O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

VALE A PENA

boca humana
número 7 mil milhões
está prestes a berrar
que quer mamar

coisa linda senhores

tenhamos juízo e unamo-nos
-o momento é belo -
para que esta anunciada
boca humana
sempre encontre resposta
ao seu apelo

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Do fundo sem fundo de Todo o Mundo vimos

Do fundo sem fundo de Todo o Mundo vimos
Ao puro Ninguém lestos tornamos
Corações ao almo Esplendor erguidos
Néctar abundo, taças sejamos!

Da ronda do existir desprendidos
Saudade só da Grande Imensidão
Amor reúna os divididos
Amor ressuscite da mortal ilusão!

Sol e Lua, Prata e Ouro fundidos
Núpcias eternas de sábia compaixão
Adamantina folia bailemos
De delícias Jardim o coração!

Fonte de eterna juventude lesta corra
Gaia ciência do Infinito Esplendor
Dela vazios e nus nos inebriemos
Do mais puro e ardente frescor!

Corações taças ao Alto
Flamejante néctar ofertamos
Por que todo o ser livre seja
Bebamos, Irmãos, bebamos!

- Paulo Borges, in Línguas de Fogo, p.185

BIO-LÓGICO

como animal em cio
mais natural
do que intelectual

não crio

-procrio

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Não tenho interesse pela literatura
não quero saber de poetas embriagados
com palavras de arsénico
Se jesus Cristo era um gajo porreiro, ou não.
Se maria madalena percebia de bricolage
se daqui a vinte anos irei somente escrever com os olhos
ou se a minha história será dada aos gatos para comer

Se a lua é um ovo estrelado, tanto me faz
como tanto me fez, saber que o meu destino rima com desatino
e o senhor da taberna não me fia mais nenhum copo de tinto

Não quero saber de tristes costureiras que passam horas
a cerzir o cu do tempo com fios de luz
é-me indiferente se a tristeza é a via rápida para o absinto
se na minha cama dormem leões, gambozinos, vermes;
se Nietzsche era um grande tocador de banjo
ou se os meus poemas terão sucesso dentro de uma gaveta

Estou-me literalmente nas tintas para as paredes e tectos
por mim, incendiava as bibliotecas todas para se escrever tudo de novo
e ver sofrer os romancistas e os poetas e os contadores de histórias picantes
e rir-me com a possibilidade de ser inteiramente feliz ao lado
de uma árvore que tem como fruto mulheres bonitas.

Ah, e escurecer de tanto imaginar!

Não quero saber se os ilusionistas tiram o céu da cartola
se a música anda metida com o silêncio
e em cada foda nasce um ateu.
Não me venham com horóscopos
nem previsões de temporais, nem sinais de esperança,
nem de invisuais a ler a terra com os dedos, 
que se dane a ética e os moralistas,
os saltimbancos e os fackirs.

Que se lixe o mês de Agosto
o champanhe francês, os decretos,
o papel higiénico, a mostarda, o esferovite, 
as palavras esdrúxulas, o fado, a couve galega, 
ou a cona da mãe Joana!

Se regressei à vida foi para escrever este poema
no peito iluminado de uma coruja.
foi para devolver a carne ao osso, foi
para amar todas as cartomantes com princípios de esgotamento.
Cansa-me a beleza dos santos, os anéis de jupiter
nos dedos dos escolásticos, dos escolióticos, das madressilvas, dos minotauros,
e dos que passam horas a pensar o mundo, a varrer o mundo
com infinitas asas.

Não quero saber do meu Eu, do teu Eu, do nosso EU,
das lembranças que fazem abrir regos na loucura,
do Despertar das galinhas, das feridas a fabricar pão.
Não me importa se depois deste poema irei ruir, se
na ponta de uma faca ergo um castelo, 
se Leonor vai descalça para a fonte ou de sapatilhas, se
o que digo faz temer as criancinhas.

Já amei uma maçã, um guarda-vestidos, um dióspiro descapotável,
um Deus todo petulante e vaidoso. Já masturbei árvores,
subi ao céu numa jangada e regressei a esta casa, 
a este quarto,  a esta cama, a este sono,
coberto de imaginações, e livros inesgotáveis. 

