens de estar pronto para te despires. De tudo e de ti próprio. E sobretudo da ideia de que não andas sempre nu. Se é isso que por esta via queres, tens de acompanhar Agostinho. Tens de agarrar com coragem e firmeza a mão que ele, generoso e forte, agora mesmo te estende e deixá-lo guiar-te, de olhos e coração bem abertos, ao longo da estreita e larga via que percorreu e infinitamente percorre, sempre que haja quem com ele queira ir. Quem com ele queira entrar no real e na sua ilusão, descer às suas alturas e subir às suas funduras, explorar as suas veredas e sendas mais inóspitas. É isso que desejas ? Tens a certeza !?... Não será melhor pousares o livro e regressares ao que te acarinhe, console e distraia ? Se é isso que queres eu vou contigo. Farei de novo e infinitas vezes a viagem. Agarraremos juntos a mão do Professor e caminharemos a seu lado, quem sabe se dele e de mais do que ele inseparáveis. Mas não te esqueças: temos de estar prontos para tudo ! Viver, sentir e ver tudo o que há para ver, viver e sentir. A começar pelo que mais deixamos para os chamados “outros”: a dor, a morte e o inferno. Só pela sua experiência em carne viva, para dela libertarmos a todos, ressuscitaremos com Agostinho para a vida e, porventura, dependendo da nossa sabedoria, coragem e amor, para algo além ainda da vida. Mas não esperes que te conte tudo o que vais encontrar. Jamais o faria, mas a verdade é que não posso. Não te posso dizer o que só por ti, despido de ti, encontrarás. Se ainda quiseres, vem então. Entra comigo e com Agostinho neste romance ilusório e verdadeiro, sisudo e louco, contemplativo e insurrecto, onde te arriscas a tudo, incluindo gozar e sofrer, chorar e rir, perderes-te e encontrares-te. E se quiserem vir muitos, de uma só vez, venham pois ! Agostinho tornou-se forte, extremamente forte, e bem aguenta puxar-nos a todos para o fundo de nós mesmos. Para o sem fundo de si, onde já estamos todos, dele e de nós despidos. Se vão gostar ou não, não sei e em absoluto não me importa. Não escrevi para o vosso nem para o meu prazer. Por isso o fiz com todo o deleite e todo o incómodo. Embora num sentido prefira que não gostem. E até ache que em muitas páginas fiz tudo por isso. Pois assim serão mais livres. Mais livres de mais um livro e de mais um autor. Mais livres de se distraírem a idolatrar algo e alguém, esquecendo-se do que verdadeiramente importa em vocês próprios. Se quiserem abandonar os vossos berços e os vossos túmulos venham então. De outro modo não comprem nem leiam o livro. E, se o comprarem e lerem, esqueçam-no e destruam-no o mais depressa possível. Porque esta é, repito e acrescento, a história e o romance das nossas vidas e das nossas mortes, a história e o romance da nossa libertação e do nosso Despertar de haver vida e morte, e isto não se conta, nem escreve, nem pode conter-se em livros. Avisei-vos. Se ainda quiserem vir, dispam-se, não ponham cintos de segurança e não se queixem.
LIVROS INTERESSANTES
LES FOUS D’AMOUR Au Moyen Âge. Orient-Occident
ISBN : 978-2-296-04535 ; Prix 38 € ; 332pages
Être fou d’amour, aimer jusqu’à la folie ! Cette expérience des extrêmes engendre des œuvres d’art. Parole poétique, parole chantée, parole mise en scène…, l’amour, la folie d’amour ne peuvent se dissocier du « chant ».
L’Occident déteste perdre la tête, privilégie le libre arbitre, le contrôle de soi par la raison. Le Fou d’amour qui se perd lui-même au profit d’un autre n’est plus prisé car la valeur prédominante est la stabilité du sujet qui garantit la stabilité de l’individu dans une catégorie de comportements admis, propres à son rang. La maîtrise de soi au moyen de la conscience rationnelle est vue comme la condition même de l’homme éveillé.
Au Proche-Orient, la folie d’amour est l’occasion privilégiée d’approcher l’Unicité divine. L’amour et la beauté sont les plus formidables « éveilleurs » car ils poussent le petit ‘moi’ hors de lui-même. Même relégué au désert, le Fou d’amour est celui qui court la plus haute aventure réservée à l’humain. La folie d’amour conduit le ‘moi’ à son extinction : elle réveille l’homme pseudo éveillé de son sommeil égotique, elle lève le voile qui le séparait de sa propre divinité.
