O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 21 de março de 2012

Entrevista de Paulo Borges ao filósofo romeno Ciprian Valcan sobre budismo, filosofia, Cioran, Oriente e Ocidente

1. Em que medida um melhor conhecimento da filosofia oriental contribui para a transformação da reflexão filosófica da tradição ocidental? No seu caso, como é que o budismo influenciou o estilo de filosofia que pratica?

Conhecer as filosofias orientais – muito diversas entre si – é indispensável para conhecer melhor a própria filosofia ocidental. Por um lado, porque algumas filosofias orientais, como a persa e a indiana, são fruto da mesma matriz linguística e cultural, a indo-europeia, com categorias muito semelhantes às do pensamento ocidental, procedente da submatriz grega do pensamento indoeuropeu. Por outro, porque outras filosofias orientais, como a chinesa e a japonesa, radicam numa matriz linguística e cultural muito distinta, configurando uma heterotopia (Michel Foucault), uma alteridade apenas por contraste com a qual se podem plenamente esclarecer as fundamentais opções que configuraram o destino da filosofia europeia-ocidental e a civilização dela surgida. Não é possível compreender a Europa e a filosofia ocidental sem as confrontar com o pensamento chinês, como hoje mostra François Jullien. O mesmo se pode dizer, embora de forma mais atenuada, da filosofia persa, indiana e tibetana (a qual, embora procedente de outra matriz linguística, incorporou muitas das categorias indianas). Se bem que ligadas a uma matriz comum, estas filosofias exploraram possibilidades muito diversas daquelas que foram sendo predominantemente privilegiadas pelo pensamento ocidental. Pese o risco de generalizações sempre falaciosas, pode dizer-se que as filosofias orientais privilegiam a experiência directa e pré-conceptual da vida e/ou do fundo indeterminado dos fenómenos, enquanto a filosofia ocidental, sobretudo desde Platão e Aristóteles, optou pela determinação conceptual do mundo com fins político-científicos. Outra grande diferença é o antropocentrismo do pensamento ocidental pós-socrático - raiz da actual crise ecológica e da devastação da Terra e dos seres vivos - perante a tendencial empatia cósmica do pensamento oriental com todas as formas de vida, vistas como iguais no seu fundo comum. Seja como for, as tradições são sempre muito mais interligadas do que as histórias da filosofia nos levam a crer. Não há culturas, mas sim entre-culturas.

Conhecer o pensamento oriental é decisivo para que o Ocidente compreenda as outras possibilidades que as suas opções sacrificaram, mas que nele permanecem latentes, por serem inerentes ao homem e ao espírito. Isto já é uma profunda transformação e possibilita imprevistas metamorfoses do pensar europeu-ocidental. Isto exige todavia o expatriamento da nossa situação cultural mais imediata, que nos permita vê-la de fora, panoramicamente. Isto exige um pensamento nómada, que não se ancore numa dada matriz linguístico-cultural, mas viva em constante viagem no espaço entre todas elas. É esse o projecto da revista que dirijo, Cultura ENTRE Culturas.

Encontrei o budismo ao terminar a licenciatura em Filosofia, em 1981, e reconheci nele o que já era e vivia antes de o saber. Senti o mesmo em relação a alguns pensadores portugueses contemporâneos, que descobri na mesma altura. Essas influências, o budismo, sobretudo Nagarjuna, Longchenpa, Hui Neng, Linji, Dogen, Chögyam Trungpa, Thich Nhat Hanh, o tantrismo e o Dzogchen tibetanos, os mestres com quem estudo pessoalmente, a prática quotidiana da meditação, pensadores e poetas portugueses como Antero de Quental, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, José Marinho, Eudoro de Sousa e Agostinho da Silva, mas também Eckhart, Rumi, Nietzsche, Cioran e poetas e místicos de todas as tradições, têm-me ajudado a esclarecer as mais gratas experiências que remontam à infância: o sentimento agudo da estranheza de existir e haver realidade, vivido até à iminência da exaustão e loucura; a comunhão disso com um amigo de jogos de rua, cerca dos 8 anos de idade; a iniciação adolescente à consciência sem sujeito nem objecto e ao sentimento de ser todo o mundo-ninguém por via da música, da dança e da experiência erótico-sexual e amorosa; a experiência do espaço aberto ao sair da Universidade de Lisboa, no fim das aulas de Filosofia, com a mente livre de todo o artifício conceptual; a mesma liberdade nas longas caminhadas por montanhas e florestas, pelas colinas de Lisboa e ao entardecer nos miradouros sobre o Tejo; a contemplação do oceano no finisterra português e a saudade de um não sei quê; o brilho das coisas nos muros caiados de branco; a vida sem quem nem quê, sem porquê nem para quê, livre e infinita. De tudo isso vem e a tudo isso regressa o meu pensar, mais directamente expresso em A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido e Da saudade como via de libertação (2008), além de na ficção Línguas de Fogo (2006).

2. Como se produziu a sua conversão ao budismo? Foi uma escolha racional ou um puro acto de fé?

Não me sinto convertido ao “budismo”. Na verdade não me interessa tanto o budismo histórico e institucional, mas antes a experiência de Buda, o Despertarda mente-coração na sua natureza primordial, livre de condicionamentos conceptuais-emocionais e das decorrentes convenções sócio-culturais. É isso que encontro nos mestres e em muitos homens exemplares de todas as tradições espirituais, bem como na agnóstica e ateia. Deus procede de uma raiz indo-europeia que significa “o que brilha” e a experiência dessa luz que há na consciência, para além de budologias e teologias, de religiões e filosofias, é a mesma em todo o homem, religioso, agnóstico ou ateu.

