O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 29 de março de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013


RECADO PARA MINHA AMIGA ADOLESCENTE


............................................
e já que queres ser RAINHA
tem cuidado c´o vestido
não te fique ele comprido
e tropeces na bainha

domingo, 24 de março de 2013


para o RESISTENTE amigo JCN

arde o tempo como a lenha
na fogueira a crepitar
- e por mais tempo que tenha
nunca o tempo vai chegar

domingo, 17 de março de 2013


DEPOIS DO LUME E DA AÇORDA

:

como hóstia
açorda não se come
-toma-se

mesmo ateu
depois de açorda
não esquece

e agradece

a Deus

quinta-feira, 14 de março de 2013

quarta-feira, 13 de março de 2013


SÓ LEMBRAR


não há estrelas no céu
só quando conseguimos vê-las

elas estão lá durante o dia

e não é
por não conseguirmos vê-las
que elas não estão lá

e são
menos belas

terça-feira, 12 de março de 2013

CONFISSÃO

querubins
serafins
afins
confesso - quanto a mim

tudo menos santo
pela mão

de D.Saraiva 
Martins

domingo, 10 de março de 2013


LIBERDADE PODE MATAR


quando se soltam
pássaros da gaiola
é natural
que eles não saibam
como sobreviver

nem buscar comida
nem procurar abrigo
ou como escapar aos inimigos

passado muito tempo em cativeiro
alguns esqueceram
até como voar

gostar de pássaros
não é soltá-los da gaiola
- é não os prender

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

ENVELHEÇO - não há como esconder

faltava-me - já tenho
uma tigelinha esboqueirada
azul-marinho

onde pela manhã
tomo os "Corn Flake" ou a gemada
rodeado de gatos

ao sólinho

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013


PORTUGAL NEO-LIBERAL

meu país minha pátria
meu Torrão Natal
meu ninho de surpresas

velho/novo Mito
de que a salvação
está
em substituir o estado
por empresas

a Bandeira o Hino
o próprio nome
te irão trocar

não estranhes PORTUGAL
que sob pretexto
de glória que te exalte

em vez de quinas
te pintem poços de petróleo

e os teus "legítimos" novos
proprietários

passem a chamar-te

PORTUGALP

domingo, 10 de fevereiro de 2013


NO EXPRESSO PARA 7 RIOS

1 - cada pessoa
tem um saco de palavras

em que tem medo
de meter a mão
e tirar uma

sempre que é preciso

2 - indiferente ao movimento
à velocidade
ao espaço
ao tempo

uma mulher de idade
num banco recuado

faz crochet

sem saber
sem dar por isso
entre Montemor e 7 Rios
faz um naperon
de TEMPO

3 - num banco da frente
uma rapariga loira
dorme

meia-hora depois
estarei eu

conforme

4 - no banco ao lado
uma jovem morena
faz tranças
no cabelo

a ritmo paralelo
a que a mulher do crochet
vai consumindo
a linha do novelo

são tererés
- delicadas tranças esparsas

lã merina
ou compridos
enleios
de calabaças

5 - DESISTIR
é meio caminho
para

des-existir

6 - com estas reflexões
com estes desvarios
se consomem os quilómetros
de auto-estrada

entre MONTEMOR
e 7 RIOS

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Escravo da ganância
rouba a bel-prazer
aceita o ignorante
a sentença de culpa
paga os impostos
alimenta o parasita

dorme o desabrigado
na hall do banco
que lhe roubou a casa
no chão,
um corpo encolhido
tolhido pela humilhação

um homem cansado
de dor enlouquece
espreita a fome
a miséria alheia
em cada esquina
enquanto o banqueiro
vestido de anjo
assalta o país

um homem sem nome
em tom de revolta
pede a quem dorme
que acorde e desperte
recorda que a vida
foi um dia assistida

