O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 30 de abril de 2013


O Plantador de Palavras
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas.
João Cabral de Melo Neto


Terra e Poesia – duas realidades feitas de uma materialidade que António Saias explora mergulhando incansável em suas potencialidades modeladoras. Isso significa serem esses dois vetores os responsáveis pela dinâmica que alimenta os poemas de (H)ortografias (2012), constituindo sua razão maior: escrever a terra, plantar o poema, cultivar as palavras como sementes e abrir a terra/página à consciência do fazer. São tendências entrecruzadas, não paralelas, mas tecidas conjuntamente no arado arejado a que se entrega o Poeta.
É a “Gen-Ética” (título de um dos poemas) a permitir, por exemplo, a fabricação de produtos inusitados ou a transformação insólita de elementos, como Nenúfar em Flamingo; é a aproximação num mesmo espaço da VÊNUS DE MILO e os parasitas da Hortelã; é igualar o papel à terra suada; é o suor servir-se de tinta e usar a enxada como caneta; é o movimento simultâneo de junção e disjunção no corpo da terra-escrita, “lavras com pa-lavras”; é o alimentar as palavras como as cabras, com grãos e pastos, ordenhando-as para dar bom rendimento.
Acontece que a ligação intrínseca com a terra ou o solo (o baixo, raízes, sementes, água) coexiste com outra: a aspiração ao alto (o céu, o voo, o ar). Alto e baixo, tal jogo dialético já vem anunciado no primeiro poema (ou epígrafe?) de (H)Ortografias:
feijão-de-trepar
:
raízes em terra
e ânsia de voar
Notemos como a verticalização se iconiza nos dois pontos – verdadeiras raízes no solo da página, em contraste com as rimas abertas das alturas /ar/. sugeridas pelos verbos “trepar” e “voar”. Enraizamento e liberdade, imanência e transcendência, apego e desapego – tais tensões perpassam toda a obra de Saias, desdobrando-se em ampla significação. Do corpo entranhado da escrita à materialidade do real, da consciência poética ao posicionamento sócio-político, a poesia de Saias amalgama distintas matérias em seu fazer, tendo como propósito maior a desacomodação de condicionamentos alienantes.

Nesse sentido, chama-nos a atenção a diversidade de formas de composição dos poemas, como se a poesia, terreno fértil à germinação múltipla, resultasse num campo propício a concepções distintas do fazer. Assim, não apenas a moldura/estrutura textual como também as fontes e motivos operacionalizados pelo poeta, bem como sua consciência crítica, revelam uma sensibilidade antenada à cultura literária de que faz parte.
Desse modo, a irreverência à La Alexandre O’ Neill, o espírito breve e sintético dos haicais, o engajamento crítico de cariz neo-realista, lampejos surrealistas à Cesariny, essas matrizes se complementam no percurso poético de António Saias. Sem dúvida, de todo esse caldo cultural o que mais engrossa a textura de suas poesias é a presença de O’ Neill. A série de poemas como “Ponto de Interrogação”, “Ponto Final”, “Acento Circunflexo”, “Cedilha”, instauram em nossa leitura um diálogo com as “Brincadeiras Ortográficas” de O’ Neill. Em ambos os poetas, o espírito lúdico conjuga-se à lucidez crítica no trato com a palavra e o real nela implícito. Por isso, não se trata de uma metalinguagem encerrada nos limites da funcionalidade linguística, e sim de um código estético atento às relações tensivas entre palavra e realidade, representação e traição.
Nos versos “cada um manifesta-se como pode / ou pôde?” (2012, p.86), o pretexto de falar sobre o acento circunflexo abre-se a uma indagação que ultrapassa a questão gráfica para transformar-se num dilema maior: a liberdade do sujeito para sua manifestação é presente ou um gesto do passado? Ou melhor, que convenções ainda pautam as atitudes humanas? A arbitrariedade do signo e leis que o regem tem algo a ver com o arbítrio do ser humano?
Percebemos que a leveza da brincadeira tem a sua contraface, pois torna visível outra via de leitura em que desponta o senso crítico, como no poema “Pragma (para poeta contra novo AO)” (2012, p.81):
SOL
quando está frio apareces
isso me apraz

