O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 12 de março de 2008

O Incrível e incomparável Nasrudim

Para um galego a apresentação do Mullah Nasrudim é quase inevitável. A figura do parvo-louco-sábio tem muito da nossa Galiza. De facto muitas das suas histórias já as tinha ouvido dos lábios do meu avô mas tendo como protagonista ao inefával e saudoso Pir-i-Lampo, um protótipo de ares celtas e gaitas ao vento. Quiçá a única diferença seja certo quixotismo meigo do nosso Pir, algo ensonhador demais e com certas teimas metafísicas que ele próprio se encarrega de boicotear à beira de um copo de vinho Amandi e uma lareira perdida nas montanhas do Courel. Lá, perto d’O Cebreiro (onde se diz que está escondido ainda o Santo Graal) ouvi as suas sentenças e flechas enquanto encenava para mim umas anedotas vestido à moda dos bobos da corte medievais. Mas, enfim, essa é uma história que algum dia contarei, mas é agora outra história e deve deixar-nos aqui. Vejamos algumas das iluminadas histórias do INCRÍVEL E IMCOMPARÁVEL MULLAH NASRUDIM que segundo me contaram anda pelo Brasil e de lá não quere sair. Enfim, como ele diz: “Desfruta ou tenta aprender, chatearás alguém. Não o faças e chatearás alguém”


Como Nasrudim criou a verdade

"Estas leis não tornam melhores as pessoas", disse Nasrudim ao Rei; "elas devem praticar certas coisas de forma a sintonizarem-se com a verdade interior, que se assemelha apenas levemente à verdade aparente."

O Rei decidiu que poderia fazer que as pessoas observassem a verdade – e o faria. Ele poderia faze-las praticar a autenticidade. O acesso a sua cidade era feito por uma ponte, sobre a qual o Rei ordenou que fosse construída uma forca. Quando os portões foram abertos ao alvorecer do dia seguinte, o Capitão da Guarda estava postado à frente de um pelotão para averiguar todos os que ali entrassem. Um édito foi proclamado: "Todos serão interrogados. Aquele que falar a verdade terá seu ingresso permitido. Se mentir, será enforcado."

Nasrudim deu um passo à frente.

"Aonde vai?"

"Estou a caminho da forca", respondeu Nasrudim calmamente.

"Não acreditamos em você!"

"Muito bem, se estiver mentindo, enforquem-me!"

"Mas se o enforcarmos por mentir, faremos com que aquilo que disse seja verdade!"
"Isso mesmo: agora sabem o que é a verdade: a sua verdade!"


O Tolo que era Sábio

Todos os dias o Mullah Nasrudin ia esmolar na feira, e as pessoas adoravam vê-lo fazendo o papel de tolo, com o seguinte truque: mostravam duas moedas, uma valendo dez vezes mais que a outra. Nasrudin sempre escolhia a menor. A história correu pelo condado. Dia após dia, grupos de homens e mulheres mostravam as duas moedas, e Nasrudin sempre ficava com a menor. Até que apareceu um senhor generoso, cansado de ver Nasrudin sendo ridicularizado daquela maneira. Chamando-o a um canto da praça, disse:

Sempre que lhe oferecerem duas moedas, escolha a maior. Assim terá mais dinheiro e não será considerado idiota pelos outros.

O senhor parece ter razão, mas se eu escolher a moeda maior, as pessoas vão deixar de me oferecer dinheiro, para provar que sou mais idiota que elas. O senhor não sabe quanto dinheiro já ganhei, usando este truque. Não há nada de errado em se passar por tolo, se na verdade o que você está fazendo é inteligente. Às vezes, é de muita sabedoria se passar por tolo e é muito melhor passar por tolo e ser inteligente do que ter inteligência e usar fazendo tolices.

"Os sábios não dizem o que sabem, os tolos não sabem o que dizem!"

Afastando tigres

Certo dia ele estava jogando migalhas de pão em torno de sua casa. Um vizinho que passava perguntou:
Mullah, porque você está fazendo isso?

Ah, eu faço isso para manter os tigres afastados, explicou Nasrudim.

Mas não há tigres nesta região!

Eficaz, não é? Conclui Nasrudim."


Casamento


Nasrudim estava proseando com um conhecido , que lhe indagou:

Mullah, responda-me, você nunca pensou em se casar?

Sim, claro que já. Quando eu era jovem, determinei-me a achar o meu par perfeito. Cruzei o deserto, cheguei em Damasco, e conheci uma mulher belíssima e espiritualmente muito evoluída; mas as coisas triviais, do dia a dia, a atrapalhavam.

Mudei de rumo e lá estava eu, em Isfahan; ali pude conhecer uma mulher com dom para as coisas materiais, da vida caseira, e além disso se mostrou muito espiritualizada. Porém, carecia de beleza física. Pensei: o que fazer?

E resolvi ir ao Cairo. Lá cheguei e logo fui apresentado a uma linda jovem, que também era religiosa, boa cozinheira e conhecedora dos afazeres do lar. Ali estava a minha mulher ideal.

Entretanto você não se casou com ela. Porquê?

- Ah, meu amigo. Entretanto ela buscava o seu homem ideal.




O anúncio

Nasrudim postou-se na praça do mercado e dirigiu-se à multidão:

Ó povo deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço, progresso sem sacrifício?

Logo juntou-se um grande número de pessoas, com todo mundo gritando:
- Queremos, queremos!

Excelente! Era só para saber. Podem confiar em mim, que lhes contarei tudo a respeito, caso algum dia descubra algo assim.


O sermão de Nasrudim

Certo dia, os moradores do vilarejo quiseram pregar uma peça em Nasrudim. Já que era considerado uma espécie meio indefinível de homem santo, pediram-lhe para fazer um sermão na mesquita. Ele concordou. Chegado o tal dia, Nasrudim subiu ao púlpito e falou:

Ó fiéis! Sabem o que vou lhes dizer?

Não, não sabemos

Enquanto não saibam, não poderei falar nada. Gente muito ignorante, isso é o que vocês são. Assim não dá para começarmos o que quer que seja - disse o Mulla, profundamente indignado por aquele povo ignorante fazê-lo perder seu tempo.

Desceu do púlpito e foi para casa. Um tanto vexados, seguiram em comissão para, mais uma vez, pedir a Nasrudim fazer um sermão na Sexta-feira seguinte, dia de oração.

Nasrudim começou a pregação com a mesma pergunta de antes. Desta vez, a congregação respondeu numa única voz:

Sim, sabemos

Neste caso não há porque prendê-los aqui por mais tempo. Podem ir embora.
E voltou para casa. Por fim, conseguiram persuadi-lo a realizar o sermão da Sexta-feira seguinte, que começou com a mesma pergunta de antes.

Sabem ou não sabem?

A congregação estava preparada.

Alguns sabem, outros não.

Excelente - disse Nasrudim - então, aqueles que sabem transmitam seus conhecimento para àqueles que não sabem.

E foi para casa.



O barco e o homem letrado

Em dada ocasião, Nasrudim estava em um barco com um homem letrado, quando o Mullá disse algo que contrariava as regras gramaticais:

Você nunca estudou gramática? - perguntou o estudioso.

Não, nunca - respondeu Nasrudim.

Nesse caso, metade de sua vida se perdeu - retrucou outro.

Nasrudim ficou em silêncio durante algum tempo, quando finalmente falou:

Você nunca aprendeu a nadar? - disse o Mullá ao homem letrado.

Não, nunca - este respondeu.

Então, nesse caso, toda a sua vida se perdeu. Estamos afundando.







O meu cão

Olá, este é o meu cão!

O caminho da Serpente

Nada é maior do que o infinito, pois ele é amor. Mas o que é o amor?

Desculpem mandar mais um post ...

... Nao quero encher-vos a paciencia em demasia, mas queria chamar-vos a atencao para esta citacao de um texto desconhecido que alguem deixou na seccao de comentarios.

Desculpem se as minhas palavras tem ultimamente parecido muito amargas, mas e que estou numa fase em que questiono o valor e a utilidade dos "intelectuais" (eu incluida) e das ocupacoes ligadas a vida da mente.

Na melhor das hipoteses podemos ser bons mentores e ajudar que outros realizem os seus sonhos (ja diz aquele proverbio Americano que "quem pode, faz. Quem nao pode, ensina ou escreve."). Na pior das hipoteses, somos talvez a classe mais inutil a face da Terra.

«O saber não é um sistema de tapa-buracos. Por isso, aqueles que parecem saber tudo, ou saber muito, como quem colecciona cromos e anseia completar o álbum já pensando no próximo, nos sufocam porque são um muro sem poros - a-poros, ou seja, «sem saída» (aporia) - para os outros. Mas, olá, também são para eles. E só sobrevivem porque o seu pensamento-prótese-inteligível já está morto. E vivem com ele como companhia. Pensamento feito simulacro («phantasma» em grego) que, porque sem se dar conta disso se supõe - como puro inteligível - seu inimigo (do simulacro). Saber e pensamento frios que não respiram. Ou respiram muito mal. De tão mofos que estão. Eis o pensamento e o saber de sebenta. Não há vacinas para isto. Pode-se contrair e curar. Mas há doentes crónicos. Zombies que andam por aí. Ou cyborgs antiquados que converteram o pensamento dos "fundamentos últimos" numa prótese inteligível. Fazendo-se filhos adoptivos de Platão. Cujo saber e pensar se filiaram definitivamente no sabido e no pensado.» 
Mas quando esses funcionários taparem todos os buracos, cuidado, pois é a nós que eles - os de pensamento morto e frio - querem sufocar. 
Atiram para cima da gente um muro de pedra disfarçado de ar e um muro de ar disfarçado de pedra. Mas o problema não é o muro de pedra ou o muro de ar..."


Se pensamos por medo e agredimos a realidade com o conceito de haver ...

... nao sera muito melhor passar o resto do tempo que dura a ilusao de estarmos vivos sentados no sofa a adormecer o cerebro com "reality shows"?

Sera que ...

... nao querer morrer sem viver x, y ou z e ter pena de morrer antes de viver essas coisas, e sinal de apego?