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013


BREVE EXPLICAÇÃO DAS MOELAS


as moelas
têm as paredes duras

a elas
vão parar
sementes puras
-sem fissuras-

e são elas
as moelas
- porque de paredes duras

que têm
que moê-las

daí
o nome
das
MOELAS

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

ANIVERSÁRIO de nascimento de PADRE ANTÓNIO VIEIRA

TODOS de parabéns

mesmo o que nunca leram dele uma só linha
nem fazem ideia do CLUB em jogou
Quando fico triste, meu coração anoitece e pede em silêncio que a memória se faça viva e recorde. Então, todo meu corpo desperta e sorri. A cabeça inventa um ombro amigo e nele se abriga, sem medo. Esse é o instante em que eu sou feliz. Se o pranto toma lugar do riso, vou em busca do intervalo, ponto de fuga que reconheço no espaço. Nele a vida que tímida se esconde na sombra. 
Quando meu coração cansado, adormece, lembro do beijo que me ensinou a ser livre.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Dizem que pareço com ele. Outros fazem de mim, o que ela é. Dizem, que dele e dela herdo a vontade de vida. Dizem isto e aquilo e eu me arrepio. Porque às vezes, sou ele e doutras sou ela. Quando anoitece o ano velho, com colheres de pau, fazem das panelas tambores. Bendita é a loucura que me abraça o coração. Dela nasce o poema. 
Se vejo a serpente em forma de gente e com ela danço, é porque dizem que herdo a vontade de ser.
Ele tem nome e ela também. Fazem parte de todas as partes que conheço. Em cada curva, o desvio do encontro. 
Dizem isto e aquilo, e eu me arrepio com cada sorriso escondido no pranto. 
No inferno descubro o anjo. No paraíso, abraça-me o diabo. No caminho, entre o que fui e sou, esqueço.
Dizem isto e aquilo, enquanto morro e nasço.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Há dias em que as manhãs chamam a noite fria. Nas madrugadas molhadas, desprotegidas da vida - sem cor. Insónia que habita o sono da dor. Nas ruas moram mendigos à força. Doutores letrados desenham a fome com teimosia. Em cada esquina, em cada corpo desabrigado, a miséria cresce vitoriosa. Há dias em que as manhãs, não são senão esta noite teimosa, longa que adormeceu o meu país.
Na avenida da Liberdade, entre esplanadas habitam camas. O colchão é uma invenção do século passado. Entre o chão e o corpo, habita o papelão. Molhado, empapa o corpo do desgraçado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

BALADA DE NARAYAMA


Sinopse e detalhes

"O filme se passa numa aldeia remota localizada na região das montanhas do Japão. Por conta da escassez de alimentos, o povoado cria uma política voluntária na qual parentes mais novos carregam seus familiares com mais de 70 anos de idade para o topo da montanha Narayama, onde são deixados para morrer. Orin (Kinuyo Tanaka) é uma senhora que está perto de se tornar septuagenária e começa a aceitar seu destino cruel. Seu filho viúvo, Tatsuhei (Teiji Takahashi), não consegue suportar a ideia de perder a mãe. Seu neto egoísta está feliz em saber que Orin irá morrer. Ao redor deles, uma família de ladrões é tratada com severidade pela comunidade e um homem de 70 anos, expulso de casa pelo filho, precisa mendigar por um pouco de comida."

eu vi o FILME
por isso me ocorreu agora

e o invoco

serve também para advertir
do perigo que é
endeusar a ECONOMIA

nunca é demais
estarmos alerta

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013


AQUENTEJO


dois outeiros
- um verde-seara  talvez trigo

outro castanho-escuro
ávido de sementes

por detrás um céu Azul-
-indigo

cenário de Van GOGH
à espera
de poentes

terça-feira, 15 de janeiro de 2013


MEMÓRIA DOS SONS


gosto das palavras pelo som

como das vacas
ou ovelhas
pelos chocalhos
nas noites de verão

interrompo o trabalho
para escrever
a palavra rodovalho

dxtó - de enxotar cães

esplenético
esparadrapo

mesmo sem saber
o que nomeia
-você não gosta
da palavra esparadrapo?

não é
mas soa a trapo

esplenético eu gosto
não só pelo som
como pelo que diz

esplenético é sinónimo de triste
macambúzio
desanimado

pelo som
e significado
esplenético
traz-me à memória
um animal infeliz

 escanzelado

- perdoa-me o pecado
meu país

sábado, 12 de janeiro de 2013

pra pular

NÃO QUER A TROIKA FANDANGA

OUTRA COISA QUE NÃO SEJA

PÔR-NOS A TODOS DE TANGA

PEDINDO À PORTA DA IGREJA

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


LEGENDA para uma foto do DUBAI

:

