O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quinta-feira, 7 de junho de 2012


Esta noite, sentou-se a meu lado na sala de cinema, uma senhora de chapéu azul. Voltei-me impaciente para tentar perceber porque razão aquela personagem mostrava-se expectante entre o desejo de aplauso e a necessidade de privacidade.
Dei um toque disfarçadamente no cotovelo da minha vizinha. Olhou-me tranquila, a Rainha de Inglaterra.
Nada disto é inventado, pois foi tudo sonhado nesta noite que passou.
Antes de adormecer, ouvi o Passos Coelho dizer que estamos todos de parabéns.
A vida nesta terra, beira o cinza da passividade. A minha loucura casa-se com a noite. A rainha já vai ao cinema com a plebe.

domingo, 3 de junho de 2012

À porta do prédio, Helena espera-me, como sempre, com mais um poema.

- Vê lá, se gostas deste.. É o que ando a fazer agora. Não leias, se estás cansada, mas se queres esquecer o teu dia, embrenha-te nele. É o que ando a escrever. Não sei que horas são...
- Já passam das seis da manhã. Acho que vou ler depois de dormir...

Devolve-me um sorriso. Responde-me sempre assim. Ela é a minha vizinha do r/c. Não sei o que faz, para além dos poemas que me ofecere a cada manhã.

"Edito a vida de quem não tem vida, todos os dias", diz a caminho de sua casa.

Se Helena matasse o vizinho do segundo esquerdo, teria um editor. Seria notícia em todos jornais: “Poetisa estrangula vizinho, ao raiar da manhã...”. Em pouco tempo teria um livro publicado com todos os seus poemas. Tenho certeza que seria um best seller. 

Augusto é um velho militar reformado. Toca uma corneta desafinada ao raiar de todas as manhãs. Helena está convencida que o homem terá sido galo numa vida passada. 

Quando chove, a poeira vira lama. Na mesa da minha sala de jantar, amontoam-se fotografias. O passado ganha contornos de presente. Desenho com os dedos cada traço como se nesse gesto, a velhice fosse somente um breve pesadelo. Deixo que os espelhos ganhem pó e com o tempo se distraiam de mim.

Helena parece não ter idade. Enquanto envelheço a cada manhã, ela parece sempre a mesma com um sorriso que não consigo definir. Os seus poemas moram com as minhas fotos, como se fossem amantes inseparáveis.

Antes de me deitar, em vez de pedir a Deus desculpas por todos os meus pecados, leio. Os poemas de Helena são como a noite morna que aconchega meu corpo. 

Dormir de dia, é como andar em contra-mão. O corpo pesa e reage descompassado. 

Depois de um banho quente, sento-me a ler o poema de hoje:

“Tudo que nasce é gerado na sombra, 
A morte acolhe a semente de uma nova vida”

Doce é esta dor que abraça o meu coração antes de adormecer. Um casal de grilos canta na minha janela.

sexta-feira, 1 de junho de 2012


DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

dedicar
um trezentos e sessenta e cinco avos
do ano à problemática CRIANÇA

é o mesmo
que celebrar o Sol
pela sua aparição fugaz

numa chuvosa manhã
em pleno inverno

eh pá
correto ou incorreto
meu direto raciocínio?
:
se é ouro
que faz rico o objeto
o que o faz prático
é ou não
o anónimo alumínio?

terça-feira, 29 de maio de 2012


REQUIEM BREVE para minha amiga

pois
e agora, Heloísa,
-reformada
antes ainda dos sessenta
um filho em Londres amparado
mais algum dinheirito
e sobretudo a ocupação do tempo em explicações
como não havias de ter pressa
que o médico te desse alta, Heloisa

- não posso continuar aqui
presa a esta cama
tenho os putos à espera
vai passar a hora das explicações
e eu aqui
amarrada neste quarto

acabo de saber, Heloísa,
ligaram-me há minutos
confirmando
a satisfação do teu desejo
:
o médico deu-te alta
Heloísa

estás livre PARA SEMPRE

nada mais impede
que à hora certa
estejas com os putos
a dar-lhes
explicações
TRAÇOS DE AUTO-RETRATO

pelas cores ingénuas
com que julgo me pinto

por à clara luz
a que suponho me dou

corro o risco - pressinto -
de ser tomado
pelo que sou

quinta-feira, 24 de maio de 2012

HOJE APETECIA TRANSGREDIR

a manhã começava quente
ainda em Maio 
já parecia estarmos a cavalgar o Verão

mal acordei e esfreguei os olhos
levantei-me
calcei as meias
vesti a camisola e as cuecas do avesso
troquei os sapatos
o do pé direito no pé esquerdo
e vice-versa

talvez me apetecesse
passar o dia nesse vice-versa

hoje apetecia transgredir

em vez de manteiga nas torradas
comecei por pôr
as torradas na manteiga

fiz o habitual
chocolate com leite
e fui à rua
despejá-lo no comedouro da multidão de gatos

saí à rua
para comprar cigarros
entrei no Café
cumprimentei quem estava
com inequívoco boa-tarde

quem estava
respondeu-me
com um também inequívoco bom-dia

olharam-se entre si
e riram

chegada a hora do almoço
dei por que
me desapetecia comer
- talvez fosse - pensei -
apenas por causa da palavra Almoço

foi então que resolvi
- e resultou na perfeição -
fingir
qe em vez de almoço era jantar

fechei
todas as janelas que davam para a rua
corri um cortinado vermelho
que separa a sala-de-jantar
do meu gabinete-de-trabalho

acendi duas velas
como se jantasse
com alguém muito romântico
pus Chopin
e talvez por indução fonética
uma garrafa de vinho
que preparei como se fosse de champagne

