O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 14 de maio de 2012

SENTAR E CAMINHAR EM PAZ E SILÊNCIO POR UM MUNDO NOVO - 20 DE MAIO - 15h

Vivemos um ponto de mutação civilizacional. Participamos na extrema crise de uma civilização ignorante, insensível e violenta, pela qual somos todos responsáveis. Uma civilização filha do desconhecimento da lei fundamental da vida, a interconexão entre todos os seres, uma civilização escrava do medo, da ganância e do ódio, dominada por pensamentos, emoções e desejos doentios que se traduzem num crescente mal-estar mental, existencial e social, numa galopante opressão económica e financeira, numa democracia de fachada, dominada pelos grandes grupos económicos e pela finança internacional, na devastação do planeta, da biodiversidade e dos recursos naturais, na violência contra os homens, os animais e a Terra. Somos todos autores e vítimas de uma civilização alienada pela produção e pelo consumo, por ritmos de trabalho desumanos, pela falta de tempo para estar com os outros e apreciar a beleza do mundo, pelo sacrifício do crescimento interior e da expansão da consciência e da amizade em troca da busca ávida de riqueza, poder, fama e prazeres fugazes e fúteis. Tudo distracções impotentes para encobrir um profundo mal-estar e que nos deixam cada vez mais frustrados e insatisfeitos. Um outro mundo é todavia possível, já antecipado por todos aqueles que, em Portugal e em todo o planeta, buscam e praticam um novo paradigma mental, ético e civilizacional e uma alternativa global, em todas as esferas, espiritual, cultural, terapêutica, pedagógica, ecológica, social, económica e política. Um outro mundo que se enraíza nas nossas mais profundas aspirações e onde florescem as melhores potencialidades do ser humano, a nossa natural vocação para a liberdade, a compreensão e o amor fraterno extensivo a todos os seres e a toda a Terra. Um mundo fruto do melhor que temos para dar, sem esperar nada em troca, sem acções nem reacções violentas, que apenas reproduzem o actual sistema e estado de coisas. É para nos conhecermos e dar público testemunho desse mundo que nos vamos sentar todos em paz e silêncio durante uma hora no Domingo, 20 de Maio, em várias cidades e localidades do país e onde quer que estejamos. Às 16h seguiremos, numa lenta marcha pacífica e silenciosa, para vários locais, onde realizaremos uma assembleia para partilhar experiências e ideias sobre os rumos futuros da nossa intervenção cívica. Este evento está aberto a todos os indivíduos, associações, movimentos e entidades que se reconheçam no seu espírito não-violento e que se comprometam a respeitar o silêncio até à partilha final. Aceitamos todos os apoios que respeitem estas condições. No evento não deverão estar presentes bandeiras, cartazes ou outros símbolos partidários. Este evento é de todos os que nele se reconhecerem e não é contra nada nem ninguém. Só uma postura afirmativa e não reactiva, sem medo nem ódio, pode mudar o mundo. O sentar e marchar em paz e silêncio são a expressão de uma nova aliança entre os homens, os animais e a Terra. Vamos sentir e mostrar a força da nossa presença pacífica e silenciosa. Vamos deixar que em nós se manifeste um Mundo Novo. Vem, traz amigos e partilha o mais possível. CONTACTOS E LOCAIS POR CIDADE LISBOA Local de encontro: Rossio Destino da Caminhada: Terreiro do Paço https://www.facebook.com/events/222395511201859 Paulo Borges - pauloaeborges@gmail.com ( 918113021 ) Sofia Costa – asofcosta@sapo.pt ( 917769093 ) PORTO Local de encontro: Praça Gomes Teixeira (Praça dos Leões) Destino da Caminhada: Praça da Liberdade https://www.facebook.com/events/264784013615239 Alexandra Araújo - xanaaraujo@sapo.pt ( 939611744 ) Vítor Bertocchini - bertoquini@gmail.com Carla Rocha - carlajrocha@hotmail.com COIMBRA Local de encontro: Parque Verde do Mondego Destino da Caminhada: Praça 8 de Maio https://www.facebook.com/events/335619686499666 Maurício Pereira - mauriciocgpereira@gmail.com Francisco Guerreiro - jorgekguerreiro@gmail.com LEIRIA Local de encontro: Praça Rodrigues Lobo Destino da Caminhada: Jardim de Santo Agostinho https://www.facebook.com/events/303668206373769 Micael Inês - micaelines@gmail.com ( 965884416 ) Fernando Emídio - fernandoemidio@gmail.com ( 962683097 ) Patrícia Pereira - patricia.afp@gmail.com ( 962807817 ) SESIMBRA Local de encontro: Praia da Califórnia Destino da Caminhada: Avenida dos Náufragos https://www.facebook.com/events/426407467375608 Tsomo santos & Gonçalo Oliveira - youzen.therapies@mail.com (93678397) STA. MARIA DA FEIRA Local de encontro: Castelo de Sta. Maria da Feira Caminhada pela cidade, regressando ao Castelo. http://www.facebook.com/events/246548715444314 sentarecaminharempazfeira@gmail.com Luís Oliveira ( 965285844 ) Ana Louro ( 966588899 ) Andrea Domingos ( 913313799 ) José Porfírio ( 916329151 ) BRAGA Local de encontro: A definir Destino da Caminhada: Sé de Braga https://www.facebook.com/events/296946723719275 Gabriela Cunha - gabrielacunha@gmail.com Ana Devesa - devesaana@gmail.com FUNCHAL Local de encontro: Praça do Município do Funchal Destino da Caminhada: Parque de Sta. Catarina https://www.facebook.com/events/136485646476097 Tânia Almeida ( 913386788 ) Carla Brás ( 927089603 ) ÉVORA Local de encontro: Praça do Giraldo Destino da Caminhada: Praça Joaquim António de Aguiar https://www.facebook.com/events/363806753667646 José Cortes - jomacoam@gmail.com ( 967336834 ) BEJA Local de encontro: Praça da República Destino da caminhada: Parque da Cidade https://www.facebook.com/events/334261966639626 Centro Holisis - holisis.csi@gmail.com ( 962693011 ) SERPA Local de encontro: Quiosque do Jardim Público Destino da Caminhada: Largo da Biblioteca https://www.facebook.com/events/366743433372820 Maria José Palma - palma.mariaze@gmail.com ( 962693011 ) Fátima Pires - mfpvenancio@hotmail.com ( 964786869 ) Francisco Cabecinha - f.cabecinha.vendas@hotmail.com (966081729) SETÚBAL Local de encontro: Largo de Jesus Destino da caminhada: Parque Urbano de Albarquel http://www.facebook.com/events/366321506749456 Bruno Ferro - brunoferro77@hotmail.com PONTA DELGADA Local de encontro: Parque Urbano Destino da caminhada: Portas do Mar http://www.facebook.com/events/411429965557447 Maria Martins - mariaportugal.artesplasticas@gmail.com ARCOS DE VALDEVEZ e PONTE DA BARCA Local de encontro: Alameda do Campo do Transladário (junto ao chafaris dos cavaleiros), Arcos de Valdevez Destino da Caminhada: Choupal do Côrro, Ponte da Barca http://www.facebook.com/events/455731467786018 Maria Tita - maria.tita.brida@gmail.com

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Andamos moralinizados?