SISIFO

saio da cama
com o mesmo sem-vontade
com que saí
do ventre de minha mãe

encaro o mundo
com as dúvidas todas
de quem renasça
todas as manhãs

domingo, 2 de outubro de 2011

VÁ PARA OS BRAÇOS DE MORFEU





“A terra dos sonhos foi localizada em algum lugar no submundo, provavelmente perto do domínio da Noite e seus filhos. Poetas muitas vezes se referiam a dois portões principais do reino dos sonhos. Um portão tinha molde de marfim serrado, o outro de chifre polido. Sonhos falsos passavam pelo portão de marfim, enquanto verdadeiros sonhos proféticos asavam a sua saída pelo portão de chifre. Houve também quem disse haver um olmo murcho no domínio de Morfeu, sobre o qual os sonhos tratados pelo Onírico eram pendurados, com o semblante de asas-fantasma-forma saindo para a noite para se suicidarem, esgotados pelos desejos humanos.”

Um cansaço bíblico chega, qual mastodonte correndo pela planície durante meses a fio. E baloiça com seu momentum cansando homens e mulheres que tiram as roupas encharcadas de trabalho persistente

Acendem cigarros, enrolados por mãos tremebundas, cansados como retratos de gente cansada

Sacodem a roupa, acendem o último cigarro



Cansados como retratos de gente cansada cristalizando por arquétipos, esfaimados com raiva cega por absurdos. Atiram-se a suas enxergas, como os mastodontes desfalecendo no fim do caminho; e se encasulam para renascer na dobra de lençóis com piolhos
Sendo certo que por tais momentos, as paisagens se reconstroem placidamente... Açucaram-se em monumentalidades estupradas por gargalos de garrafas e enroladas nos últimos cigarros tremidos

Coros silenciosos colam na epiderme baça, choram um uivo, rezam um consolo despenteado nas dunas desses lençóis. Se abafam num sono de papel para comprovar a nação de maravilhas onde querem alternar

São os cansados que dormem num caixão de veludo masturbando a saudade em várias formas. Um pesadelo ou acontecimento faustoso não tem diferença para o ideal consumo do ópio em pratos invisíveis

Mas no seu sono ainda são sonâmbulos, pálidos restos desdobrados em ridículos teatros de mastodonte e lençol. Vasculham alegrias mirradas pela voragem dos dias nos caixotes de lixo das coisas imateriais...

Onde vão comprando caro as fantasias melifluas sob a lua amarelada, em sentido, falsa. Prosseguindo o estado repetido de asas de não-sei-quê a bater na cara.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Miguel Sousa Tavares ou A Queda de um Anjo




Confesso que resisti muito tempo a escrever alguma coisa sobre o ainda recente comentário de Miguel Sousa Tavares na SIC sobre a abolição das touradas na Catalunha. Resisti porque os argumentos de MST se refutam a si mesmos e, sobretudo, porque tenho pudor em acrescentar alguma coisa aos vários tiros que o comentador deu em público na sua própria imagem pública. E cada vez mais, agora, ao ver as reacções e insultos de que é objecto por parte de muitos cidadãos, justamente indignados com o que disse (embora não me reveja na violência de muitos ataques pessoais), sinto pena deste homem. Sinto pena de um homem que entrou na fase de estrela decadente, tanto mais baça e em queda acelerada quanto mais pretende brilhar à custa de atacar causas justas e de defender o indefensável. Sinto pena por mais esta “Queda de um Anjo”, para recordar o romance do grande Camilo Castelo Branco.

Não me quero alongar sobre o que disse MST, que já teve no Facebook várias respostas à altura, entre as quais a de Lucília São Lourenço, de Mário Amorim (CAPT) e do meu cunhado Richard Warrell. Noto apenas, com tristeza, a incapacidade, de MST e dos que apoiam as touradas (ou a caça e todas as formas de violência sobre animais), de se colocarem na perspectiva e no lugar do outro, que neste caso é o animal, violentamente sujeito ao sofrimento para diversão do homem. Não ser capaz de se colocar no lugar do outro, não ser capaz desta exigência indispensável de toda a ética, e não perceber que é esta a razão pela qual há tanta e cada vez mais gente que se opõe às touradas - e não uma simples questão subjectiva de gostar ou não gostar de um espectáculo - , é uma terrível limitação da sensibilidade e da inteligência. Mas MST e os que pensam como ele, como o autarca Moita Flores, sem perceberem que porventura se estão a ver ao espelho, têm ainda o desplante de afirmar que são os outros que têm “falta de cultura” e que seguem o “caminho da estupidez”… Isto é triste. Muito estúpido e triste.