o resto do dia
passei-o de óculos escuros
- a tarde era já noite para mim

vi as estrelas
e a lua como vírgula minúscula
uns dois palmos acima
de brilhante planeta

que por seu brilho
e tamanho
e local
me pareceu que fosse Marte

para completar o despautério
fui à rua gritar
antes de ir para a cama
que este nosso mundo
como um relógio suiço
nunca podia avariar

hoje
apetecia mesmo transgredir

terça-feira, 22 de maio de 2012

AFOGAMENTO NO DANÚBIO

chamava-se Ferraz
Gonçalo Ferraz
o rapaz
que se atirou ao Danúbio
em Buda-Peste

rio voraz
nascido na Floresta Negra
morrendo no Mar Negro
de que outra coisa
seria então capaz
que não tragar
o infeliz rapaz
aventureiro

e logo em Budapest
- mais Peste do que Buda -



só os pais do rapaz
de Gonçalo Ferraz
sem se afogarem no Danúbio
afogam-se no pranto
que a sua falta traz

por mais que gritem por socorro
- não há quem lhes acuda
AFOGAMENTO NO DANÚBIO chamava-se Ferraz Gonçalo Ferraz o rapaz que se atirou ao Danúbio em Buda-Peste rio voraz nascido na Floresta Negra morrendo no Mar Negro de que outra coisa seria então capaz que não tragar o infeliz rapaz aventureiro e logo em Budapest - mais Peste do que Buda - só os pais do rapaz de Gonçalo Ferraz sem se afogarem no Danúbio afogam-se no pranto que a sua falta faz por mais que gritem por socorro - não há quem lhes acuda

quarta-feira, 16 de maio de 2012

suave é a loucura
que me desperta
em cada manhã
azul seremos
por entre todos
que perdidos
navegam abraçados

tempo de amor abençoado

As minhas sardas

Fiquei a pensar como seria a tarefa de contar as minhas sardas...
Quando era criança,  morei num bairro de pescadores, em Fortaleza, onde os miúdos traziam na boca histórias fantásticas. O Vavá tinha a cabeça achatada e explicava que era assim porque a mãe quando grávida tinha caido no chão bem em cima da barriga. Recordo o meu espanto com tal explicação. Se ela tivesse caído de lado, como seria o perfil?
Um dia o  Pirrita aconselhou-me a lavar a cara com o meu xixi para limpar a cara.
A verdade é que sempre tive complexos por ser sardenta.
Na adolescência colocava base e as sardas viam-se por baixo - teimosos sinais castanhos que não me largavam. 

Para as ruivas, o cabelo é da cor da cenoura e faz todo sentido serem sardentas. Eu que sempre tive o cabelo castanho, passava por uma falsa sardenta. Com os anos fui aprendendo a gostar destesn pequenos sinais.
No rosto são mais de cem, no corpo outras tantas que invento e não encontro. Umas cresceram como se fossem sementes de uma nova gente. Outras apagaram-se tão cansadas estavam da vida acontecida. Acordam na minha pele todas as manhãs. Vivem comigo desde criança. Namoram umas com outras, casam-se e inventam filhos. 

Nunca as vi morrer, senão a fundirem-se.
Até a hora do juízo final.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

CONVITE:

