O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 5 de março de 2012

PERDIDO ENTRE PAPÉIS

amigo sem/abrigo
escuta o que eu te digo
:
com gente desta condição
-a quem estendes a mão -

está em perigo
a tua própria
caixa de cartão

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


criação engendrada de, por, e para, ninguém que a possa compreender

uma coisa espontânea de a qual não tenho nada a ver com isso

sábado, 25 de fevereiro de 2012

C E R N

no conforto do lar - no quarto de dormir -
na cama duvidosa de casa de alterne

por muito que tu digas
todo o lugar onde nos encontramos
é CERN

protão contra protão
por muito que tu digas
quando nos encontramos há explosão

e a prova irrefutável
da existência atómica
do bosão
de HIGGS

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Penélope revisitada


Pousado o tear entre o colo e a memória
Entre a flor e a dor há peixes-pássaros raiados
A mulher engole o fogo que rola no mar
Há clarões que morrem na sua boca
Engole-os a saliva da espera
E o dia parado é uma ferida que entra no espinho
A manchar o bordado do lençol

Haverá manhãs de pássaros calados
Circum-navegando o desenho do bordado
Sabe-se que uma túnica se despe no incêndio
De uma viva memória. E os rios silentes
cobrem os pés dos artesãos de florilégios.
Onde guardas os braços, ó meu amor de longe?

A tua cabeça no meu colo é uma geografia deserta
O esplendor degolado de uma flor nascida
Da ciência tecida do paciente espaço.
Reconta o tempo da viagem de regresso.
As mãos são alvas cicatrizes, e as flores ágeis
Não enchem o bordado do ponto onde te ausentas.

Cheio o meu colo das paisagens que ficam
Converte-te à cegueira da minha imagem vazante
Nas ondas verás o reflexo de deus em chamas
Chamarás pelo tempo, essa flor de mortalha;
Talvez entres a cantar por esses corredores de pó
Sabes que a tua cabeça florirá sobre o meu colo em chamas?!

M.S.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

''Tenho a certeza de que fui árvore e é por isso que tanto as amo.''  

Raúl Brandão
Quando o mar roubou o sal dos rios, bracejei contra os predadores sem dar conta do encontro das águas. Estuário fértil, onde a vida se procria. 
Qando o sol iludia a noite alongando o dia, contemplava o céu.  Apaixonada, descobria a vida. Equânime é o olhar de quem ama.
Cada quarto de hora, ameaça a meia hora. Ruído infernal que anuncia a morte do tempo. Cadenciado é o som, em cada intervalo da hora.
Entre a minha casa e o mar, existe um caminho de ferro.
O silêncio aparece de madrugada, quando a estação adormece cansada, ou quando os maquinistas fazem greve e as crianças do bairro colam seus corpos nos trilhos como se fossem lagartos.
Uma sirene prolongada, anuncia a desgraça.  Num lamento sombrio a noite escurece o dia.
Da minha janela vejo o mar.  Noite e dia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Brinde a Omar Kayam!

O poder se esvanece:
pó de nada.
Mas as rosas florescem mesmo do pó.
Do mesmo pó de estrelas
o poder torna escravo
Quem das rosas só as pétalas colhe
Descuidado.

Bebei, pois, de uma taça mais funda
Como quem se esquece
E no esquecer se lembra
que do cálice rubro
transborda a seiva que embriaga mais.

M.S.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

M I D A S

deus - tu?
nem semi-deus

- mortal e rasca
:
ingrato
chato
traidor imundo

vê só como agradeces/
pagas

a quem te pôs
no MUNDO

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ATENÇÃO, VEGETARIANOS
(para Paulo Borges - com abraço amigo)

não é menos desumano
cortar a flor de uma Couve-Flor

- que é tão inocente quanto bela -

do que degolar uma galinha
para fazer arroz-
-de-
cabidela

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Julgamento




Numa ilha escura e hirta, repleta em paisagens de heresia sonhadas em meio ao delirium tremens de algum órfão, o povo agachado – em se tratando de um burgesso solitário haveria desculpa – esse povo se engana com tais heresias babadas

Atravessam-se dolorosamente com máscaras de cómico sem graça, os postulados de quaisquer estruturas sejam elas ou não feitas da matéria dos seres vivos... Grande pateada com champagne e cigarros de marca branca, como se estivessem num jogo de futebol

Dizem olá à eternidade com tamanha desfaçatez virada nos copos e chupada nos cigarros que se tocassem um violino atrás das colinas, sairia num estertor opaco do violino estuprado

Surdos e grossos como pedregulhos que um pé empurra para o precipício a comprar tabaco ou a girar um grogue entre dedos

Enrolado a tapetes de arraiolos

A foto tirada ao conjunto de roupa enxovalhada e enodoada, a guerra do Peloponeso do avesso

Esses pequenos pedregulhos rodeados por Oceanos leoninos onde se estrangula qualquer veleidade pela via de todas essas ondas

Do prólogo ao êxodo, o epidauro da natureza – entrada do coro a dançar e a cantar – gotas de chuva a entrarem em águas zangadas

Impetuosas, divinas no Ocaso, impacientes na sua ferocidade e pouco se importando com a quantidade de corpos inchados que bóiam depois da sua passagem

Leis omnipotentes, não as queiram, não as queiram ouvir. Preferem as angústias da porta a bater no escuro, da ilha amarfanhada como papéis de velho louco

Como ondas do pensamento, exactamente, se plasticinam em recurso a estas metáforas, as zangas dos mortais

Pensamento. Pensamento?