You're fired

Hoje fui despedido do trabalho. Não estou triste. É da maneira que vou voltar para o meu querido Alentejo, para junto do meu querido cão. Encontrarei de novo, lá, o equilíbrio e dedicar-me-ei a procurar a paz que, em momentos de paz, tão fortemente almejo. Paz para todos.

Triste, mas não mortal

É com a maior das humildades que escrevo os textos que publico neste blogue. Não me julgo superior ou inferior aos outros, mas igual, enquanto ser humano e diferente, em muitos aspectos das nossas vivências. Por exemplo, considero-me mais ignorante do que a maioria das pessoas já que esqueci a maior parte dos assuntos que aprendi no liceu, desde História às Ciências.

No entanto, nunca pensei que a minha participação neste espaço pudesse ser tão polémica, ao ponto de, praticamente a cada post, receber comentários muito negativos, alguns chegando mesmo a ser insultuosos, se eu assim o quiser. Na verdade, penso não ter escrito nada que relegasse para esse tipo de reacções, já que o que escrevi foram, essencialmente, uma série de conjecturas, prontas a ser refutadas.

Se escrevi, ontem, um argumento, foi porque penso que os argumentos são uma boa forma de chegarmos à verdade, objectivamente, e porque, de certo modo, esperava que os leitores pensassem sobre o assunto e que se gerasse uma discussão saudável, prós e contras, relativamente ao que foi dito. Infelizmente, a maioria dos leitores não teve a maturidade suficiente para discutir o assunto e, quem sabe, juntos chegarmos à verdade, ou dela mais nos aproximarmos.

E isso deixa-me bastante triste, porque vejo que as pessoas não estão preparadas para discutir ideias mas, apenas, a aceitar de bom grado aquilo que vai de encontro às suas expectativas e, nesse sentido, estão muito apegadas às mesmas.

Triste, mas não mortal.

O espectro hitleriano na filosofia

Um texto interessante de Rolando Almeida, sobre a filosofia no pós-guerra.

Algures no mundo...

Algures no mundo... é noite numa praia paradisíaca, deserta, de areia fina, repleta de palmeiras, e nada mais se ouve senão o leve som do mar que, calmo, acaricia a costa.

as bird wings

"Your hand opens and closes
and opens and closes
if it were always a fist
or always stretched open
you would be paralysed;
your deepest presence is in
every small contracting and expanding
the two as beautifully balanced and coordinated
as bird wings"

Rumi

terça-feira, 11 de março de 2008

Pensamos por medo. E agredimos a realidade com o conceito de a haver.

Um argumento a favor do eu ser consciência

Ser eu é ser para si.
Só a consciência pode ser para si.
Ser eu é ser consciência.

Este é um argumento válido, é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa; é consistente, é possível que ambas as premissas sejam verdadeiras; mas será sólido (válido com premissas verdadeiras)? A questão é: serão as premissas verdadeiras? Se forem, seremos levados a aceitar a conclusão. A segunda premissa parece-me bastante óbvia, quase baseada numa evidência; por isso, se quisermos atacar o argumento, teremos de atacar a primeira premissa (a menos que achemos que a segunda é mais fraca).

As duas principais propriedades da consciência

Ser sobre algo. Ser para alguém.

Ser eu é ser para si

Há dois posts atrás, dissemos, na nota póstuma, que o eu é a consciência de si. Pode-se pensar que estamos errados, argumentando-se que o eu não é a consciência de si, mas o si. Destrinçámos isso, no post anterior, dizendo que ser eu é ser para si. Agora, penso: qual é a única coisa que é para si? A consciência. E isto leva-me a crer, ainda mais, que o eu é consciência pura - auto-reflexão da consciência.

PS: desculpem o entupimento de posts, mas hoje estou de folga do trabalho e, portanto, prevejo um dia repleto de posts, a menos que me deprima algures a meio do dia...

Cegueira luminosa

Fecho os olhos cansados de tanta cinza enquanto à nudez fria do mundo minha alma anseia escapar. Mas sei e sinto que os Mistérios Infinitos não desejo e não posso desvendar. Mente, Corpo, Espírito, Ilusão, Realidade, Máscara, Sentidos, que importa, se o Amor espera e anseia cada Ser tranquilizar?
Se na minha respiração de sangue um sopro etéreo eu sinto, de que serve compreender para onde me quer levar? Se Eros Amoroso em sonhos me visita, que importa saber porque meu corpo suspenso e nu o felicita, se eu sei e sinto a ondulação repetida das marés cristalinas nascidas duma liquidez solar?
Se abro depois os olhos cegos de tanta luz enquanto uma névoa luminosa serpenteia entre a íris dos meus olhos e um farol de espuma fria, isso que importa se eu vislumbrei através deles um vivo horizonte estelar?

Ainda sobre o eu

De acordo com o texto anterior, o eu não é o que está para lá da consciência, mas uma criação da mesma, na medida em que é eu porquanto o é para si (ser eu é ser para si) - auto-reflexão da consciência.

Depois, há aquilo que mundanamente somos, que, penso, é um conjunto de propriedades físicas e mentais, subdivísiveis e reportáveis a causas.

Por momentos penso que se fôssemos dizer tudo aquilo que somos teríamos de dizer o Universo inteiro; e isto implica que cada coisa é uma parte de nós, ou que tudo é parte de um todo, constituído por tudo. Isto não parece ser falso.

Assim, o eu já não seria aquilo a que quotidianamente chamamos "eu", dado que existiria uma única coisa mas com partes, mas essa mesma coisa. No entanto, seria necessário que essa coisa fosse coisa para si, porque a consciência é uma condição necessária para que exista eu.

O eu total, se tal coisa existe, parece ser o conjunto de tudo aquilo que é para si em dado momento: para mim, para ti, para eles, e assim por diante, tal como a areia de uma praia é o conjunto formado por cada grão de areia. Mas os grãos não deixam de ser areia, tal como eu não deixo de ser eu apenas por ser, suponhamos, uma parte de um eu universal que nem sabemos se existe.

As questões "quem sou eu?" e "o que sou eu?" não pedem a resposta por um eu universal mas, antes, reportam-se - repito algo que já disse no texto anterior - ao mais íntimo de cada um. Por isso são respostas que cada um terá de dar a si mesmo.

Um texto sobre o eu

Quando estamos a dormir, ou sonhamos ou estamos em sono profundo ou pouco profundo. Estamos, de qualquer dos modos, adormecidos para uma certa realidade, a que vulgarmente chamamos "mundo". Mas parece que, mesmo aí, não temos consciência de nós mesmos.

Quando estamos acordados, estamos acordados para o mundo e adormecidos para o mundo dos sonhos que, provavelmente, nesse momento nem existe. Temos consciência de nós enquanto corpos e seres pensantes mas, ainda assim, colocamos as questões: quem sou eu? O que sou eu?

Em ambos os casos, não temos plena consciência de nós ou, então, a consciência de si não pode ser plenamente dita mas, apenas, talvez, sentida, consciencializada. Ainda assim, sou céptico e creio que é provável que nunca tenhamos plena consciência de nós (talvez por sermos abismo, infinito?), ou não colocaríamos as questões.

Não sei se existo desde sempre nem para sempre, e creio que, pelo menos neste corpo, isso é um facto. A pergunta pelo eu é uma pergunta em que se intenta ir além do fenoménico e encontrar alguma transcendência, algum sinal de vida para lá deste mundo.

É, também, uma pergunta perfeitamente natural, já que indagamos sobretudo e, assim sendo, por que não indagarmo-nos sobre nós mesmos, a nossa natureza? Penso que, quando se pergunta pelo eu, pergunta-se sobre a nossa natureza última e íntima, com a qual nos queremos identificar, o que ainda não acontece - como podemos identificar-nos com algo que desconhecemos?

Não sei se o eu existe ou não existe, creio que existe, porque existo e penso que sou um eu; pelo menos sou eu para mim. Repetindo-me e acrescentando alguma coisa, o eu é aquilo que pensamos ser mais intimamente, mais verdadeiramente, mais imutavelmente, para lá deste mundo corpóreo. Assim, pensamos que não é uma substância, se sequer é uma substância, corporal, mas incorpórea e que, de algum modo, está fortemente ligada ao corpo que também somos.

No fundo, pensamos que o eu é aquilo que somos necessaria e essencialmente, enquanto que o corpo é aquilo que somos contingentemente. E é verdade que o corpo é um objecto contingente, na medida em que, a não crer no determinismo, poderia não ter vindo a existir.

Penso que a grande questão é: a que se refere a palavra "eu"? A que me refiro quando digo "eu"? E, fora de ilusões, no quotidiano, quando o dizemos, referimo-nos a este conjunto de mente e corpo que cada um de nós aparentemente é. Mas o eu, reflectindo, não parece tanto ser esse conjunto mas, antes, aquilo ao qual se reportam todas as consciências, e que está para lá delas, na medida em que estas são consciências para mim.

A consciência de si parece ser consciência pura, na medida em que o si é si porquanto é si para si. Parece tratar-se de uma operação da consciência que, aparentemente, se reflecte sobre si mesma, dizendo: eu existo.

[Nota póstuma: ficamos com a clara impressão de que o eu é nada mais do que a consciência de si. Mas, ao termos deslindado o significado da palavra "eu", fica por deslindar o significado da palavra "si". Ou seja, não adiantámos muito, apenas no aspecto em que a consciência é uma condição necessária, mas talvez não suficiente, para que existam eus.]

Então pelos vistos ...

... se tudo é ilusão e se tudo o que criamos mais cedo ou mais tarde se torna uma grelha que acaba por nos aprisionar, há que escolher as ilusões que construimos com muita lucidez e assumir as suas consequências com responsabilidade, muita alegria e capacidade de rir de nós mesmos, não é verdade:)?

Ah, a vertigem da Liberdade ...

Haverá maior lucidez do que a de assumir que dormimos?
Acordar depois de dormir é uma oportunidade para ver as coisas novas, ou, nunca antes vistas. E podíamos manter-nos lá, desiludidos afinal, mas preferimos, à custa de passada meia hora depois de acordar, iludir-nos outra vez para que se não desperdice todo o mundo que tivemos antes de acordar, tudo o que planeámos antes de dormir. Dormir permite acordar, não obstante não se acordar.

segunda-feira, 10 de março de 2008


"Everyone should seek to be creative, even though creativity is full of risks and uncertainties."
Edward de Bono







Ao Diabrete que anda por aí.