Dei por mim a seguir a via do Buda por experiência, caminho do meio para além da razão e da fé. Pessoalmente aprecio nela várias qualidades: o espírito iconoclasta, patente no “Se vires o Buda, mata-o!” de Linji, pois o Despertar não é alguém ou algo exterior; ser experimental e não dogmática, pesem os desvios de muitos budistas; ter uma ética global que não exclui nenhum ser senciente, como os animais; assumir-se como mero meio a ultrapassar, pois o que importa não é ser budista e sim Buda; e, sobretudo, a qualidade e inspiração dos mestres vivos que a ensinam. Contudo o meu interesse pelo budismo estende-se a todas as religiões e vias espirituais, formas diferentes de conduzir pessoas com distintas tendências, capacidades e condicionamentos histórico-culturais a um mesmo objectivo: a plena descoberta de quem desde sempre são.

3. Como veio a conhecer a obra de Cioran e que significado teve para si o contacto com esta obra?

Há algo em mim tão afim que não poderia deixar de a encontrar. É como se Cioran expressasse toda a revolta, desespero e pulsão niilista da minha adolescência e juventude, mas hoje não é tanto isso que na sua obra me interessa, lamentando que fique demasiado refém disso e de uma dolorosa ausência de amor e compaixão. Interessa-me nele o iconoclasmo místico e, sobretudo, as aberturas a uma transfiguração redentora. Cioran poderia ter escrito apenas o seguinte trecho de Sur les Cimes du Désespoir, no qual me reconheço inteiramente: “Gostaria de perder a razão com uma única condição: ter a certeza de me tornar um louco alegre e jovial, sem problemas nem obsessões, folgazão de manhã à noite. Se bem que deseje ardentemente êxtases luminosos, não os quereria no entanto, pois são sempre seguidos de depressões. Quereria, em contrapartida, que um banho de luz de mim brotasse para transfigurar o universo – um banho que, longe da tensão do êxtase, conservaria a calma de uma eternidade luminosa. Teria a ligeireza da graça e o calor de um sorriso. Quereria que o mundo inteiro flutuasse neste sonho de claridade, neste encanto de transparência e imaterialidade. Que não haja mais obstáculo nem matéria, forma ou confins. E que, neste paraíso, eu morra de luz”.

Cioran inspira a mais ousada e radical aventura: transcender todos os limites do pensamento, da vida e da existência e sobreviver para o dizer ou gritar, com uma mestria literária que enobrece as ruínas do mundo. Inspira-me também nele o que encontro em portugueses como Pascoaes e Pessoa: na periferia da cultura europeia dominante, agudamente conscientes do fim de ciclo da sua civilização, serem movidos pelo ímpeto de libertação dos ídolos dessa mesma cultura e civilização, sem se deterem no limite do humano, numa titânica hybris de superação de tudo, do sujeito e de si mesma, numa nostalgia ou saudade violenta do incondicionado, irredutível à constituição do sujeito no mundo e fundo sem fundo de toda a experiência. Fascina-me o modo como em Cioran o génio literário serve um obsessivo e minucioso ajuste de contas com todas as ficções da consciência, da história e da cultura, escalpelizadas e reduzidas a cinzas pelo cirúrgico e cáustico bisturi do aforismo e do pensamento incendiado na veemência da insónia, da febre e da blasfémia, mas também do entusiasmo extático e transfigurador. E também a assumida inspiração no primitivismo dos camponeses das montanhas romenas e na pulsão herética da sua cultura popular, semelhante ao que em Portugal acontece com Teixeira de Pascoaes ou Agostinho da Silva. Cioran mostra aliás conhecer as fundas afinidades entre a cultura romena e a portuguesa. Num dos seus Entretiens assume a “nostalgia sem limites”, inerente à fugacidade da experiência temporal do absoluto, como fundadora da sua visão do mundo e acrescenta: “Este sentimento liga-se em parte às minhas origens romenas. Ele impregna ali toda a poesia popular. É uma dilaceração indefinível que se diz em romeno dor, próxima da Sehnsucht dos Alemães, mas sobretudo da Saudade dos Portugueses”.

Fiz uma conferência sobre Cioran e Fernando Pessoa na Universidade de Gröningen, na Holanda, em 2009, que publiquei na revista Arca graças a Ciprian Valcan e que incluí no meu último livro sobre Pessoa: O Teatro da Vacuidade ou a impossibilidade de ser eu (2011).

4. Qual a recepção actual da obra de Cioran em Portugal?

Nos últimos anos tem havido um aumento de traduções que estão a ser recebidas com muito interesse, mas creio que até agora só há um estudo publicado: João Maurício Barreiros Brás, O pensamento insuportável de Cioran. Um itinerário do desespero à lucidez (2006).

5. Qual o papel da filosofia na nossa época? Crê que a filosofia chegou ao fim do seu caminho ou tem hipóteses de sobreviver?

Tudo o que tem início tem fim e a filosofia, se a identificarmos com a modalidade logocêntrica e conceptual surgida na Grécia e sobretudo com a sua vertente académica e institucional, está a esgotar-se, pelo afastamento da vida e de outras possibilidades do espírito. A filosofia deixou em geral de ser um modo de vida integral, como nas escolas filosóficas gregas (como recordou Pierre Hadot) e indianas, para se tornar uma actividade meramente intelectual, com uma linguagem técnica hiper-especializada em questões estéreis, que nada dizem às fundamentais aspirações humanas. Essa filosofia traiu a própria vocação, enquanto amor da sabedoria, do saber/sabor da essência da vida, e nesse sentido o seu triunfo é a sua morte.