Algo de recurso estético tirado dos sonhos ou das páginas da natureza para um boneco mole escarrapachado numa cadeira rodeado por todos os lados

Que nem sabia se as águas lhe molhassem apenas os pés num Ganges a ferver...

As torpes magnitudes que observaria numa praia, em pleno Janeiro, e que o enrolavam mesmo não querendo, nem por isso seriam diferentes

Era portanto o acto de sorver beijos da Têtis hedionda, cortejar a sublime dialéctica, porventura escrevendo o poema em papel barato

Um Eu ratificado universalmente por aspas, sublinhado mesmo

O que o empurrava, descendo escadas levado por Ondas aos novos segundos que se sucediam aos derradeiros, aniquilando-os como se faz a uma formiga

Compreensão pura?

Quereria - será que poderia? – dourar a constância de algo que somente se nomeia e constata numa ode feita aos que nela sofreram, afogados abjectos e pescadores patéticos naufragando a gritos de puta batida agarrada ao cu, numa introspecção

Na sensação de se entender apenas pessoa.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

PROMOÇÂO COM VISTA À SALVAÇÃO
DA ECONOMIA DA NAÇÃO


em vez de promoções tontas
de pastéis de nata
e semelhantes
reabilite-se mas é
e quanto antes
a Fábrica de Metralhadoras (FBP)

- FÁBRICA DE BRAÇO DE PRATA

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Grande Libertação

Penso na multidão de escravos do trabalho, que vendem vida, corpo e alma a troco de frustração e nada. Penso na multidão de escravos do desemprego, cujo maior sonho é serem escravos como os outros. Penso na muito maior multidão dos escravos em campos de concentração à espera do abate para alimentarem os outros escravos. Penso nos escravos da ganância, da avareza e da gula, incluindo esses outros escravos que são os seus donos. Penso nos escravos da ignorância, do egoísmo, do conforto e da indiferença que somos todos nós, a fazer de conta que isto é normal ou que não existe, a tentar tirar proveito disso, a convencer-se de que nada há a fazer ou a anestesiar-se para não doer muito. Penso nisto tudo e desejo que o dia da Grande Libertação comece agora mesmo e chegue a todos.



começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

meigas - contudo lágrimas -
mais lágrimas do que as possíveis
pelas 73 vítimas do instinto de auto-destruição
em jogo de bola no Egito

mais lágrimas do que as possíveis
pelas guerras económicas - do petróleo e do dólar
pelas próprias guerras ditas religiosas
pela ameaça das catástrofes climáticas

começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos
por causa destes três "estafermos"
:
o menino Jesus - de Fernando Pessoa -
seu filho genético
ao mesmo tempo que místico de Deus

Fernando Pessoa - demiurgo do belo
do incrível
do milagre
ao fim e ao cabo do possível-real
do real que existe para todos mas só ele vê

lágrimas portanto por Pessoa
que deve agora estar na casa de Jesus
a dormir na sua cama
ou brincando às cinco pedrinhas
com ele no primeiro degrau da escada
de seu outro PAI

e lágrimas por Bhetânia
que é tão natural a dizer Pessoa
que a gente nunca sabe
se lê um
ou escuta outra

por estes três "estafermos"
começo o dia hoje
com algumas lágrimas nos olhos

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

P´RA PULAR

QUE O DINHEIRO É METAL VIL
NÃO TENHAMOS ILUSÕES:
QUEM TEM MIL QUER TER CEM MIL
QUEM TEM CEM MIL QUER MILHÕES

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Verdes Anos": o PAN já faz parte da história do ecologismo em Portugal



O livro Verdes Anos. História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira (Lisboa, Esfera do Caos, 2011), será apresentado pelo Prof. Viriato Soromenho-Marques na 3ª feira, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Este livro dedica o capítulo 8 ao PAN e ao seu resultado surpreendente nas últimas eleições legislativas. Reproduzimos os três últimos parágrafos do livro, após se referir o historial de adversidade de Portugal e dos países do Sul da Europa aos ideais ecologistas:

"Perante este ambiente hostil, como se explica então o sucesso do PAN, que nas primeiras eleições legislativas a que concorreu obteve mais de 50 000 votos em listas próprias (feito inédito entre os partidos ecologistas portugueses) e quatro meses depois elegeu um deputado em eleições regionais?

Será um epifenómeno ou será que o segredo para o sucesso de um partido verde em Portugal passa por unir a defesa do ambiente aos direitos dos animais e às causas humanitárias?