e sabes
quão pouco me faz
saber

quando me aqueces
se aquecer
se escreve com um C
se com mil SS

No diálogo com o sol desvela-se uma lição que extrapola os muros do academicismo ou do purismo vernacular. Por isso, para além das discussões infrutíferas em torno de acordos ortográficos, o poeta se manifesta como alguém capaz de acolher o que a natureza oferece para ser usufruído sem questionamento. Sentir-se aquecido ou confortado pela realidade natural parece muito mais prazeroso do que aceder às obrigações ou arbitrariedades das injunções institucionais, portanto, pouco importa a ortografia correta de aquecer, o que conta é o SOL maiúsculo que figura no alto do poema.
Evidentemente tal atitude não está a negar a seriedade das convenções, mas sim coloca sob suspeita o radicalismo ou cegueira que cerceiam as ações quando estas se pautam exclusivamente por condicionamentos inoperantes.
A burla, gesto saudável para inverter as posições habituais e categorias preestabelecidas, justifica-se como procedimento poético porque nele está contido o conhecimento ou saber. Ao poeta cabe o papel de investir numa aprendizagem que se desfaz do que se cristalizou, para recuperar o frescor e a originalidade roubados pela institucionalização. Antes cultivar o exótico que o pragmático usual, eis o que nos comunica um poema como “O Grego → O Latim → O Inglês → O Mandarim” (2012, p.80):
não tarda
quem quiser
mandar
em mim

não mais em
inglês

inglês
chegou
ao fim
ordens só vou
passar
ou aceitar
em
mandarim

O próprio trocadilho entre “mandar em mim” e “mandarim” revela a habilidade de quem manipula a língua como objeto que se esquiva aos grilhões da seriedade gramatical, tronando-a maleável ao único “idioma” que interessa – o da aventura poética. O poeta dribla, assim, a visão pragmática geralmente associada à língua inglesa, sugerindo atender a outras possibilidades idiomáticas ou alternativas linguísticas, como o mandarim.
É também o jogo verbal, próprio de quem gosta de tomar as palavras como brinquedo, que leva o poeta a criar um diálogo com o poeta brasileiro Manuel Bandeira: “o menino que gostava / de brincar com as palavras / viu uma lagarta às listras // e lembrou-se de chamar-lhe / LAGA_ARTISTA” (2012, p.74). Um outro poeta-criança, também manipulador das palavras, Manoel de Barros, certamente assinaria o jogo inventivo de Saias.
Por outro lado, o gracejo que brota do uso crítico da língua com o propósito de subversão das normas gramaticais pode também descortinar outra face pela leitura: o encanto lírico. No poema “GArçA” (2012, p.77), por exemplo, não somente o destaque gráfico do signo como também o discurso sobre a ave acabam por revelar a outra dimensão da linguagem e da própria ave. É que o mirar-se na água-linguagem, em que despontam qualificações – branca, leve, imponderável, esguia – permite que o reflexo da imagem da ave faça transparecer outro sentido para a garça – a graça. Beleza, recorte singular e poético da ave, num simples anagrama e sugerido pelos breves versos. O “inegável erro / de ortografia” é o que nos permite ler e ver o seu outro lado, o reflexo invertido das letras em que surge, aí sim, a graça no duplo sentido (encanto e humor).
Ao tomar como tema no poema “Bucólico” (2012, p.31) o canto do grilo (outro motivo que nos remete a Alexandre O’Neill), António Saias explora as potencialidades da rima, provocando curiosos efeitos semânticos. Opondo-se à usual sensação de incômodo que advém do canto do grilo, a visão do poeta constroi sensações prazerosas na sua relação com o inseto, pois o encanto e a pulsação vital materializam-se nos encontros sonoros e nas repetições: o que mais me encanta / quando o grilo canta / é saber que é pelas asas / que ele canta / -não pela garganta // ainda mais me encanta / no cantar do grilo / é eu sentir-me vivo//. O encadeamento dos sons guturais e as nasais /anta/ fazem com que o canto vá tomando conta do espaço poético, enlaçado ao eu que o incorpora. Num segundo momento do poema, o canto do grilo permanece, porém, agora, associado ao tempo, como se cantar tivesse o poder de amenizar a passagem do tempo e os contratempos da vida; as rimas e recorrências fônicas dão corpo a essa sensação: atento / contra o vento / ouvi-lo / grilo / canta / contra o tempo.
Entretanto, o bucolismo se reveste de outra dimensão, na medida em que o poeta apresenta-o sob um viés crítico, atendendo a uma vertente mais satírica, como no poema “Manhã Agrícola” (2012, p.28). Em matéria de ecologia, diz o poeta, não servem cantigas enganadoras, pois a realidade concreta e terrena exige outros cuidados. Formigas e toupeiras podem alimentar as fábulas clássicas ou inspirar Cesário Verde em seus poemas, mas na prática agrícola são daninhas, o que revela o lado bem humorado do poeta para quem é preciso entender a diferença entre as esferas literária e a práxis, até para se respeitar a natureza específica de cada uma. Na poesia, espaço em que o trabalho consciente com a linguagem faz coexistirem as duas realidades, tudo é possível porque o senso crítico está lá para denunciar as diferenças: “se precisar de bucolismo no trabalho / arranjo um pintassilgo / ou um canário”, conclui o poeta.
A consciência aguda de Saias não se conforma à imobilidade e passividade, preferindo o caminho da inquietação necessária à derrocada dos valores estabelecidos. É preciso construir outro mundo por meio de um lirismo inconformado, porém, insistente em seu poder de renovação – é o que nos propõe o poema “É Preciso”:
é preciso arrombar uma porta
é preciso inventar um caminho
é preciso uma leira cavada na horta
é preciso uma acha de fogo azinho