Muito estúpido e triste também, mas grave, muito mais grave, é a comparação da violência nas touradas, imposta pelos homens aos animais indefesos, com os perigos voluntariamente assumidos pelos participantes nos combates de boxe e nas corridas de automóveis (ou ainda o considerar a parvoíce de um programa televisivo, que se pode desligar a qualquer momento, mais violenta do que as touradas). Este raciocínio, além de só mostrar desonestidade ou falta de rigor intelectual ou as duas coisas, o que tenta é branquear a violência dos mais fortes contra os mais fracos reduzindo-a a desporto. Isto é preocupante, pois nesta ordem de ideias o que nos impede de considerar desporto as violações, os assassínios e todo o tipo de atentados contra a integridade dos seres humanos? Se obviamente repugna a todos nós considerar que as mulheres, as crianças e as vítimas de violação e homicídio participam de um espectáculo desportivo, se não aceitamos ser saudável ou estar no pleno uso da sua razão quem assim pense, o que dizer dos argumentos de MST?...

Mas isto não acaba aqui, não acaba na existência de ideias como as de MST. A gravidade de tudo isto continua e aumenta na promoção das pessoas que defendem estas ideias a “opinion makers”, a pessoas influentes na opinião pública, transmitidas em directo no horário mais nobre de um noticiário televisivo para milhões de espectadores, sem uma voz que exerça a função do contraditório e perante a manifesta impotência ou desistência da jornalista Clara de Sousa quanto ao exercício dessa função. E depois vem MST acusar os opositores das touradas de atentarem contra a “liberdade” e a “democracia”, quando ele é o primeiro beneficiário destes atentados que privilegiam sistematicamente na comunicação social os aficionados e silenciam quase por completo as vozes opostas!...

É isto que hoje mais me preocupa e não tanto a existência de pessoas com as ideias de Miguel Sousa Tavares, Moita Flores e outros que, sem se renovarem interiormente, arriscam-se a ter atingido e ultrapassado o limite do prazo de validade, em termos de sensibilidade humana e probidade intelectual. Espero que assim não seja, mas temo que deles já não haja nada a esperar, a não ser uma deterioração cada vez mais acelerada. O que me preocupa é que, num país e num mundo onde cada vez mais ganha volume uma nova corrente e movimento de opinião, que exige um tratamento ético dos animais (humanos e não-humanos) e se insurge contra as violências a que são sujeitos – corrente e movimento que vejo como o embrião de uma nova cultura e de uma nova civilização - , os nossos órgãos de comunicação social continuem a dar voz apenas aos mesmos de sempre, com os graves preconceitos e ideias aqui expostos. São estas as figuras públicas que nos representam? É este o Portugal que queremos?

Termino pedindo aos leitores que não lancemos mais pedras a MST, Moita Flores e outros. Tenhamos por eles a mesma compaixão que pelos touros e por todos os seres sencientes, humanos e não-humanos. Quem pensa, fala e age em defesa da violência, ou a pratica, não pode estar bem. Peguemos antes nessas pedras e lancemo-las àquilo que em nós houver também de ignorância, preconceito e insensibilidade. E que seja por compaixão por todos – incluindo toureiros, aficionados e todos os que praticam ou apoiam a violência sobre outros seres - , e não movidos pelo ódio e pela raiva, que continuemos a manifestar a nossa justa indignação e a lutar por um mundo onde o direito de todos os seres sencientes à integridade e bem-estar físicos e psíquicos seja consagrado na lei e integralmente respeitado.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Antes de preencheres o vazio com palavras de universo
lê com cautela o que te vai no sangue.
Anda como se contasses os passos até ao dia de morrer
e dorme como se desejasses acordar com fome de vida,
do outro lado da vida, onde os teus sonhos são castelos concretos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

se há estrelas
casas com a lua
inventas promessas
branca e negra
é tua a saudade
serena é a noite
quando te encontras

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


se a pomba está ao teu alcançe
abraça-a com ternura
como se a mim abraçasses
e se ela foge e recua
canta que ela regressa ao encanto
se for branca, a pomba-rola
coloca em seu bico, uma rosa vermelha
segreda-lhe a minha morada
e se eu tiver partido
com destino desconhecido
entrega a pomba-rola
a rosa vermelha ao mundo
um dia todos se encontram, abandonam os pontos cardeais.
A primavera, o verão, o outono e o inverno ousam o tempo e celebram matrinónio.