Para responder a estas questões teremos de esperar mais algum tempo. Entretanto, uma coisa é certa: por mais negro que seja o cenário do país e do planeta, muitos acreditam que a cor da esperança ainda é o verde"

Cabe-nos mostrar que o "segredo" é mesmo esse e que o PAN veio para crescer e ficar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

BOM DIA PRIMAVERA

aí está a Primavera
nem que seja por um dia

reanima-se na Terra
a Natureza
- tudo o que existe sorri

nem que seja por um dia
nem que seja fantasia
nem que seja só quimera
aí está a Primavera

nem que seja - ai quem me dera
Primavera só por mim

sábado, 21 de janeiro de 2012

off load



onde
mínimo nulo se insoluciona
rumo a um infindo destino
eternamente irresolúvel

Vergílio Torres

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

SALA-DE-ESPERA de HOSPITAL

com o seu ar solene
austero
adusto

mais do que mortal - perene
o homem já não era homem
era um busto

grego ou romano

- de César
ou de Augusto

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

II POEMA PARA UMA GARÇA do DIVOR

na lagoa a GARÇA
se maquilha
ajeita as penas
das asas e do peito

para a Grande Gala do espetáculo
quando levanta voo
e tudo à sua volta é Sol
e Azul

Silêncio
e Graça

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Se não acedes à estupefacção do intelecto cais na estupidez intelectual

LIBERDADES


acordei com um pássaro negro esvoaçando em casa
:
preto como um estorninho mas de cauda comprida como se de melro
não sei identificar

já me limpou todas as teias-de-aranha dos ângulos mais altos das paredes
onde o espanador - preso a uma cana - não alcança

cumprido o seu papel de utilidade
vou abrir todas as janelas
para lhe mostrar
o caminho da sua liberdade

liberdade de pássaro
não é igual
à liberdade de pessoa

liberdade de pessoa
é quando não tem grades

casa de pássaro é o céu
e sua liberdade é quando voa

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Seres serpenteados, seres emocionados, tomai de minhas mãos "Emoções".

Rita Cardoso - "Emoções" from MPAGDP on Vimeo.





Tomai outras coisas mais, por quem sois!

Rita Cardoso - "Coisas Concretas" from MPAGDP on Vimeo.



Rita Cardoso - "Serve-te" from MPAGDP on Vimeo.

A poesia é a festa do pensar

Nosso coração é antigo

Nosso coração é antigo
de antes de haver idade
por isso existir lhe não dá abrigo
ébrio de espanto e saudade
Símbolos? Meta-símbolos?
Odeio símbolos, os mestres-de-obras dos poemas, os clínicos
analistas das metáforas, os engenheiros do amor, os arquitetos
da foda, os psicanalista da música fúnebre. Odeio os que num verso
tentam perceber a minha vida toda. Invertem parábolas, agitam-nas,
sacodem-nas, analisam a minha dor à lupa.
Rais parta a simbologia, as pernas das letras, os nenúfares nas mesinha
de cabeceira, os poetas escriturários, belos, sentimentais e sonâmbulos
como os bois pela beirinha da estrada.
Odeio os que a modinho retiram a vesícula do poema, injetam sol
e pleonásmos, virgulam os sentidos.
Meus senhores, o que escrevo advém das flores, roubado às flores,
plagiado das flores. Esse é o meu crime, o meu sangue, que é fresco
e tem sete fuso horários.
Por favor, não me dêem cabo dos significados!

Percorridos todos os caminhos / Ficas onde sempre estiveste

domingo, 15 de janeiro de 2012

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

MEU AMOR
quero-te comigo
como na espiga o trigo
:
bago-a-bago
afago contra afago

umbigo contra umbigo

meu amor
quero-te comigo
mais grão do que sentido
- messe de verão

o pão
que sejas tu o pão
daquilo que eu te digo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

La prière du coeur


La prière du coeur est un face à face intime.
Je suis dans ma chair la réponse à Dieu,
coeur à coeur qui résonne à l'unisson dans le monde.
Le "Je suis" de Dieu transcende le temps
et Le rend immanent à chaque instant.
L'espace, le temps Le manifestent
mais ne sauraient cristalliser sa Présence.
La prière du coeur est une goutte de lumière vivant
qui nous pénètre et nous transfigure.
Elle ne s'apprend pas,
elle se vit totalement,
elle n'est pas une technique, une formule
mais un état d'Amour,
une tension sans effort,
un désir fou
vers Celui qui habite en plénitude en nous.

O amor é um encontro do espírito ao qual o corpo não quer faltar

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GIRO

giro é que
neste mundo giro
feito de aparências
e mentira

porque a Terra gira
nem toda a gente é gira

mas toda a gente gira

Para venir a lo que gustas has de ir por donde no gustas



Para venir a gustarlo todo

no quieras tener gusto en nada.

Para venir a saberlo todo

no quieras saber algo en nada.

Para venir a poseerlo todo

no quieras poseer algo en nada.

Para venir a serlo todo

no quieras ser algo en nada.

Para venir a lo que gustas

has de ir por donde no gustas.

Para venir a lo que sabes

has de ir por donde no sabes.

(…)

Cuando reparas en algo

dejas de arrojarte al todo.

Para venir del todo al todo

has de dejarte del todo en todo,

y cuando lo vengas de todo a tener

has de tenerlo sin nada querer.

En esta desnudez halla el

espíritu su descanso, porque no

comunicando nada, nada le fatiga hacia

arriba, y nada le oprime

hacia abajo, porque está en

el centro de su humildad.


Juan de la Cruz

UM IMPÉRIO NOSSO



Atente-se menos na noção, e mais no fazer-se, dinâmico, desta aglutinação vista através das janelas baças de um quarto para dentro do mesmo quarto. Uma introspecção ajoujada num acto de sofrimento, que, se não transmitisse qualquer interesse, não era por isso menos verdadeiro. Este império! Presente renovo na leitura a esmagar empíricos sentidos, solipsismo montado em elefantes brancos.

Que manifesto? Que coisa? Aonde a subir cinzentamente cinza tão cruel e bruta que não podia deixar de ser nossa?