O Bom Senso, senhor Antunes, é o metal amarelo do seu metro, a correcção das suas barbas aparadas, o sorriso estampado nos seus beiços, o preto da sua gravata que reponta com o rubro das suas bochechas democráticas...
O Bom Senso é o seu estômago, senhor Antunes, impecável como o seu relógio americano e o seu olho ainda guicho atirado às saias da criada e principalmente aquele seu dedo que pesa na Balança... aquele Dedo, com letra enorme sobre o Vale de Josafat...
O Bom Senso é a sua pessoa, senhor Antunes, vestindo as aparências convenientes ao Lucro e à Moral - dois esposos que atropelam os miseráveis quando passeiam de automóvel...
E a Loucura, senhor Antunes, é o pobre Silvino que passou, lá fora, na rua, ao vento pluvioso deste inverno, esfarrapado e enlameado, a cantar, em voz alta, o advento dum novo Deus...
A Loucura é o Silvino e a substância ígnea do mundo - a lava interior.
E o Bom Senso, senhor Antunes dos Negócios, é uma crosta ligeira e artificial que principia a quebrar por todos os lados... Já anda fumo no ar...

- Teixeira de Pascoaes, O Bailado, Assírio e Alvim, pág.109

quinta-feira, 10 de maio de 2012

O mundo sabia de cor, a cor da dor de quem nunca teve a sorte de nascer imperador. O peixe era doce e cru. A beterraba avinagrada. A vontade de ser feliz era tanta como a tua agora que acabas de nascer. O jejum era dos pobres que o faziam dia após dia.
Vizinhos da vida viajaram sem regresso com um sorriso que não esqueço.
O homem mata o homem e nunca sabe porquê. Bendita a memória que me assombra neste dia que nasce outra vez.

Se ficar por aqui mais um instante| chorarei a ausência que permanece | memória que me assiste| quando me perco | falta que invade meu corpo | bem no meio do coração | um sorriso como se fosse outro abraço | desligo a luz | invento o infinito | que nunca teve início nem fim | por dentro de mim| um beijo que não encontra pouso

quarta-feira, 9 de maio de 2012

abraça minha cabeça | perdoa minha demência | tímida esconde-me | em teus braços largos | chora e ri | em silêncio| loucura que nos assiste

quarta-feira, 2 de maio de 2012

segue a angústia o medo de me perder, porquanto mais procuro pressinto o fim. Lá onde o sol ameaça nascer, recuo em busca do eu que teimoso mostra-me não existir. Lá onde tudo e nada ocupam o mesmo espaço vazio, fronteira do meu despertar, tão perto de mim que não alcanço. Canta a dor que trago no peito, a verdade que sinto e não entendo. Bastaria um lampejo e saberia que tudo que aprendi de nada me serve se nunca o senti. Ali, onde o rio e o mar se unem, afogo-me na esperança de nada saber.
canta-me a musica que te embala os dias, deixa que ela me invada e eu esqueça que existo, mantêm-me quieta e silenciosa porque doi-me o corpo por dentro.  enquanto adormeço cansada, choro. este não é mais o país que eu sonhei. antes, abracei-te na multidão e o teu beijo despertou-me entre todos que amei. dá-me um cravo vermelho, coloca-o junto ao coração. semeia em cada corpo uma nova canção.

sábado, 28 de abril de 2012

O(H!)VIBEJA aí estão as cabras com os seus brincos pendurados das orelhas as vacas e os porcos com seus piercings no focinho e nas narinas os burros com a sua calma legendária suas orelhas de abano de grandes mais eficientes do que auscultadores os cavalos lazões castanhos izabela prontos a serem montados por meninos e meninas aí estão os vendedores de algodão-em-rama e de amendoins e os cães domésticos puxando os donos pelas trelas aí estão as aves exóticas os papagaios araras e os garnizés e os pombos gordos que nem perus pelo Natal e os camponeses velhos reformados a não perderem nada pelos pavilhões arrastando os pés aí estão as avós puxadas pelos netos atrás dos fumos doces dos churros das farturas e os agricultores perdidos em projetos que rentabilizem a ingrata agricultura a água do Alqueiva os olivais a rega sem a qual a planta não tem seiva o vendedor de máquinas prometendo a entrega do tractor New Holland para virar a leiva a gente do governo pródiga em promessas : baixa de impostos subsídios sonhos os putos marginais virando a Feira das avessas limpando ao braço transpirações e ranhos aí estão os balões as espadas Excalibur os pavilhões de produtos regionais : os méis os queijos os enchidos maduros os cheiros assimilados a humores corporais entanto o Sol falece prós lados de Lisboa são horas de apanhar o autocarro - há quem vá de vagar há quem se apresse há os eternos retardatários distribuindo ainda o tinto que há num jarro até pró ano - a Feira estava boa podia estar melhor diz a mulher cansada perde a gente o tempo por aqui à toa com o raio da crise não dá pra comprar nada

domingo, 22 de abril de 2012

Retrato 3/4

no meu retrato
três por quatro
viajo ao passado
aquela sou eu
ainda criança
de copo na mão
na festa da escola
lembras desta?
teu corpo no meu
antes da despedida
tantas vezes partimos
quantas vezes beijei-te
e não fotografei?
na parede o retrato
emoldura o passado
nos meus lábios
um ar morno e doce
indica o presente
onde tudo acontece
enquanto respiro
a caminho do fim
vislumbro o começo
em cada intervalo
morro e nasço
outra vez

terça-feira, 17 de abril de 2012

dois poeminhas que andavam por aqui entre ruínas e poeira

AQUENTEJO

o Monte ao Sol
o poema de cal

não só de cal
que há em calor

-de cal
de calma

que é mistura
de alma
e cal


O SEGUNDO, de que eu teria pena se tivesse perdido

VIVA SOPHIA

eis
a secreta luz
tecida em Creta
-a mãe do Touro
e fonte

da voz límpida
de SOPHIA

de SOPHIA fugaz
de tão fugaz
perpétua

sábado, 14 de abril de 2012

P´RA PULAR

a escrita do cavador
é fácil - não custa nada -
serve de tinta o suor
sua caneta a enxada

seu papel é do melhor
é terra negra suada
escreve tanto o cavador
e chega ao fim não tem nada

quarta-feira, 11 de abril de 2012

não chores, sabiá
a noite é quase dia
e voltas a cantar

descansa agora
a vida pede silêncio
até o sol raiar

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Só falando preservas o silêncio" - Agostinho da Silva - (expiré après une inspiration d'une lecture de Mística Barata e Uma Garrafa de Vinho)