Da consciência do sol nascente

"Tudo o que vive, tudo o que é ser, seja uma estrela, uma planta, um animal ou um ser humano - ou até mesmo Deus Todo-Poderoso - possui uma orientação. Trata-se de uma ideia que tanto podemos traduzir em termos matemáticos, como físicos ou psicológicos. Ou, em última instância, religiosos. Ao longo da estrada por onde cada um de nós viaja, não há regresso. Temos de avançar ou que morrer, parando: morrer em vida. Este momento para diante, ou orientação, não é outra coisa senão a consciência. É um movimento ao longo de um trajecto que se nos revela sob a forma de oposições, ou, por outras palavras, em termos de dualidade. É apenas um, e contudo não é apenas um. São dois. O místico, cujo dualismo é maior do que o dos outros homens, soluciona momentaneamente o enigma, consderando alcançar um estado de êxtase em que é um só ser juntamente com o universo. Não vale a pena acrescentar que, em tais momentos, o místico não precisa de Deus, nem de nada para além de si próprio. Está para além de si próprio, por assim dizer, no sentido em que a sua consciência se expande de tal modo que inclui os dois pólos opostos do seu ser. A luta torna-se impensável. No seu estado como que de transe, o místico conhece o sentido do inefável. Tudo se torna claro e ele aceita tudo; ele próprio e o seu destino são um só. Nesses momentos, todo ele é orientação. Ou seja, conscência."

- Henry Miller, in Carta Aberta a Todos os Surrealistas do Mundo
O meu corpo novo, esse onde existo sem forma, é abrigo do poeta.
Embriagado de vida resiste ao tempo, e no tempo, dele se despede.

Descobre o vazio onde o texto encontra o silêncio.
Nele o abandono sublime do amor.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

no OUTONO da VIDA (?)


amplie para se certificar

EPIFANIA

o sol
atoalhando a mesa de vidro
onde está o rádio

uma rosa vermelha
em jarra de cerâmica

escuto um arranjo
sobre a Nona Sinfonia de Beethoven

acompanhado
pelo coaxar de rã
lá fora

- e é outono

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Setembro

"Setembro sente-se morno no seu manto de terra fogo aconchegado.
E segue ouvindo o cair das folhas, cantando o colher dos frutos.
E sopra o silêncio que afaga o tempo de gotas e o espaço de ar."

Sónia Gomes Costa

DO OUTONO

Cantam as árvores
despidas de vento;
nas asas das aves
voa
para longe
o
Estio.
As folhas
adormecem a terra.
Tíbio, o Sol
caduca o Verão.
Brando o calor,
no Outono tinto
colhido em cachos.
No vagaroso impregnar,
o áureo odor,
silencia.
No leito de Morpheu,
suspende a vida.
Ainda demora
que a Terra expire.
(Sentir e Ser - 2011)

A Dança de Ícaro / Cena II

“Apolo observa-o e ri. Ícaro era, ainda há breves momentos, o mais miserável dos homens e ei-lo agora a girar e rodopiar como uma serpente encantada! Apolo já conhecia, desde há muito, a condição humana. Sabia que os homens eram capazes das mais profundas contradições.
“Quantas tentativas fizeste para alcançar o sol? Qual o valor do teu esforço? Bem vejo como trocas facilmente o simples e o verdadeiro pelas loucuras dionisíacas! Eu sou o rosto da sabedoria e da justa medida. Todos me veneram porque sou o verdadeiro Deus e tu sempre foste, até hoje, o meu maior seguidor: Ícaro, o conquistador do sol!”
Imune aos pensamentos de Apolo, Ícaro prossegue com a sua dança. E com ela abraça o mundo! Ícaro sabe que a vida está cheia de altos e baixos, ora se cai, ora se levanta… Este momento é de ascensão! Ícaro eleva-se nos céus com Pégaso e as bacantes, acima dos campos e dos rios, e das âncoras dos homens… E à medida que sobe cada vez mais alto, observa as casas, com os seus jardins e cercas, as estradas e as pontes. E como nunca compreendeu o seu lugar nesse mundo, sorri por o ver tão pequeno e distante. Recorda o momento em que o sol sobre as asas de cera parecia ter ditado o seu fim. Frágil e exposto, caiu dos céus em rodopio de pena solta. Após o embate do corpo na terra seca, seguiu-se um longo período de silêncio que tocou a eternidade. Depois, o coro gritou em uníssono: “Ícaro, o irrealista!”; “Ícaro, o ambicioso!”; “Ícaro que queria chegar aos deuses!”; “Ícaro que caiu dos céus e se desfez em mil pedaços!”; “Ícaro!”… “Ícaro!”… “Ícaro!”…
Mas ao Ícaro que dança não pode ser atribuída nenhuma designação. Até porque não se sabe bem se ainda pertence a este mundo. O Ícaro que dança não segura nenhuma máscara e, por isso, perde o seu lugar na comunidade dos heróis trágicos!”
SIBILA