Vamos jogar às escondidas?

O meu nome anda por este corpo.
E tu, onde estás?

Procura-se Alguém Que Nos Salve

A nossa querida "serpente emplumada" Alice, autora de um blog "A tradução da memória" foi vítima de um hacker, ou sei lá o que se chama esse espírito mau, que lhe roubou (é verdade, está apagado!) o seu magnífico blog. Ainda por cima, logo quando Alice partilhou a notícia que vai publicar pela primeira vez em papel os seus poemas!

Será que não há aqui um espírito bom (oh Luar Azul, tu não percebes destas coisas?) que salve o futuro da nossa poesia (portuguesa)?

Oferecem-se alvíssaras poéticas. Até faço um poema patriótico ao nosso/a Salvador/a!

PS Oh Ana Margarida, tu que andas por aí nas Américas, deves saber como salvar um blog??

Ó Mar (Fausto)

Ó Mar Leva tudo o que a vida me deu Tudo aquilo que o tempo esqueceu Leva que eu vou voltar Ó Mar Como quem vem E regressa ao fundo Do ventre da mãe

Tão indiferente Consumiste na força bravia Todo o encanto das coisas que havia E lançaste na praia ardente Náuseas e pragas Despojos de almas As carnes em chagas As mágoas Condenaste-me à noite De sangue e fogo E vento e sombras Ao teu quebranto Mas deixa-me ao menos O corpo despido Em descanso


Ó Mar Lago imenso de oceanos salgados Onde os rios também naufragados Vão por fim descansar Ó Mar Tecem murmúrios Sensuais Como os amantes Depois Repousam em paz
No teu ciúme Ó sereia do braço da ira Seduziste na tua mentira E arrastaste contigo o mundo Todos os sonhos Os meus desejos Os suaves Outonos E o Tejo São saudades que eu tenho Leve memória Do que já fui Que já não sou Mas se tudo levaste Leva enfim esta dor Que ficou

É hoje ! 10 de Março - 18.30 - Porto, Aveiro, Lisboa, Funchal - Marcha e Petição pelos Direitos Humanos no Tibete

Hoje, 10 de Março, aniversário da revolta do povo tibetano, em 1959, contra a ocupação e repressão chinesa, são realizadas marchas pacíficas e acções de protesto em todo o mundo, exigindo o respeito pelos direitos humanos no Tibete, o reconhecimento do direito do povo tibetano à autonomia e a libertação dos presos políticos por parte da China, país que procede a um genocídio étnico e cultural no Tibete e que viola brutalmente os mais elementares direitos de homens e animais.

Estas acções acontecem também no dia em que começa a marcha pacífica de regresso de muitos tibetanos ao Tibete, a partir de Dharamsala, na Índia, inspirada na Marcha do Sal promovida por Gandhi. Estas acções não são contra o povo chinês, mas apenas contra a política do actual governo chinês, que oprime o seu próprio povo e não está à altura da sua grande tradição cultural, onde avultam os valores da milenar sabedoria confucionista, taoista e budista.

Cabe aos portugueses, com uma tradição de humanismo universalista, que tanto se mobilizaram por Timor e que recentemente tão bem receberam Sua Santidade o Dalai Lama, não permanecerem indiferentes a esta nem a nenhuma forma de opressão existente no mundo.

Convidamos assim todos a aderirem às iniciativas e MARCHAS A FAVOR DOS DIREITOS HUMANOS NO TIBETE que se realizam hoje.

Em Lisboa: com concentração no Rossio junto à estátua, pelas 18.30, de onde seguirá para o Largo de Camões e para o Cais do Sodré.

No Porto: concentração nos Leões pelas 18.30, seguindo pela Avenida dos Aliados, Santa Catarina até à Praça da Batalha.

Em Aveiro: Conferência de Imprensa da União Budista Portuguesa (Delegação de Aveiro) e da Amnistia Internacional, pelas 18.30, no Hotel Imperial, sobre a situação de violação dos Direitos Humanos no Tibete.

No Funchal: concentração no Parque de Santa Catarina, pelas 18.30.

Em articulação com as estas acções está também on line uma petição para que a Assembleia da República aprove, de acordo com os princípios fundamentais consagrados na Constituição da República Portuguesa, uma moção de censura à sistemática violação dos Direitos Humanos e das Liberdades Política e Religiosa no Tibete, por parte do Governo Chinês.

http://www.PetitionOnline.com/Tibete08/petition.html

Assinem e divulguem !

Convidamos todas as associações cívicas e humanitárias a aderirem a esta manifestação.

CONTAMOS COM A TUA PRESENÇA ! DIVULGA ESTA INICIATIVA !

Não permaneças cúmplice, pela indiferença e pela abstenção, desta e de outras formas de opressão que há no mundo.

ORGANIZAÇÃO:

União Budista Portuguesa Tel: 21 363 43 63 ( www.uniaobudista.pt)

Songtsen - Casa da Cultura do Tibete Tel: 21 390 40 22 (www.casadaculturadotibete.org)


CONTACTO (Media):

Tm: 91 811 30 21


APOIO:

Amnistia Internacional

Associação Agostinho da Silva

Movimento Internacional Lusófono

Alma rutilante



Sigur Rós
Gósóli

Caminhando descobre-se o trilho...
Seremos como aves migratórias que desde sempre conhecem as rotas invisíveis dos ventos, escritas na lava ou nas correntes do mar.
Não te apoquentes: O local destinado havemos de reconhecer ao primeiro olhar.
Então largaremos o tambor, a máscara e, ao saltar, desvendaremos o que é voar...
Venham!

Cartas de Amor ao Século XXI: IV - Times Square, 19:30h

Gosto de ficar na esquina entre a Broadway e a 42a rua a observar o que me rodeia. A multidão poliglota de turistas, distribuidores de panfletos, trabalhadores apressados a se dirigirem ao metropolitano. A orgia de cores, luzes intermitentes, imagens repetitivas a acender, a encher-se e a apagar. As cotações da bolsa de valores a encherem toda a largura de um prédio. Anúncios de refrigerantes a iluminarem toda a altura de outro.

A realidade em aceleramento constante, numa ânsia de se consumir a si mesma ...

No meio de todo esse turbilhão, ergue-se uma voz subtil que glorifica o infinito incriado para onde tudo quer regressar.



Marching Bands of Manhattan (Death Cab for Cutie)
http://www.youtube.com/watch?v=be2LvYXOcSI

If I could open my arms
And span the length of the isle of Manhattan,
I'd bring it to where you are
Making a lake of the East River and Hudson
And if I could open my mouth
Wide enough for a marching band to march out of
They would make your name sing
And bend through alleys and bounce off other buildings.

I wish we could open our eyes
To see in all directions at the same time
Oh what a beautiful view
If you were never aware of what was around you
And it is true what you said
That I live like a hermit in my own head
But when the sun shines again
I'll pull the curtains and blinds to let the light in.

Sorrow drips into your heart through a pinhole
Just like a faucet that leaks and there is comfort in the sound
But while you debate half empty or half full
It slowly rises, your love is gonna drown [4x]

Your love is gonna drown [4x]
Your love is gonna...

domingo, 9 de março de 2008

Casa (2)

A sua casa era em lugar nenhum, em tempo algum; no silêncio que no entanto se manifesta.

Permanecendo no caminho para casa

Ele, no fundo, procurava o conhecimento que salva, salvar-se, mas de quê? Eu acho que ele procurava acima de tudo salvar-se de ser isto, porque queria algo mais, o "isto" limitava-o. Ele queria ser ilimitado - uma ilimitação de poder. Nunca na vida tinha visto, nem viria a ver, algo ilimitado, espacial ou temporalmente. Mas ele imaginava-o, e ora o imaginava como isto, ora como aquilo, mas imaginava-o. O que o incomodava não era, na verdade, ser isto, porque tudo é um isto, mas um isto específico, não poder ser um isto indefinido, que pudesse ser todas as coisas ou nenhumas. Trazia consigo a vontade de ser Deus e mais alguma coisa. Na sua natureza, Deus, que permanecia, no entanto, um conceito estranho à sua compreensão, porque ora o era, ora o não era. Ele não podia ser Deus, mas queria ser algo mais do que um isto mundano, poeira que logo se extingue. Sonhava ter em si ou participar em algo imortal. Procurava, apaixonadamente, a raíz de todas as coisas e seria o Seu conhecimento que o salvaria, esse novo estado em que ficaria, de luz e de graça, completamente resplandecente.

Canção de Lisboa (na Hora última)

Canto o sol a morrer nos telhados de Lisboa
a serpente a ondular sob as colinas que pisamos
o Tejo que corre para o fim de tudo
a saudade de onde jamais regressamos

o A-deus que há nisto tudo
o longínquo apelo do mar
o delírio em que me transmudo
na fúria de a tudo abraçar

o infinito crepúsculo que a todos irmana
a hora última que em tudo soa
o fado dançado, cantado e liberto
da multidão que nos povoa

o derradeiro arrebatamento das coisas tristes
o fulvo hálito do mais nocturno alento
o bem-aventurado andar de si perdido
de tudo o que vive do vento

este turbilhão que a tudo subleva
esta vertigem maior que o ser
este canto que a tudo desperte
no sempiterno hausto de Renascer !