é preciso um canhão de certeza de tudo
é preciso uma seara de raiva nos dedos
é preciso outro mundo outro mundo outro mundo
sem brechas nem bruxas nem monstros nem medos (2012, p.12)

Autodeterminada (alimentada pelo anafórico “é preciso”), essa poesia reafirma seu papel junto à realidade histórica, acreditando nas possibilidades de transformação materializadas na linguagem. Transformação legítima porque preparada e armada no seio mesmo da escrita, espaço livre, aberto à emancipação do sujeito criador. A fome, a exploração, as diferenças sociais, as falsidades, a opressão e outros temas são revirados pela pena da escrita: “Fome não apaga / este pão trigueiro // sou ladrão de palavras” (2012, p.63). É graças ao investimento nas potencialidades do signo poético que a realidade se ilumina, fazendo do trabalho árduo com a palavra um análogo do trabalho braçal do homem ligado à terra.


COM ISTO ME DESPEÇO da SERPENTE
para mim de boa memória

abraço a todos

domingo, 28 de abril de 2013


ESCALADA


começou por deixar
de fumar

por aconselhamento médico
pôs de parte
as bebidas alcoólicas

quando deu por isso
tinha perdido o hábito
salutar

de
respirar

tinha
expirado

quinta-feira, 25 de abril de 2013


O(H)VIBEJA

aí estão as cabras
com os seus brincos
pendurados das orelhas

as vacas e os porcos
com seus piercings
no focinho e nas narinas

os burros
com a sua calma legendária
suas orelhas de abano
de grandes mais eficientes do que auscultadores

os cavalos lazões
castanhos izabela
prontos a serem montados
por meninos e meninas

aí estão os vendedores
de algodão-em-rama e de amendoins
e os cães domésticos
puxando os donos pelas trelas

aí estão as aves exóticas
os papagaios araras
e os garnizés
e os pombos gordos
que nem perus pelo Natal
e os camponeses velhos reformados
a não perderem nada
pelos pavilhões arrastando os pés

aí estão as avós
puxadas pelos netos
atrás dos fumos doces
dos churros das farturas
e os agricultores
perdidos em projetos
que rentabilizem
a ingrata agricultura