Por outro lado, se considerarmos filosofia as múltiplas formas do pensamento planetário que visam a sabedoria - um saber que nos converte naquilo que sabemos e promove uma vida mais plena e solidária - , então essa filosofia é perene enquanto conatural ao exercício consciente do viver e sempre se renova em função dos novos lances do jogo do mundo. No que respeita à filosofia ocidental, creio que o seu renascimento depende do diálogo com esses outros paradigmas não-ocidentais e sobretudo do reencontro com a vida e o infinito que nela se abre. Necessitamos de um novo início: repensar tudo na experiência mais imediata, a do indeterminado pré-conceptual. Não a partir de Deus, do homem, do mundo ou de qualquer outro pressuposto, não “a partir de”, mas nisso que a cada instante antes de se pensar e se abre entre cada pensamento, palavra e fenómeno. Isso implica morte e renascimento contínuos: viver sem apoios.

6. A prática do aforismo ou do fragmento poderia contribuir para dar um novo alento à filosofia ocidental, mais aberto e menos dogmático?

A filosofia nasce do espanto balbuciante não só perante o haver algo, mas também perante o nada desse haver. Só aí pode re-nascer a cada instante, incinerando todos os conceitos, métodos e sistemas. O aforismo e o fragmento são o mais eloquente dizer desse gritante silêncio que há no aparecer das coisas. Neles a filosofia regressa à sua matriz místico-poética, anterior à violência do conceito que a extirpou do espanto original, como diz Maria Zambrano.

7. Crê que se pode falar de um declínio geral da civilização ocidental ou olha para o futuro com esperança? A civilização oriental poderia oferecer um modelo para este Ocidente que padece de niilismo?

Procuro viver e pensar para além do medo e da esperança. No plano colectivo, feito desse medo e esperança, creio assistirmos ao fim do que se convencionou chamar Ocidente e Oriente, que progressivamente se fundem numa nova civilização global que exteriormente tem um cunho ocidental - económico e tecnológico - , mas que arrisca uma vida curta e o iminente colapso social e ecológico se interiormente e ao nível da liderança não reencontrar a espiritualidade e a ética que presidiram ao melhor do Ocidente e do Oriente tradicionais, mas agora em termos laicos e trans-religiosos. Foi o que anunciou Fernando Pessoa, ao interpretar o maior mito profético da cultura portuguesa, o do Quinto Império, como uma era do espírito e da cultura que deverá fundir e elevar a uma superior síntese civilizacional a essência de Grécia, Roma, Cristandade e Europa, incorporando ainda o melhor de todas as culturas e civilizações mundiais num amplo universalismo. Antevejo essa superior síntese como uma nova aliança com a Terra e todos os seres vivos, fundada numa consciência holística e numa ética cósmica.

O niilismo ocidental resulta da incapacidade de se suportar habitar po-eticamente esse “vazio” aberto pela “morte de Deus” proclamada pelo “louco” nietzschiano: “Para onde vamos nós próprios? […] Não estaremos incessantemente a cair? Para diante, para trás, para o lado, para todos os lados? Haverá ainda um acima, um abaixo? Não estaremos errando através de um vazio infinito? Não sentiremos na face o sopro do vazio?”. Nesse aspecto, a espiritualidade oriental, mas também a de Plotino, Eckhart ou a heteronimia de Pessoa, podem ajudar-nos a descobrir nesse abismo o nosso próprio rosto e o de todas as coisas: o infinito exuberante de todos os possíveis, Todo o Mundo-Ninguém.

- Entrevista publicada em "Orizont" (Revista da União dos Escritores da Roménia), nr. 2 (1553), Ano XXIV, nova série, 28 de Fevereiro de 2012. Traduzida para romeno por Maria João Coutinho e Simion Cristea.

http://www.revistaorizont.ro/

POESIA

é o teu dia
como se houvesse um dia
para celebrar o sol
glorificar o orvalho
consagrar o amor
que multiplica o mundo vegetal

sim - porque não tenhamos ilusões
os pinhões são filhos de pinheiros
que à distância de quilómetros se enlaçaram
como dois répteis

como uma égua em cio
e um cavalo

ou um licorne?

por que não um centauro?

quarta-feira, 14 de março de 2012

Meditação para dormir

Uma alternativa às drogas. É natural, faz bem e dá prazer.

Retirado de: http://relaxamentoemeditacao.blogspot.com/2012/03/meditacao-para-dormir.html


Vou para a cama, quero dormir e decido ajudar-me a adormecer. Deito-me de barriga para cima, direita, braços estendidos ao longo do corpo, pernas ligeiramente afastadas uma da outra.

Centro-me num ponto que fica quatro dedos abaixo do umbigo, o hara, o meu centro de energia vital. Respiro lenta e profundamente a partir desse ponto. Foco-me inteiramente no hara e na respiração e permaneço assim durante vários minutos (5, 10, 15).

A seguir faço um passeio pelo corpo. Na inspiração, lenta, abdominal, centro a atenção no pé direito e na expiração (também lenta) largo. A seguir fico totalmente atenta à perna e ao joelho direitos na inspiração e largo-os na expiração, depois a coxa. Depois a outra perna, as nádegas, a zona pélvica, a região lombar, a barriga, o peito, as costas, os ombros. Depois a mão direita, o braço direito, o antebraço; a mão esquerda, o braço esquerdo, o antebraço. Os ombros, o pescoço, a cabeça, a testa, as sobrancelhas, os olhos, o nariz, a boca, as orelhas e as maçãs do rosto. Os ombros.

Se ainda não tiver adormecido, deixo-me seguir com as sensações do corpo. Se surgir algum incómodo, aceito e volto-me para a sensação global, flutuante, do corpo. Posso permanecer assim durante largos minutos.

Em algum momento antes de adormecer agradeço estar viva, ter uma casa que me abriga, alimentos, pessoas que me amam e desejo a todos os seres e a mim própria uma noite doce e tranquila.