Miradouro da Graça-Penha de França, em Lisboa, capital da Terra das Serpentes, do Mundo e do Nada (3.11.2007 – 9.3.2008)

Caminhando para casa

Ele não sabia se a sua casa, o sítio onde pertencia, estava algures no passado, das suas memórias, já não existia, ou se era um sítio aonde um dia iria chegar. Nem sabia bem o que significava essa ideia de "casa". Perguntava-se constantemente: o que é a casa? Onde é casa? Às tantas, julgava já ser um mundo da sua imaginação, que nunca se iria materializar - viveria sempre com o sentimento de falta, de incompletude, que achava que o caracterizava não só a ele, mas a tudo. A casa seria, portanto, aquilo que o iria completar, melhor do que o lugar, o momento, em que se sentiria completo. Mas era um pouco céptico e, com frequência, questionava todas as suas ideações e olhava de forma crua para o presente, dizendo: eu sou isto. E, rasgado, não era mais do que um pedaço de matéria ambulante, semelhante às pedras, ao pó. Por entre os seus rasgos de cepticismo, porém, perguntava-se: o que é uma pedra? E dava consigo a questionar a raíz de tudo, a questionar. Por que queria saber tanto? Ele, na verdade, queria saber pouco, apenas esse único conhecimento que lhe permitiria viver em paz para todo o sempre - era, então, esse o seu objectivo. Tendo esse único conhecimento, não mais se consideraria um ignorante, mas um desperto; aniquilado toda a falsa fome de falso conhecimento, em si, e seria nada mais do que uma luz jubilosa brilhando na eternidade. Restaria algum conhecimento?

recordação no deserto


"tudo lhe lembrava a casa, mas nada o era"

Orgia: via para a sabedoria ?

No Satiricon, de Caius Petronius Arbiter, escrito cerca de 60 d.C., narra-se um banquete, oferecido por Trimalquião, que termina em orgia em que os deleites venusiano-báquicos dão lugar a ditos filosófico-melancólicos: "Dies nihil est (O dia nada é)"; "Dum versas te, nox fit" (Mal nos voltamos, faz-se noite); "Voamos menos do que as moscas (muscae)"; "Não somos mais do que uma bolha de ar (bullae)", diz um dos participantes, suspirando.
Aqui se suspira algo de muito afim ao que atravessa tantas páginas literárias e sapienciais. Citemos, ao acaso:

“Que é a vida ? Um frenesim. / Que é a vida ? Uma ilusão, / Uma sombra, uma ficção, / e o maior bem é pequeno, / que toda a vida é sonho, / e os sonhos sonhos são” - Calderón de la Barca, La Vida es Sueño, II, XIX .
“Tu que existes exposto ao que os dias te trazem, o que é ser alguém ? O que é não ser ninguém ? O humano é o sonho de uma sombra (skiâs ónar anthrôpos)” - Píndaro, Odes Píticas, VIII.
“A vida não é senão uma sombra, / um pobre actor que se pavoneia e agita o seu momento sobre o palco / e depois não mais é ouvido: é um conto / narrado por um idiota, cheio de som e fúria, / que nada significa” - Shakespeare, Macbeth, Acto V, Cena 5.
“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (hebel, vapor, sopro)”; “tudo é vaidade e correr atrás do vento !” - Eclesiastes, 1, 2 e 14.

Será a orgia uma via para a sabedoria ? Porventura. Depende. Mas, para quem o for, ao explodir como bola de sabão, não deixe de o oferecer para que todos assim também se libertem.

Stellet Licht



a magia dos menonitas.

Novos Cursos Livres na Associação Agostinho da Silva

Vejam na coluna da direita os novos cursos na Associação Agostinho da Silva, a começar já em 4 de Abril: PORTUGAL E QUINTO IMPÉRIO EM CAMÕES, VIEIRA, PESSOA E AGOSTINHO DA SILVA (Paulo Borges), INTRODUÇÃO À LITERATURA PORTUGUESA: O SÉCULO XX (Duarte Braga), INTRODUÇÃO AO LATIM (Ricardo Ventura), FINANCIAMENTO DE PROJECTOS CULTURAIS ATRAVÉS DE PATROCÍNIO E MECENATO (Rui Matoso).
Este projecto visa a criação de uma futura Universidade Livre Agostinho da Silva, uma das ideias mais acarinhadas pelo Professor e que permita a todos terem acesso ao saber, com rigor, mas independentemente do seu percurso escolar e sem o peso de avaliações, num espírito de tertúlia livre, fraterna e criativa.
Caso haja interesse, estes e os anteriores cursos podem ser ministrados fora de Lisboa. Para mais informações, ver o final da notícia na coluna da direita.

sábado, 8 de março de 2008

Petição a favor do respeito pelos Direitos Humanos e pela Liberdade Política e Religiosa no Tibete

Caros Amigos, em articulação com as acções de 10 de Março, abaixo anunciadas, há uma petição on line para que a Assembleia da República, em acordo com os princípios consagrados na Constituição da República Portuguesa, aprove uma moção de censura pela sistemática violação dos Direitos Humanos e das Liberdades Políticas e Religiosas, por parte do governo chinês, no Tibete.

http://www.PetitionOnline.com/Tibete08/petition.html

Casa

Tudo lhe lembrava casa, mas nada o era...

Divulgação de música

Olá, este é só um link para mostrar à Serpente as músicas que fiz, há tempos ou anos atrás. Aproveito também para divulgar a música do meu (melhor) amigo e mestre olivromorreu.

dia da mulher

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.


Pablo Neruda


um bom dia para todas as mulheres e homens que nos acompanham ao longo da nossa demanda.

sexta-feira, 7 de março de 2008

É possível escapar à sombra. Basta não te acrescentares à transparência

Beneath The Veil

A jornalista británica Saira Shah realizou este documental, Beneath the veil, que teve varios prémios internacionais. É uma incursão sobre a condição da mulher no Afganistão dos talibães. A reportagem foi feita pouco antes do 11/s. Agora pode encontrar-se em youtube.

http://www.youtube.com/watch?v=9WrGFzkFSaU


De Saira também é um livro intitulado A filha do contador de histórias, publicado em edição brasileira e portuguesa (esta última em ASA) e que acho muito recomendável. Enfim, deixo-vos este contributo para o 8 de Março. Um abraço.

http://olevantadordeminas.blogaliza.org/2007/07/09/308/#comments

International Network of Women Philosophers

The idea initially grew out of an observation. Indeed, inthe implementation of the different activities relating to UNESCO's Philosophy Programme, women philosophers appeared to be under-represented at the major philosophy meetings. Concern about this was also expressed by many well-known women philosophers who, in conjunction with UNESCO, wished to remedy this situation . These women philosophers were behind the initative for the creation of this Network, and in virtue of that have generated a new dynamic promoting dialogue among philosophers and philosophies throughout the world. This very limited presence of women philosophers is in no way a reflection of lack of interest on their part, but it it is revealing. Many women philosophers in all parts of the world are hard at work writing and thinking. The idea is therefore to offer them this forum for exopressing themselves, for making their voices heard tnd their work known. This idea then matured. The International Network of Women Philosophers aims to provide support for women's philosophical activities , to foster solidarity among them, to provide them with means affording them legitimacy, recognition and visibility. This Network is to serve as a platform at all levels: national, regional and worldwide. Finally, the idea emerged from its cocoon and met with an enthusiastic response. Following a Call l for the creation of a database of women philosophers launched by Mr Pierre Sané, Assistant Director-General for Social and Human Sciences, very many enthusiastic responses were received from all regions of the world. The keen enthusiasm displayed shows that the idea of creating an International Network of Women Philosophers is a timely one and something that women philosophers had awaited.

MARCHA PACÍFICA DE PROTESTO A FAVOR DO RESPEITO PELOS DIREITOS HUMANOS NO TIBETE - 2ªFEIRA - 10 MARÇO - 18.30 - LISBOA / PORTO / AVEIRO / FUNCHAL

No próximo dia 10 de Março, aniversário da revolta do povo tibetano, em 1959, contra a ocupação e repressão chinesa, serão realizadas marchas pacíficas e acções de protesto em todo o mundo, exigindo o respeito pelos direitos humanos no Tibete, o reconhecimento do direito do povo tibetano à autonomia, a libertação dos presos políticos por parte da China, país que procede a um genocídio étnico e cultural no Tibete e que viola brutalmente os mais elementares direitos de homens e animais.

Cabe aos portugueses, com uma tradição de humanismo universalista, que tanto se mobilizaram por Timor e que recentemente tão bem receberam Sua Santidade o Dalai Lama, não permanecerem indiferentes a esta nem a nenhuma forma de opressão existente no mundo.

Vimos por isso convidar todos a aderirem à MARCHA PACÍFICA que se realizará no dia 10 DE MARÇO, 2ª feira:

Em LISBOA: concentração no Rossio junto à estátua, pelas 18.30, de onde seguirá para o Largo de Camões e de seguida para o Cais do Sodré.
No PORTO: concentração nos Leões pelas 18.30, seguindo pela Av. dos Aliados e Sta. Catarina.
Em AVEIRO: Conferência de Imprensa da União Budista Portuguesa (Delegação de Aveiro) e da Amnistia Internacional, pelas 18.30, no Hotel Imperial, sobre a situação de violação dos Direitos Humanos no Tibete.
No FUNCHAL: Concentração no Parque de Sta. Catarina pelas 18.30

Convidamos também todas as associações cívicas e humanitárias a aderirem a esta manifestação.
CONTAMOS COM A SUA PRESENÇA !DIVULGUE ESTA INICIATIVA !
Não permaneça cúmplice, pela indiferença e pela abstenção, desta e de outras injustiças que há no mundo

ORGANIZAÇÃO União Budista Portuguesa Tel: 21 363 43 63 (www.uniaobudista.pt)
Songtsen - Casa da Cultura do Tibete Tel: 21 390 40 22 (www.casadaculturadotibete.org)
CONTACTO (Media) Tm: 91 811 30 21
APOIOS - Amnistia Internacional / Associação Agostinho da Silva

quinta-feira, 6 de março de 2008

De alguém que morreu para não perder a vida

So many people live within unhappy circumstances and yet will not take the initiative to change their situation because they are conditioned to a life of security, conformity, and conservatism, all of which may appear to give one peace of mind, but in reality nothing is more dangerous to the adventurous spirit within a man than a secure future. The very basic core of a man's living spirit is his passion for adventure. The joy of life comes from our encounters with new experiences, and hence there is no greater joy than to have an endlessly changing horizon, for each day to have a new and different sun."

— Chris McCandless

Honrada a vida e a morte deste rapaz:

http://www.intothewild.com/

Amor

"Amor vem de uma velha palavra que busca a mama.
Palavra da Roma antiga que curiosamente apela o atributo que caracteriza a classe dos mamíferos vivíparos, surgidos no decurso da Era Terciária, onde se formaram as condições mais singulares do nosso destino. Amor é uma palavra que deriva de amma, mamma, mamilla. Mamário e mamã são formas quase indistintas. O amor é uma palavra próxima duma boca que menos fala do que mama ainda espontaneamente avançando os seus lábios na fome"
- Pascal Quignard, Vie secrète, Paris, Gallimard, 1998, pp.12-13.