E aos olhos de quem, se fossem para diferenciar algo? Não teriam inclusos a qualquer consideração a mais pequena intenção prometeica de se constituírem impérios além de unipessoais tanto que o fossem grandes, e eram os maiores

Impérios de cinza perdida que eram capazes de envergonhar um Napoleão com a sua amplitude. Conseguem ser mais do que esses mediatos obviamente concretos e exteriores, onde os desapiedados fariseus tentam engordar-se na atmosfera dos ditados

Aqui está equilibrado o sujeito da sua pessoa, o espaço indómito da verdade com bigodes mefistofélicos, nossos, que os retorcemos com um movimento de dedos desinteressados. O desconsolo das batalhas perdidas ou vencidas que nunca precisaram de o ser na edificação, tentam apossar-se, e conseguem, à sua maneira, um nascer do Sol que não lhes pertence, definindo-o e sublinhando-o em insufladas selvaticamente de serenatas de plástico desafinadas como um exército perdido de império estrangeiro

Com botas gastas marcham as hostes hasteadas de aonde de alguém, seguindo obstinadamente a sombra de velhos sujos, que lhes pareciam, bizarramente, os sósias do Salazar na cama, assinando inutilmente. Afinal sempre se cansam do sol, e tais coisas e às tantas se perdem em si, abstrusas nas intenções, sósias deles. Ou as luzes jamais lhes pertenceram, a esses ditadores bêbados e cambaleantes, e eles ofuscados se simplificaram no labirinto assustado de cada um.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Quando tentei ser poeta original
vieram bandidos e esfregaram-me com ouro
líquido na cara. quando sonhei com a leveza 
dos pássaros perdidos, uma poetisa engravidou-se 
através das suas próprias mãos. quando vesti a túnica 
das esfinges gregas, uma criança chorou diante 
do altar do abandono. quando descobri o conforto do invisível,
parti para dentro de mim e acendi os olhos.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

TAXAS MODERADORAS

Um Serviço Nacional de Saúde
TENDENCIALMENTE menos virado
para a PRESCRIÇÃO do que para

a PROSCRIÇÃO

Peixe

 



Pensamentos profundos, sorriso de água doce, escamas coloridas: Proteção contra ondas negativas.

B. Damas

sábado, 31 de dezembro de 2011

Votos de um 2012 radical

Amigas e Amigos, venho desejar-vos o melhor Ano de 2012, com tudo aquilo que de melhor desejam, para vós e para os vossos, mas sobretudo com tudo aquilo que quase nunca desejamos, que nem sequer imaginamos e que acima de tudo necessitamos: sermos rebeldes contra o ego, não o mimarmos mais e não lhe satisfazermos os caprichos; não nos queixarmos tanto dos outros e do que está mal, mas sobretudo da nossa preguiça, conformismo e indolência pacóvia, dos nossos compromissos com isso mesmo que criticamos no mundo e nos outros; não dormirmos na cama e na vida enquanto biliões de seres humanos e não-humanos, tal como o planeta, estão a ser explorados e destruídos para satisfazer os nossos hábitos burgueses de consumo e abundância; não continuarmos sempre à espera que alguém tome a iniciativa de fazer o que é justo, enquanto comodamente nos demitimos do potencial herói que somos; não amarmos apenas quem nos ama e acarinha, num comércio de afectos, mas abrirmos o coração a todos os seres, mesmo que a nossa ignorância os faça percepcionar como indiferentes, maus ou inimigos; não separarmos mais acção e contemplação, espiritualidade, ética, cultura e política, pois tudo são aspectos complementares do ser integral que somos; não sermos sempre iguais, mas termos a ousadia de ser outros, criativos, libertando o infinito e o universo que trazemos em nós. É isto e muitas mais coisas, nestas contidas, que vos desejo. Fundamentalmente que nos libertemos de tudo o que nos prende - antes de mais nós próprios - e que transmutemos deuses e demónios interiores em Golpe d'Asa de consciência amorosa, compassiva e desperta!

Desejo-vos o que me desejo, pois bem disso careço: Revolução interior, abolição da ficção do ego, explosão de amor e compaixão por tudo e por todos!

Só assim faremos a Diferença e seremos a Alternativa que este fim de ciclo de civilização pede de todos nós. Só assim seremos credíveis obreiros de um Outro Portugal, uma Outra Europa e um Outro Mundo, em nós erguidos das ruínas deste canto de cisne tecnocrático, economicista e financeiro, que esgota todos os balões de oxigénio da natureza e da Vida.

Conto encontrar-vos, com espírito não-violento, pacífico e positivo, na manifestação de 10 de Janeiro, às 18.30, no Rossio, em Lisboa, contra a venda da EDP, mas sobretudo a favor de ética na política. Uma manifestação que não é contra os chineses nem contra ninguém, mas acima de tudo contra a nossa apatia e a favor de uma nova sociedade e civilização, fundada na consciência, no amor e no respeito por todas as formas de vida.