Um pai desejava a melhor formação mística para os seus filhos. Por esta razão, enviou-os a um reputado mestre de metafísica para que os treinasse espiritualmente. Passado um ano, os filhos regressaram ao lar paterno. O pai perguntou a um dos filhos sobre o Absoluto e o filho falou demoradamente sobre o tema, fazendo todo o tipo de ilustradas referências às Escrituras, textos filosóficos e ensinamentos metafísicos. Depois, o pai perguntou sobre o Absoluto ao outro filho, e este limitou-se a guardar silêncio. Então, o pai referindo-se a este último, disse:

- Filho, tu é que sabes realmente o que é o Absoluto.

in Os Melhores Contos Espirituais do Oriente, Ramiro Calle, Esfera dos Livros, p.122

segunda-feira, 9 de abril de 2012

MANHÃ AGRÍCOLA

por muito que me digas
em matéria de ecologia
eu não vou em cantigas

de resto diz-me
para que servem as toupeiras
que utilidade têm as formigas

as primeiras
escavam-me as raízes das colheitas
as segundas
devoram-me os grâozinhos das espigas

para alimentar as fábulas
de Esopo/La Fontaine?
para inspirar poemas a Cesário?

deixemo-nos de intrigas
se precisar de bucolismo no trabalho
arranjo um pintassilgo
ou um canário

sábado, 7 de abril de 2012

Misticismo barato e garrafa de vinho





O esplendor cruel da mais perfeita epilepsia a rebolar no côncavo do interior da mente, se fosse assim, a catedral a irromper absoluta
De todo uma ruína elaborada, digna de providenciar uma salva eterna num entrelaçar de aspectos, a fulgente e espontânea tese de repente de uma vez para assustar o compêndio de psicologia com essas novas ocorrências que poderiam configurar o santo a cantar no meio das paredes derrubadas a pontapés descalços de antítese
Colecção interminável de vibração ou inundação de luz pura
Ficou caído a precisar de auxilio magoado num ombro e orelha para depois o significado do mito auxiliado o levantar pelas muletas puras cheias de brilho, que obviamente podem surgir em casos especiais de maneira figurada, para posteriormente serem largadas em caminhos esconsos, trocadas por camisa e calças brancas figuradas também na Páscoa e ressurreição. Ainda que não fosse de maneira alguma religioso...
De qualquer forma Grande parte do conhecimento se desvendou quando doutrinado de tal indumentária ouviu os rouxinóis contarem que tinham voado pelo céu em direcção aos abismos e visto coisas como as não há
visto coisas como elas são
epifania tão violenta, repentina quanto o homem pode andar um único vórtice rasado um insulto barato aos demais para dançar para se divertir virado avessamente na catedral de criação autónoma
de que maneira se pode continuar saudável de lapsus linguae, e certamente pode, ao escrever num bilhetinho que só lhe restavam dois dias para viver e que ao mesmo tempo seria imortal sem precisar do eléctrico da carreira 28 na volta?
Nascimento morte e ressureicção no acto, seguindo-se que a atenção, mais emocional administrava estranhamente a quantidade e qualidade dos paradigmas em um plano que devido à sua natureza estava para além, e sem estar fora, dos clássicos
De positivo é, a conclusão aberta, acentuando-se de vigor nada paroquiano, posta a propósito para beatificar o pequeno que dorme (?) e em suas preces pede e perde-se. Seus nomes, quaisquer que sejam pelos quais o chamam vão num azul a voar
Já não vive a hora incerta é o percurso mais ou menos de nove meses agora extenso uno posto a nu
E pôde participar nisto, tomado de razão, como se fosse instruído e embalado por Nossa Senhora.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

se crente ama o outro, deus ama o mesmo - desvela-te amando a mesmidade na outridade no beijo do branco com o vermelho

Água-Cor

O País da Cor é líquido e revela-se
na anilina dos vasos de farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do-verde.

E o azul é uma enseada na redoma.
Quisera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna de ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais, falácia.

- Drummond de Andrade

o menino sem asas
voa sem dizer adeus
grato
pelas asas que Deus não deu

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Durante a tempestade
a chuva afogou-se no oceano
e o peixe largou o isco
Na minha terra todos gostam de circo.
A notícia acontece quando o elefante enlouquece.
O bailarino cantou a morte do cisne num grito sem som.
Esticou-se no palco.
O cisne dançou a morte de quem o cantou.

Se me vires chorar, não te assustes, a lágrima é doce e me faz cantar.
Quando a saudade se entranhar no meu corpo, farei dela minha companheira, como se fosses tu a ocupar-me inteira.
Se a dor parecer tamanha, descobrirei nela a felicidade.
No fim da noite abrigarei o dia.

terça-feira, 3 de abril de 2012

pensa-te Deus e deixa fluir o não pensar matando-te - assim como aDeus há, não há nada a matar

Tu, Deus Pai, Criador por quem vivemos!
Tu, Sabedoria do Pai, por quem, reformados, vivemos sabiamente!
Tu, Espírito Santo, em quem vivemos bem-aventurados!
Trindade de uma única substância!

Único Deus de quem somos,
por quem somos,
em quem somos!

Princípio para onde refluímos,
forma que seguimos,
graça pela qual somos reconciliados!

Nós te adoramos e nós te bendizemos!
A ti glória nos séculos!
Ámen.