quanto mais
no CENTRO
a TORRE é alta

mais na periferia
o BAIRRO é LIXO

e LATA

domingo, 6 de janeiro de 2013

INVERNO

o SOL
como que humilhado

- antes que seja LUZ
e nos aqueça

passa por nós envergonhado

-ombros encolhidos
mãos nos bolsos

sem levantar a cabeça

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


NOTÍCIA

fraturou o fémur

não é grave

nem fémur
nem fratura
são eternos

fémur
é efémero

como a vida

vida é prova
científica
da eternidade

do efémero

terça-feira, 1 de janeiro de 2013


A PROPÓSITO DE DEFINIÇÕES DE AMIZADE


aprendi com um arquiteto italiano, em Évora, que a melhor intervenção urbanistica num Centro Histórico é quando nós passamos e não damos por ela

dou comigo agora, no meio de tantas sábias definições, a pensar
que o conceito do arqtº italiano se adapta perfeitamente ao caso da AMIZADE
:
quando ela é genuína, os parceiros beneficiários não dão por ela

abraço amigo

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


BOA NOTÍCIA

a nossa TAP
conseguiu este ano transportar mais de
10 MILHÕES de passageiros

garantia
de que
o país pode ser abandonado
- de avião -

em menos de
UM ANO

já devemos ser
menos de 10 MILHÕES

ELIXYR

a marca de tabaco de enrolar que compro
após CINCO ANOS SEM FUMAR

AVISO EM LETRAS BEM VISÍVEIS
:
"FUMAR PREJUDICA GRAVEMENTE A SUA SAÚDE
E A DOS QUE O RODEIAM"

noutro ponto da embalagem
:
"os MENORES não devem FUMAR
(repare-se na delícia de marketing)

TABACO DE ENROLAR"

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


CONSTATAÇÃO

não é com lágrimas
nem flores
nem com poemas

nem com coisas
tão pequenas

que se conquistam
AMORES

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Portugal. Natal 2012

No Natal
Dorme na rua
desagalhado
Pede a Deus
Uma noite de calor


Na minha infância o Natal era tropical, feito de chuva e calor. Em casa, um bonsai replicava um pinheiro ancião. Mil passarinhos feitos de papel manteiga, vestiam-no de branco, inventando o inverno. Naquele pedaço de mundo, a neve era tão quente como o nosso coração.
Só muitos anos depois é que eu soube que o bonsai é planta que cresce presa. Cria raízes no sofrimento. Modificada, ganha a dimensão da natureza numa bandeja.  Mil passarinhos vestiam o nosso pinheirinho desejando longa vida. Como o nosso bonsai, os tsurus viviam para além dos dias. Memória dos nossos corações de criança.

Um sorriso
simula um abraço
a quem na rua
tem o seu abrigo.

Quando me contaram que o Pai Natal não passava de um conto de fadas, entendi o meu desconforto. Tantos anos a entrar pelas chaminés, com renas e neve, sempre no mesmo dia, em todos os lugares do mundo, beneficiando uns e esquecendo outros. Pedi então, que Deus existisse, mesmo que eu não soubesse como, porque nos dias difíceis só ele poderia me valer.

uma mãe deu à luz
uma criança sem casa
Não houve Reis Magos
a proteger a cria

Em cada esquina encontro uma luz que se apaga, dando conta do tempo que vivo. Mais um amigo sem emprego, mais uma criança com fome. Em cada cada esquina, padeço de tristeza, porque o Natal hoje, em Portugal, é tão mentiroso como o Pai Natal.

Possa o meu coração ser suficiente para aquecer a criança que acaba de nascer.

domingo, 2 de dezembro de 2012


MANHÃ LINDA
de DOMINGO

cara lavada
perfumada
depois de madrugada fria
de geada

horizontes largos
até ao Castelo de Évoramonte
- límpida como esta
quinta Sinfonia

manhã linda
de DOMINGO

cedo saída à rua
- soquetes cor-de-rosa
lacinho azul na cabeça

para a gente
lhe tirar
a fotografia

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A new moon's rising

I have seen you countless times before, 
Yet tonight I sit in my veranda, 
Waiting for but a glimpse of you, 
Never this excited for the moon, 
Never acknowledged, 
Yet every night you light my night, 
Quietly silently you pray, 
For me to look at you, 
Each night I never did, 
But tonight I sit for you in wait, 
Then you show me your majestic beauty, 
Your aura reflecting a thousand colours, 
Colours I have never seen, 
 I sit looking at you in awe, 
Within seconds you disappear, 
Playing an eternal game of hide and seek, 
I kept searching the night sky for you, 
You no longer displayed your beauty, 
 Now you will return when I watch the sky no more, 
Making me realise that the moon 
I had never seen before. 