Por aqui se sugere, numa certa perspectiva, como o sentido ideal da palavra se transformou, para designar a dádiva desinteressada de si ao outro - "ágape" em grego, "caritas" em latim, "maitri" (amor) e "karuna" (compaixão) em sânscrito - , ao mesmo tempo que a experiência que habitualmente nela se designa permanece próxima do seu sentido original, que parece relevar de uma carência, dependência e apego auto-gratificante. Mas há outras leituras possíveis. Tudo depende de se considerar o que se implica, simbólica e realmente, na fome do seio materno ou da boca/seio/sexo da/do amada/amado: não pode isso, para além do apego, indicar uma saudade veemente, uma fome ardente, de regresso à origem ou ao que está antes dela ?... Ao terrível mistério do que precede a cisão da concepção, do nascimento e do existir, nosso e do mundo, não no passado, mas a cada instante ?... Reconhecido isto, então o amor, no sentido de um eros iluminado, de olhos bem abertos, são asas rasgadas para o infinito. Agora mesmo !

Intelectuais 1935 Georg Grosz (1893-1959)




O quadro anterior é provavelmente do mesmo pintor.

Um pouco de ambos

Uma crença é uma frase ou estado de coisas em que qualquer um de nós acredita. Por exemplo, "(eu acredito que) não estou agora a fumar", "(eu acredito que) Deus existe" são crenças que tenho neste momento. Posso abandoná-las se alguém me apresentar argumentos em contrário que sejam no mínimo válidos e consistentes e que me pareçam melhores do que os meus, por alguma experiência ou por argumentos alternativos que os sustentem. Em filosofia, trata-se de discutir crenças. Não é que seja filósofo, mas assim me foi dito e assim tenho lido. Não considero que a filosofia, se é apenas a discussão das crenças, seja o mais importante na vida. Considero mais importante a vivência da experiência que a vida proporciona. Não é que defenda que vivamos burros, mas que não vivamos só nem nem tanto intelectualmente mas, mais, sensorialmente: e isso passa por apreciar os prazeres que as sensações nos dão... por não ser Apolo, nem Diónisos, mas um pouco de ambos.

Eus e ideias

Nunca pensei que os textos que escrevo gerassem tanta polémica. Ainda para mais, geraram más polémicas, em volta do autor, e não em volta das ideias. Afinal, as ideias não eram assim tantas nem muito importantes:

procurar a iluminação (o que quer que ela seja),
amar ao próximo como a si a mesmo,
fazer a crítica ao inferno burguês (expressão de um comentador) da cidade,
a crítica à severa disciplina dos monges,
à necessidade de rituais religiosos para que haja religião,
à necessidade de uma ética para que haja iluminação (que ética há num instante de contemplação?)

E, mais recentemente, as ideias de que

somos principalmente produtores, ou criadores,
e consumidores,
sendo que tudo (ou quase tudo... o que é tudo?) se poderia enquadrar nestas categorias...

Por ter estar ideias e exprimi-las, fui acusado de ser preconceituoso, arrogante, inconsciente, quase insultuoso... entre outros adjectivos de que me não lembro. Posso ser tudo isso e penso que, de facto, sou um pouco (ou um muito) de tudo isso, misturado com mais coisas boas e outras más. Discutam as ideias, não quem as teve.

As minhas ideias principais, neste momento, são as de que somos principalmente criadores - consumidores e de que, nesta vida, devemos satisfazer as nossas vontades, o que não implica que não exista uma ética e que não tenhamos consciência do bem ou do mal morais que estamos ou não a praticar em determinados momentos.

Mais do que vivermos excessivamente preocupados, penso que deveríamos sobretudo viver, e isso é estar aberto às possibilidades, moralmente boas ou más, que se nos aparecem ao longo da vida. No fundo até defendo a via do meio, que em nada impede a que consumamos, e até defendo que há consumos bons, como contemplações ou uma bebida aqui ou ali, como modos de viver nossos, rotinas.

Se encontrarem preconceito nestas ideias, digam-me onde; ou, se encontrarem algo de que discordem veementemente, critiquem-no, mandem-no completamente abaixo, desfaçam-no.

Paz.

pintor anónimo, alemanha, 1914-1933


?

Ontem estávamos eu e um colega a falar de Lógica, a disciplina, que é difícil e não sei que mais, o que costuma dizer-se da Lógica. Até que eu disse que o Paulo Borges é que deve perceber de Lógica ao que o meu colega retorquiu que hummmm, não me parece. Eu insisti que sim e que não é com certeza um bicho de sete cabeças, a Lógica, e o professor deve saber um pouco de tudo. Sim, alguma coisa de Lógica o professor há de perceber ou não tivesse tirado o curso de Filosofia. Mas, ó professor, percebe de Lógica (aristotélica, teoria dos conjuntos, lógica proposicional) de forma a ter, digamos, um14, um 15 como nota, ou menos ou mais, não sei? Ou melhor, domina a discplina no sentido de ser intuitivo para si? Ou, consegue entrar no jogo? Ou...é fácil?

Cartas de Amor ao Século XXI: III - Baptismos de Sangue

Como é possível viver quando se dá de caras com o Mal, o supremo Mal, em todo o seu poder, eficácia e suprema brutalidade?

Volto de novo do cinema. Desta vez de ver a abertura do Festival de Cinema Brasileiro aqui em Providence. O filme que abriu o festival foi "Baptismo de Sangue", baseado no livro com o mesmo título de Frei Betto (http://www.batismodesangue.com.br/).

O livro e o filme são uma autobiografia que narra as experiências de Frei Betto e de vários outros seus Irmãos Dominicanos na resistência contra a ditadura no Brasil. Aviso-vos já que o filme é brutal, supremamente brutal, um retrato acabado de como o Mal e a violência por vezes parecem tão mais poderosos, céleres e eficazes do que o Bem.

É um filme ao qual custa assistir. Principalmente porque acaba mal. O personagem central do filme, Frei Tito, é sistematicamente destruido, no corpo e principalmente no espírito, pela máquina de tortura do regime ditatorial Brasileiro. O resultado é que Frei Tito, como muitos resistentes á ditadura que foram torturados, perde toda a fé em si mesmo, em Deus e no mundo. Tudo lhe aparece como o supremo absurdo no qual a única lei é a da brutalidade do poder. Tito acaba por cair numa depressão profunda que o leva ao suicídio.

Algumas cenas são dignas dos piores filmes de horror ao estilo de Kubrick ou Haneke. Ainda por cima porque se baseiam em factos verídicos. Há imagens muito explicitas do que era a tortura no "pau-de-arara" e na cadeira eléctrica. Tenho amigos muito queridos no Brasil que passaram por estas torturas e que continuam vivos, actuantes e capazes de relacionar com os outros pelo único facto de que têm estado num processo terapêutico desde que saíram da prisão. Mesmo assim ainda carregam, no corpo e no espírito, as chagas abertas do horror que viveram. Chagas estas que nunca se hão de fechar completamente. Já foi perturbante ouvir os relatos dos meus amigos. Mais perturbante ainda é ver a representação fiel desse horror em filme.

O pior de tudo nem eram os electrochoques, as queimaduras de cigarro, a brutal violação das mulheres ou o uso de cacetetes. O pior de tudo era a destruição sitemática da personalidade, de uma forma em que os torturadores incarnavam os seres ou os símbolos que eram mais queridos e sagrados aos torturados e assim os torturavam, dando a ideia de que nada nem ninguém no Universo se importa com eles, que o Amor, o Carinho ou a Fé não fazem sentido pois a realidade profunda do Universo é o poder do mais forte.

A cena que mais me chocou foi aquela em que um dos torturadores se vestiu de padre para fazer que ia dar a comunhão a Frei Tito. No entanto, essa comunhão não era mais do que abrir-lhe a boca para lhe administrar choques eléctricos fortíssimos na língua - sim, na língua! O que fez com que Frei Tito nunca mais conseguisse receber a comunhão.

Mais uma vez meditei sobre a natureza do Mal. É incrível: Construir alguma coisa demora tanto tempo ... Horas, dias, anos ... É preciso tal investimento de tempo, recursos e energia para construir alguma coisa que ... paff ... pode ser destruida em menos de um segundo. Julgo que deve demorar várias horas para construir um copo de vidro, mas no entanto ... paff ... é só descuidarmo-nos que esse copo se parte numa fracção de segundo. Demora-se meses, senão anos a construir uma casa, que pode ser destruída em minutos num incêndio ou desastre natural. É preciso 20 anos ou mais para construir uma personalidade humana, que pode facilmente ser destruída numa hora de tortura.

Mais perturbante ainda era observar o rosto dos torturadores, o quanto o clarão dos seus olhos e o afluxo de sangue e suor aos seus rostos se assemelhava ao clarão orgásmico a que o Casto Severo se referiu no seu último post ... Que por sua vez se parecia tanto com o clarão, o respirar ofegante e a vermelhidão do rosto dos torturados ...

Ah, a volupia do poder absoluto ... Do poder absoluto de destruir ... Ainda mais do que matar ... Matar é por fim á obra de destruição, é fazer a presa encontrar a paz. Ao destruir alguém em vida, o carrasco sabe muito bem que a sua presença ficará indelevelmente marcada no rosto da presa para o resto da eternidade ... Que o seu rosto, as suas palavras, os seus actos e as sensações provocadas serão revividas vezes sem conta, que serão mais nítidas na memória e nos sentidos e que terão mais efeito do que anos de dedicação da parte de pais amorosos, amigos fieis e devotados, mestres generosos e amantes carinhosos. Saber que, no espaço de pouco mais de uma hora, todas as esperanças e belos sentimentos cairão por terra e nada mais restará do que a ideia Hobbesiana de que a essencia da realidade éde que tudo não passa de uma cadeia alimentar, que o homem é lobo do homem e que ao mais forte é dado um poder absoluto que nenhuma lei ou sistema de valores alguma vez conseguirá verdadeiramente domar. Que toda a ordem, todos os direitos, todas as protecções civis, todos os bons sentimentos não passam de uma maquilhagem hipócrita que esconde esta dura realidade.