"Que todos os seres tenham saúde, que todos tenham paz, que todos tenham alegria, que todos tenham amor", pode ser a emoção em que fico até adormecer.

segunda-feira, 12 de março de 2012

MOTOR DE ARRANQUE

eu não invento coisa nenhuma
ainda hoje quando ia comprar empadas para levar a amigos com quem ia almoçar
vi um cigano ao volante de carrinha fechada - empurrada por amigos

tomei esta nota
:
motor de arranque de carrinha de cigano
raramente é mecânico

em norma
é humano

segunda-feira, 5 de março de 2012

PERDIDO ENTRE PAPÉIS

amigo sem/abrigo
escuta o que eu te digo
:
com gente desta condição
-a quem estendes a mão -

está em perigo
a tua própria
caixa de cartão

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


criação engendrada de, por, e para, ninguém que a possa compreender

uma coisa espontânea de a qual não tenho nada a ver com isso

sábado, 25 de fevereiro de 2012

C E R N

no conforto do lar - no quarto de dormir -
na cama duvidosa de casa de alterne

por muito que tu digas
todo o lugar onde nos encontramos
é CERN

protão contra protão
por muito que tu digas
quando nos encontramos há explosão

e a prova irrefutável
da existência atómica
do bosão
de HIGGS

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Penélope revisitada


Pousado o tear entre o colo e a memória
Entre a flor e a dor há peixes-pássaros raiados
A mulher engole o fogo que rola no mar
Há clarões que morrem na sua boca
Engole-os a saliva da espera
E o dia parado é uma ferida que entra no espinho
A manchar o bordado do lençol

Haverá manhãs de pássaros calados
Circum-navegando o desenho do bordado
Sabe-se que uma túnica se despe no incêndio
De uma viva memória. E os rios silentes
cobrem os pés dos artesãos de florilégios.
Onde guardas os braços, ó meu amor de longe?

A tua cabeça no meu colo é uma geografia deserta
O esplendor degolado de uma flor nascida
Da ciência tecida do paciente espaço.
Reconta o tempo da viagem de regresso.
As mãos são alvas cicatrizes, e as flores ágeis
Não enchem o bordado do ponto onde te ausentas.

Cheio o meu colo das paisagens que ficam
Converte-te à cegueira da minha imagem vazante
Nas ondas verás o reflexo de deus em chamas
Chamarás pelo tempo, essa flor de mortalha;
Talvez entres a cantar por esses corredores de pó
Sabes que a tua cabeça florirá sobre o meu colo em chamas?!

M.S.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

''Tenho a certeza de que fui árvore e é por isso que tanto as amo.''  

Raúl Brandão
Quando o mar roubou o sal dos rios, bracejei contra os predadores sem dar conta do encontro das águas. Estuário fértil, onde a vida se procria. 
Qando o sol iludia a noite alongando o dia, contemplava o céu.  Apaixonada, descobria a vida. Equânime é o olhar de quem ama.
Cada quarto de hora, ameaça a meia hora. Ruído infernal que anuncia a morte do tempo. Cadenciado é o som, em cada intervalo da hora.
Entre a minha casa e o mar, existe um caminho de ferro.
O silêncio aparece de madrugada, quando a estação adormece cansada, ou quando os maquinistas fazem greve e as crianças do bairro colam seus corpos nos trilhos como se fossem lagartos.
Uma sirene prolongada, anuncia a desgraça.  Num lamento sombrio a noite escurece o dia.
Da minha janela vejo o mar.  Noite e dia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Brinde a Omar Kayam!

O poder se esvanece:
pó de nada.
Mas as rosas florescem mesmo do pó.
Do mesmo pó de estrelas
o poder torna escravo
Quem das rosas só as pétalas colhe
Descuidado.

Bebei, pois, de uma taça mais funda
Como quem se esquece
E no esquecer se lembra
que do cálice rubro
transborda a seiva que embriaga mais.

M.S.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

M I D A S

deus - tu?
nem semi-deus

- mortal e rasca
:
ingrato
chato
traidor imundo

vê só como agradeces/
pagas

a quem te pôs
no MUNDO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ATENÇÃO, VEGETARIANOS
(para Paulo Borges - com abraço amigo)

não é menos desumano
cortar a flor de uma Couve-Flor

- que é tão inocente quanto bela -

do que degolar uma galinha
para fazer arroz-
-de-
cabidela

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Julgamento




Numa ilha escura e hirta, repleta em paisagens de heresia sonhadas em meio ao delirium tremens de algum órfão, o povo agachado – em se tratando de um burgesso solitário haveria desculpa – esse povo se engana com tais heresias babadas

Atravessam-se dolorosamente com máscaras de cómico sem graça, os postulados de quaisquer estruturas sejam elas ou não feitas da matéria dos seres vivos... Grande pateada com champagne e cigarros de marca branca, como se estivessem num jogo de futebol

Dizem olá à eternidade com tamanha desfaçatez virada nos copos e chupada nos cigarros que se tocassem um violino atrás das colinas, sairia num estertor opaco do violino estuprado

Surdos e grossos como pedregulhos que um pé empurra para o precipício a comprar tabaco ou a girar um grogue entre dedos

Enrolado a tapetes de arraiolos

A foto tirada ao conjunto de roupa enxovalhada e enodoada, a guerra do Peloponeso do avesso

Esses pequenos pedregulhos rodeados por Oceanos leoninos onde se estrangula qualquer veleidade pela via de todas essas ondas

Do prólogo ao êxodo, o epidauro da natureza – entrada do coro a dançar e a cantar – gotas de chuva a entrarem em águas zangadas

Impetuosas, divinas no Ocaso, impacientes na sua ferocidade e pouco se importando com a quantidade de corpos inchados que bóiam depois da sua passagem

Leis omnipotentes, não as queiram, não as queiram ouvir. Preferem as angústias da porta a bater no escuro, da ilha amarfanhada como papéis de velho louco

Como ondas do pensamento, exactamente, se plasticinam em recurso a estas metáforas, as zangas dos mortais

Pensamento. Pensamento?