SENTAR E CAMINHAR EM PAZ E SILÊNCIO POR UM MUNDO NOVO - 20 DE MAIO - 15h

Vivemos um ponto de mutação civilizacional. Participamos na extrema crise de uma civilização ignorante, insensível e violenta, pela qual somos todos responsáveis. Uma civilização filha do desconhecimento da lei fundamental da vida, a interconexão entre todos os seres, uma civilização escrava do medo, da ganância e do ódio, dominada por pensamentos, emoções e desejos doentios que se traduzem num crescente mal-estar mental, existencial e social, numa galopante opressão económica e financeira, numa democracia de fachada, dominada pelos grandes grupos económicos e pela finança internacional, na devastação do planeta, da biodiversidade e dos recursos naturais, na violência contra os homens, os animais e a Terra. Somos todos autores e vítimas de uma civilização alienada pela produção e pelo consumo, por ritmos de trabalho desumanos, pela falta de tempo para estar com os outros e apreciar a beleza do mundo, pelo sacrifício do crescimento interior e da expansão da consciência e da amizade em troca da busca ávida de riqueza, poder, fama e prazeres fugazes e fúteis. Tudo distracções impotentes para encobrir um profundo mal-estar e que nos deixam cada vez mais frustrados e insatisfeitos. Um outro mundo é todavia possível, já antecipado por todos aqueles que, em Portugal e em todo o planeta, buscam e praticam um novo paradigma mental, ético e civilizacional e uma alternativa global, em todas as esferas, espiritual, cultural, terapêutica, pedagógica, ecológica, social, económica e política. Um outro mundo que se enraíza nas nossas mais profundas aspirações e onde florescem as melhores potencialidades do ser humano, a nossa natural vocação para a liberdade, a compreensão e o amor fraterno extensivo a todos os seres e a toda a Terra. Um mundo fruto do melhor que temos para dar, sem esperar nada em troca, sem acções nem reacções violentas, que apenas reproduzem o actual sistema e estado de coisas. É para nos conhecermos e dar público testemunho desse mundo que nos vamos sentar todos em paz e silêncio durante uma hora no Domingo, 20 de Maio, em várias cidades e localidades do país e onde quer que estejamos. Às 16h seguiremos, numa lenta marcha pacífica e silenciosa, para vários locais, onde realizaremos uma assembleia para partilhar experiências e ideias sobre os rumos futuros da nossa intervenção cívica. Este evento está aberto a todos os indivíduos, associações, movimentos e entidades que se reconheçam no seu espírito não-violento e que se comprometam a respeitar o silêncio até à partilha final. Aceitamos todos os apoios que respeitem estas condições. No evento não deverão estar presentes bandeiras, cartazes ou outros símbolos partidários. Este evento é de todos os que nele se reconhecerem e não é contra nada nem ninguém. Só uma postura afirmativa e não reactiva, sem medo nem ódio, pode mudar o mundo. O sentar e marchar em paz e silêncio são a expressão de uma nova aliança entre os homens, os animais e a Terra. Vamos sentir e mostrar a força da nossa presença pacífica e silenciosa. Vamos deixar que em nós se manifeste um Mundo Novo. Vem, traz amigos e partilha o mais possível. CONTACTOS E LOCAIS POR CIDADE LISBOA Local de encontro: Rossio Destino da Caminhada: Terreiro do Paço https://www.facebook.com/events/222395511201859 Paulo Borges - pauloaeborges@gmail.com ( 918113021 ) Sofia Costa – asofcosta@sapo.pt ( 917769093 ) PORTO Local de encontro: Praça Gomes Teixeira (Praça dos Leões) Destino da Caminhada: Praça da Liberdade https://www.facebook.com/events/264784013615239 Alexandra Araújo - xanaaraujo@sapo.pt ( 939611744 ) Vítor Bertocchini - bertoquini@gmail.com Carla Rocha - carlajrocha@hotmail.com COIMBRA Local de encontro: Parque Verde do Mondego Destino da Caminhada: Praça 8 de Maio https://www.facebook.com/events/335619686499666 Maurício Pereira - mauriciocgpereira@gmail.com Francisco Guerreiro - jorgekguerreiro@gmail.com LEIRIA Local de encontro: Praça Rodrigues Lobo Destino da Caminhada: Jardim de Santo Agostinho https://www.facebook.com/events/303668206373769 Micael Inês - micaelines@gmail.com ( 965884416 ) Fernando Emídio - fernandoemidio@gmail.com ( 962683097 ) Patrícia Pereira - patricia.afp@gmail.com ( 962807817 ) SESIMBRA Local de encontro: Praia da Califórnia Destino da Caminhada: Avenida dos Náufragos https://www.facebook.com/events/426407467375608 Tsomo santos & Gonçalo Oliveira - youzen.therapies@mail.com (93678397) STA. MARIA DA FEIRA Local de encontro: Castelo de Sta. Maria da Feira Caminhada pela cidade, regressando ao Castelo. http://www.facebook.com/events/246548715444314 sentarecaminharempazfeira@gmail.com Luís Oliveira ( 965285844 ) Ana Louro ( 966588899 ) Andrea Domingos ( 913313799 ) José Porfírio ( 916329151 ) BRAGA Local de encontro: A definir Destino da Caminhada: Sé de Braga https://www.facebook.com/events/296946723719275 Gabriela Cunha - gabrielacunha@gmail.com Ana Devesa - devesaana@gmail.com FUNCHAL Local de encontro: Praça do Município do Funchal Destino da Caminhada: Parque de Sta. Catarina https://www.facebook.com/events/136485646476097 Tânia Almeida ( 913386788 ) Carla Brás ( 927089603 ) ÉVORA Local de encontro: Praça do Giraldo Destino da Caminhada: Praça Joaquim António de Aguiar https://www.facebook.com/events/363806753667646 José Cortes - jomacoam@gmail.com ( 967336834 ) BEJA Local de encontro: Praça da República Destino da caminhada: Parque da Cidade https://www.facebook.com/events/334261966639626 Centro Holisis - holisis.csi@gmail.com ( 962693011 ) SERPA Local de encontro: Quiosque do Jardim Público Destino da Caminhada: Largo da Biblioteca https://www.facebook.com/events/366743433372820 Maria José Palma - palma.mariaze@gmail.com ( 962693011 ) Fátima Pires - mfpvenancio@hotmail.com ( 964786869 ) Francisco Cabecinha - f.cabecinha.vendas@hotmail.com (966081729) SETÚBAL Local de encontro: Largo de Jesus Destino da caminhada: Parque Urbano de Albarquel http://www.facebook.com/events/366321506749456 Bruno Ferro - brunoferro77@hotmail.com PONTA DELGADA Local de encontro: Parque Urbano Destino da caminhada: Portas do Mar http://www.facebook.com/events/411429965557447 Maria Martins - mariaportugal.artesplasticas@gmail.com ARCOS DE VALDEVEZ e PONTE DA BARCA Local de encontro: Alameda do Campo do Transladário (junto ao chafaris dos cavaleiros), Arcos de Valdevez Destino da Caminhada: Choupal do Côrro, Ponte da Barca http://www.facebook.com/events/455731467786018 Maria Tita - maria.tita.brida@gmail.com

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Andamos moralinizados?

O Bom Senso, senhor Antunes, é o metal amarelo do seu metro, a correcção das suas barbas aparadas, o sorriso estampado nos seus beiços, o preto da sua gravata que reponta com o rubro das suas bochechas democráticas...
O Bom Senso é o seu estômago, senhor Antunes, impecável como o seu relógio americano e o seu olho ainda guicho atirado às saias da criada e principalmente aquele seu dedo que pesa na Balança... aquele Dedo, com letra enorme sobre o Vale de Josafat...
O Bom Senso é a sua pessoa, senhor Antunes, vestindo as aparências convenientes ao Lucro e à Moral - dois esposos que atropelam os miseráveis quando passeiam de automóvel...
E a Loucura, senhor Antunes, é o pobre Silvino que passou, lá fora, na rua, ao vento pluvioso deste inverno, esfarrapado e enlameado, a cantar, em voz alta, o advento dum novo Deus...
A Loucura é o Silvino e a substância ígnea do mundo - a lava interior.
E o Bom Senso, senhor Antunes dos Negócios, é uma crosta ligeira e artificial que principia a quebrar por todos os lados... Já anda fumo no ar...

- Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Assírio e Alvim, pág.109

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador. O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada. A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer. O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.
Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.
O homem mata o homem e nunca sabe porquê. Bendita a memória que me assombra neste dia que nasce outra vez.

Se ficar por aqui mais um instante| chorarei a ausência que permanece | memória que me assiste| quando me perco | falta que invade meu corpo | bem no meio do coração | um sorriso como se fosse outro abraço | desligo a luz | invento o infinito | que nunca teve início nem fim | por dentro de mim| um beijo que não encontra pouso

quarta-feira, 9 de maio de 2012

abraça minha cabeça | perdoa minha demência | tímida esconde-me | em teus braços largos | chora e ri | em silêncio| loucura que nos assiste

quarta-feira, 2 de maio de 2012

segue a angústia o medo de me perder, porquanto mais procuro pressinto o fim. Lá onde o sol ameaça nascer, recuo em busca do eu que teimoso mostra-me não existir. Lá onde tudo e nada ocupam o mesmo espaço vazio, fronteira do meu despertar, tão perto de mim que não alcanço. Canta a dor que trago no peito, a verdade que sinto e não entendo. Bastaria um lampejo e saberia que tudo que aprendi de nada me serve se nunca o senti. Ali, onde o rio e o mar se unem, afogo-me na esperança de nada saber.
canta-me a musica que te embala os dias, deixa que ela me invada e eu esqueça que existo, mantêm-me quieta e silenciosa porque doi-me o corpo por dentro.  enquanto adormeço cansada, choro. este não é mais o país que eu sonhei. antes, abracei-te na multidão e o teu beijo despertou-me entre todos que amei. dá-me um cravo vermelho, coloca-o junto ao coração. semeia em cada corpo uma nova canção.

sábado, 28 de abril de 2012

O(H!)VIBEJA aí estão as cabras com os seus brincos pendurados das orelhas as vacas e os porcos com seus piercings no focinho e nas narinas os burros com a sua calma legendária suas orelhas de abano de grandes mais eficientes do que auscultadores os cavalos lazões castanhos izabela prontos a serem montados por meninos e meninas aí estão os vendedores de algodão-em-rama e de amendoins e os cães domésticos puxando os donos pelas trelas aí estão as aves exóticas os papagaios araras e os garnizés e os pombos gordos que nem perus pelo Natal e os camponeses velhos reformados a não perderem nada pelos pavilhões arrastando os pés aí estão as avós puxadas pelos netos atrás dos fumos doces dos churros das farturas e os agricultores perdidos em projetos que rentabilizem a ingrata agricultura a água do Alqueiva os olivais a rega sem a qual a planta não tem seiva o vendedor de máquinas prometendo a entrega do tractor New Holland para virar a leiva a gente do governo pródiga em promessas : baixa de impostos subsídios sonhos os putos marginais virando a Feira das avessas limpando ao braço transpirações e ranhos aí estão os balões as espadas Excalibur os pavilhões de produtos regionais : os méis os queijos os enchidos maduros os cheiros assimilados a humores corporais entanto o Sol falece prós lados de Lisboa são horas de apanhar o autocarro - há quem vá de vagar há quem se apresse há os eternos retardatários distribuindo ainda o tinto que há num jarro até pró ano - a Feira estava boa podia estar melhor diz a mulher cansada perde a gente o tempo por aqui à toa com o raio da crise não dá pra comprar nada

domingo, 22 de abril de 2012

Retrato 3/4

no meu retrato
três por quatro
viajo ao passado
aquela sou eu
ainda criança
de copo na mão
na festa da escola
lembras desta?
teu corpo no meu
antes da despedida
tantas vezes partimos
quantas vezes beijei-te
e não fotografei?
na parede o retrato
emoldura o passado
nos meus lábios
um ar morno e doce
indica o presente
onde tudo acontece
enquanto respiro
a caminho do fim
vislumbro o começo
em cada intervalo
morro e nasço
outra vez

terça-feira, 17 de abril de 2012

dois poeminhas que andavam por aqui entre ruínas e poeira

AQUENTEJO

o Monte ao Sol
o poema de cal

não só de cal
que há em calor

-de cal
de calma

que é mistura
de alma
e cal


O SEGUNDO, de que eu teria pena se tivesse perdido

VIVA SOPHIA

eis
a secreta luz
tecida em Creta
-a mãe do Touro
e fonte

da voz límpida
de SOPHIA

de SOPHIA fugaz
de tão fugaz
perpétua

sábado, 14 de abril de 2012

P´RA PULAR

a escrita do cavador
é fácil - não custa nada -
serve de tinta o suor
sua caneta a enxada

seu papel é do melhor
é terra negra suada
escreve tanto o cavador
e chega ao fim não tem nada

quarta-feira, 11 de abril de 2012

não chores, sabiá
a noite é quase dia
e voltas a cantar

descansa agora
a vida pede silêncio
até o sol raiar

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Só falando preservas o silêncio" - Agostinho da Silva - (expiré après une inspiration d'une lecture de Mística Barata e Uma Garrafa de Vinho)

Um pai desejava a melhor formação mística para os seus filhos. Por esta razão, enviou-os a um reputado mestre de metafísica para que os treinasse espiritualmente. Passado um ano, os filhos regressaram ao lar paterno. O pai perguntou a um dos filhos sobre o Absoluto e o filho falou demoradamente sobre o tema, fazendo todo o tipo de ilustradas referências às Escrituras, textos filosóficos e ensinamentos metafísicos. Depois, o pai perguntou sobre o Absoluto ao outro filho, e este limitou-se a guardar silêncio. Então, o pai referindo-se a este último, disse:

- Filho, tu é que sabes realmente o que é o Absoluto.

in Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, Ramiro Calle, Esfera dos Livros, p.122

segunda-feira, 9 de abril de 2012

MANHÃ AGRÍCOLA

por muito que me digas
em matéria de ecologia
eu não vou em cantigas

de resto diz-me
para que servem as toupeiras
que utilidade têm as formigas

as primeiras
escavam-me as raízes das colheitas
as segundas
devoram-me os grâozinhos das espigas

para alimentar as fábulas
de Esopo/La Fontaine?
para inspirar poemas a Cesário?

deixemo-nos de intrigas
se precisar de bucolismo no trabalho
arranjo um pintassilgo
ou um canário

sábado, 7 de abril de 2012

Misticismo barato e garrafa de vinho





O esplendor cruel da mais perfeita epilepsia a rebolar no côncavo do interior da mente, se fosse assim, a catedral a irromper absoluta
De todo uma ruína elaborada, digna de providenciar uma salva eterna num entrelaçar de aspectos, a fulgente e espontânea tese de repente de uma vez para assustar o compêndio de psicologia com essas novas ocorrências que poderiam configurar o santo a cantar no meio das paredes derrubadas a pontapés descalços de antítese
Colecção interminável de vibração ou inundação de luz pura
Ficou caído a precisar de auxilio magoado num ombro e orelha para depois o significado do mito auxiliado o levantar pelas muletas puras cheias de brilho, que obviamente podem surgir em casos especiais de maneira figurada, para posteriormente serem largadas em caminhos esconsos, trocadas por camisa e calças brancas figuradas também na Páscoa e ressurreição. Ainda que não fosse de maneira alguma religioso...
De qualquer forma Grande parte do conhecimento se desvendou quando doutrinado de tal indumentária ouviu os rouxinóis contarem que tinham voado pelo céu em direcção aos abismos e visto coisas como as não há
visto coisas como elas são
epifania tão violenta, repentina quanto o homem pode andar um único vórtice rasado um insulto barato aos demais para dançar para se divertir virado avessamente na catedral de criação autónoma
de que maneira se pode continuar saudável de lapsus linguae, e certamente pode, ao escrever num bilhetinho que só lhe restavam dois dias para viver e que ao mesmo tempo seria imortal sem precisar do eléctrico da carreira 28 na volta?
Nascimento morte e ressureicção no acto, seguindo-se que a atenção, mais emocional administrava estranhamente a quantidade e qualidade dos paradigmas em um plano que devido à sua natureza estava para além, e sem estar fora, dos clássicos
De positivo é, a conclusão aberta, acentuando-se de vigor nada paroquiano, posta a propósito para beatificar o pequeno que dorme (?) e em suas preces pede e perde-se. Seus nomes, quaisquer que sejam pelos quais o chamam vão num azul a voar
Já não vive a hora incerta é o percurso mais ou menos de nove meses agora extenso uno posto a nu
E pôde participar nisto, tomado de razão, como se fosse instruído e embalado por Nossa Senhora.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

se crente ama o outro, deus ama o mesmo - desvela-te amando a mesmidade na outridade no beijo do branco com o vermelho

Água-Cor

O País da Cor é líquido e revela-se
na anilina dos vasos de farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do-verde.

E o azul é uma enseada na redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna de ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.

- Drummond de Andrade

o menino sem asas
voa sem dizer adeus
grato
pelas asas que Deus não deu

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Durante a tempestade
a chuva afogou-se no oceano
e o peixe largou o isco
Na minha terra todos gostam de circo.
A notícia acontece quando o elefante enlouquece.
O bailarino cantou a morte do cisne num grito sem som.
Esticou-se no palco.
O cisne dançou a morte de quem o cantou.

Se me vires chorar, não te assustes, a lágrima é doce e me faz cantar.
Quando a saudade se entranhar no meu corpo, farei dela minha companheira, como se fosses tu a ocupar-me inteira.
Se a dor parecer tamanha, descobrirei nela a felicidade.
No fim da noite abrigarei o dia.

terça-feira, 3 de abril de 2012

pensa-te Deus e deixa fluir o não pensar matando-te - assim como aDeus há, não há nada a matar

Tu, Deus Pai, Criador por quem vivemos!
Tu, Sabedoria do Pai, por quem, reformados, vivemos sabiamente!
Tu, Espírito Santo, em quem vivemos bem-aventurados!
Trindade de uma única substância!

Único Deus de quem somos,
por quem somos,
em quem somos!

Princípio para onde refluímos,
forma que seguimos,
graça pela qual somos reconciliados!

Nós te adoramos e nós te bendizemos!
A ti glória nos séculos!
Ámen.

- Guilherme de Saint-Thierry (1085-1148)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

DÁ QUE PENSAR

Eu e o mundo – há que pensar
As rodas do mundo sobre a lama do tempo
Deus limpando os olhos da maresia
Cansado de tanta vigilância permanente

Hoje aqui agora sempre
O merceeiro a roubar
Nos pesos e no preço da mercadoria

Deus
Controlando as ondas
Do mar
Da rádio
Da televisão
(e a fome
Será que foi de vez banida do mundo
Ao menos da Etiópia? )


Deus cansado De(u)scansado ?
Quiçá manco
Correndo a toda a volta
Da Terra
Aqui sintonizando os rádios
Ali desligando aquecedores em casa de idosos
acesos por incúria

Eu tentando um lapso
Uma pequena aberta nesta azáfama
Para puxar a Deus pela aba do casaco
- há que pensar
O stress
Não há já quem disponha
De um simples minuto para nos atender

Ou chegamos
Com um bom negócio em mãos
A casa das pessoas
E as portas se escancaram
Para os maples
Para o fogão de lenha
Para as paredes com o "menino com lágrimas"
ou
Deus – dá que pensar