Era incrível ver o como os excelentes actores incarnavam a volúpia do poder absoluto e a completa falta de empatia ...

Os membros das polícias políticas dos regimes ditatoriais da América Latina foram todos, ou quase todos treinados na "School of the Americas" http://www.amazon.com/School-Americas-Political-Encounters-Interactions/dp/0822333929) um centro de formação criado pelos Estados Unidos durante a Guerra Fria para treinar militares implacáveis no combate a tudo e todos os que fossem percebidos como ameaça á hegemonia política de Washington e á hegemonia económica das multinacionais. O treino era feito á base de métodos de manipulação mental destinado a extrair dos militares todo o pingo de empatia e compaixão que pudessem ter por seres humanos que fossem percebidos como "comunistas" ou "terroristas". Esta escola continua activa e há muito boa gente que afirma que o que se passa actualmente na prisão de Guantanamo, em pleno ar durante os famosos "voos da CIA" e nas prisões secretas que há por essa Europa fora em muito se assemelha ao que se passou no Brasil, na Argentina, no Chile e em países vizinhos.

Não julgem que saí do cinema a sentir-me moralmente superior aos torturadores. Muito pelo contrário: Dei-me conta do quanto a sua brutalidade e a sua falta de compaixão estão vivas e bem vivas em mim. O quanto eu sou cúmplice de toda esta brutalidade, de toda esta obscena destruição. Essas técnicas de destruição sistemática continuam a ser usadas. mais cedo ou mais tarde, podem voltar a bater-nos á nossa porta. Um dia poderão ser os nossos familiares, os nossos amigos ou até nós mesmos a ser torturados ou, quem sabe, a se juntar á fileira dos torturadores.

Há mais: É nessa tortura e nessa destruição que se baseia o nossos bem-estar. Os "tupperwares" onde guardamos comida e a gasolina com que enchemos os tanques dos nossos carros são feitos do petróleo que tem ceifado a vida a centenas de milhar de pessoas pelo Médio Oriente fora. Muitas das nossas roupas são feitas por crianças exploradas como mão-de-obra barata, futuros ceifados para que nos possamos vestir de forma comfortável, elegante e acessível ao nosso bolso. Exploração esta que é possível em grande parte devido á repressão policial e militar e ao assassinato sistemático de líderes sindicais e activistas de movimentos comunitários pelo "Terceiro Mundo" fora. Muitas das nossas casas foram construídas por imigrantes explorados e acossados pelo medo das máfias, sob o olhar indiferente do governo ao qual convém manter as coisas como são, para que os contrutores civis que o apoiam continuem a lucrar como têm lucrado. Muitas das nossas casas são limpas por imigrantes mal pagos, silenciados pelo medo não só das máfias, mas da miséria, da fome e da morte.

Não é só isso: Quero que saibam que o salário que recebo na minha Universidade é em parte fruto de doações feitas por empresas de armamento. Doações feitas a uma Universidade que é conhecida como um centro de pensamento progressista e orientado para causas sociais, onde muito dos seus líderes dizem ser pacifistas e estarem contra as guerras onde as empresas que pagam parte do seu salário têm feito tantos lucros. Por isso, posso muito bem afirmar que recebo dinheiro sujo. Que as minhas mãos estão sujas do sangue de vítimas de guerra e de opressão por esse mundo fora.

Não quer isso dizer que não hajam muitas organizações dignas e honradas e muitas pessoas de bem a financiar a minha universidade. Há concerteza e muitas.

Tenho a certeza que também há muitas pessoas de bem e quem sabe, alguns santos ou seres iluminados a trabalhar nas empresas que vendem armamento.

Podem ter a certeza que a bolsa que em breve começo a receber do nosso governo não é mais "limpinha". O Fundo Social Europeu, como todos os fundos de todos os orçamentos de todas as organizações internacionais e todos os estados á face da terra é financiado pelos impostos de empresas que vendem morte, destruição e opressão, assim como por empresas e cidadãos que provem a paz, o bem-estar e a felicidade.

Enquanto formos prisioneiros do Samsara, nenhum de nós estará inocente. Todos nós seremos cúmplices do Mal e do horror que existe. Nem que seja de forma muito indirecta. Isso porque tudo o que existe está "contaminado" pelo Bem e pelo Mal que existe em qualquer ser do Cosmos.

Sendo assim, como é possível acreditar que vale a pena tentar minorar o sofrimento dos que nos rodeiam e melhorar as suas condições de vida? Como é possível acreditar e dar sentido a alguma coisa quando damos de caras com o tenebroso esplendor e o poder célere e brutal do Mal absoluto? Principalmente quando nos damos conta que esse Mal vive em nós e que somos cumplices dos seus efeitos? Que todo o mal e toda a violência do mundo vivem em nós, assim como toda a bondade, toda a alegria, toda a beleza e todo o prazer? Principalmente quando o Mal parece ter efeitos mais rápidos e duradouros do que tudo aquilo a que aparentemente se lhe opõe.

Vista a essencial imoralidade do mundo, não será mais inteligente nos tornarmos nós mesmos num ser predador, numa máquina de destruição sistemática para não sermos destruídos e vivermos o gozo orgásmico do poder absoluto?

Espero sinceramente que não. Mas quem sabe se não estarei errada?

PS - O Frei Betto foi preso, mas escapou a tortura por ter um tio general. O poder, novamente o poder. E esta, heim?

PS1 - Dizer a vítimas de tortura que o horror que elas passaram nunca aconteceu porque, segundo o Budismo, elas nunca existiram pode ser considerado como uma séria ofensa.

PS2 - Desculpem o tamanho deste post. É que o filme mexeu mesmo comigo ...

Teorias

A vida é fome e sede e vontade(s)... o que quer que vá contra isto é a pura negação da vida.

Leia-se nas obras de S. João da Cruz o que este diz sobre os desejos dos monges: que existem, por exemplo por uma bela mulher, mas que estes os reprimem.

Todos nós produzimos, nem que seja para sobreviver, vendemos algo, e todos nós consumimos, como modo de viver.

Nem todo o consumo é mau: apreciar uma bela paisagem é uma forma de consumismo.

A maioria do consumo que é mau é-o não devido ao que é consumido, mas devido à atitude do consumidor para com o que consome: se consome demenos ou demais, por exemplo.

Há muitas coisas boas aí à espera de serem consumidas. Muito mundo para ver.

O monge ou o eremita ou o anacoreta é aquele que rejeita o que há, escolhendo não não querê-lo, mas rejeitá-lo. Aquele a quem o mundo faz asco e que dele foge, anunciando um mundo melhor.

O monge é aquele que procura a união com Deus. É místico. E "Deus" existe em todas as religiões, sob formas diversas, porque quase todas as pessoas julgam que há algo eterno, que cause sem ser causado ou que se cause a si mesmo.

Mas isto são teorias e precisamos acima de tudo de viver a vida...

quarta-feira, 5 de março de 2008

Alguns pensamentos dispersos

Todas as pessoas que trabalham são vendedoras - dão dinheiro a ganhar a si mesmas ou a alguém mais.

Todas as pessoas são consumidoras, ainda que de estados interiores alienados.

Não há nada tão diabólico como ser-se monge - se o Diabo existisse quereria que todos nos tornássemos monges e renunciássemos aos belos prazeres do mundo, para que ficássemos na verdadeira sofreguidão ou alienação, desprovidos desses mesmos prazeres.

O mundo é marcado pela vontade de sobrevivência - agarramo-nos à vida como lapas a rochedos.

O mundo não é um local sempre bom. Às vezes é bom, às vezes é mau.

Nem tudo é sofrimento ou insatisfação, há estados de extremo (o que é extremo?) prazer, como sejam o da contemplação do belo ou do sublime, ou o orgasmo.

Nem todo o sofrimento é indesejável; ao invés, há algum sofrimento que é querido, na exacta medida em que o seu fim aumentará o prazer.

O que acontece no orgasmo é algo completamente estranho e divino - queremos mais e melhores orgasmos. É uma espécie de comunicação com Deus, de chamamento da substância.

Em homenagem a Maria Gabriela Llansol, na Hora da sua Vida

"Revelação no mais secreto de nós mesmos,
que nem a razão nem o sentido podem compreender,
a não ser no amor nu:
[...]

Se houvéssemos chegado a esta claridade
diante do seu rosto, vacantes e livres
de todo o modo, de toda a coisa
que se aprende, conta ou compõe,
no seio do abismo sem fundo
veríamos a luz na sua luz.

[...]

Deveis andar em grande erro
ao procurar no exterior a luz em partes,
quando ela está toda em vós e vos liberta totalmente.
Se quereis tornar-vos mestres
nesta filosofia, não vos afirmeis:
abandonai todas as coisas, convosco próprios.

Ah ! Deus, que nobreza
esta livre vacuidade,
onde o amor abandona amorosamente tudo o mais
e nada busca fora de Si mesmo,
pois que, na sua pura Unidade,
encerra a bem-aventurada eternidade"

- Hadewijch (séc. XIII), Écrits Mystiques des Béguines, Seuil, 1994, pp.205-206 (tradução do francês, aguardando a prometida tradução do neerlandês por Joana Serrado).

uma leitura Zen de Ulisses

(a pedido de várias famílias :) o resumo da conferência encontra-se aqui: Shikantaza no rio Liffey: uma leitura Zen de Ulisses de Joyce por Amy Hollowell

terça-feira, 4 de março de 2008

Voar

Hoje de manhã no final da aula, uma aluna veio espontaneamente oferecer-me um pequeno papel dobrado, abri e li:

Um balão a voar
Um balão serve para alegrar
as crianças que estão a chorar
como a chuva que está a cair
como uma jarra a partir
Daniela Branco, 5º A (11anos)
Agradeci surpreendida e emocionada, e porque a iniciativa veio de uma criança, ofereço esta quadra a todas as crianças que sofrem, que o balão possa voar pela libertação do povo Tibetano !

Sabeis do que falo ?