- Guilherme de Saint-Thierry (1085-1148)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

DÁ QUE PENSAR

Eu e o mundo – há que pensar
As rodas do mundo sobre a lama do tempo
Deus limpando os olhos da maresia
Cansado de tanta vigilância permanente

Hoje aqui agora sempre
O merceeiro a roubar
Nos pesos e no preço da mercadoria

Deus
Controlando as ondas
Do mar
Da rádio
Da televisão
(e a fome
Será que foi de vez banida do mundo
Ao menos da Etiópia? )


Deus cansado De(u)scansado ?
Quiçá manco
Correndo a toda a volta
Da Terra
Aqui sintonizando os rádios
Ali desligando aquecedores em casa de idosos
acesos por incúria

Eu tentando um lapso
Uma pequena aberta nesta azáfama
Para puxar a Deus pela aba do casaco
- há que pensar
O stress
Não há já quem disponha
De um simples minuto para nos atender

Ou chegamos
Com um bom negócio em mãos
A casa das pessoas
E as portas se escancaram
Para os maples
Para o fogão de lenha
Para as paredes com o "menino com lágrimas"
ou
Deus – dá que pensar

Todos os amigos
Estão permanentemente absorvidos
E nós – o mundo –
Ou caímos no enxofre das tabernas
Para a sopa de grão e o vinho tinto
Ou caímos nos maples dos menos amigos
Na periferia
De uma família fria
Frente à luz a cores do aparelho de televisão

Só vi deus duas vezes:
A primeira andaria pelos meus dez anos
Fui roubar ameixas
À quinta de um vizinho
E um velho muito velho
Com o indicador em riste me apontou:
Menino isso não se faz

Sumiu-se o velho
Por detrás do fuste das ameixieiras
E uma pancada forte na cabeça
Fez-me ver estranhas luzes
E ouvir
Um interminável som de campainhas

Pela segunda vez, e última , que vi Deus
Foi num exame de Química no Liceu
Tinha que manusear um ácido qualquer
Muriático se a memória não me falha
E de tal ordem desastrada foi a minha prova
Que o laboratório se encheu de um fumo estranho
Fosforescente e a cheirar a enxofre
E o pobre professor
Me pareceu levitar de costas para o tecto
Segurando um bastão
Semelhante em tudo ao báculo
De Deus

Acho que não mais O vi
A despeito de algumas aflições ao fim do mês
E de certos pecadilhos
Que de vez em quando lhe confesso
Por e-mail

Por isso Deus
para mim
- dá que pensar

domingo, 1 de abril de 2012

Primeiro Automóvel

Que coisa-bicho
que estranheza preto-lustrosa
evém-vindo pelo barro afora?

É o automóvel de Chico Osório
é o anúncio da nova aurora
é o primeiro carro, o Ford primeiro
é a sentença do fim do cavalo
do fim da tropa, do fim da roda
do carro de boi.

Lá vem puxado por junta de bois.

- Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 27 de março de 2012


Adeus. Prometo que até amanhã. Prometo que até sempre.
Se os teus olhos chegarem aos meus, vês o meu sorriso, na despedida.


sábado, 24 de março de 2012

PALESTINA

a "invenção" pelos deuses
de uma TERRA PROMETIDA

não implica a "criação" pelos homens
de uma TERRA PROIBIDA

quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, são fruto da mesma matriz linguística e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes às do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz linguística e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais opções que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civilização dela surgida. Não é possível compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chinês, como hoje mostra François Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz linguística, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generalizações sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experiência directa e pré-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fenómenos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Platão e Aristóteles, optou pela determinação conceptual do mundo com fins político-científicos. Outra grande diferença é o antropocentrismo do pensamento ocidental pós-socrático - raiz da actual crise ecológica e da devastação da Terra e dos seres vivos - perante a tendencial empatia cósmica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradições são sempre muito mais interligadas do que as histórias da filosofia nos levam a crer. Não há culturas, mas sim entre-culturas.

Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.

Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).

2. Como se produziu a sua conversão ao budismo? Foi uma escolha racional ou um puro acto de fé?

Não me sinto convertido ao “budismo”. Na verdade não me interessa tanto o budismo histórico e institucional, mas antes a experiência de Buda, o Despertarda mente-coração na sua natureza primordial, livre de condicionamentos conceptuais-emocionais e das decorrentes convenções sócio-culturais. É isso que encontro nos mestres e em muitos homens exemplares de todas as tradições espirituais, bem como na agnóstica e ateia. Deus procede de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha” e a experiência dessa luz que há na consciência, para além de budologias e teologias, de religiões e filosofias, é a mesma em todo o homem, religioso, agnóstico ou ateu.

Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.

3. Como veio a conhecer a obra de Cioran e que significado teve para si o contacto com esta obra?

Há algo em mim tão afim que não poderia deixar de a encontrar. É como se Cioran expressasse toda a revolta, desespero e pulsão niilista da minha adolescência e juventude, mas hoje não é tanto isso que na sua obra me interessa, lamentando que fique demasiado refém disso e de uma dolorosa ausência de amor e compaixão. Interessa-me nele o iconoclasmo místico e, sobretudo, as aberturas a uma transfiguração redentora. Cioran poderia ter escrito apenas o seguinte trecho de Sur les Cimes du Désespoir, no qual me reconheço inteiramente: “Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”.

Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.

Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).

4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?

Nos últimos anos tem havido um aumento de traduções que estão a ser recebidas com muito interesse, mas creio que até agora só há um estudo publicado: João Maurício Barreiros Brás, O pensamento insuportável de Cioran. Um itinerário do desespero à lucidez (2006).

5. Qual o papel da filosofia na nossa época? Crê que a filosofia chegou ao fim do seu caminho ou tem hipóteses de sobreviver?

Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.

Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.

6. A prática do aforismo ou do fragmento poderia contribuir para dar um novo alento à filosofia ocidental, mais aberto e menos dogmático?

A filosofia nasce do espanto balbuciante não só perante o haver algo, mas também perante o nada desse haver. Só aí pode re-nascer a cada instante, incinerando todos os conceitos, métodos e sistemas. O aforismo e o fragmento são o mais eloquente dizer desse gritante silêncio que há no aparecer das coisas. Neles a filosofia regressa à sua matriz místico-poética, anterior à violência do conceito que a extirpou do espanto original, como diz Maria Zambrano.

7. Crê que se pode falar de um declínio geral da civilização ocidental ou olha para o futuro com esperança? A civilização oriental poderia oferecer um modelo para este Ocidente que padece de niilismo?

Procuro viver e pensar para além do medo e da esperança. No plano colectivo, feito desse medo e esperança, creio assistirmos ao fim do que se convencionou chamar Ocidente e Oriente, que progressivamente se fundem numa nova civilização global que exteriormente tem um cunho ocidental - económico e tecnológico - , mas que arrisca uma vida curta e o iminente colapso social e ecológico se interiormente e ao nível da liderança não reencontrar a espiritualidade e a ética que presidiram ao melhor do Ocidente e do Oriente tradicionais, mas agora em termos laicos e trans-religiosos. Foi o que anunciou Fernando Pessoa, ao interpretar o maior mito profético da cultura portuguesa, o do Quinto Império, como uma era do espírito e da cultura que deverá fundir e elevar a uma superior síntese civilizacional a essência de Grécia, Roma, Cristandade e Europa, incorporando ainda o melhor de todas as culturas e civilizações mundiais num amplo universalismo. Antevejo essa superior síntese como uma nova aliança com a Terra e todos os seres vivos, fundada numa consciência holística e numa ética cósmica.