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

TERAPEUTICA

manhã de outono
enevoada
mal ainda o sol nasceu
escuto a minha música preferida
envolvido em tédio
a vida
para o dia todo
tomo-a
- tapando o nariz -
à colherada

domingo, 18 de setembro de 2011

Ainda Eurídice

Gluck deu a Orfeu e Eurídice um final feliz. Foi um dos primeiros happy ends da ficção artística. A partir desse momento deixamos de conseguir suportar a dor inerente à separação, exactamente porque negamos as separações. 

a dança de ícaro

dias de luz fria. ícaro cai no chão duro da realidade no preciso momento em que parecia aproximar-se do núcleo do sol. as suas asas de cera derreteram súbita e inesperadamente. nenhum anúncio prévio ou sinal premonitório e daí a impossibilidade de ter preparado um pouso suave e macio. ei-lo estendido no piso agreste de um lugar comum. quando por fim abriu os olhos tudo tinha mudado. o sol arrefecera e soprava um vento frio e cortante. fazia-se sentir um odor a fogo extinto e tudo parecia repousar numa nudez invernal. ainda assim, o espaço abria-se preciso e silencioso. quando se tentou erguer sentiu-se invadido de um desconfortável pesar e desalento. andou vários dias a arrastar-se pelo chão sem esperança. parecia não haver mais lugar onde chegar apesar de todas as portas parecerem abertas de par em par. mas foi quando este jovem de cabelos revoltosos com fios de ouro e um olhar de luz singular, começou a entrar destemidamente nas reentrâncias desse desconsolo, que quase num lapso descobre uma estranha capacidade para dançar e a qualidade volátil dos seus pés, assim como as infinitas potencialidades de um mundo cheio de aberturas por todos os lados, propenso a infinitas correntes de ar. foi assim que começou a correr ao lado do vento com incrível leveza e a trocar-se de invisibilidade com o “devir”. agora ícaro desenha o céu debaixo dos pés. por vezes, quando se vê dançar, fica-se com a nítida sensação que um mar em fúria se levanta, uma revoada de aves rasga os céus e a primavera desperta, mesmo que não se esteja na primavera.

“all changed, changed utterly:
a terrible beauty is born:” ( w.b. yeats)
Vou fazer muitos poemas e engatar muitas raparigas. 
e fazê-las pensar que sou daqueles que passo horas em frente ao mar, 
a estudar o voo ascendente dos peixes, a deitar gotas de
cio nas palavras para
que se sintam desejadas. 

vou fazer muitos poemas de amor, tantos
quantos possíveis para engravidar todas as raparigas solteiras do
mundo que me queiram ler. e ter filhos
que mais tarde vêm ter
à minha porta e ver que eles são aquilo que inventei para serem.
ter nos versos um certo desgosto para que tenham pena e me
atirem beijos do mar em que estão.
quando me sentar para  escrever
quero ser homem aos poucos,
ter a felicidade de uma rameira ao finalmente chegar a casa,
pôr o fogão no mínimo,
abeirar-se da cama e sonhar com o milagre das coisas boas.
vou fazer muitos poemas, tantos que a minha mãe me dirá
para parar se não quiser enlouquecer. mas eu digo-lhe, que
assim seja, que me afunde contra as palavras e o mundo seja
apenas um verso em que arrisco a vida.
as raparigas solteiras vão ficar palermas ao ler os meus poemas
que falam e soletram
aquilo que elas escondem debaixo das suas saias. vão querer
tatuar frases minhas no fundo das costas para que junto delas
reclame direitos de autor.
e vou rimar fogo e água no mesmo coração,
e vou tirar as botas às letras
maiúsculas, depois abrir a torneira aos dias claros e existir longamente.