a água do Alqueiva
os olivais a rega
sem a qual a planta não tem seiva
o vendedor de máquinas
prometendo a entrega
do tractor New Holland
para virar a leiva

a gente do governo
pródiga em promessas
:
baixa de impostos subsídios sonhos

os putos marginais
virando a Feira das avessas
limpando ao braço
transpirações e ranhos

aí estão os balões
as espadas Excalibur
os pavilhões
de produtos regionais
:
os méis os queijos os enchidos maduros
os cheiros assimilados
a humores corporais

entanto o Sol falece
prós lados de Lisboa
são horas de apanhar o autocarro
- há quem vá de vagar há quem se apresse
há os eternos retardatários
distribuindo ainda
o tinto que há num jarro

até pró ano - a Feira estava boa
podia estar melhor diz a mulher cansada
perde a gente o tempo
por aqui à toa
com o raio da crise
não dá pra comprar nada

NUMA PRAÇA CHEIA DE GENTE


eu só fui ver

eu só queria ver

eu só queria ver-te

eu só queria observar-te

eu só queria sorver-te

perdoa-me Maria

- o que eu queria mesmo
era
um sor-ve-te

sexta-feira, 19 de abril de 2013

 rebanho é uma frase
de ovelhas

parte de um poema
- um verso

por bons ou maus caminhos
quem conduz o rebanho

para todo o lado

é a palavra-
-mestra

P´RA  PULAR  MATINAL


VAI CONTENTANDO A MANADA
COM FALINHAS DE VELUDO
- UMA MÃO CHEIA DE NADA
OUTRA VAZIA DE TUDO

domingo, 14 de abril de 2013


CREPÚSCULO

como as aves
põem ovos

quando se esconde
o SOL
é para pôr

todas as noites
dias novos

CREPÚSCULO


como as aves
põem ovos

quando de esconde
o SOL
é para pôr

diariamente
dias novos

sábado, 13 de abril de 2013


EXPLICAÇÃO DO POEMA

meus poemas são a minha
marcação
de território
na vida eterna

como cão
de qualquer esquina de taberna
faço
mictório

cheiro primeiro
dou meia volta

depois
levanto a perna

quinta-feira, 11 de abril de 2013


(I)MUNDO


escandaloso é o desequilíbrio entre

os "SEM-ABRIGO"

e os "CEM-ABRIGOS"

terça-feira, 9 de abril de 2013


GAIVOTAS

soltas
ao vento
como velas velozes

gritos graves

gaivotas são asas
com aves

segunda-feira, 8 de abril de 2013


JOGO


cuidado
quando lançares o dado
- ele pode
estar viciado

já não te lembras
que foste
tu próprio a viciá-lo?

domingo, 7 de abril de 2013


NOME & PRONOME


uma coisa é ser JOSÉ DE MASCARENHAS

outra bem diferente é ser

o JOSÉ do MASCARENHAS

sexta-feira, 5 de abril de 2013

MINISTRO  MISSIONÁRIO


de missão em missão

até à DEMISSÃO
final

DESPERTAR DE FAUNO


não é mau de todo
ter o sol a me lavar a cara

e ouvir lá fora
a seiva das roseiras
amadurecendo as rosas

ao som distinto
claro

de um apaixonado
rouxinol

quinta-feira, 4 de abril de 2013

NÃO FOI AO TEPÊTE
- foi à RELVA


no meio de tantas
trocas e baldrocas

talvez o ministro
vá ganhar a vida
a vender
PIPOCAS

segunda-feira, 1 de abril de 2013

COGITO ERGO SUM

penso
suspenso

como aranha que teça
teia
tensa

para caçar
ideias

em vez
de
alimento

Um abraço, apenas um abraço

 A minha nova crónica no Boas Notícias:
«Ela pediu-me um lenço. Estava sentada no banco de um jardim, perto de um canteiro de rosas a florirem na Primavera de há um ano atrás. Procurei, mas não tinha. Andava a passear o Timóteo, pouco mais levava do que a trela e os inevitáveis saquinhos de plástico, mas houve qualquer coisa na voz dela que me fez parar para acrescentar que no quiosque, ali a dois passos, lhe dariam um guardanapo. Então, percebi que tinha os olhos cheios de lágrimas. Era tão nova. Quinze, dezasseis anos? E estava desesperada. [...]»