Bem hajam!

votos para 2012


Feliz Ano Novo

sábado, 24 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

BOM NATAL a todos
mesmo ao multimilionário RICARDO DIMAS
e a todos os milionários do mundo
que conseguiram fortuna pelos seus métodos

BOM NATAL também ao José SÓCRATES
e ao deputado da atual Assembleia da República
que desejava felicidades a todos os emigrantes
à exceção
do que tinha emigrado para Paris
para estudar Filosofia

BOM NATAL aos norte-coreanos
que ainda agora hão de chorar
a morte do seu GRANDE CHEFE Kim Jong II
mais do que todos os cristãos
alguma vez choraram a crucificação de CRISTO

e acreditam na sua santidade
pela neve e trovoada que tombaram sobre Pyongyang
no decurso
das exéquias funerárias

e porque as águas de um Lago sagrado se cindiram
e porque uma montanha rochosa enorme
num minuto se tornou urbano montículo de lixo

BOM NATAL a todos os católicos
que acreditam que Jesus subiu aos Céus ressuscitado
libertando-se de um pesado inviolável túmulo de pedra

e aos muçulmanos todos
para quem Maomé também subiu aos Céus
chegado aí cavalgando a sua pura égua Kamsa

BOM NATAL aos Budistas todos - adoradores do gorducho e sempre sorridente Buda
aos hindus de Brahama
e de seu TRIO
aos crentes em todas as Tríades da História
:
- triunviratos
- trindades
- adoradores da própria TROIKA

BOM NATAL aos animistas todos
aos que adoram o Sol o Sado e os golfinhos
mas também as menos simpáticas taínhas
dos cais de Setúbal e de Troia

Bom Natal aos chineses que nos invadem o Comércio
e aos que não emigram e ficam por lá
a construir barragens e a semear os campos
e a ganhar dinheiro
para nos comprarem as nossas EDPs

aos que cultivam o ópio no Afeganistão
a coca na Colômbia no Chile no Perú
cannabis em Marrocos Argélia África por inteiro

até nos quintais de Albufeira
ou onde reste uma leira de terra das couves e dos nabos

BOM NATAL a todos os drogados
e a seus familiares a vida inteira de ressaca
sem alguma vez terem experimentado a droga

BOM NATAL também aos traficantes
e aos dealers
e aos barões que têm os filhos a estudar em Londres
e nas melhores Universidades da América
e têm apartamentos no Dubai em que todos os metais
para uniformizar são ouro

BOM NATAL aos que produzem toda a droga
arriscando a vida porque eles próprios são pobres que nem JOB

aos mineiros que escaparam no Chile do fundo de uma mina
e a todos os milhares de milhares de companheiros
que esgaravatam a terra com perícia de toupeiras

BOM NATAL a todos os que têm casa nos 5 continentes
mas também áqueles
para quem o cemitério será
sua não última mas primeira moradia

se me permitem - aos SEM e CEM abrigos

BOM NATAL a todos os com defeitos físicos
aos invisuais
porque não conseguem ver
mas também aos cegos
que não vêem porque não lhes agrada ver

aos acamados aos doentes terminais
às enfermeiras e aos médicos
aos que trabalham e aos que estão em greve

aos que acreditam
que houve Jesus Cristo filho de Deus e de Maria
que foi menino
e nasceu mesmo neste dia 25
ou teria sido 24?
há 2011 (ou serão 2012?) anos

mas sobretudo um BOM NATAL
aos que mesmo não acreditando em nada disto
são bons
e honestos
e justos
e solidários
e pacíficos
e simples

capazes de todos os milagres
como se fossem CRISTO

penhamata

no imo do cimo o magma da penhamata
emana, irmana o perfume de cedros e montanha
na pele as rosas e os musgos,
o fado a chama, a chamada
os melros, os cerros, e a montada
na lunação do véu uiva a aurora,
a sede, acende, ascende, nascente.

Mensagem de Natal

Caras Amigas, Amigos, Indiferentes, Desconhecidos, Adversários e Inimigos

Há cerca de três anos não conhecia sequer os blogues e o Facebook. Circunstâncias várias aqui me trouxeram e, sobretudo o meu envolvimento com o PAN, fez com que no Facebook rapidamente me visse a gerir várias páginas e com uma comunidade de muitos milhares de amigos e apoiantes. Nesta passagem das actividades mais espirituais e culturais a uma acção mais pública, em prol de causas que de todos são conhecidas - direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, universalismo cultural e diálogo inter-religioso - , tenho feito muitas amizades e diminuído ou perdido outras, o que tem sido raro. Tenho também encontrado adversários e até inimigos, como é natural. E muitos indiferentes, como também é natural.

Seja como for, nesta véspera de Natal, em que se comemora, consciente ou inconscientemente, a possibilidade de em nós nascer um Homem Novo, quero desejar a todos, e mesmo a todos - pensem, digam e façam o que pensarem, disserem e fizerem e gostem ou não de mim e do que penso, digo e faço - , toda a Felicidade do mundo e agradecer-vos por vos conhecer e pelo privilégio de partilhar convosco a aventura desta existência. Digo isto sobretudo aos meus adversários e inimigos.
Quero também dizer-vos que vejo hoje confirmar-se o que desde criança pressentia: que iria assistir a grandes coisas e a grandes mutações na história do mundo e que iria ter parte activa nelas. Estamos na verdade num momento dramático, crucial e decisivo da história de Portugal, da Europa e do planeta, em que somos confrontados com grandes dificuldades, a maior das quais é a de enfrentar as consequências da devastação que a humanidade tem causado na Terra, nos animais e em si mesma, bem como o novo obscurantismo que sobre todos nós se abate, sob a forma da ditadura económico-financeira de um capitalismo selvagem sem quaisquer princípios éticos que visa reduzir a população mundial a um novo exército de escravos ao serviço da avidez e ganância das forças obscuras que se ocultam por detrás de governos e partidos do poder. Isso é mais imediatamente evidente em Portugal, um país e uma cultura milenar de gente boa que está a ser destruído por sucessivos governos, a ser ocupado pela banca mundial e a ser colonizado por potências obscuras como a China.