Algo de recurso estético tirado dos sonhos ou das páginas da natureza para um boneco mole escarrapachado numa cadeira rodeado por todos os lados

Que nem sabia se as águas lhe molhassem apenas os pés num Ganges a ferver...

As torpes magnitudes que observaria numa praia, em pleno Janeiro, e que o enrolavam mesmo não querendo, nem por isso seriam diferentes

Era portanto o acto de sorver beijos da Têtis hedionda, cortejar a sublime dialéctica, porventura escrevendo o poema em papel barato

Um Eu ratificado universalmente por aspas, sublinhado mesmo

O que o empurrava, descendo escadas levado por Ondas aos novos segundos que se sucediam aos derradeiros, aniquilando-os como se faz a uma formiga

Compreensão pura?

Quereria - será que poderia? – dourar a constância de algo que somente se nomeia e constata numa ode feita aos que nela sofreram, afogados abjectos e pescadores patéticos naufragando a gritos de puta batida agarrada ao cu, numa introspecção

Na sensação de se entender apenas pessoa.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PROMOÇÂO COM VISTA À SALVAÇÃO
DA ECONOMIA DA NAÇÃO


em vez de promoções tontas
de pastéis de nata
e semelhantes
reabilite-se mas é
e quanto antes
a Fábrica de Metralhadoras (FBP)

- FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Grande Libertação

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, corpo e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros. Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concentração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer de conta que isto é normal ou que não existe, a tentar tirar proveito disso, a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação comece agora mesmo e chegue a todos.



começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

meigas - contudo lágrimas -
mais lágrimas do que as possíveis
pelas 73 vítimas do instinto de auto-destruição
em jogo de bola no Egito

mais lágrimas do que as possíveis
pelas guerras económicas - do petróleo e do dólar
pelas próprias guerras ditas religiosas
pela ameaça das catástrofes climáticas

começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos
por causa destes três "estafermos"
:
o menino Jesus - de Fernando Pessoa -
seu filho genético
ao mesmo tempo que místico de Deus

Fernando Pessoa - demiurgo do belo
do incrível
do milagre
ao fim e ao cabo do possível-real
do real que existe para todos mas só ele vê

lágrimas portanto por Pessoa
que deve agora estar na casa de Jesus
a dormir na sua cama
ou brincando às cinco pedrinhas
com ele no primeiro degrau da escada
de seu outro PAI

e lágrimas por Bhetânia
que é tão natural a dizer Pessoa
que a gente nunca sabe
se lê um
ou escuta outra

por estes três "estafermos"
começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

P´RA PULAR

QUE O DINHEIRO É METAL VIL
NÃO TENHAMOS ILUSÕES:
QUEM TEM MIL QUER TER CEM MIL
QUEM TEM CEM MIL QUER MILHÕES

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Verdes Anos": o PAN já faz parte da história do ecologismo em Portugal



O livro Verdes Anos. História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira (Lisboa, Esfera do Caos, 2011), será apresentado pelo Prof. Viriato Soromenho-Marques na 3ª feira, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Este livro dedica o capítulo 8 ao PAN e ao seu resultado surpreendente nas últimas eleições legislativas. Reproduzimos os três últimos parágrafos do livro, após se referir o historial de adversidade de Portugal e dos países do Sul da Europa aos ideais ecologistas:

"Perante este ambiente hostil, como se explica então o sucesso do PAN, que nas primeiras eleições legislativas a que concorreu obteve mais de 50 000 votos em listas próprias (feito inédito entre os partidos ecologistas portugueses) e quatro meses depois elegeu um deputado em eleições regionais?

Será um epifenómeno ou será que o segredo para o sucesso de um partido verde em Portugal passa por unir a defesa do ambiente aos direitos dos animais e às causas humanitárias?

Para responder a estas questões teremos de esperar mais algum tempo. Entretanto, uma coisa é certa: por mais negro que seja o cenário do país e do planeta, muitos acreditam que a cor da esperança ainda é o verde"

Cabe-nos mostrar que o "segredo" é mesmo esse e que o PAN veio para crescer e ficar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

BOM DIA PRIMAVERA

aí está a Primavera
nem que seja por um dia

reanima-se na Terra
a Natureza
- tudo o que existe sorri

nem que seja por um dia
nem que seja fantasia
nem que seja só quimera
aí está a Primavera

nem que seja - ai quem me dera
Primavera só por mim

sábado, 21 de janeiro de 2012

off load



onde
mínimo nulo se insoluciona
rumo a um infindo destino
eternamente irresolúvel

Vergílio Torres

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SALA-DE-ESPERA de HOSPITAL

com o seu ar solene
austero
adusto

mais do que mortal - perene
o homem já não era homem
era um busto

grego ou romano

- de César
ou de Augusto

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

II POEMA PARA UMA GARÇA do DIVOR

na lagoa a GARÇA
se maquilha
ajeita as penas
das asas e do peito

para a Grande Gala do espetáculo
quando levanta voo
e tudo à sua volta é Sol
e Azul

Silêncio
e Graça

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Se não acedes à estupefacção do intelecto cais na estupidez intelectual

LIBERDADES


acordei com um pássaro negro esvoaçando em casa
:
preto como um estorninho mas de cauda comprida como se de melro
não sei identificar

já me limpou todas as teias-de-aranha dos ângulos mais altos das paredes
onde o espanador - preso a uma cana - não alcança

cumprido o seu papel de utilidade
vou abrir todas as janelas
para lhe mostrar
o caminho da sua liberdade

liberdade de pássaro
não é igual
à liberdade de pessoa

liberdade de pessoa
é quando não tem grades

casa de pássaro é o céu
e sua liberdade é quando voa

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Seres serpenteados, seres emocionados, tomai de minhas mãos "Emoções".