Para ler o resto:
 Boas Notícias - O Tempo dos Milagres: Um abraço, apenas um abraço

CONTRADIÇÃO FATAL DO CAPITALISMO


a ECONOMIA prospera quando consumimos
as FINANÇAS apelam a que economizemos

como sair daqui?

domingo, 31 de março de 2013

FIM DE TARDE DE CHUVA

não gosto de citar

- por muito mau que seja um pensamento
é sempre melhor
se for original

citar é ter preguiça de pensar

sexta-feira, 29 de março de 2013

BODAS DE CANAAN

eu via
eu via e duvidava

eu dividia e dava
e com quanto menos
ficava
mais eu dava
dividia

eu duvidava
e dividia

o vinho - para tanta gente
é visto que não dava

só que
quanto menos vinho havia
mais eu dava

e quanto menos tinha
mais eu via

mais eu via
porque mais havia

porque
quanto mais eu dava
menos duvidava
que podia

o vinho
que não havia - e eu dava -
não embriagava

não era vinho
:
era alegria

Beckett




Fim de partida

Beckett






À espera de Godot

Beckett






Dias Felizes

Beckett




A vida não tem que ser verosímil

em memória de REIS PEREIRA - meu primeiro PROFESSOR
de FRANCÊS


SAMEDI


ah,oui, Samedi
c´est bon, c´est bien

mais SAMEDI
avec cette
impitoyable pluie

ÇA ME DIT
rien

segunda-feira, 25 de março de 2013


RECADO PARA MINHA AMIGA ADOLESCENTE


............................................
e já que queres ser RAINHA
tem cuidado c´o vestido
não te fique ele comprido
e tropeces na bainha

domingo, 24 de março de 2013


para o RESISTENTE amigo JCN

arde o tempo como a lenha
na fogueira a crepitar
- e por mais tempo que tenha
nunca o tempo vai chegar

domingo, 17 de março de 2013


DEPOIS DO LUME E DA AÇORDA

:

como hóstia
açorda não se come
-toma-se

mesmo ateu
depois de açorda
não esquece

e agradece

a Deus

quinta-feira, 14 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013


SÓ LEMBRAR


não há estrelas no céu
só quando conseguimos vê-las

elas estão lá durante o dia

e não é
por não conseguirmos vê-las
que elas não estão lá

e são
menos belas

terça-feira, 12 de março de 2013

CONFISSÃO

querubins
serafins
afins
confesso - quanto a mim

tudo menos santo
pela mão

de D.Saraiva 
Martins

domingo, 10 de março de 2013


LIBERDADE PODE MATAR


quando se soltam
pássaros da gaiola
é natural
que eles não saibam
como sobreviver