O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.

- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.

http://www.revistaorizont.ro/

POESIA

é o teu dia
como se houvesse um dia
para celebrar o sol
glorificar o orvalho
consagrar o amor
que multiplica o mundo vegetal

sim - porque não tenhamos ilusões
os pinhões são filhos de pinheiros
que à distância de quilómetros se enlaçaram
como dois répteis

como uma égua em cio
e um cavalo

ou um licorne?

por que não um centauro?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Meditação para dormir

Uma alternativa às drogas. É natural, faz bem e dá prazer.

Retirado de: http://relaxamentoemeditacao.blogspot.com/2012/03/meditacao-para-dormir.html


Vou para a cama, quero dormir e decido ajudar-me a adormecer. Deito-me de barriga para cima, direita, braços estendidos ao longo do corpo, pernas ligeiramente afastadas uma da outra.

Centro-me num ponto que fica quatro dedos abaixo do umbigo, o hara, o meu centro de energia vital. Respiro lenta e profundamente a partir desse ponto. Foco-me inteiramente no hara e na respiração e permaneço assim durante vários minutos (5, 10, 15).

A seguir faço um passeio pelo corpo. Na inspiração, lenta, abdominal, centro a atenção no pé direito e na expiração (também lenta) largo. A seguir fico totalmente atenta à perna e ao joelho direitos na inspiração e largo-os na expiração, depois a coxa. Depois a outra perna, as nádegas, a zona pélvica, a região lombar, a barriga, o peito, as costas, os ombros. Depois a mão direita, o braço direito, o antebraço; a mão esquerda, o braço esquerdo, o antebraço. Os ombros, o pescoço, a cabeça, a testa, as sobrancelhas, os olhos, o nariz, a boca, as orelhas e as maçãs do rosto. Os ombros.

Se ainda não tiver adormecido, deixo-me seguir com as sensações do corpo. Se surgir algum incómodo, aceito e volto-me para a sensação global, flutuante, do corpo. Posso permanecer assim durante largos minutos.

Em algum momento antes de adormecer agradeço estar viva, ter uma casa que me abriga, alimentos, pessoas que me amam e desejo a todos os seres e a mim própria uma noite doce e tranquila.

"Que todos os seres tenham saúde, que todos tenham paz, que todos tenham alegria, que todos tenham amor", pode ser a emoção em que fico até adormecer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

MOTOR DE ARRANQUE

eu não invento coisa nenhuma
ainda hoje quando ia comprar empadas para levar a amigos com quem ia almoçar
vi um cigano ao volante de carrinha fechada - empurrada por amigos

tomei esta nota
:
motor de arranque de carrinha de cigano
raramente é mecânico

em norma
é humano

segunda-feira, 5 de março de 2012

PERDIDO ENTRE PAPÉIS

amigo sem/abrigo
escuta o que eu te digo
:
com gente desta condição
-a quem estendes a mão -

está em perigo
a tua própria
caixa de cartão

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


criação engendrada de, por, e para, ninguém que a possa compreender

uma coisa espontânea de a qual não tenho nada a ver com isso

sábado, 25 de fevereiro de 2012

C E R N

no conforto do lar - no quarto de dormir -
na cama duvidosa de casa de alterne

por muito que tu digas
todo o lugar onde nos encontramos
é CERN

protão contra protão
por muito que tu digas
quando nos encontramos há explosão

e a prova irrefutável
da existência atómica
do bosão
de HIGGS

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Penélope revisitada


Pousado o tear entre o colo e a memória
Entre a flor e a dor há peixes-pássaros raiados
A mulher engole o fogo que rola no mar
Há clarões que morrem na sua boca
Engole-os a saliva da espera
E o dia parado é uma ferida que entra no espinho
A manchar o bordado do lençol

Haverá manhãs de pássaros calados
Circum-navegando o desenho do bordado
Sabe-se que uma túnica se despe no incêndio
De uma viva memória. E os rios silentes
cobrem os pés dos artesãos de florilégios.
Onde guardas os braços, ó meu amor de longe?

A tua cabeça no meu colo é uma geografia deserta
O esplendor degolado de uma flor nascida
Da ciência tecida do paciente espaço.
Reconta o tempo da viagem de regresso.
As mãos são alvas cicatrizes, e as flores ágeis
Não enchem o bordado do ponto onde te ausentas.

Cheio o meu colo das paisagens que ficam
Converte-te à cegueira da minha imagem vazante
Nas ondas verás o reflexo de deus em chamas
Chamarás pelo tempo, essa flor de mortalha;
Talvez entres a cantar por esses corredores de pó
Sabes que a tua cabeça florirá sobre o meu colo em chamas?!

M.S.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

''Tenho a certeza de que fui árvore e é por isso que tanto as amo.''  

Raúl Brandão
Quando o mar roubou o sal dos rios, bracejei contra os predadores sem dar conta do encontro das águas. Estuário fértil, onde a vida se procria. 
Qando o sol iludia a noite alongando o dia, contemplava o céu.  Apaixonada, descobria a vida. Equânime é o olhar de quem ama.
Cada quarto de hora, ameaça a meia hora. Ruído infernal que anuncia a morte do tempo. Cadenciado é o som, em cada intervalo da hora.
Entre a minha casa e o mar, existe um caminho de ferro.
O silêncio aparece de madrugada, quando a estação adormece cansada, ou quando os maquinistas fazem greve e as crianças do bairro colam seus corpos nos trilhos como se fossem lagartos.
Uma sirene prolongada, anuncia a desgraça.  Num lamento sombrio a noite escurece o dia.
Da minha janela vejo o mar.  Noite e dia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Brinde a Omar Kayam!

O poder se esvanece:
pó de nada.
Mas as rosas florescem mesmo do pó.
Do mesmo pó de estrelas
o poder torna escravo
Quem das rosas só as pétalas colhe
Descuidado.

Bebei, pois, de uma taça mais funda
Como quem se esquece
E no esquecer se lembra
que do cálice rubro
transborda a seiva que embriaga mais.