Rita Cardoso - "Emoções" from MPAGDP on Vimeo.





Tomai outras coisas mais, por quem sois!

Rita Cardoso - "Coisas Concretas" from MPAGDP on Vimeo.



Rita Cardoso - "Serve-te" from MPAGDP on Vimeo.

A poesia é a festa do pensar

Nosso coração é antigo

Nosso coração é antigo
de antes de haver idade
por isso existir lhe não dá abrigo
ébrio de espanto e saudade
Símbolos? Meta-símbolos?
Odeio símbolos, os mestres-de-obras dos poemas, os clínicos
analistas das metáforas, os engenheiros do amor, os arquitetos
da foda, os psicanalista da música fúnebre. Odeio os que num verso
tentam perceber a minha vida toda. Invertem parábolas, agitam-nas,
sacodem-nas, analisam a minha dor à lupa.
Rais parta a simbologia, as pernas das letras, os nenúfares nas mesinha
de cabeceira, os poetas escriturários, belos, sentimentais e sonâmbulos
como os bois pela beirinha da estrada.
Odeio os que a modinho retiram a vesícula do poema, injetam sol
e pleonásmos, virgulam os sentidos.
Meus senhores, o que escrevo advém das flores, roubado às flores,
plagiado das flores. Esse é o meu crime, o meu sangue, que é fresco
e tem sete fuso horários.
Por favor, não me dêem cabo dos significados!

Percorridos todos os caminhos / Ficas onde sempre estiveste

domingo, 15 de janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MEU AMOR
quero-te comigo
como na espiga o trigo
:
bago-a-bago
afago contra afago

umbigo contra umbigo

meu amor
quero-te comigo
mais grão do que sentido
- messe de verão

o pão
que sejas tu o pão
daquilo que eu te digo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

La prière du coeur


La prière du coeur est un face à face intime.
Je suis dans ma chair la réponse à Dieu,
coeur à coeur qui résonne à l'unisson dans le monde.
Le "Je suis" de Dieu transcende le temps
et Le rend immanent à chaque instant.
L'espace, le temps Le manifestent
mais ne sauraient cristalliser sa Présence.
La prière du coeur est une goutte de lumière vivant
qui nous pénètre et nous transfigure.
Elle ne s'apprend pas,
elle se vit totalement,
elle n'est pas une technique, une formule
mais un état d'Amour,
une tension sans effort,
un désir fou
vers Celui qui habite en plénitude en nous.

O amor é um encontro do espírito ao qual o corpo não quer faltar

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GIRO

giro é que
neste mundo giro
feito de aparências
e mentira

porque a Terra gira
nem toda a gente é gira

mas toda a gente gira

Para venir a lo que gustas has de ir por donde no gustas



Para venir a gustarlo todo

no quieras tener gusto en nada.

Para venir a saberlo todo

no quieras saber algo en nada.

Para venir a poseerlo todo

no quieras poseer algo en nada.

Para venir a serlo todo

no quieras ser algo en nada.

Para venir a lo que gustas

has de ir por donde no gustas.

Para venir a lo que sabes

has de ir por donde no sabes.

(…)

Cuando reparas en algo

dejas de arrojarte al todo.

Para venir del todo al todo

has de dejarte del todo en todo,

y cuando lo vengas de todo a tener

has de tenerlo sin nada querer.

En esta desnudez halla el

espíritu su descanso, porque no

comunicando nada, nada le fatiga hacia

arriba, y nada le oprime

hacia abajo, porque está en

el centro de su humildad.


Juan de la Cruz

UM IMPÉRIO NOSSO



Atente-se menos na noção, e mais no fazer-se, dinâmico, desta aglutinação vista através das janelas baças de um quarto para dentro do mesmo quarto. Uma introspecção ajoujada num acto de sofrimento, que, se não transmitisse qualquer interesse, não era por isso menos verdadeiro. Este império! Presente renovo na leitura a esmagar empíricos sentidos, solipsismo montado em elefantes brancos.

Que manifesto? Que coisa? Aonde a subir cinzentamente cinza tão cruel e bruta que não podia deixar de ser nossa?

E aos olhos de quem, se fossem para diferenciar algo? Não teriam inclusos a qualquer consideração a mais pequena intenção prometeica de se constituírem impérios além de unipessoais tanto que o fossem grandes, e eram os maiores

Impérios de cinza perdida que eram capazes de envergonhar um Napoleão com a sua amplitude. Conseguem ser mais do que esses mediatos obviamente concretos e exteriores, onde os desapiedados fariseus tentam engordar-se na atmosfera dos ditados

Aqui está equilibrado o sujeito da sua pessoa, o espaço indómito da verdade com bigodes mefistofélicos, nossos, que os retorcemos com um movimento de dedos desinteressados. O desconsolo das batalhas perdidas ou vencidas que nunca precisaram de o ser na edificação, tentam apossar-se, e conseguem, à sua maneira, um nascer do Sol que não lhes pertence, definindo-o e sublinhando-o em insufladas selvaticamente de serenatas de plástico desafinadas como um exército perdido de império estrangeiro