Qudsia Pervez

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

do CORREIO DA MANHÃ(ao amigo PAULO BORGES - visceralmente anti-tourada)

(cavaleiro tauromáquico de Benavente apanhado pela Polícia por ter passado nota falsa)

:
TENDO A ESTRADA POR ARENA
NUMA FAENA MODERNA
SAIU-LHE A SORTE PEQUENA
- ESPETOU A FARPA NA PERNA

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


CREPÚSCULO NA RUA  II

tarde escura de outono
a cidade está cheia de gente

toda ela de escuro

a luz ainda apagada

esta tarde de outono
é um muro

de azinhaga

domingo, 11 de novembro de 2012


AHORA

solidão não é estar-se só
é só estar-se

estar por estar

e tantas vezes isso acontece
com quem se julga
estar
acompanhado

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

CERTO

pões-me
como um cacto
agressivo
erecto

e logo de seguida
suave
e submisso

como
um feto

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

LENGA-LONGA (para ensinar aos meninos)

ganga----->canga------> tanga

eis a que nos leva 
levou

esta tronga
TROIKA
fandanga

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Children of the sun



We are ancients 
As ancient as the sun 
We came from the ocean 
Once our ancestral home 
So that one day 
We could all return 
To our birthright 
The great celestial dome 
 We are the children of the sun 
Our journey's just begun 
Sunflowers in our hair 
We are the children of the sun 
There is room for everyone 
Sunflowers in our hair 
Throughout the ages 
Of iron, bronze, and stone 
We marvelled at the night sky 
And what may lie beyond 
We burned offerings 
To the elemental ones 
Made sacrifices 
For beauty, peace and love 
We are the children of the sun 
Our kingdom will come 
Sunflowers in our hair 
We are the children of the sun 
Our carnival's begun 
Our songs will fill the air 
And you know it's time 
To look for reasons why 
Just reach up and touch the sky 
To the heavens we'll ascend 
We are the children of the sun 
Our journey has begun 
All the older children 
Come out at night 
Anaemic, soulless 
Great hunger in their eyes
Unaware of the beauty 
That sleeps tonight 
And all the queen's horses 
And all the king's men 
Will never put these children back 
Together again 
Faith, hope, our charities 
Greed, sloth, our enemies 
We are the children of the sun 
We are the children of the sun 

in Anastasis, por Dead Can Dance

A 24 de Outubro de 2012, os Dead Can Dance, fizeram a sua aparição, pela primeira vez em Portugal, na cidade do Porto, para uma apresentação musical que para sempre perdurará na memória dos que estiveram presentes. Como diz Ariana Ferreira, ''Se a música não gozasse de um estatuto de eternidade tão maior ou tão poderoso quanto o do cinema ou da literatura, no epitáfio dos Dead Can Dance, datado de 1998, ler-se-ia: ''Aqui jaz um dos mais inventivos projectos de culto da actualidade, que se distinguiu pela fusão entre a música de época, cânticos de influência gaélica e médio-orientais, e a música electrónica, sem nunca descurar uma estética visual muito particular e cuidada.'' Apontamento de reportagem, Aqui.


Minha cara não é feia
Minha mão não tem peçonha
Se eu não me casar
Não é uma pouca vergonha?

Sempre achei que esta era a estrofe seguinte ao poema da batatinha. Depois do jantar, meus pais sentavam-se no sofá da sala de estar e esperavam que eu recitasse. De frente para eles, enquanto declamava passava minhas mãos pela cara, abria os braços e perguntava convicta:
-       Se eu não me casar não é uma pouca vergonha?
Então, meus pais batiam palmas e eu tinha a certeza que eles gostavam de mim.
Podia dormir descansada, porque em todos meus sonhos, os príncipes existiam como nos contos de fadas.
O Visconde de Sabugosa, a Emília, o Pedrinho e a Narizinho eram meus fieis companheiros. De dia ou de noite, bastava cheirar o pó de pirlimpimpim, que ganhávamos asas para outras viagens. As madrastas feias eram derrotadas e o mundo podia voltar a sorrir.
Quando aprendi a ler, a minha professora deu-me um livro francês, que contava a história de uma baleia azul. Escreveu uma dedicatória dizendo que um dia eu também poderia contar histórias. Durante muitos anos, folheei o livro, adivinhando a história através das imagens.
Ficou a vontade secreta de que um dia eu escreveria numa língua em que todas as crianças do mundo reconheceriam. Uma língua que não precisaria de tradução, porque os sons seriam amigos. Abraçariam o coração, fariam cócegas no corpo , ririam e chorariam na cadência das histórias bonitas.
O livro da baleia azul ainda mora comigo.  Sei de cor a sua história. Corre pelo meu corpo, agora,  a caminho de outra infância.