nem buscar comida
nem procurar abrigo
ou como escapar aos inimigos

passado muito tempo em cativeiro
alguns esqueceram
até como voar

gostar de pássaros
não é soltá-los da gaiola
- é não os prender

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

ENVELHEÇO - não há como esconder

faltava-me - já tenho
uma tigelinha esboqueirada
azul-marinho

onde pela manhã
tomo os "Corn Flake" ou a gemada
rodeado de gatos

ao sólinho

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


PORTUGAL NEO-LIBERAL

meu país minha pátria
meu Torrão Natal
meu ninho de surpresas

velho/novo Mito
de que a salvação
está
em substituir o estado
por empresas

a Bandeira o Hino
o próprio nome
te irão trocar

não estranhes PORTUGAL
que sob pretexto
de glória que te exalte

em vez de quinas
te pintem poços de petróleo

e os teus "legítimos" novos
proprietários

passem a chamar-te

PORTUGALP

domingo, 10 de fevereiro de 2013


NO EXPRESSO PARA 7 RIOS

1 - cada pessoa
tem um saco de palavras

em que tem medo
de meter a mão
e tirar uma

sempre que é preciso

2 - indiferente ao movimento
à velocidade
ao espaço
ao tempo

uma mulher de idade
num banco recuado

faz crochet

sem saber
sem dar por isso
entre Montemor e 7 Rios
faz um naperon
de TEMPO

3 - num banco da frente
uma rapariga loira
dorme

meia-hora depois
estarei eu

conforme

4 - no banco ao lado
uma jovem morena
faz tranças
no cabelo

a ritmo paralelo
a que a mulher do crochet
vai consumindo
a linha do novelo

são tererés
- delicadas tranças esparsas

lã merina
ou compridos
enleios
de calabaças

5 - DESISTIR
é meio caminho
para

des-existir

6 - com estas reflexões
com estes desvarios
se consomem os quilómetros
de auto-estrada

entre MONTEMOR
e 7 RIOS

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Escravo da ganância
rouba a bel-prazer
aceita o ignorante
a sentença de culpa
paga os impostos
alimenta o parasita

dorme o desabrigado
na hall do banco
que lhe roubou a casa
no chão,
um corpo encolhido
tolhido pela humilhação

um homem cansado
de dor enlouquece
espreita a fome
a miséria alheia
em cada esquina
enquanto o banqueiro
vestido de anjo
assalta o país

um homem sem nome
em tom de revolta
pede a quem dorme
que acorde e desperte
recorda que a vida
foi um dia assistida

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


BREVE EXPLICAÇÃO DAS MOELAS


as moelas
têm as paredes duras

a elas
vão parar
sementes puras
-sem fissuras-

e são elas
as moelas
- porque de paredes duras

que têm
que moê-las

daí
o nome
das
MOELAS

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

ANIVERSÁRIO de nascimento de PADRE ANTÓNIO VIEIRA

TODOS de parabéns

mesmo o que nunca leram dele uma só linha
nem fazem ideia do CLUB em jogou
Quando fico triste, meu coração anoitece e pede em silêncio que a memória se faça viva e recorde. Então, todo meu corpo desperta e sorri. A cabeça inventa um ombro amigo e nele se abriga, sem medo. Esse é o instante em que eu sou feliz. Se o pranto toma lugar do riso, vou em busca do intervalo, ponto de fuga que reconheço no espaço. Nele a vida que tímida se esconde na sombra. 
Quando meu coração cansado, adormece, lembro do beijo que me ensinou a ser livre.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Dizem que pareço com ele. Outros fazem de mim, o que ela é. Dizem, que dele e dela herdo a vontade de vida. Dizem isto e aquilo e eu me arrepio. Porque às vezes, sou ele e doutras sou ela. Quando anoitece o ano velho, com colheres de pau, fazem das panelas tambores. Bendita é a loucura que me abraça o coração. Dela nasce o poema. 
Se vejo a serpente em forma de gente e com ela danço, é porque dizem que herdo a vontade de ser.
Ele tem nome e ela também. Fazem parte de todas as partes que conheço. Em cada curva, o desvio do encontro. 
Dizem isto e aquilo, e eu me arrepio com cada sorriso escondido no pranto. 
No inferno descubro o anjo. No paraíso, abraça-me o diabo. No caminho, entre o que fui e sou, esqueço.
Dizem isto e aquilo, enquanto morro e nasço.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Há dias em que as manhãs chamam a noite fria. Nas madrugadas molhadas, desprotegidas da vida - sem cor. Insónia que habita o sono da dor. Nas ruas moram mendigos à força. Doutores letrados desenham a fome com teimosia. Em cada esquina, em cada corpo desabrigado, a miséria cresce vitoriosa. Há dias em que as manhãs, não são senão esta noite teimosa, longa que adormeceu o meu país.
Na avenida da Liberdade, entre esplanadas habitam camas. O colchão é uma invenção do século passado. Entre o chão e o corpo, habita o papelão. Molhado, empapa o corpo do desgraçado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