as raparigas solteiras não vão querer ficar menstruadas no dia em
que fizer poemas, e o meu pai bater-me-á
se cometer uma qualquer discordância ortográfica, e nem me deixará mudar de linha enquanto a noite tiver escárnio na língua.
as casadas que me perdoem
mas vou fazer muitos poemas para as raparigas solteiras, tirar-lhes
as medidas letra a letra e acabar nos seios delas com uma
menção honrosa. quando escrever quero mijar no tempo
para não perder demora, fazer de conta que a vida me fascina
e ser a terra onde o cão esconde o osso.
inventarei um morto
e roubarei ao herberto hélder sangue e luz dos seus livros
para assim cantar como canta o fogo.
vou fazer muitos poemas, tantos que a caneta ejaculará a
sua tinta azul fluorescente por toda a página e as raparigas
solteiras pensarão que a proeza foi toda minha, e
perguntarão à minha mãe onde vou morrer esta noite,
onde guardo o nome dos remédios valiosos.
ah, vou escrever nos bilhetes de comboio,
nos manuais de instruções,
nos peitos das aves,
nos sinais de trânsito,
no coração da luz,
no cu do judas,
no céu do meu quarto.
vou ter grandes erecções
só de pensar que nenhum crítico me vai ler, que nas estantes
bibliotecárias só os poetas loucos me dirão, podes vir.
ah, vou fazer tantos poemas que os animais vão querer provar desse pasto,
a lua vai-se algemar e a solidão vai fugir com um italiano.
vou dar cabo das religiões,
entrar no fogo da simbologia,
abrir o túmulo do fernando pessoa e sacar-lhe inéditos. e as raparigas
solteiras vão-me admirar toda a eternidade!, vão querer casar com
todos os meus eus, os meus mins que andam de cá para lá algures
entre o crânio e os carpos. e eu, assombrado como um deus
a aprender o instinto, a ter amor em cada palavra
e matar
a anterior!
e as raparigas solteiras, que não sabiam que matar
era morrer, choram, ao perceberem que o poema, afinal, acaba mal!



PARÁBOLA DO POTE E DO MACACO

contava-se em Moçambique
que uma maneira prática de afastar macacos de uma plantação
consistia em meter alguns amendoins
dentro de uma vasilha de boca muito estreita
à justa medida de o macaco introduzir a mão

- sejamos práticos - um pote de cerâmica

o macaco
com alguma dificuldade introduzia a mão
até alcançar
os frutos proibibos

enchia-a bem então
o que a aumentava de volume
não lhe permitindo a retirada
nem mesmo à vista do proprietário da plantação

dos amendoins
o avaro macaco não abria mão

esta a parábola do pote
e do macaco
em que fica bem claro
o risco de se encher demasiado a mão

sábado, 17 de setembro de 2011

Eurídice

Eurídice (Eurydike):
Uma Dríade, mulher de Orfeu;
Filha de Laomêdon e de Esparta, de sua união com Acrísio nasceu Danae;
Mulher de Licurgo, rei de Neméia, e mãe de Arquemoro;
Mulher de Creonte, rei de Tebas, que se matou ao receber a notícia do suicídio de seu filho Hêmon.

Eurídice é sempre a Mulher, independentemente das múltiplas versões da sua genealogia.

Eurídice deixou-se morder pela cobra. Ela sabia ser necessário descer ao inferno e permanecer lá algum tempo. Orfeu é que não se entende. Tristemente, a intimidade é castigada no final. Orfeu pode ser um pouco maçador na sua fidelidade limite. Em todo o caso, é de um Orfeu que a humanidade precisa.

Vou Fazer Muitos Poemas - de Flávio Lopes da Silva

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Reserva-me um lugar silencioso
verde de preferência
Um dois por quatro – tenho fetiche com os pares
Rodeia esse espaço de gente

Inventa a semente – sem mente
Que outra coisa perdes
Se o que te resta é nada?
A dor da partida – revisitada
O vazio que é tudo e nada
Perco a sombra
que julguei ser minha
Como te perdes ignorante
Se não existes?
Na Sé foram as nossas juras de amor
Debaixo da cruz entreguei-me
fazendo jus ao pecado
Abri as pernas e tu choravas
a dor que se adivinhava
despi meus seios
semeei meu leite na tua boca
feito a Virgem Maria.
Na Sé foi o fim do amor
desencontrado no acto
Enquanto te vinhas eu gritava: PARTO!