Cabe-nos a todos sermos Resistência e Alternativa, criar práticas culturais, sociais e económicas que sejam o embrião da sociedade futura, construir a ponte entre uma civilização que morre e outra que aflora à luz do dia. Para tal somos todos necessários: movimentos de cidadãos, forças políticas e culturais independentes do poder estabelecido e que não visem mais do mesmo, indivíduos conscientes. Temos de nos unir, organizar e agir. É necessário inverter o processo que tem afastado da política as pessoas boas e competentes, com princípios e valores, com sentido do bem comum, para a deixar nas mãos dos medíocres, corruptos e vendidos a quem mais lhes paga. Política haverá sempre: se não queremos ser vítimas dela, temos de a exercer em prol da justiça e arrancá-la ao domínio dos grupos económico-financeiros. Não nos espera tarefa nada fácil, dado o poder e a violência das forças da ignorância e da ganância que se abatem sobre humanos e não-humanos e devastam a Terra. Temos todos de nos superar, indo buscar energias que agora desconhecemos, mas que são desde sempre e já presentes no mais íntimo de quem somos. Muitas tentações surgirão, como a de desistirmos, nos acomodarmos e dividirmos. Vencê-las-emos se nos motivarmos pensando no socorro dos que mais sofrem e na importância de assegurarmos um futuro para a Terra, para os nossos filhos e netos, esquecendo fins e interesses pessoais, de modo a que possamos morrer com a consciência do dever cumprido. Só assim seremos a Diferença e brilharemos, sem orgulho, como um relâmpago eterno na mais escura noite. Só assim assumiremos as grandes responsabilidades que nos esperam, estrelas cravadas no firmamento das nossas vidas.

Beijo-vos e abraço-vos, uma a uma, um a um

Boas Festas!

Que nasça Hoje e Sempre em nós uma consciência ética universal, que nos leve apenas a pensar, dizer e fazer o que vise o Bem de tudo e de todos, humanos e não-humanos!

Paulo Borges

24.12.2011

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

PENSAMENTO ENROLADO
:
todos os advogados
de não humanos
são do Diabo

Deus - para quem existe -
não faz mal

não precisa por isso
de advogados

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Criatura



A criatura tem um sol, tem uma sombra
dentro de
 si.
                                                       





Bárbara Damas

EUFEMISMO

SITIADOS

Livres
- aos abraços
de braços
amarrados

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Entre a mesa e a janela, mora teimosa uma parede amarela. 
Procuro o ponto de fuga. 
Desenho o luar em cada noite escura. 
Despeço-me do sol. 
Na monotonia do amarelo, deito-me e sonho 
com o mar que caminha para a montanha,
até que a terra encontre o céu e o azul tome conta da cor.

Descubro no gesto o sentido.

Entre a mesa e a janela, da minha casa
Mora teimosa uma parede amarela
Cansada, debotada na cor,
Delicada, encosto meu corpo
Apoio no ombro a vontade de ser
Abro a janela, abraço a liberdade.

No horizonte - vida.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

NOÇÃO DE POEMA

mais do que Ciência
ou Filosofia
ou Religião
Poesia é síntese

no bom poema
de três linhas
devem caber a Origem das Espécies
a República
o Talmude
a Bíblia
o Alcorão

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

...

para um poema de Platero
OBRA-PRIMA

as volutas artísticas
labirínticas do ouvido
são a prova real

de que Deus se tenha divertido
na construção
do seu último animal

domingo, 27 de novembro de 2011

você
que há tanto tempo não me vê
que em mim não crê

que me deslê
que sei que não gostou
que eu fosse
à manifestação
da CGTP

você
que sempre teve e tem
por mim algum desdém

saiba porém
que aquilo em que muita gente crê

-com ou sem amor
seja ele o que for -

você
é o meu ponto
G

domingo, 13 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

domingo, 6 de novembro de 2011

banquete filosófico: do amor platónico (e de outras coisas que nos fazem suspirar)


2500 anos depois, regressa o Symposium
«Para alguns intérpretes, o conceito de amor em Platão em O Banquete é irracional e explicado pela natureza.»
e para si, o que é o amor?
 
venha partilhar connosco. garantimos boa disposição e um menu confeccionado pelas mãos do grande chef José Besteiro.
+ info: joebest@dacozinha.net

NÃO DUVIDO

sou bem mais visto
pelo que visto

do que pensado
pelo que penso

terça-feira, 1 de novembro de 2011

O mundo é como a impressão deixada pelo contador de uma história. 
SONHO


como se morto
mas não morto
estendido sobre a cama
teu corpo

meio dobrado pela cintura
de borco
sobraçando em sonho
seu eterno
ursinho de peluche

velado até às ancas

lembra o fim do pesadelo
do GRITO
de Eduardo MUNCH

"When injustice is law, resistance is duty" Thomas Jefferson


Falta pouco até que todas as capitais se juntem numa só marcha

Pelo Respeito e pela Verdade! O nosso conhecimento jà é demais,

Vemos pelos satélites quanto custou o que voces deitam fora

Que nós poderiamos provar de bom grado, e saborear juntos, se

Nao tivéssemos de nos agarrar ao emprego de que nao gostamos!