BALADA DE NARAYAMA


Sinopse e detalhes

"O filme se passa numa aldeia remota localizada na região das montanhas do Japão. Por conta da escassez de alimentos, o povoado cria uma política voluntária na qual parentes mais novos carregam seus familiares com mais de 70 anos de idade para o topo da montanha Narayama, onde são deixados para morrer. Orin (Kinuyo Tanaka) é uma senhora que está perto de se tornar septuagenária e começa a aceitar seu destino cruel. Seu filho viúvo, Tatsuhei (Teiji Takahashi), não consegue suportar a ideia de perder a mãe. Seu neto egoísta está feliz em saber que Orin irá morrer. Ao redor deles, uma família de ladrões é tratada com severidade pela comunidade e um homem de 70 anos, expulso de casa pelo filho, precisa mendigar por um pouco de comida."

eu vi o FILME
por isso me ocorreu agora

e o invoco

serve também para advertir
do perigo que é
endeusar a ECONOMIA

nunca é demais
estarmos alerta

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


AQUENTEJO


dois outeiros
- um verde-seara  talvez trigo

outro castanho-escuro
ávido de sementes

por detrás um céu Azul-
-indigo

cenário de Van GOGH
à espera
de poentes

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


MEMÓRIA DOS SONS


gosto das palavras pelo som

como das vacas
ou ovelhas
pelos chocalhos
nas noites de verão

interrompo o trabalho
para escrever
a palavra rodovalho

dxtó - de enxotar cães

esplenético
esparadrapo

mesmo sem saber
o que nomeia
-você não gosta
da palavra esparadrapo?

não é
mas soa a trapo

esplenético eu gosto
não só pelo som
como pelo que diz

esplenético é sinónimo de triste
macambúzio
desanimado

pelo som
e significado
esplenético
traz-me à memória
um animal infeliz

 escanzelado

- perdoa-me o pecado
meu país

sábado, 12 de janeiro de 2013

pra pular

NÃO QUER A TROIKA FANDANGA

OUTRA COISA QUE NÃO SEJA

PÔR-NOS A TODOS DE TANGA

PEDINDO À PORTA DA IGREJA

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


LEGENDA para uma foto do DUBAI

:

quanto mais
no CENTRO
a TORRE é alta

mais na periferia
o BAIRRO é LIXO

e LATA

domingo, 6 de janeiro de 2013

INVERNO

o SOL
como que humilhado

- antes que seja LUZ
e nos aqueça

passa por nós envergonhado

-ombros encolhidos
mãos nos bolsos

sem levantar a cabeça

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


NOTÍCIA

fraturou o fémur

não é grave

nem fémur
nem fratura
são eternos

fémur
é efémero

como a vida

vida é prova
científica
da eternidade

do efémero

terça-feira, 1 de janeiro de 2013


A PROPÓSITO DE DEFINIÇÕES DE AMIZADE


aprendi com um arquiteto italiano, em Évora, que a melhor intervenção urbanistica num Centro Histórico é quando nós passamos e não damos por ela

dou comigo agora, no meio de tantas sábias definições, a pensar
que o conceito do arqtº italiano se adapta perfeitamente ao caso da AMIZADE
:
quando ela é genuína, os parceiros beneficiários não dão por ela

abraço amigo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


BOA NOTÍCIA

a nossa TAP
conseguiu este ano transportar mais de
10 MILHÕES de passageiros

garantia
de que
o país pode ser abandonado
- de avião -

em menos de
UM ANO

já devemos ser
menos de 10 MILHÕES

ELIXYR

a marca de tabaco de enrolar que compro
após CINCO ANOS SEM FUMAR

AVISO EM LETRAS BEM VISÍVEIS
:
"FUMAR PREJUDICA GRAVEMENTE A SUA SAÚDE
E A DOS QUE O RODEIAM"

noutro ponto da embalagem
:
"os MENORES não devem FUMAR
(repare-se na delícia de marketing)

TABACO DE ENROLAR"