A viúva chorava a morte tardia do marido embuchado
O cego cantava numa ladainha riscada:
-Senhora dá-me teu leite que também tenho sede

E o orgasmo? O que é feito dele?
Miragem do passado. PARTO

- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ARCO(?) -IRIS

heliocientista
físico
meteorologista
queres que acredite em ti?

explica-me primeiro
por que não é possível ver
o arco-íris
inteiro

redondo como o Sol
igual ao sonho
do poeta

explica-me cientista
por que não é o arco-íris um aro
colorido

de roda de sonhada
bicicleta

domingo, 11 de setembro de 2011

se a mudança
se faz teimosa
senta com ela
agora, deixa-te ir
teu sorriso de criança
deu -me o dia antes da noite
teu olhar sem dor
deu-me a manhã antes do dia
esqueço a hora que partes
descanso meu corpo no teu
canta o beija-flor
e o dia é ontem todo o dia
desde ontem
deixa que o céu encontre a terra
o mar durma na areia
a chuva fermente o pão
deixa que o que nunca teve 
paragem certa fique onde está
sem nunca ficar
Voam pombas na capela,
e só tu dás por elas
deixam no ar o cheiro do orvalho
e só tu dás por ele
choram como se o dia fosse noite
e só tu cuidas delas
poisa a pomba na cruz
e só tu deixas-te ir

sábado, 10 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PENSE

numa passagem regressiva pelo meu blog
dei com esta pergunta inquietante
:

e se a SOMBRA fosse branca?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

abraço a incerteza
nada sei além deste instante

que respiro
fossem os deuses homens

e a hora seria amanhã
fossem os homens deuses

e a vida seria agora.

domingo, 4 de setembro de 2011

CIGARRA

Enquanto chora, canta
Enquanto dorme, acorda 
Solitária, descobre-se
Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida a hora, sem pressa 
Morna, suada, preguiçosa.


Calam silenciosas as pedras
Montanha que nos alcança
Voam gaivotas, nasce outra flor
A noite se alonga no amanhecer
o vinho escorrega
pela garganta
aqueçe o corpo
descobre o ventre

encontra a Besta
o Anjo com sede
amor adiado
Desço ao abismo
entre o paraíso e o inferno
existo

sábado, 3 de setembro de 2011

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

domingo, 28 de agosto de 2011

No mar revolto
sobrevive o peixe,
se esperar quieto
que a ira passe

O Embaixador

Abraça-me com carinho, pergunta pelos meus. Diz a sorrir:
- Ah, a vida está dificil! Sou um desalojado... Colocaram-me como embaixador em África. Vou viver numa casa de mil metros quadrados, com quatro empregados...
Tento devolver o sorriso, mas todos os musculos estão presos. Disfarço o choque e com meu olhar nos sapatos dele, pergunto:
- E por cá, onde vives?
- Ah, tão mal. No prédio de um primo. São seis andares inteiros e três empregadas...
Digo que tenho pressa. Se meu estômago fosse um cão, mordia.

PRODUTO DE TOMAR

também eu faço os meus versos
escrevo a minha poesia
componho as minhas estrofes

tenho a minha marca própria
a minha assinatura

há quem me consuma e goste
e sinta agradáveis efeitos da leitura

como se eu fosse um grande nome
da nossa literatura

não me iludo
nem da realidade eu sinto medo
:
sei que não passo de genérico

antes isso porém
que a fórmula amorfa
de placebo

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Fosse o intervalo
um instante prolongado
do teu sorriso em alto mar
No horizonte longínquo
canta sem medo
meu coração
no teu corpo silencioso
amor que se reiventa
sem pressa
no menino que agora nasce

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Mergulhamos no fundo de nós,
reencontramos a Luz.
Somos infinitos, livres, eternos,
no mergulho que de voo se reveste.
Unidos no Amor compassivo e livre,
somos Um com o Todo e regressamos...
despojados de conceitos e palavras duais.
Apenas o sentir...
Entregamos em contentamento o que recebemos,
não nos pertence.
É o Sublime, que nesta limitada forma,
nos silencia e inunda de quietude o coração.
(Sentir e Ser 2011)