"Acredita-me, não apresses a volúpia de Vénus. Sabe retardá-la. Sabe fazê-la vir pouco a pouco, com demoras que a diferem. Quando tiveres encontrado o lugar que a mulher gosta que lhe acariciem, acaricia-o. Verás nos seus olhos um trémulo clarão [tremulo fulgore], como um charco de sol à superfície das águas. Virão então as queixas, o terno murmúrio, os doces gemidos, as palavras que excitam" - Ovídio, "A Arte de Amar", II.

Todos procedemos de um instante como o que aqui se anuncia. Todos procedemos do que mais desejamos e tememos. Trazemos na origem a volúpia de uma morte sagrada. A isso se chama pudor. Erótica é a arte de o preservar e aumentar transgredindo-o. Erótica é a arte de cultivar a intensidade do que na exacerbação da vida tange a sua transcendência. Ah, os olhos que nesse instante se reviram para antes da origem !... Se aí se pudessem suspender, o mundo nunca teria sido... Sabeis do que falo ?...

E outras coisas mais

Vagueio solto por entre memórias, percepções, imaginações. O mundo não tem mais nada para me dar - ou terá? Tudo o que tenho e terei é o mundo que mo dá, ou eu ou outros através do mundo. Também somos mundo! O melhor é darmo-nos a nós mesmos, ou seremos obrigados a tanto? E será tanto tão pouco?

Vagueio solto por entre este texto - será que me encontro aqui (ou fica parte de mim neste texto)? O que é "aqui"? O significado ou a compreensão deste texto, a sua leitura atenta? Eu e o texto somos mundo, mas a relação entre eu e o texto, quando sou compreensor e o texto é compreendido, é por aí que vagueio, de algum modo..., quando compreendo. Sou de uma mesma natureza do que a compreensão do texto e do que o texto enquanto significa para ser compreendido... da mesma natureza do que o significado.

Significado é ser para alguém. Tudo o que é para alguém é um significado. Os fenómenos são ser para alguém, significado. Tudo significa sempre alguma coisa.
O que é significar? É representar. Um amigo que eu veja é significado como "amigo", "pessoa", etc., e há uma certa inteligência na nossa percepção, que nos permite distinguir as coisas umas das outras; e também nelas, que são diferentes umas das outras. Os sentidos como que compreendem o mundo (percepcionado). Mas talvez seja a inteligência que nos faça agir e escolher. Esta, compreende o que os sentidos compreendem, e compreende ainda mais, em ambos os sentidos. O que é interessante nela, é que sabe distinguir entre as coisas: um marciano verde, uma vela amarela.

Os conceitos são dados pelo mundo à inteligência, mas outros são por esta forjados, como o de "marciano", um objecto mundano (de outro "mundo") não existente, mas que seria tal e tal se existisse. É a mera possibilidade. Com a inteligência contemplamos possibilidades, mas talvez não só, e com isso enriquecemos o mundo, com fantasia, mas também tecnologias avançadas, o mundo humano como ele é: somos excelentes criadores e consumidores e outras coisas mais.

Convento das Bernardas

será que alguém me ajudava com isto?

Sabem onde eu que eu posso saber alguma coisa (quer do arquivo, quer da história) do Convento das Bernardas (que agora é o o Museu da Marioneta)?
No tempo da minha mística, era o Convento das Bernardas Descalças (ou conhceido também como Mosteiro da Nossa Senhora da Nazareth). Ela partiu do lorvão (Coimbra) para essas bandas, mas fartou-se de padecer aí.
Segundo investiguei (em As freiras do Lorvão, Lino de Assumpção, 1989), antes de ser convento havia uma colectividade de mulheres (tipo beguinas) em torno de uma Maria da Cruz, profetisa, e que até chegoua ir a Roma falar com o Papa, mas afinal foi considerada "intrujona" e foi mandada para o Brasil, como castigo.

Eu até agora não consegui encontrar mais nada do que estas refer6encias. Qualquer ajuda é mais que bem-vinda!

A propósito da poesia da Rita Cardoso e do Karl Marx

Eu acho muito triste o Karl Marx estar a gozar implicitamente com os pequeno-burgueses de esquerda (dos quais eu me incluo) e deixar para o Paulo Borges essa tarefa explicitamente.
(ver comentários no poema da Rita)

Em primeiro lugar: o misticismo é, por natureza, revolucionário, e, por graça, apoiante das forças proletárias.

Segundo: as palavras de ordem não entopem canais invisiveis. Quando enunciadas à exaustão, tornam-se uma ladaínha, uma oração que nos transporta para um patamar energético mais elevado. A energia torna-se acção e não reacção.

E para agradar toda gente, em vez do nosso encontro se realizar num palácio da Pena, porque não deixarmo-nos cair, afundar no fundo-sem fundo da Cova da Moura?


PS: Esta mensagem foi escrita sob os auspícios da IV Internacional, neo-realismo trotskista tosta-mística.

A experiência do absoluto na espiritualidade oriental e Marcha pacífica de protesto contra a violação dos direitos humanos no Tibete

Caros Amigos, falarei amanhã, 5 de Março, pelas 18.00, sobre "A experiência do absoluto na espiritualidade oriental (hindu, budista, taoísta)", no Auditório dos Amigos dos Castelos, R. Barros Queirós, 20, 2º, Lisboa (junto ao Rossio / Martim Moniz). A entrada é livre. Informações: tel. 218885381.
Mas convido-vos sobretudo para a Marcha pacífica de protesto contra a violação dos direitos humanos no Tibete, na próxima 2ª feira, 10 de Março, com concentração no Rossio, pelas 18.30, de onde seguirá para o Largo de Camões e para o Cais do Sodré (Ver Actividades, na coluna da direita deste blogue). Apareçam e divulguem ! Não basta publicar textos e fotos giras, é também preciso agir, enquanto no mundo houver quem sofra. E, acrescento, tanto mais quanto mais achamos que tudo isto é ilusão. Porque, se assim é, pode mudar e/ou desaparecer. Abraços.

Dedicado a certos comentadores do "Nova Águia"

Alguns dos melhores momentos de "Lisbon Story" - A história de um realizador de cinema Alemão (sim, sr. Tannenbaum, Alemão) que se apaixona por Portugal:

http://www.youtube.com/watch?v=2roKg07ymBE&feature=related

Tenho de vos contar isto para finalmente conseguir dormir

Passei o serão a (re)ver as "Conversas Vadias" no youtube e digo-vos que, mais inesquecíveis ainda do que as palavras do querido Agostinho, são os seus olhos doces, doces, de uma docura e ternura infantil ... Olhos estes que, mais do que mil palavras ou toda a sua obra escrita, transmitem a essência da sua mensagem. Quem aprecia o seu olhar aprecia a essência do pensamento Agostiniano.

Qual é o segredo para manter um olhar de tal inocência, de tal candura em idade avançada?

Como é que ele conseguiu se manter tão incólume á perca de inocência que significa crescer e envelhecer?

"Estilo" - Mão Morta

na lapela uma agulha adornada c’um brilhante
na orelha uma argola de pirata petulante
o andar afectado de quem anda nas alturas
espreitando do bolso um folheto com torturas
ou então um volume de cozinha libertária
que ninguém percebia ao fazer a culinária

todo o dia a jogar a um jogo de charadas
entre copos de absinto e mistelas inaladas
recitamos poemas em delírio fonético
inventamos dadá em registo frenético
e depois já cansados vamos todos para a cama
numa orgia colectiva que não vinha no programa

é preciso é estilo! não cansamos de dizer
num verniz de desdém que nos dá muito prazer
assumindo o deboche cada vez mais descarado
insurrectos em graça adorando o acto ousado
somos fãs da desbunda do deleite permanente
e assim passa o tempo e com ele nova gente

é preciso é estilo em delírio fonético
é preciso é estilo adorando o acto ousado
é preciso é estilo de pirata petulante
é preciso é estilo vamos todos para a cama
é preciso é estilo em deleite permanente
é preciso é estilo de quem anda nas alturas

Requiem pela mais bela e difícil escritora


Leitora
Abro os livros que escreveste e tenho as pregas do teu sorriso e das tuas mãos entre as minhas. Leio-te com bondade e com amor. Sinto o calor que trazes à escrita pela proximidade que tens com a pira onde ardem os imortais. Tu, que os conheceste por intuição e por seres a mais inocente das leitoras, tu que escreveste em intertexto e para eles, em inocência e devir, tu que irradiavas a beleza última da humildade e habitavas nas árvores e nos quintais junto às fontes e às vezes cobrias os ombros com um casaco castanho que a terra te emprestava como se tudo em ti fosse marca dessa concessão pela tua passagem entre os seres, digo, com esse casaco cobrias o pudor de passar por entre humanos, tu não morreste! Tu que nunca falaste para nós, os vivos, ruidosos e apressados, e sempre falaste com os mortos e com as suas sombras errantes e habitavas o seu reino, eras com eles Ideia e fazias do tempo um círculo em que se entretinham na descoberta do centro e vocês eram o centro, tu não morreste! Tu, tão leve por entre a matéria suspeita da literatura, inventaste as nuvens na continuidade azul do texto, por tudo em ti ser fundido na água condensada da escrita, e soubeste – oh…mulher de simplicidade desarmante - traçar contornos ainda mais imateriais do que as palavras: inventaste o traço porque para ti, pintora de nuvens, a escrita é a comunidade das Ideias e dos idiotas. Desses que dão até o que ainda estão a procurar para criar o mundo, para o recriar desde o Longínquo e desde Outrora. Tu, que não eras humana, trais hoje a nossa ilusão de que o eras, e dizem-me que não podes escrever mais, mas que importa (!), se tenho as tuas páginas entre os dedos e o teu corpo é como o corpo da escrita: Ideia e fumo e tu acendes a mais violenta vontade das fontes e das lágrimas no meu peito e na minha mão… Tu não estás morta! Tu, cadenciada de vento e ondas, eras a presença mais sublime dos elementos indeterminados e profundos. Nem sequer cabias nas imagens e não as criavas: a tua escrita é uma composição de sons e sons, por onde andamos perdidos para atravessar a paisagem por onde descobriste a passagem. Tu, que não eras uma escritora nem escrevias, eras a Abertura, a morada dos que passam e estão em trânsito entre aqui e nenhures. És com eles agora nesse não-lugar e nesse não-tempo, mas hoje mesmo estarás face a face com os Amigos e as Amigas e receberás na despedida nocturna uma elegia rilkeana e, ou holderliniana que entretanto eles compuseram para te embalar do cansaço que foi encontrares o difícil e o belo, e com que em silêncio te amámos e guardamos no mais fundo da alma.
Neste dia em que não morreste, visto a minha alma de branco e imploro aos do meu tempo que tenham, como fizeste uma das tuas personagens dizer, a generosidade da memória e que aí te inscrevam como a mais indelével e a maior borboleta que escreveu na nossa língua. Tu, que tinhas uma alma azul e divagavas nas florestas mais inóspitas onde se escondem os tesouros mais raros da matéria e dos sons, tu não estás morta! Na ascese, a tua alma sorrirá, porque te serão mais próximos os sons do que dizem com mais justiça o teu nome, Maria Gabriela LLansol.