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


CONSTATAÇÃO

não é com lágrimas
nem flores
nem com poemas

nem com coisas
tão pequenas

que se conquistam
AMORES

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Portugal. Natal 2012

No Natal
Dorme na rua
desagalhado
Pede a Deus
Uma noite de calor


Na minha infância o Natal era tropical, feito de chuva e calor. Em casa, um bonsai replicava um pinheiro ancião. Mil passarinhos feitos de papel manteiga, vestiam-no de branco, inventando o inverno. Naquele pedaço de mundo, a neve era tão quente como o nosso coração.
Só muitos anos depois é que eu soube que o bonsai é planta que cresce presa. Cria raízes no sofrimento. Modificada, ganha a dimensão da natureza numa bandeja.  Mil passarinhos vestiam o nosso pinheirinho desejando longa vida. Como o nosso bonsai, os tsurus viviam para além dos dias. Memória dos nossos corações de criança.

Um sorriso
simula um abraço
a quem na rua
tem o seu abrigo.

Quando me contaram que o Pai Natal não passava de um conto de fadas, entendi o meu desconforto. Tantos anos a entrar pelas chaminés, com renas e neve, sempre no mesmo dia, em todos os lugares do mundo, beneficiando uns e esquecendo outros. Pedi então, que Deus existisse, mesmo que eu não soubesse como, porque nos dias difíceis só ele poderia me valer.

uma mãe deu à luz
uma criança sem casa
Não houve Reis Magos
a proteger a cria

Em cada esquina encontro uma luz que se apaga, dando conta do tempo que vivo. Mais um amigo sem emprego, mais uma criança com fome. Em cada cada esquina, padeço de tristeza, porque o Natal hoje, em Portugal, é tão mentiroso como o Pai Natal.

Possa o meu coração ser suficiente para aquecer a criança que acaba de nascer.

domingo, 2 de dezembro de 2012


MANHÃ LINDA
de DOMINGO

cara lavada
perfumada
depois de madrugada fria
de geada

horizontes largos
até ao Castelo de Évoramonte
- límpida como esta
quinta Sinfonia

manhã linda
de DOMINGO

cedo saída à rua
- soquetes cor-de-rosa
lacinho azul na cabeça

para a gente
lhe tirar
a fotografia

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A new moon's rising

I have seen you countless times before, 
Yet tonight I sit in my veranda, 
Waiting for but a glimpse of you, 
Never this excited for the moon, 
Never acknowledged, 
Yet every night you light my night, 
Quietly silently you pray, 
For me to look at you, 
Each night I never did, 
But tonight I sit for you in wait, 
Then you show me your majestic beauty, 
Your aura reflecting a thousand colours, 
Colours I have never seen, 
 I sit looking at you in awe, 
Within seconds you disappear, 
Playing an eternal game of hide and seek, 
I kept searching the night sky for you, 
You no longer displayed your beauty, 
 Now you will return when I watch the sky no more, 
Making me realise that the moon 
I had never seen before. 

Qudsia Pervez

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

do CORREIO DA MANHÃ(ao amigo PAULO BORGES - visceralmente anti-tourada)

(cavaleiro tauromáquico de Benavente apanhado pela Polícia por ter passado nota falsa)

:
TENDO A ESTRADA POR ARENA
NUMA FAENA MODERNA
SAIU-LHE A SORTE PEQUENA
- ESPETOU A FARPA NA PERNA

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


CREPÚSCULO NA RUA  II

tarde escura de outono
a cidade está cheia de gente

toda ela de escuro

a luz ainda apagada

esta tarde de outono
é um muro

de azinhaga

domingo, 11 de novembro de 2012


AHORA

solidão não é estar-se só
é só estar-se

estar por estar

e tantas vezes isso acontece
com quem se julga
estar
acompanhado

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CERTO

pões-me
como um cacto
agressivo
erecto

e logo de seguida
suave
e submisso

como
um feto

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LENGA-LONGA (para ensinar aos meninos)

ganga----->canga------> tanga

eis a que nos leva 
levou

esta tronga
TROIKA
fandanga