Todos os amigos
Estão permanentemente absorvidos
E nós – o mundo –
Ou caímos no enxofre das tabernas
Para a sopa de grão e o vinho tinto
Ou caímos nos maples dos menos amigos
Na periferia
De uma família fria
Frente à luz a cores do aparelho de televisão

Só vi deus duas vezes:
A primeira andaria pelos meus dez anos
Fui roubar ameixas
À quinta de um vizinho
E um velho muito velho
Com o indicador em riste me apontou:
Menino isso não se faz

Sumiu-se o velho
Por detrás do fuste das ameixieiras
E uma pancada forte na cabeça
Fez-me ver estranhas luzes
E ouvir
Um interminável som de campainhas

Pela segunda vez, e última , que vi Deus
Foi num exame de Química no Liceu
Tinha que manusear um ácido qualquer
Muriático se a memória não me falha
E de tal ordem desastrada foi a minha prova
Que o laboratório se encheu de um fumo estranho
Fosforescente e a cheirar a enxofre
E o pobre professor
Me pareceu levitar de costas para o tecto
Segurando um bastão
Semelhante em tudo ao báculo
De Deus

Acho que não mais O vi
A despeito de algumas aflições ao fim do mês
E de certos pecadilhos
Que de vez em quando lhe confesso
Por e-mail

Por isso Deus
para mim
- dá que pensar

domingo, 1 de abril de 2012

Primeiro Automóvel

Que coisa-bicho
que estranheza preto-lustrosa
evém-vindo pelo barro afora?

É o automóvel de Chico Osório
é o anúncio da nova aurora
é o primeiro carro, o Ford primeiro
é a sentença do fim do cavalo
do fim da tropa, do fim da roda
do carro de boi.

Lá vem puxado por junta de bois.

- Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de março de 2012


Adeus. Prometo que até amanhã. Prometo que até sempre.
Se os teus olhos chegarem aos meus, vês o meu sorriso, na despedida.


sábado, 24 de março de 2012

PALESTINA

a "invenção" pelos deuses
de uma TERRA PROMETIDA

não implica a "criação" pelos homens
de uma TERRA PROIBIDA

quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, são fruto da mesma matriz linguística e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes às do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz linguística e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais opções que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civilização dela surgida. Não é possível compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chinês, como hoje mostra François Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz linguística, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generalizações sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experiência directa e pré-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fenómenos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Platão e Aristóteles, optou pela determinação conceptual do mundo com fins político-científicos. Outra grande diferença é o antropocentrismo do pensamento ocidental pós-socrático - raiz da actual crise ecológica e da devastação da Terra e dos seres vivos - perante a tendencial empatia cósmica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradições são sempre muito mais interligadas do que as histórias da filosofia nos levam a crer. Não há culturas, mas sim entre-culturas.

Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.

Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).

2. Como se produziu a sua conversão ao budismo? Foi uma escolha racional ou um puro acto de fé?

Não me sinto convertido ao “budismo”. Na verdade não me interessa tanto o budismo histórico e institucional, mas antes a experiência de Buda, o Despertarda mente-coração na sua natureza primordial, livre de condicionamentos conceptuais-emocionais e das decorrentes convenções sócio-culturais. É isso que encontro nos mestres e em muitos homens exemplares de todas as tradições espirituais, bem como na agnóstica e ateia. Deus procede de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha” e a experiência dessa luz que há na consciência, para além de budologias e teologias, de religiões e filosofias, é a mesma em todo o homem, religioso, agnóstico ou ateu.

Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.

3. Como veio a conhecer a obra de Cioran e que significado teve para si o contacto com esta obra?

Há algo em mim tão afim que não poderia deixar de a encontrar. É como se Cioran expressasse toda a revolta, desespero e pulsão niilista da minha adolescência e juventude, mas hoje não é tanto isso que na sua obra me interessa, lamentando que fique demasiado refém disso e de uma dolorosa ausência de amor e compaixão. Interessa-me nele o iconoclasmo místico e, sobretudo, as aberturas a uma transfiguração redentora. Cioran poderia ter escrito apenas o seguinte trecho de Sur les Cimes du Désespoir, no qual me reconheço inteiramente: “Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”.

Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.

Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).

4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?

Nos últimos anos tem havido um aumento de traduções que estão a ser recebidas com muito interesse, mas creio que até agora só há um estudo publicado: João Maurício Barreiros Brás, O pensamento insuportável de Cioran. Um itinerário do desespero à lucidez (2006).

5. Qual o papel da filosofia na nossa época? Crê que a filosofia chegou ao fim do seu caminho ou tem hipóteses de sobreviver?

Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.

Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.

6. A prática do aforismo ou do fragmento poderia contribuir para dar um novo alento à filosofia ocidental, mais aberto e menos dogmático?

A filosofia nasce do espanto balbuciante não só perante o haver algo, mas também perante o nada desse haver. Só aí pode re-nascer a cada instante, incinerando todos os conceitos, métodos e sistemas. O aforismo e o fragmento são o mais eloquente dizer desse gritante silêncio que há no aparecer das coisas. Neles a filosofia regressa à sua matriz místico-poética, anterior à violência do conceito que a extirpou do espanto original, como diz Maria Zambrano.

7. Crê que se pode falar de um declínio geral da civilização ocidental ou olha para o futuro com esperança? A civilização oriental poderia oferecer um modelo para este Ocidente que padece de niilismo?