M.S.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

M I D A S

deus - tu?
nem semi-deus

- mortal e rasca
:
ingrato
chato
traidor imundo

vê só como agradeces/
pagas

a quem te pôs
no MUNDO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ATENÇÃO, VEGETARIANOS
(para Paulo Borges - com abraço amigo)

não é menos desumano
cortar a flor de uma Couve-Flor

- que é tão inocente quanto bela -

do que degolar uma galinha
para fazer arroz-
-de-
cabidela

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Julgamento




Numa ilha escura e hirta, repleta em paisagens de heresia sonhadas em meio ao delirium tremens de algum órfão, o povo agachado – em se tratando de um burgesso solitário haveria desculpa – esse povo se engana com tais heresias babadas

Atravessam-se dolorosamente com máscaras de cómico sem graça, os postulados de quaisquer estruturas sejam elas ou não feitas da matéria dos seres vivos... Grande pateada com champagne e cigarros de marca branca, como se estivessem num jogo de futebol

Dizem olá à eternidade com tamanha desfaçatez virada nos copos e chupada nos cigarros que se tocassem um violino atrás das colinas, sairia num estertor opaco do violino estuprado

Surdos e grossos como pedregulhos que um pé empurra para o precipício a comprar tabaco ou a girar um grogue entre dedos

Enrolado a tapetes de arraiolos

A foto tirada ao conjunto de roupa enxovalhada e enodoada, a guerra do Peloponeso do avesso

Esses pequenos pedregulhos rodeados por Oceanos leoninos onde se estrangula qualquer veleidade pela via de todas essas ondas

Do prólogo ao êxodo, o epidauro da natureza – entrada do coro a dançar e a cantar – gotas de chuva a entrarem em águas zangadas

Impetuosas, divinas no Ocaso, impacientes na sua ferocidade e pouco se importando com a quantidade de corpos inchados que bóiam depois da sua passagem

Leis omnipotentes, não as queiram, não as queiram ouvir. Preferem as angústias da porta a bater no escuro, da ilha amarfanhada como papéis de velho louco

Como ondas do pensamento, exactamente, se plasticinam em recurso a estas metáforas, as zangas dos mortais

Pensamento. Pensamento?

Algo de recurso estético tirado dos sonhos ou das páginas da natureza para um boneco mole escarrapachado numa cadeira rodeado por todos os lados

Que nem sabia se as águas lhe molhassem apenas os pés num Ganges a ferver...

As torpes magnitudes que observaria numa praia, em pleno Janeiro, e que o enrolavam mesmo não querendo, nem por isso seriam diferentes

Era portanto o acto de sorver beijos da Têtis hedionda, cortejar a sublime dialéctica, porventura escrevendo o poema em papel barato

Um Eu ratificado universalmente por aspas, sublinhado mesmo

O que o empurrava, descendo escadas levado por Ondas aos novos segundos que se sucediam aos derradeiros, aniquilando-os como se faz a uma formiga

Compreensão pura?

Quereria - será que poderia? – dourar a constância de algo que somente se nomeia e constata numa ode feita aos que nela sofreram, afogados abjectos e pescadores patéticos naufragando a gritos de puta batida agarrada ao cu, numa introspecção

Na sensação de se entender apenas pessoa.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PROMOÇÂO COM VISTA À SALVAÇÃO
DA ECONOMIA DA NAÇÃO


em vez de promoções tontas
de pastéis de nata
e semelhantes
reabilite-se mas é
e quanto antes
a Fábrica de Metralhadoras (FBP)

- FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Grande Libertação

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, corpo e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros. Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concentração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer de conta que isto é normal ou que não existe, a tentar tirar proveito disso, a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação comece agora mesmo e chegue a todos.



começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

meigas - contudo lágrimas -
mais lágrimas do que as possíveis
pelas 73 vítimas do instinto de auto-destruição
em jogo de bola no Egito

mais lágrimas do que as possíveis
pelas guerras económicas - do petróleo e do dólar
pelas próprias guerras ditas religiosas
pela ameaça das catástrofes climáticas

começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos
por causa destes três "estafermos"
:
o menino Jesus - de Fernando Pessoa -
seu filho genético
ao mesmo tempo que místico de Deus

Fernando Pessoa - demiurgo do belo
do incrível
do milagre
ao fim e ao cabo do possível-real
do real que existe para todos mas só ele vê

lágrimas portanto por Pessoa
que deve agora estar na casa de Jesus
a dormir na sua cama
ou brincando às cinco pedrinhas
com ele no primeiro degrau da escada
de seu outro PAI

e lágrimas por Bhetânia
que é tão natural a dizer Pessoa
que a gente nunca sabe
se lê um
ou escuta outra

por estes três "estafermos"
começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

P´RA PULAR

QUE O DINHEIRO É METAL VIL
NÃO TENHAMOS ILUSÕES:
QUEM TEM MIL QUER TER CEM MIL
QUEM TEM CEM MIL QUER MILHÕES

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Verdes Anos": o PAN já faz parte da história do ecologismo em Portugal



O livro Verdes Anos. História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira (Lisboa, Esfera do Caos, 2011), será apresentado pelo Prof. Viriato Soromenho-Marques na 3ª feira, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Este livro dedica o capítulo 8 ao PAN e ao seu resultado surpreendente nas últimas eleições legislativas. Reproduzimos os três últimos parágrafos do livro, após se referir o historial de adversidade de Portugal e dos países do Sul da Europa aos ideais ecologistas:

"Perante este ambiente hostil, como se explica então o sucesso do PAN, que nas primeiras eleições legislativas a que concorreu obteve mais de 50 000 votos em listas próprias (feito inédito entre os partidos ecologistas portugueses) e quatro meses depois elegeu um deputado em eleições regionais?

Será um epifenómeno ou será que o segredo para o sucesso de um partido verde em Portugal passa por unir a defesa do ambiente aos direitos dos animais e às causas humanitárias?