Mas nao somos preguicosos nem nunca seremos mentirosos!

Podem ficar com vossos iates e vossos aquàrios em quarentena

Longe da presenca de pessoas normais cujas maos vos dao,

Indirectamente, de comer, enquanto là especulam nós festejamos

Com o emocionalmente necessàrio de que precisamos para ser felizes!


Jà vos demos décadas de chances para sairem desse buraco negro

Porque sabemos tudo que sempre se tem passado, mas parecem nao

Querer ouvir que estao errados e existe honestidade neste mundo

Que usa o coracao como arma para defender a imortal alma humana,

Em vez da vossa infantil ganancia presuncosa dum estatuto jà podre!


Nao existem ofertas à vista, sò promocoes para enganar ceguinhos

Que là se deixam escravizar esperando as proximas eleicões – Eles

Atè do lixo dos supermercados nos fecham à chave, com lixivia ou

Vidros espalhados como presente de Natal para enregelares sem

Telhado onde chorar as misérias que o despedimento te faz passar!


Foi jà à muito esquecido o que diziam que tinhas tanto jeito para fazer,

Tiveste de crescer, trabalhar para ajudar a familia, sacrificar talento

Pela elite que os economistas alimentam como se fosse direito feudal,

Trocar neo-liberalismo por ética pessoal e ver-se consumido pelo bicho

Acumulativo, dinheiro-dependente, mandando outro milhao para a veia!


Nós culpamos o sistema como se este nao fosse comandado por pessoas

Que se maltratam e se burlam pelas hipócritas costas mal querem e podem,

Cobaias dentro do mesmo obscuro jogo egoista por lucro e mais-valia,

Brincando com o escalpe das nacoes e as reformas dos nossos pais por

Algum orgulho obtuso de ser o perverso que quer sempre ficar por cima!


Fui e voltei das compras, està tudo mais caro e todos perguntam porque?

A lei dos politicos è devota aos bancos que definem a mesada dos paises!

Queria sonhar com bombas que matem só aqueles que nao sabem partilhar

Porque nunca precisaram, era o mordomo que ia às reunioes da escola,

Nunca conheceram a visao de uma migalha de pao servir de refeicao…


…mas conhecerao! Jà que nada faz sentido e o ouro foi trocado por papel,

Quero que roubem, que se manifestem, que recusem cada injustica diaria

Tal como a militarizacao da vossa liberdade imbuida na iliteracia da policia

Que em vez de proteger, persegue, e em vez de servir, manipula e decide!


O amor da maioria jà cintila por revolucao, independencia e bom senso!

Basta de gozarem e escarrarem nas esperancas dos que vos fazem ricos,

Ouco os passos mortiferos do cadafalso aproximarem-se silenciosamente

E imparàveis por serem protegidos pela Razao e guiados pela Vinganca!

Joao Meirinhos

Outubro 2011

Tallinn


domingo, 30 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011



E é o mar que traz o futuro momento
Em que a onda se desfaz onde outra enrola o vento
Chega ao eco contínuo do presente, esse som
bebido na babugem do instante.
Frente ao mar, dando às costas da areia
o pensamento infante, sopra o tempo.

O olhar é um ciclo bretão ou um cantar de amigo
Um líquido sussurro, uma doce maresia,
Sobe aos olhos a flor, essa forma do vento:
Espuma e sal, pele e astros a arder,
Tenra raiz do tempo.
Verde como o pinhal, alta como fogueira,
Erguida em chão, a terra fumegante de mar,
Enfim clareia.

por nenhumnome

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

PARABÉNS

ao serpentista fundador PAULO BORGES

pelos bons resultados obtidos na Madeira
pelo seu partido

vamos ter nele um novo XILÓFILO

em guerra contra um velho XILÓFAGO ?

Abraço

domingo, 9 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

VALE A PENA

boca humana
número 7 mil milhões
está prestes a berrar
que quer mamar

coisa linda senhores

tenhamos juízo e unamo-nos
-o momento é belo -
para que esta anunciada
boca humana
sempre encontre resposta
ao seu apelo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Do fundo sem fundo de Todo o Mundo vimos

Do fundo sem fundo de Todo o Mundo vimos
Ao puro Ninguém lestos tornamos
Corações ao almo Esplendor erguidos
Néctar abundo, taças sejamos!

Da ronda do existir desprendidos
Saudade só da Grande Imensidão
Amor reúna os divididos
Amor ressuscite da mortal ilusão!

Sol e Lua, Prata e Ouro fundidos
Núpcias eternas de sábia compaixão
Adamantina folia bailemos
De delícias Jardim o coração!

Fonte de eterna juventude lesta corra
Gaia ciência do Infinito Esplendor
Dela vazios e nus nos inebriemos
Do mais puro e ardente frescor!

Corações taças ao Alto
Flamejante néctar ofertamos
Por que todo o ser livre seja
Bebamos, Irmãos, bebamos!