Procuro viver e pensar para além do medo e da esperança. No plano colectivo, feito desse medo e esperança, creio assistirmos ao fim do que se convencionou chamar Ocidente e Oriente, que progressivamente se fundem numa nova civilização global que exteriormente tem um cunho ocidental - económico e tecnológico - , mas que arrisca uma vida curta e o iminente colapso social e ecológico se interiormente e ao nível da liderança não reencontrar a espiritualidade e a ética que presidiram ao melhor do Ocidente e do Oriente tradicionais, mas agora em termos laicos e trans-religiosos. Foi o que anunciou Fernando Pessoa, ao interpretar o maior mito profético da cultura portuguesa, o do Quinto Império, como uma era do espírito e da cultura que deverá fundir e elevar a uma superior síntese civilizacional a essência de Grécia, Roma, Cristandade e Europa, incorporando ainda o melhor de todas as culturas e civilizações mundiais num amplo universalismo. Antevejo essa superior síntese como uma nova aliança com a Terra e todos os seres vivos, fundada numa consciência holística e numa ética cósmica.

O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.

- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.

http://www.revistaorizont.ro/

POESIA

é o teu dia
como se houvesse um dia
para celebrar o sol
glorificar o orvalho
consagrar o amor
que multiplica o mundo vegetal

sim - porque não tenhamos ilusões
os pinhões são filhos de pinheiros
que à distância de quilómetros se enlaçaram
como dois répteis

como uma égua em cio
e um cavalo

ou um licorne?

por que não um centauro?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Meditação para dormir

Uma alternativa às drogas. É natural, faz bem e dá prazer.

Retirado de: http://relaxamentoemeditacao.blogspot.com/2012/03/meditacao-para-dormir.html


Vou para a cama, quero dormir e decido ajudar-me a adormecer. Deito-me de barriga para cima, direita, braços estendidos ao longo do corpo, pernas ligeiramente afastadas uma da outra.

Centro-me num ponto que fica quatro dedos abaixo do umbigo, o hara, o meu centro de energia vital. Respiro lenta e profundamente a partir desse ponto. Foco-me inteiramente no hara e na respiração e permaneço assim durante vários minutos (5, 10, 15).

A seguir faço um passeio pelo corpo. Na inspiração, lenta, abdominal, centro a atenção no pé direito e na expiração (também lenta) largo. A seguir fico totalmente atenta à perna e ao joelho direitos na inspiração e largo-os na expiração, depois a coxa. Depois a outra perna, as nádegas, a zona pélvica, a região lombar, a barriga, o peito, as costas, os ombros. Depois a mão direita, o braço direito, o antebraço; a mão esquerda, o braço esquerdo, o antebraço. Os ombros, o pescoço, a cabeça, a testa, as sobrancelhas, os olhos, o nariz, a boca, as orelhas e as maçãs do rosto. Os ombros.

Se ainda não tiver adormecido, deixo-me seguir com as sensações do corpo. Se surgir algum incómodo, aceito e volto-me para a sensação global, flutuante, do corpo. Posso permanecer assim durante largos minutos.

Em algum momento antes de adormecer agradeço estar viva, ter uma casa que me abriga, alimentos, pessoas que me amam e desejo a todos os seres e a mim própria uma noite doce e tranquila.

"Que todos os seres tenham saúde, que todos tenham paz, que todos tenham alegria, que todos tenham amor", pode ser a emoção em que fico até adormecer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

MOTOR DE ARRANQUE

eu não invento coisa nenhuma
ainda hoje quando ia comprar empadas para levar a amigos com quem ia almoçar
vi um cigano ao volante de carrinha fechada - empurrada por amigos

tomei esta nota
:
motor de arranque de carrinha de cigano
raramente é mecânico

em norma
é humano

segunda-feira, 5 de março de 2012

PERDIDO ENTRE PAPÉIS

amigo sem/abrigo
escuta o que eu te digo
:
com gente desta condição
-a quem estendes a mão -

está em perigo
a tua própria
caixa de cartão

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


criação engendrada de, por, e para, ninguém que a possa compreender

uma coisa espontânea de a qual não tenho nada a ver com isso

sábado, 25 de fevereiro de 2012

C E R N

no conforto do lar - no quarto de dormir -
na cama duvidosa de casa de alterne

por muito que tu digas
todo o lugar onde nos encontramos
é CERN

protão contra protão
por muito que tu digas
quando nos encontramos há explosão

e a prova irrefutável
da existência atómica
do bosão
de HIGGS

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Penélope revisitada


Pousado o tear entre o colo e a memória
Entre a flor e a dor há peixes-pássaros raiados
A mulher engole o fogo que rola no mar
Há clarões que morrem na sua boca
Engole-os a saliva da espera
E o dia parado é uma ferida que entra no espinho
A manchar o bordado do lençol

Haverá manhãs de pássaros calados
Circum-navegando o desenho do bordado
Sabe-se que uma túnica se despe no incêndio
De uma viva memória. E os rios silentes
cobrem os pés dos artesãos de florilégios.
Onde guardas os braços, ó meu amor de longe?

A tua cabeça no meu colo é uma geografia deserta
O esplendor degolado de uma flor nascida
Da ciência tecida do paciente espaço.
Reconta o tempo da viagem de regresso.
As mãos são alvas cicatrizes, e as flores ágeis
Não enchem o bordado do ponto onde te ausentas.

Cheio o meu colo das paisagens que ficam
Converte-te à cegueira da minha imagem vazante
Nas ondas verás o reflexo de deus em chamas
Chamarás pelo tempo, essa flor de mortalha;
Talvez entres a cantar por esses corredores de pó
Sabes que a tua cabeça florirá sobre o meu colo em chamas?!

M.S.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

''Tenho a certeza de que fui árvore e é por isso que tanto as amo.''  

Raúl Brandão
Quando o mar roubou o sal dos rios, bracejei contra os predadores sem dar conta do encontro das águas. Estuário fértil, onde a vida se procria. 
Qando o sol iludia a noite alongando o dia, contemplava o céu.  Apaixonada, descobria a vida. Equânime é o olhar de quem ama.
Cada quarto de hora, ameaça a meia hora. Ruído infernal que anuncia a morte do tempo. Cadenciado é o som, em cada intervalo da hora.
Entre a minha casa e o mar, existe um caminho de ferro.
O silêncio aparece de madrugada, quando a estação adormece cansada, ou quando os maquinistas fazem greve e as crianças do bairro colam seus corpos nos trilhos como se fossem lagartos.
Uma sirene prolongada, anuncia a desgraça.  Num lamento sombrio a noite escurece o dia.
Da minha janela vejo o mar.  Noite e dia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Brinde a Omar Kayam!