Com botas gastas marcham as hostes hasteadas de aonde de alguém, seguindo obstinadamente a sombra de velhos sujos, que lhes pareciam, bizarramente, os sósias do Salazar na cama, assinando inutilmente. Afinal sempre se cansam do sol, e tais coisas e às tantas se perdem em si, abstrusas nas intenções, sósias deles. Ou as luzes jamais lhes pertenceram, a esses ditadores bêbados e cambaleantes, e eles ofuscados se simplificaram no labirinto assustado de cada um.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quando tentei ser poeta original
vieram bandidos e esfregaram-me com ouro
líquido na cara. quando sonhei com a leveza 
dos pássaros perdidos, uma poetisa engravidou-se 
através das suas próprias mãos. quando vesti a túnica 
das esfinges gregas, uma criança chorou diante 
do altar do abandono. quando descobri o conforto do invisível,
parti para dentro de mim e acendi os olhos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

TAXAS MODERADORAS

Um Serviço Nacional de Saúde
TENDENCIALMENTE menos virado
para a PRESCRIÇÃO do que para

a PROSCRIÇÃO

Peixe

 



Pensamentos profundos, sorriso de água doce, escamas coloridas: Proteção contra ondas negativas.

B. Damas

sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem sequer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os caprichos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser explorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que alguém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política, pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos; não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, criativos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamentalmente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em Golpe d'Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução interior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credíveis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocrático, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio da natureza e da Vida.

Conto encontrar-vos, com espírito não-violento, pacífico e positivo, na manifestação de 10 de Janeiro, às 18.30, no Rossio, em Lisboa, contra a venda da EDP, mas sobretudo a favor de ética na política. Uma manifestação que não é contra os chineses nem contra ninguém, mas acima de tudo contra a nossa apatia e a favor de uma nova sociedade e civilização, fundada na consciência, no amor e no respeito por todas as formas de vida.

Bem hajam!

votos para 2012


Feliz Ano Novo

sábado, 24 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

BOM NATAL a todos
mesmo ao multimilionário RICARDO DIMAS
e a todos os milionários do mundo
que conseguiram fortuna pelos seus métodos

BOM NATAL também ao José SÓCRATES
e ao deputado da atual Assembleia da República
que desejava felicidades a todos os emigrantes
à exceção
do que tinha emigrado para Paris
para estudar Filosofia

BOM NATAL aos norte-coreanos
que ainda agora hão de chorar
a morte do seu GRANDE CHEFE Kim Jong II
mais do que todos os cristãos
alguma vez choraram a crucificação de CRISTO

e acreditam na sua santidade
pela neve e trovoada que tombaram sobre Pyongyang
no decurso
das exéquias funerárias

e porque as águas de um Lago sagrado se cindiram
e porque uma montanha rochosa enorme
num minuto se tornou urbano montículo de lixo

BOM NATAL a todos os católicos
que acreditam que Jesus subiu aos Céus ressuscitado
libertando-se de um pesado inviolável túmulo de pedra

e aos muçulmanos todos
para quem Maomé também subiu aos Céus
chegado aí cavalgando a sua pura égua Kamsa

BOM NATAL aos Budistas todos - adoradores do gorducho e sempre sorridente Buda
aos hindus de Brahama
e de seu TRIO
aos crentes em todas as Tríades da História
:
- triunviratos
- trindades
- adoradores da própria TROIKA

BOM NATAL aos animistas todos
aos que adoram o Sol o Sado e os golfinhos
mas também as menos simpáticas taínhas
dos cais de Setúbal e de Troia

Bom Natal aos chineses que nos invadem o Comércio
e aos que não emigram e ficam por lá
a construir barragens e a semear os campos
e a ganhar dinheiro
para nos comprarem as nossas EDPs

aos que cultivam o ópio no Afeganistão
a coca na Colômbia no Chile no Perú
cannabis em Marrocos Argélia África por inteiro

até nos quintais de Albufeira
ou onde reste uma leira de terra das couves e dos nabos

BOM NATAL a todos os drogados
e a seus familiares a vida inteira de ressaca
sem alguma vez terem experimentado a droga

BOM NATAL também aos traficantes
e aos dealers
e aos barões que têm os filhos a estudar em Londres
e nas melhores Universidades da América
e têm apartamentos no Dubai em que todos os metais
para uniformizar são ouro

BOM NATAL aos que produzem toda a droga
arriscando a vida porque eles próprios são pobres que nem JOB

aos mineiros que escaparam no Chile do fundo de uma mina
e a todos os milhares de milhares de companheiros
que esgaravatam a terra com perícia de toupeiras

BOM NATAL a todos os que têm casa nos 5 continentes
mas também áqueles
para quem o cemitério será
sua não última mas primeira moradia

se me permitem - aos SEM e CEM abrigos

BOM NATAL a todos os com defeitos físicos
aos invisuais
porque não conseguem ver
mas também aos cegos
que não vêem porque não lhes agrada ver

aos acamados aos doentes terminais
às enfermeiras e aos médicos
aos que trabalham e aos que estão em greve

aos que acreditam
que houve Jesus Cristo filho de Deus e de Maria
que foi menino
e nasceu mesmo neste dia 25
ou teria sido 24?
há 2011 (ou serão 2012?) anos

mas sobretudo um BOM NATAL
aos que mesmo não acreditando em nada disto
são bons
e honestos
e justos
e solidários
e pacíficos
e simples

capazes de todos os milagres
como se fossem CRISTO

penhamata

no imo do cimo o magma da penhamata
emana, irmana o perfume de cedros e montanha
na pele as rosas e os musgos,
o fado a chama, a chamada
os melros, os cerros, e a montada
na lunação do véu uiva a aurora,
a sede, acende, ascende, nascente.