- Paulo Borges, in Línguas de Fogo, p.185

BIO-LÓGICO

como animal em cio
mais natural
do que intelectual

não crio

-procrio

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Não tenho interesse pela literatura
não quero saber de poetas embriagados
com palavras de arsénico
Se jesus Cristo era um gajo porreiro, ou não.
Se maria madalena percebia de bricolage
se daqui a vinte anos irei somente escrever com os olhos
ou se a minha história será dada aos gatos para comer

Se a lua é um ovo estrelado, tanto me faz
como tanto me fez, saber que o meu destino rima com desatino
e o senhor da taberna não me fia mais nenhum copo de tinto

Não quero saber de tristes costureiras que passam horas
a cerzir o cu do tempo com fios de luz
é-me indiferente se a tristeza é a via rápida para o absinto
se na minha cama dormem leões, gambozinos, vermes;
se Nietzsche era um grande tocador de banjo
ou se os meus poemas terão sucesso dentro de uma gaveta

Estou-me literalmente nas tintas para as paredes e tectos
por mim, incendiava as bibliotecas todas para se escrever tudo de novo
e ver sofrer os romancistas e os poetas e os contadores de histórias picantes
e rir-me com a possibilidade de ser inteiramente feliz ao lado
de uma árvore que tem como fruto mulheres bonitas.

Ah, e escurecer de tanto imaginar!

Não quero saber se os ilusionistas tiram o céu da cartola
se a música anda metida com o silêncio
e em cada foda nasce um ateu.
Não me venham com horóscopos
nem previsões de temporais, nem sinais de esperança,
nem de invisuais a ler a terra com os dedos, 
que se dane a ética e os moralistas,
os saltimbancos e os fackirs.

Que se lixe o mês de Agosto
o champanhe francês, os decretos,
o papel higiénico, a mostarda, o esferovite, 
as palavras esdrúxulas, o fado, a couve galega, 
ou a cona da mãe Joana!

Se regressei à vida foi para escrever este poema
no peito iluminado de uma coruja.
foi para devolver a carne ao osso, foi
para amar todas as cartomantes com princípios de esgotamento.
Cansa-me a beleza dos santos, os anéis de jupiter
nos dedos dos escolásticos, dos escolióticos, das madressilvas, dos minotauros,
e dos que passam horas a pensar o mundo, a varrer o mundo
com infinitas asas.

Não quero saber do meu Eu, do teu Eu, do nosso EU,
das lembranças que fazem abrir regos na loucura,
do Despertar das galinhas, das feridas a fabricar pão.
Não me importa se depois deste poema irei ruir, se
na ponta de uma faca ergo um castelo, 
se Leonor vai descalça para a fonte ou de sapatilhas, se
o que digo faz temer as criancinhas.

Já amei uma maçã, um guarda-vestidos, um dióspiro descapotável,
um Deus todo petulante e vaidoso. Já masturbei árvores,
subi ao céu numa jangada e regressei a esta casa, 
a este quarto,  a esta cama, a este sono,
coberto de imaginações, e livros inesgotáveis. 

SISIFO

saio da cama
com o mesmo sem-vontade
com que saí
do ventre de minha mãe

encaro o mundo
com as dúvidas todas
de quem renasça
todas as manhãs

domingo, 2 de outubro de 2011

VÁ PARA OS BRAÇOS DE MORFEU





“A terra dos sonhos foi localizada em algum lugar no submundo, provavelmente perto do domínio da Noite e seus filhos. Poetas muitas vezes se referiam a dois portões principais do reino dos sonhos. Um portão tinha molde de marfim serrado, o outro de chifre polido. Sonhos falsos passavam pelo portão de marfim, enquanto verdadeiros sonhos proféticos asavam a sua saída pelo portão de chifre. Houve também quem disse haver um olmo murcho no domínio de Morfeu, sobre o qual os sonhos tratados pelo Onírico eram pendurados, com o semblante de asas-fantasma-forma saindo para a noite para se suicidarem, esgotados pelos desejos humanos.”

Um cansaço bíblico chega, qual mastodonte correndo pela planície durante meses a fio. E baloiça com seu momentum cansando homens e mulheres que tiram as roupas encharcadas de trabalho persistente

Acendem cigarros, enrolados por mãos tremebundas, cansados como retratos de gente cansada

Sacodem a roupa, acendem o último cigarro



Cansados como retratos de gente cansada cristalizando por arquétipos, esfaimados com raiva cega por absurdos. Atiram-se a suas enxergas, como os mastodontes desfalecendo no fim do caminho; e se encasulam para renascer na dobra de lençóis com piolhos
Sendo certo que por tais momentos, as paisagens se reconstroem placidamente... Açucaram-se em monumentalidades estupradas por gargalos de garrafas e enroladas nos últimos cigarros tremidos

Coros silenciosos colam na epiderme baça, choram um uivo, rezam um consolo despenteado nas dunas desses lençóis. Se abafam num sono de papel para comprovar a nação de maravilhas onde querem alternar

São os cansados que dormem num caixão de veludo masturbando a saudade em várias formas. Um pesadelo ou acontecimento faustoso não tem diferença para o ideal consumo do ópio em pratos invisíveis

Mas no seu sono ainda são sonâmbulos, pálidos restos desdobrados em ridículos teatros de mastodonte e lençol. Vasculham alegrias mirradas pela voragem dos dias nos caixotes de lixo das coisas imateriais...

Onde vão comprando caro as fantasias melifluas sob a lua amarelada, em sentido, falsa. Prosseguindo o estado repetido de asas de não-sei-quê a bater na cara.