Entre ces deux attitudes de l’Occident et de l’Orient médiévaux, se dessinent de nombreux ponts : les mystiques en sont le plus lumineux.
Claire Kappler, chargée de recherche au CNRS, médiéviste et orientaliste, spécialiste de littérature persane classique, se consacre aux comparaisons entre les cultures du Moyen Âge européen et proche-oriental.
Suzanne Thiolier-Méjean, professeur à l’Université Paris IV – Sorbonne, spécialiste de littérature médiévale occidentale, en particulier en langue d’Oc. A publié des ouvrages sur l’Alchimie.
Peinture de couverture : Isabelle Bazinet, Ó « Les jaillissements de lumière » Graphisme : Pascal Auffinger
LES FOUS D’AMOUR, TABLE DÉDICACE INTRODUCTION Introduction I- AXES ET PERSPECTIVES FOLIE ET RAISON D’AMOUR Philippe Ménard Folie et folie d'amour au Moyen Âge Suzanne Thiolier Qui ama desena « qui aime perd la raison » : la folie d’aimer chez les troubadours Jean-Marie Fritz Translatio stultitiæ Les fous de Dieu entre Orient et Occident Vincent Déroche Byzance a-t-elle eu ses fous d'amour ? Johann Christoph Bürgel L'amour fou chez les Arabes au début de l'Islam Manijeh Nouri-Ortega L'enchantement, la stupéfaction : miroirs de la folie d'amour dans la littérature persane II- ERRANCES ET VÉRITÉ S DU MIROIR SE TROUVER ET SE PERDRE EN L’AUTRE Mireille Séguy Amour fou et folie d’amour dans le Chevalier au lion de Chrétien de Troyes :;de la métaphore poétique au récit romanesque Leili Anvar-Chenderoff L’amour de Majnûn pour Leyli : folie ou sagesse ? Fabienne Pomel L’Écho et le masque : le fou d’amour dans la logique du double et la crise de la communication (Narcisse, Écho, Tristan, Lancelot) Charles-Henri de Fouchécour Le narcisse qui rend fou, selon Hâfez, poète lyrique persan du XIVe siècle Dominique Demartini-Franzini Folie d’amour, folie de mots dans le Tristan en prose :« plus fou même que celui qui s’en va jetant des pierres dans l’eau … » III- ALCHIMIE ET FOLIE D’AMOUR AU PAYS DU CONTE Éric Phalippou Le fou d'amour et la femme noire : ou comment l'Europe s'est approprié un conte indo-persan sur la possession IV- ÊTRES SINGULIERS AU CREUSET DE L’AMOUR FOU David Williams Folle d'amour, sage d'amour : l’amour de Thècle pour l’apôtre Paul Brigitte Saouma Aimer sans mesure : le thème de l’âme-épouse chez Bernard de Clairvaux Dominique de Courcelles Discours de la folie d’amour et discours sur la folie d’amour : la folie d’amour dans quelques œuvres de Raymond Lulle, « homme qui follement parle » Leo Carruthers La sainte folie : Margery Kempe, mystique ou malade ? Claire Kappler La Zoleikhâ de Jâmî : comment une folle d’amour devient maître spirituel V- AU-DELÀ DE LA FOLIE L’ESSENCE DE L’AMOUR Jad Hatem Majnun et sa folie d'amour : je suis Layla Catherine Guimbard « I fedeli d’Amore » : une mystérieuse secte ? Leila Khalifa Dévoilement (Folie) et voilement (Fidélité) dans l’amour chez Ibn ‘Arabî :le fou et le fidèle au secret de Laylâ Ève Feuillebois-Pierunek Désirer la séparation d’avec l’aimé, folie ou sagesse ? L’exemple de ‘Erâqi, poète persan du XIIIe siècle Alain Sainte-Marie L’amour qui fait aimer l’amour. Dans le Nuage de l’Inconnaissance Paul Ballanfat L’amour et l’itinéraire spirituel chez Najm al-dîn Kubrâ CONCLUSION Résumés des communications (en français) Abstracts (en anglais) Les auteurs REMERCIEMENTS www.harmattan-editions.fr