Batatinha quando nasce
Espalha a rama pelo chão
A menina quando dorme
Põe a mão no coração
     ...
Se eu não me casar
Não é uma pouca vergonha?

No final da primária, senti uma dor aguda chamada despedida. Eu iria morar longe e nenhum dos meus amigos, nem daqueles por quem eu estava apaixonada seguiriam comigo.  O pó de faz de conta, não acalmou a dor.
Na varanda, deitada na rede, ouvindo o mar eu cantava baixinho:

Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor
Por isso eu não quero lembrar quando partiu meu grande amor
Ai, ai, ai ai, ai ai ai,está chegando a hora
O dia já vem raiando, meu bem, eu tenho que ir embora

O meu amor eram tantos que juntos eram só um, e era tão intenso o que eu sentia que meu pai ensinou-me que esse vazio tão cheio se chamava saudade.

Disse ainda que umas vezes dói, outras acalma por dentro e nos faz sorrir.

Foi assim acolhendo o dia que aprendi a gostar do tempo que nasce e morre em cada manhã, como se fosse o poema que um dia prometi escrever numa língua em que todas as crianças entendem. Não tem gramática, nem acordos. Conjuga todos os verbos no presente sempre na primeira pessoa do plural, porque nela nos reconhecemos todos.

Enquanto minha mãe toca piano, meu pai ensina-me outro poema.
Este, que mora no intervalo de cada palavra esquecida.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


CHUVA

ela aí está

primeiro suave
macia
leve como se fosse neve
suspiro de pássaro

andar subtil de gato

no telhado

logo engrossa
e ganha o ritmo
e o som
de trote
de galope
de cavalo

sem cavaleiro
que consiga
dominá-lo

chove
a galope

terça-feira, 23 de outubro de 2012


IMPÉRIO DOS SENTIDOS


trago os sentidos despidos
como vieram  ao mundo
são por isso mais sentidos
mais sensíveis quase a tudo

ao velho Sol se aparece
por detrás do nevoeiro
aos prados quando ele aquece
ao olfato  aos sons aos cheiros

despidos como mendigos
coitados sem agasalhos
felizes se andam comigo
por veredas e atalhos

sem roupa trago-os na pele
com eles às vezes brinco
chamando cada um deles
sendo eles bem mais que cinco

há o sentido da esperança
já velho sem ter idade
um morno - da temperança
que embirra c´oa liberdade

o sentido da Justiça
tão maltratado por vezes
traja a rigor e cobiça
a esperança dos portugueses

há muitos destes sentidos
mais que olfato e paladar
tato visão e ouvidos
que é preciso despertar

sábado, 20 de outubro de 2012

À MEMORIA DE MANUEL ANTÓNIO PINA

olha que fazer agora?
nada

deixas órfãos
os teus amigos gatos
e algumas - muitas - folhas de papel A4
viúvas
da tua esferográfica

e agora Manuel já deves estar
na casa do destino

trata de puxá-lo
pela aba do casaco
e admoestá-lo
:
já viste o que fizeste
meu menino?
na morte de Manuel António Pina
:
não chegar
não implica
nunca se ter partido

bem como expirar
não é o mesmo
que não se ter nascido

( sujeito a revisão - reação a quente à notícia do eterno frio)

segunda-feira, 8 de outubro de 2012


PROFESSOR - EU?

não sou mas tenho pena
:
ensinar-te caminhos
veredas e atalhos

mostrar-te flores e fontes
e o céu quando o sol se esconde

e o arco-iris quando ameaça chuva
e o segredo
como se fosses criança

de onde ele toca o horizonte