Para responder a estas questões teremos de esperar mais algum tempo. Entretanto, uma coisa é certa: por mais negro que seja o cenário do país e do planeta, muitos acreditam que a cor da esperança ainda é o verde"

Cabe-nos mostrar que o "segredo" é mesmo esse e que o PAN veio para crescer e ficar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

BOM DIA PRIMAVERA

aí está a Primavera
nem que seja por um dia

reanima-se na Terra
a Natureza
- tudo o que existe sorri

nem que seja por um dia
nem que seja fantasia
nem que seja só quimera
aí está a Primavera

nem que seja - ai quem me dera
Primavera só por mim

sábado, 21 de janeiro de 2012

off load



onde
mínimo nulo se insoluciona
rumo a um infindo destino
eternamente irresolúvel

Vergílio Torres

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SALA-DE-ESPERA de HOSPITAL

com o seu ar solene
austero
adusto

mais do que mortal - perene
o homem já não era homem
era um busto

grego ou romano

- de César
ou de Augusto

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

II POEMA PARA UMA GARÇA do DIVOR

na lagoa a GARÇA
se maquilha
ajeita as penas
das asas e do peito

para a Grande Gala do espetáculo
quando levanta voo
e tudo à sua volta é Sol
e Azul

Silêncio
e Graça

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Se não acedes à estupefacção do intelecto cais na estupidez intelectual

LIBERDADES


acordei com um pássaro negro esvoaçando em casa
:
preto como um estorninho mas de cauda comprida como se de melro
não sei identificar

já me limpou todas as teias-de-aranha dos ângulos mais altos das paredes
onde o espanador - preso a uma cana - não alcança

cumprido o seu papel de utilidade
vou abrir todas as janelas
para lhe mostrar
o caminho da sua liberdade

liberdade de pássaro
não é igual
à liberdade de pessoa

liberdade de pessoa
é quando não tem grades

casa de pássaro é o céu
e sua liberdade é quando voa

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Seres serpenteados, seres emocionados, tomai de minhas mãos "Emoções".

Rita Cardoso - "Emoções" from MPAGDP on Vimeo.





Tomai outras coisas mais, por quem sois!

Rita Cardoso - "Coisas Concretas" from MPAGDP on Vimeo.



Rita Cardoso - "Serve-te" from MPAGDP on Vimeo.

A poesia é a festa do pensar

Nosso coração é antigo

Nosso coração é antigo
de antes de haver idade
por isso existir lhe não dá abrigo
ébrio de espanto e saudade
Símbolos? Meta-símbolos?
Odeio símbolos, os mestres-de-obras dos poemas, os clínicos
analistas das metáforas, os engenheiros do amor, os arquitetos
da foda, os psicanalista da música fúnebre. Odeio os que num verso
tentam perceber a minha vida toda. Invertem parábolas, agitam-nas,
sacodem-nas, analisam a minha dor à lupa.
Rais parta a simbologia, as pernas das letras, os nenúfares nas mesinha
de cabeceira, os poetas escriturários, belos, sentimentais e sonâmbulos
como os bois pela beirinha da estrada.
Odeio os que a modinho retiram a vesícula do poema, injetam sol
e pleonásmos, virgulam os sentidos.
Meus senhores, o que escrevo advém das flores, roubado às flores,
plagiado das flores. Esse é o meu crime, o meu sangue, que é fresco
e tem sete fuso horários.
Por favor, não me dêem cabo dos significados!

Percorridos todos os caminhos / Ficas onde sempre estiveste

domingo, 15 de janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MEU AMOR
quero-te comigo
como na espiga o trigo
:
bago-a-bago
afago contra afago

umbigo contra umbigo

meu amor
quero-te comigo
mais grão do que sentido
- messe de verão

o pão
que sejas tu o pão
daquilo que eu te digo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

La prière du coeur


La prière du coeur est un face à face intime.
Je suis dans ma chair la réponse à Dieu,
coeur à coeur qui résonne à l'unisson dans le monde.
Le "Je suis" de Dieu transcende le temps
et Le rend immanent à chaque instant.
L'espace, le temps Le manifestent
mais ne sauraient cristalliser sa Présence.
La prière du coeur est une goutte de lumière vivant
qui nous pénètre et nous transfigure.
Elle ne s'apprend pas,
elle se vit totalement,
elle n'est pas une technique, une formule
mais un état d'Amour,
une tension sans effort,
un désir fou
vers Celui qui habite en plénitude en nous.

O amor é um encontro do espírito ao qual o corpo não quer faltar

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GIRO

giro é que
neste mundo giro
feito de aparências
e mentira

porque a Terra gira
nem toda a gente é gira

mas toda a gente gira

Para venir a lo que gustas has de ir por donde no gustas



Para venir a gustarlo todo

no quieras tener gusto en nada.

Para venir a saberlo todo

no quieras saber algo en nada.

Para venir a poseerlo todo

no quieras poseer algo en nada.

Para venir a serlo todo

no quieras ser algo en nada.

Para venir a lo que gustas

has de ir por donde no gustas.

Para venir a lo que sabes

has de ir por donde no sabes.

(…)

Cuando reparas en algo

dejas de arrojarte al todo.

Para venir del todo al todo

has de dejarte del todo en todo,

y cuando lo vengas de todo a tener

has de tenerlo sin nada querer.

En esta desnudez halla el

espíritu su descanso, porque no

comunicando nada, nada le fatiga hacia

arriba, y nada le oprime

hacia abajo, porque está en

el centro de su humildad.


Juan de la Cruz

UM IMPÉRIO NOSSO



Atente-se menos na noção, e mais no fazer-se, dinâmico, desta aglutinação vista através das janelas baças de um quarto para dentro do mesmo quarto. Uma introspecção ajoujada num acto de sofrimento, que, se não transmitisse qualquer interesse, não era por isso menos verdadeiro. Este império! Presente renovo na leitura a esmagar empíricos sentidos, solipsismo montado em elefantes brancos.

Que manifesto? Que coisa? Aonde a subir cinzentamente cinza tão cruel e bruta que não podia deixar de ser nossa?

E aos olhos de quem, se fossem para diferenciar algo? Não teriam inclusos a qualquer consideração a mais pequena intenção prometeica de se constituírem impérios além de unipessoais tanto que o fossem grandes, e eram os maiores

Impérios de cinza perdida que eram capazes de envergonhar um Napoleão com a sua amplitude. Conseguem ser mais do que esses mediatos obviamente concretos e exteriores, onde os desapiedados fariseus tentam engordar-se na atmosfera dos ditados

Aqui está equilibrado o sujeito da sua pessoa, o espaço indómito da verdade com bigodes mefistofélicos, nossos, que os retorcemos com um movimento de dedos desinteressados. O desconsolo das batalhas perdidas ou vencidas que nunca precisaram de o ser na edificação, tentam apossar-se, e conseguem, à sua maneira, um nascer do Sol que não lhes pertence, definindo-o e sublinhando-o em insufladas selvaticamente de serenatas de plástico desafinadas como um exército perdido de império estrangeiro

Com botas gastas marcham as hostes hasteadas de aonde de alguém, seguindo obstinadamente a sombra de velhos sujos, que lhes pareciam, bizarramente, os sósias do Salazar na cama, assinando inutilmente. Afinal sempre se cansam do sol, e tais coisas e às tantas se perdem em si, abstrusas nas intenções, sósias deles. Ou as luzes jamais lhes pertenceram, a esses ditadores bêbados e cambaleantes, e eles ofuscados se simplificaram no labirinto assustado de cada um.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quando tentei ser poeta original
vieram bandidos e esfregaram-me com ouro
líquido na cara. quando sonhei com a leveza 
dos pássaros perdidos, uma poetisa engravidou-se 
através das suas próprias mãos. quando vesti a túnica 
das esfinges gregas, uma criança chorou diante 
do altar do abandono. quando descobri o conforto do invisível,
parti para dentro de mim e acendi os olhos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

TAXAS MODERADORAS

Um Serviço Nacional de Saúde
TENDENCIALMENTE menos virado
para a PRESCRIÇÃO do que para

a PROSCRIÇÃO

Peixe

 



Pensamentos profundos, sorriso de água doce, escamas coloridas: Proteção contra ondas negativas.