Lacrimosa

Partes no Mar(ço) porque vais chegar nas ondas e com ritmo junto daqueles que são do ritmo e a quem ofereceste uma arte: a de entender com o coração o que escreveram sob o efeito de uma visão. Que foram, Regard, Parole et Musique para dentro da tua alma. Não vou parar de te chorar: acredito que as lágrimas me emprestarão o cristal com que aprenderei a arte de ler na transparência o que só pudeste escrever sob o manto do difícil e do belo. Porque foste a mais alada das escritoras e isto mais não é do que um beijo dado, não mais tarde, mas tarde de mais. Mas mando-o com as mãos juntas para a Terra que te cobrirá de flores e outros hóspedes que sabem o requiem que não sei compor.

Praga



O cego a cantar em russo na Ponte Carlos, sobre o Vladva. A bela rapariga de olhos tristes a tocar guitarra espanhola. A senhora checa a entoar uma ária de ópera na rua nocturna. Quase ninguém neles reparava: a seus pés escasseavam as moedas. E eram eles o coração de Praga, a cidade alquímica, na noite do mundo. Pela sua voz Deus cantou entre os homens mudos, que apressados iam às suas vidas, cheios de nada. (Maio, 2007)

Ainda Rothko - Ser tempo


Música: ICCT Hedral - Aphex Twin e Philip Glass

Ser tempo porque o "Sein und Zeit" é doutro autor!

Cronologia atípica do suicídio de um Ícaro poisado:


Da frente para trás, de trás para a frente ... O abstracto como imagem do drama humano.
Da forma para a abstracção / As asas e o voo /A luz solar / A Cor /Janelas e Portais / Berços e Túmulos /Gradações do negro ao breu / A Vastidão do espaço / Para lá da Treva...

segunda-feira, 3 de março de 2008

gradações1


sobre Iniciação

O jejum ritual da Quaresma tinha por objectivo ajudar os homens a expulsar dos seus templos internos as bestas que se tinham alojado neles. Simbolicamente as bestas são os desejos encerrados na natureza humana. Parece-me que a Páscoa é um período potencialmente iniciático. Morrer... Ressuscitar...

Será que vos interessa falar um pouco sobre Iniciação…? …
Deixo-vos o extracto de um texto que traduzi ontem…

"Interiormente, o candidato a uma sã iniciação dirá: “Não há senão uma só pessoa sobre a terra e nos céus que deve ainda progredir: eu, só eu. A humanidade, que na verdade é o resto de mim mesmo, nunca esteve tão perfeita como neste instante onde eu percepciono todas as minhas imperfeições, as minhas memórias penduradas no meu futuro; e nunca tive tanto progresso a fazer sobre a via d’Amor como neste dia.
(…)

Aquilo que me aparece imperfeito no Outro não é senão o fruto do meu egocentrismo; da mesma maneira, vejo claramente, enfim, que tudo o que se armazena no passado é-o, porque criado no futuro pela distorção egocêntrica do meu presente. As bases iniciáticas são, enfim, claras. (…)

Compreendi por fim que quanto mais me aproximo da luz dos espíritos mais a sombra desta luz aumenta e cobre os objectos dos meus pensamentos. Agora sei que a luz é geradora de estagnações tenebrosas, de infelicidades infinitas para o homem. A Casa do Ser verdadeira não pode ser senão uma Casa de Fogo e não somente de luz espiritual.” "


Tony Ceron

de pés nus



de pés nus
engoli o sol
onde deuses suicidas
brincam com o pulsar da noite
a treva incandescente
dança
alheio de mim
o que de mim sobrou
dos dias crestados de ser homem
o passado todo que não fui
de encontro ao que sou sem ter sido
ao ritmo do luar errante
grito gume do silêncio
posso ressuscitar
sem que o mundo se me desapareça?

domingo, 2 de março de 2008

Santa Joana Princesa Fetal

Era só para vos dizer que Santa Joana Princesa não é só de Aveiro e dos Paises Baixos mas alargou os seus dominíos às pátrias feitais.

Foi um arrufo de anterianos exaltados. Felizmente nâo houve duelos, nem sangue, só flores.

Acbamos por voltar, pelo menos foi o que ele me prometeu, que não está partido.

Agradeço a vossa preocupação e carinho.

(Ao obscuro e à Luisa, pelas suas lindas palavras, aguarda-vos um presente de regresso (por mail).

Resta-me esperar então que a Adama se torne Amada e regresse, para ficarmos completos.

Há um ano estava numa tasca no Princípe Real com o Paulo e o Rui a brindarmos à vida.

Sinto a vossa falta.

Um beijinho roubado


Beijo roubado de Paulo Feitais (genitivo objectivo)

Alguém escreveu:

"Encontro desejado, encontro arriscado: tirando as máscaras, como manter o baile, a sedução, o mistério ?..."

É assim tão difícil gostar das pessoas pelo que são, com as suas virtudes e defeitos, grandezas e misérias, beleza e feiura? Na sua banalidade? No seu lado terra-a-terra?

Já agora, gostar de nós mesmos pelo que somos e não pela fantasia que fazemos ou que os outros fazem de nós mesmos?

É preciso fazer da vida um constante baile de máscaras, um constante minuete, para que esta e as pessoas que a habitam tenha interesse?

Porque é que a realidade é assim tão assustadora?

Vinho

Deixas dormente
ente que dorme na dor da mente,
dor que mente na ilusão da sua ausência,
deixas-me, só fico.
Enganar a dor com máscara do prazer?!

A dor sentida gera a coragem de a ultrapassar

Encontro da Serpente


Sugiro um encontro da Serpente. Num sábado, num domingo? Em Sintra, em Lisboa?

Deixem as vossas sugestões, serpentinas e serpentinos deste espaço.


Sei que isto vem fora de contexto ...

... e não quero distrair-vos do belíssimo post da Isabel, mas os Apocalyptica vêm a Lisboa a 5 de Junho, no âmbito do "Rock in Rio". Embora não seja grande apreciadora de mega-festivais ultra-comerciais, abro uma excepção para este grupo Finlandês (eu e o meu fetiche pelo Norte dionisíaco e pagão;-) ) que mistura "heavy metal" com harmonias e instrumentos clássicos. Acho-os muito bons. Se vocês apreciam este género de paradoxos, desafio-vos a se juntarem a mim. Quem se dispõe?

Já agora, acho que não está assim tão fora de contexto, tendo em conta que "Tenebra Deus est" e o nosso gosto por paradoxos do género de seres existentes que nunca chegaram a existir, etc;-) ...

Depois poderíamos ir beber uns copos á tasca do Tizé ... Quem sabe convencemos os "headbangers" Finlandeses a se juntarem a nós;-) ...

Um leitor de pés nus lê num livro ou numa folha esquecida da árvore

Mark Rothko No. 10, 1957

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Um leitor de pés nus lê num livro ou numa folha esquecida da árvore:
''Sois le Soleil: Il me faut être soleil moi-même, il faut que mes rayons
Soient une peinture sur la mer incolore de la divinité"
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sábado, 1 de março de 2008

Para acabar com a paz dos cemitérios divinos (com toda a minha gratidão à Isabel Santiago, que me deu a conhecer este autor)

"Um pedaço da maçã originária permaneceu entalado no centro da minha garganta" - Pascal Quignard, Les Ombres Errantes. Dernier royaume I, Paris, Grasset, 2002, p.8.

"Se não abraçamos o abandono e a angústia, a paixão, a noite da agonia, não somos senão imagens infiéis, pedras sem préstimo mal talhadas que já não podem entrar no edifício e que não se podem juntar a nada" - p.19.

"O sermão misterioso do não menos misterioso Leitor de pés nus (Barfusser Lesemeister) começa por estas palavras: Tenebra Deus est. Tenebra in anima post omnem lucem relicta (Deus é uma treva. Ele é a brusca treva que invade a alma após toda a luz)" - p.114.

Uma viagem

O caminho do autocarro é a viagem
E o caminho dentre aqueles que a fazem
Nada há mais há, nada mais a saber
A viagem para os que a querem fazer.

A viagem para os que a querem fazer
Tudo bem, podes adormecer
Mas quando sentires inclinação
Faz a tua própria reflexão.

Faz a tua própria reflexão
Sê um espelho da imensidão
Sombra de luminárias imensas
Luz de luminosidades intensas.

Luz de luminosidades intensas
Manto de glórias propensas
A amar... A amar...

Serão as perguntas tolas veículos para a Libertação?

Ás vezes as perguntas mais tolas são as mais fundamentais.
Por vezes, uma pergunta tola leva-nos a reflexões que mudam a nossa vida por completo, geralmente para melhor.

Os amigos

Este é um poema que escrevi ali no café. Como todos os poemas, penso que está inacabado, que falta qualquer coisa, mas deixo-o estar como está. Poderia acabar na parte "e partem". Aqui vai:

Os amigos crescem
Juntos
O tempo passa
E partem
Como folhas
Que caem
Das garras das árvores
Ao vento invernal.

A dança das palavras

Palavras
Jogamo-las ao vento
Descuidadas
E elas seguem
O seu caminho
Como as aves
Que dançam
Em fins de tarde
De Verão.