O poder se esvanece:
pó de nada.
Mas as rosas florescem mesmo do pó.
Do mesmo pó de estrelas
o poder torna escravo
Quem das rosas só as pétalas colhe
Descuidado.

Bebei, pois, de uma taça mais funda
Como quem se esquece
E no esquecer se lembra
que do cálice rubro
transborda a seiva que embriaga mais.

M.S.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

M I D A S

deus - tu?
nem semi-deus

- mortal e rasca
:
ingrato
chato
traidor imundo

vê só como agradeces/
pagas

a quem te pôs
no MUNDO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ATENÇÃO, VEGETARIANOS
(para Paulo Borges - com abraço amigo)

não é menos desumano
cortar a flor de uma Couve-Flor

- que é tão inocente quanto bela -

do que degolar uma galinha
para fazer arroz-
-de-
cabidela

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Julgamento




Numa ilha escura e hirta, repleta em paisagens de heresia sonhadas em meio ao delirium tremens de algum órfão, o povo agachado – em se tratando de um burgesso solitário haveria desculpa – esse povo se engana com tais heresias babadas

Atravessam-se dolorosamente com máscaras de cómico sem graça, os postulados de quaisquer estruturas sejam elas ou não feitas da matéria dos seres vivos... Grande pateada com champagne e cigarros de marca branca, como se estivessem num jogo de futebol

Dizem olá à eternidade com tamanha desfaçatez virada nos copos e chupada nos cigarros que se tocassem um violino atrás das colinas, sairia num estertor opaco do violino estuprado

Surdos e grossos como pedregulhos que um pé empurra para o precipício a comprar tabaco ou a girar um grogue entre dedos

Enrolado a tapetes de arraiolos

A foto tirada ao conjunto de roupa enxovalhada e enodoada, a guerra do Peloponeso do avesso

Esses pequenos pedregulhos rodeados por Oceanos leoninos onde se estrangula qualquer veleidade pela via de todas essas ondas

Do prólogo ao êxodo, o epidauro da natureza – entrada do coro a dançar e a cantar – gotas de chuva a entrarem em águas zangadas

Impetuosas, divinas no Ocaso, impacientes na sua ferocidade e pouco se importando com a quantidade de corpos inchados que bóiam depois da sua passagem

Leis omnipotentes, não as queiram, não as queiram ouvir. Preferem as angústias da porta a bater no escuro, da ilha amarfanhada como papéis de velho louco

Como ondas do pensamento, exactamente, se plasticinam em recurso a estas metáforas, as zangas dos mortais

Pensamento. Pensamento?

Algo de recurso estético tirado dos sonhos ou das páginas da natureza para um boneco mole escarrapachado numa cadeira rodeado por todos os lados

Que nem sabia se as águas lhe molhassem apenas os pés num Ganges a ferver...

As torpes magnitudes que observaria numa praia, em pleno Janeiro, e que o enrolavam mesmo não querendo, nem por isso seriam diferentes

Era portanto o acto de sorver beijos da Têtis hedionda, cortejar a sublime dialéctica, porventura escrevendo o poema em papel barato

Um Eu ratificado universalmente por aspas, sublinhado mesmo

O que o empurrava, descendo escadas levado por Ondas aos novos segundos que se sucediam aos derradeiros, aniquilando-os como se faz a uma formiga

Compreensão pura?

Quereria - será que poderia? – dourar a constância de algo que somente se nomeia e constata numa ode feita aos que nela sofreram, afogados abjectos e pescadores patéticos naufragando a gritos de puta batida agarrada ao cu, numa introspecção

Na sensação de se entender apenas pessoa.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PROMOÇÂO COM VISTA À SALVAÇÃO
DA ECONOMIA DA NAÇÃO


em vez de promoções tontas
de pastéis de nata
e semelhantes
reabilite-se mas é
e quanto antes
a Fábrica de Metralhadoras (FBP)

- FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Grande Libertação

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, corpo e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros. Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concentração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer de conta que isto é normal ou que não existe, a tentar tirar proveito disso, a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação comece agora mesmo e chegue a todos.



começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

meigas - contudo lágrimas -
mais lágrimas do que as possíveis
pelas 73 vítimas do instinto de auto-destruição
em jogo de bola no Egito

mais lágrimas do que as possíveis
pelas guerras económicas - do petróleo e do dólar
pelas próprias guerras ditas religiosas
pela ameaça das catástrofes climáticas

começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos
por causa destes três "estafermos"
:
o menino Jesus - de Fernando Pessoa -
seu filho genético
ao mesmo tempo que místico de Deus

Fernando Pessoa - demiurgo do belo
do incrível
do milagre
ao fim e ao cabo do possível-real
do real que existe para todos mas só ele vê

lágrimas portanto por Pessoa
que deve agora estar na casa de Jesus
a dormir na sua cama
ou brincando às cinco pedrinhas
com ele no primeiro degrau da escada
de seu outro PAI

e lágrimas por Bhetânia
que é tão natural a dizer Pessoa
que a gente nunca sabe
se lê um
ou escuta outra

por estes três "estafermos"
começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

P´RA PULAR

QUE O DINHEIRO É METAL VIL
NÃO TENHAMOS ILUSÕES:
QUEM TEM MIL QUER TER CEM MIL
QUEM TEM CEM MIL QUER MILHÕES