Mensagem de Natal

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários e Inimigos

Há cerca de três anos não conhecia sequer os blogues e o Facebook. Circunstâncias várias aqui me trouxeram e, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, fez com que no Facebook rapidamente me visse a gerir várias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhecidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalismo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos indiferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, consciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um Homem Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem, digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convosco a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adversários e inimigos.
Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mutações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as consequências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa reduzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade futura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder estabelecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes. Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o processo que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga. Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos económico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e dividirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interesses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal, que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e de todos, humanos e não-humanos!

Paulo Borges

24.12.2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PENSAMENTO ENROLADO
:
todos os advogados
de não humanos
são do Diabo

Deus - para quem existe -
não faz mal

não precisa por isso
de advogados

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Criatura



A criatura tem um sol, tem uma sombra
dentro de
 si.
                                                       





Bárbara Damas

EUFEMISMO

SITIADOS

Livres
- aos abraços
de braços
amarrados

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

NOÇÃO DE POEMA

mais do que Ciência
ou Filosofia
ou Religião
Poesia é síntese

no bom poema
de três linhas
devem caber a Origem das Espécies
a República
o Talmude
a Bíblia
o Alcorão

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

...

para um poema de Platero
OBRA-PRIMA

as volutas artísticas
labirínticas do ouvido
são a prova real

de que Deus se tenha divertido
na construção
do seu último animal

domingo, 27 de novembro de 2011

você
que há tanto tempo não me vê
que em mim não crê

que me deslê
que sei que não gostou
que eu fosse
à manifestação
da CGTP

você
que sempre teve e tem
por mim algum desdém

saiba porém
que aquilo em que muita gente crê

-com ou sem amor
seja ele o que for -

você
é o meu ponto
G

domingo, 13 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

banquete filosófico: do amor platónico (e de outras coisas que nos fazem suspirar)


2500 anos depois, regressa o Symposium
«Para alguns intérpretes, o conceito de amor em Platão em O Banquete é irracional e explicado pela natureza.»
e para si, o que é o amor?
 
venha partilhar connosco. garantimos boa disposição e um menu confeccionado pelas mãos do grande chef José Besteiro.
+ info: joebest@dacozinha.net

NÃO DUVIDO

sou bem mais visto
pelo que visto

do que pensado
pelo que penso

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O mundo é como a impressão deixada pelo contador de uma história. 
SONHO


como se morto
mas não morto
estendido sobre a cama
teu corpo

meio dobrado pela cintura
de borco
sobraçando em sonho
seu eterno
ursinho de peluche

velado até às ancas

lembra o fim do pesadelo
do GRITO
de Eduardo MUNCH

"When injustice is law, resistance is duty" Thomas Jefferson


Falta pouco até que todas as capitais se juntem numa só marcha

Pelo Respeito e pela Verdade! O nosso conhecimento jà é demais,

Vemos pelos satélites quanto custou o que voces deitam fora

Que nós poderiamos provar de bom grado, e saborear juntos, se

Nao tivéssemos de nos agarrar ao emprego de que nao gostamos!


Mas nao somos preguicosos nem nunca seremos mentirosos!

Podem ficar com vossos iates e vossos aquàrios em quarentena

Longe da presenca de pessoas normais cujas maos vos dao,

Indirectamente, de comer, enquanto là especulam nós festejamos

Com o emocionalmente necessàrio de que precisamos para ser felizes!


Jà vos demos décadas de chances para sairem desse buraco negro

Porque sabemos tudo que sempre se tem passado, mas parecem nao

Querer ouvir que estao errados e existe honestidade neste mundo

Que usa o coracao como arma para defender a imortal alma humana,

Em vez da vossa infantil ganancia presuncosa dum estatuto jà podre!


Nao existem ofertas à vista, sò promocoes para enganar ceguinhos

Que là se deixam escravizar esperando as proximas eleicões – Eles

Atè do lixo dos supermercados nos fecham à chave, com lixivia ou

Vidros espalhados como presente de Natal para enregelares sem

Telhado onde chorar as misérias que o despedimento te faz passar!


Foi jà à muito esquecido o que diziam que tinhas tanto jeito para fazer,

Tiveste de crescer, trabalhar para ajudar a familia, sacrificar talento

Pela elite que os economistas alimentam como se fosse direito feudal,

Trocar neo-liberalismo por ética pessoal e ver-se consumido pelo bicho

Acumulativo, dinheiro-dependente, mandando outro milhao para a veia!


Nós culpamos o sistema como se este nao fosse comandado por pessoas

Que se maltratam e se burlam pelas hipócritas costas mal querem e podem,

Cobaias dentro do mesmo obscuro jogo egoista por lucro e mais-valia,

Brincando com o escalpe das nacoes e as reformas dos nossos pais por

Algum orgulho obtuso de ser o perverso que quer sempre ficar por cima!


Fui e voltei das compras, està tudo mais caro e todos perguntam porque?

A lei dos politicos è devota aos bancos que definem a mesada dos paises!

Queria sonhar com bombas que matem só aqueles que nao sabem partilhar

Porque nunca precisaram, era o mordomo que ia às reunioes da escola,

Nunca conheceram a visao de uma migalha de pao servir de refeicao…


…mas conhecerao! Jà que nada faz sentido e o ouro foi trocado por papel,

Quero que roubem, que se manifestem, que recusem cada injustica diaria

Tal como a militarizacao da vossa liberdade imbuida na iliteracia da policia

Que em vez de proteger, persegue, e em vez de servir, manipula e decide!


O amor da maioria jà cintila por revolucao, independencia e bom senso!

Basta de gozarem e escarrarem nas esperancas dos que vos fazem ricos,

Ouco os passos mortiferos do cadafalso aproximarem-se silenciosamente

E imparàveis por serem protegidos pela Razao e guiados pela Vinganca!

Joao Meirinhos

Outubro 2011

Tallinn