B. Damas

sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem sequer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os caprichos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser explorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que alguém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política, pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos; não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, criativos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamentalmente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em Golpe d'Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução interior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credíveis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocrático, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio da natureza e da Vida.

Conto encontrar-vos, com espírito não-violento, pacífico e positivo, na manifestação de 10 de Janeiro, às 18.30, no Rossio, em Lisboa, contra a venda da EDP, mas sobretudo a favor de ética na política. Uma manifestação que não é contra os chineses nem contra ninguém, mas acima de tudo contra a nossa apatia e a favor de uma nova sociedade e civilização, fundada na consciência, no amor e no respeito por todas as formas de vida.

Bem hajam!

votos para 2012


Feliz Ano Novo

sábado, 24 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

BOM NATAL a todos
mesmo ao multimilionário RICARDO DIMAS
e a todos os milionários do mundo
que conseguiram fortuna pelos seus métodos

BOM NATAL também ao José SÓCRATES
e ao deputado da atual Assembleia da República
que desejava felicidades a todos os emigrantes
à exceção
do que tinha emigrado para Paris
para estudar Filosofia

BOM NATAL aos norte-coreanos
que ainda agora hão de chorar
a morte do seu GRANDE CHEFE Kim Jong II
mais do que todos os cristãos
alguma vez choraram a crucificação de CRISTO

e acreditam na sua santidade
pela neve e trovoada que tombaram sobre Pyongyang
no decurso
das exéquias funerárias

e porque as águas de um Lago sagrado se cindiram
e porque uma montanha rochosa enorme
num minuto se tornou urbano montículo de lixo

BOM NATAL a todos os católicos
que acreditam que Jesus subiu aos Céus ressuscitado
libertando-se de um pesado inviolável túmulo de pedra

e aos muçulmanos todos
para quem Maomé também subiu aos Céus
chegado aí cavalgando a sua pura égua Kamsa

BOM NATAL aos Budistas todos - adoradores do gorducho e sempre sorridente Buda
aos hindus de Brahama
e de seu TRIO
aos crentes em todas as Tríades da História
:
- triunviratos
- trindades
- adoradores da própria TROIKA

BOM NATAL aos animistas todos
aos que adoram o Sol o Sado e os golfinhos
mas também as menos simpáticas taínhas
dos cais de Setúbal e de Troia

Bom Natal aos chineses que nos invadem o Comércio
e aos que não emigram e ficam por lá
a construir barragens e a semear os campos
e a ganhar dinheiro
para nos comprarem as nossas EDPs

aos que cultivam o ópio no Afeganistão
a coca na Colômbia no Chile no Perú
cannabis em Marrocos Argélia África por inteiro

até nos quintais de Albufeira
ou onde reste uma leira de terra das couves e dos nabos

BOM NATAL a todos os drogados
e a seus familiares a vida inteira de ressaca
sem alguma vez terem experimentado a droga

BOM NATAL também aos traficantes
e aos dealers
e aos barões que têm os filhos a estudar em Londres
e nas melhores Universidades da América
e têm apartamentos no Dubai em que todos os metais
para uniformizar são ouro

BOM NATAL aos que produzem toda a droga
arriscando a vida porque eles próprios são pobres que nem JOB

aos mineiros que escaparam no Chile do fundo de uma mina
e a todos os milhares de milhares de companheiros
que esgaravatam a terra com perícia de toupeiras

BOM NATAL a todos os que têm casa nos 5 continentes
mas também áqueles
para quem o cemitério será
sua não última mas primeira moradia

se me permitem - aos SEM e CEM abrigos

BOM NATAL a todos os com defeitos físicos
aos invisuais
porque não conseguem ver
mas também aos cegos
que não vêem porque não lhes agrada ver

aos acamados aos doentes terminais
às enfermeiras e aos médicos
aos que trabalham e aos que estão em greve

aos que acreditam
que houve Jesus Cristo filho de Deus e de Maria
que foi menino
e nasceu mesmo neste dia 25
ou teria sido 24?
há 2011 (ou serão 2012?) anos

mas sobretudo um BOM NATAL
aos que mesmo não acreditando em nada disto
são bons
e honestos
e justos
e solidários
e pacíficos
e simples

capazes de todos os milagres
como se fossem CRISTO

penhamata

no imo do cimo o magma da penhamata
emana, irmana o perfume de cedros e montanha
na pele as rosas e os musgos,
o fado a chama, a chamada
os melros, os cerros, e a montada
na lunação do véu uiva a aurora,
a sede, acende, ascende, nascente.

Mensagem de Natal

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários e Inimigos

Há cerca de três anos não conhecia sequer os blogues e o Facebook. Circunstâncias várias aqui me trouxeram e, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, fez com que no Facebook rapidamente me visse a gerir várias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhecidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalismo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos indiferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, consciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um Homem Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem, digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convosco a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adversários e inimigos.
Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mutações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as consequências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa reduzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade futura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder estabelecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes. Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o processo que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga. Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos económico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e dividirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interesses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal, que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e de todos, humanos e não-humanos!

Paulo Borges

24.12.2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PENSAMENTO ENROLADO
:
todos os advogados
de não humanos
são do Diabo

Deus - para quem existe -
não faz mal

não precisa por isso
de advogados

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Criatura



A criatura tem um sol, tem uma sombra
dentro de
 si.
                                                       





Bárbara Damas

EUFEMISMO

SITIADOS

Livres
- aos abraços
de braços
amarrados

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

NOÇÃO DE POEMA

mais do que Ciência
ou Filosofia
ou Religião
Poesia é síntese

no bom poema
de três linhas
devem caber a Origem das Espécies
a República
o Talmude
a Bíblia
o Alcorão

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

...

para um poema de Platero
OBRA-PRIMA

as volutas artísticas
labirínticas do ouvido
são a prova real

de que Deus se tenha divertido
na construção
do seu último animal