A onda, a água e o fundo do ser



“Olhemos para uma onda na superfície do oceano. Uma onda é uma onda. Tem um princípio e um fim. Pode ser alta ou baixa, mais ou menos bela do que outras ondas. Mas uma onda é, ao mesmo tempo, água. Água é o fundo do ser da onda. É importante que uma onda saiba que é água e não apenas uma onda. Nós, também, vivemos a nossa vida como um indivíduo. Cremos ter um princípio e um fim, cremos estar separados dos outros seres vivos. É por isso que o Buda nos aconselhou a olhar mais profundamente a fim de tocarmos o fundo do nosso ser, que é o nirvana. Tudo leva profundamente a natureza do nirvana. Tudo foi “nirvanizado”. Esse é o ensinamento do “Sutra do Lótus”. Olhamos profundamente e tocamos o tal qual da realidade. Olhando profundamente o íntimo de um seixo, de uma flor ou da nossa própria alegria, paz, aflição ou medo, tocamos a dimensão última do nosso ser e essa dimensão revelar-nos-á que o fundo do nosso ser tem a natureza do não-nascimento e da não-morte.

Não temos de “atingir” o nirvana, porque nós mesmos residimos sempre no nirvana. A onda não tem de procurar água. Ela já é água. Somos um com o fundo do nosso ser. Uma vez que a onda reconheça ser água, todo o seu medo se desvanece. Uma vez que toquemos o fundo do nosso ser, uma vez que toquemos Deus ou o nirvana, também recebemos o dom do não-medo. O não-medo é a base da verdadeira felicidade. O maior dom que podemos oferecer aos outros é o nosso não-medo. Viver profundamente cada instante da nossa vida, tocar a mais funda dimensão do nosso ser, é a prática de prajña paramita. Prajña paramita é ir para além pela compreensão, pela visão profunda”

- Thich Naht Hanh, “The heart of the buddha’s teaching”, Londres, Rider, 1998, pp.211-212.

MUNDIAL DE FUTEBOL

bom sem dúvida.
duas grandes equipas de PESSOA
( a minha Pátria é a minha LÍNGUA)

mesmo que perdessem
sempre ganhariam as duas



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Na névoa da montanha
o cume, a ilha,
o encoberto.
Neste, a barca e as flores.

No anoitecer
a força da luz,

o círculo dos saudosos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Friedrich & Winter

À nossa frente: O grande ecrã! Ou que resta dele… A sala de projecção, que também é apenas memória, recordação. As imagens já não são o que era costume serem. Já não se pode confiar nelas. Todos o sabemos, e tu também sabes. Quando nós crescemos as imagens estavam a contar-nos histórias e a mostrarem-nos coisas, que agora só pretendem vender… histórias e coisas, mudaram à frente dos nossos olhos. Já nem sequer se sabe como mostrar as coisas… Esqueceram-se, simplesmente. As imagens estão a vender o mundo ao desbarato, em pacotes e com descontos. Quando me decidi a mergulhar fundo julguei que conseguia fugir a tudo isso. Falámos, lembras-te? Eu queria voltar a ver o mundo a preto e branco, através desta máquina manual, velha, e toda partida… the man with a movie camera… percorrendo as ruas sozinho, um homem com a sua câmara… e viva Dziga Vertov! Fingir que a própria história do cinema não existiu para ser contada, e que eu podia recomeçar tudo outra vez do zero, cem anos depois… Mas não funcionou, meu amigo. Por algum tempo, pareceu-me funcionar, mas depois veio a ruína… tudo havia sido desmoronado. Adoro esta cidade! Lisboa! esta cidade… e a maior parte do tempo eu vi-a realmente… mesmo em frente aos meus olhos… Mas apontar uma câmara e filmar é como apontar uma arma, e disparar. E de cada vez que eu apontei, senti-me como se a vida se estivesse a escoar das coisas… e filmava, e filmava… mas a cada rodar da manivela, a cidade recuava mais e mais, afastando-se cada vez mais e mais… como o gato sorridente da Alice. Nada. Estava a tornar-se insustentável. Desmoralizou-me imenso. Foi aí que eu pedi para que aparecesses, foi aí que te pedi ajuda. E por algum tempo vivi a ilusão de que o som, que é a tua voz, podia resolver tudo, que os teus microfones poderiam arrancar as minhas imagens à escuridão. Mas é escusado. É tudo escusado, meu amigo. Escusado. Mas… encontrei uma maneira de salvar isto, e estou a trabalhar neste momento nisso. Ouve-me… ora escuta. Uma imagem que não foi vista não pode vender nada, ora não? É pura, e por conseguinte, verdadeira, e bela. Numa palavra, é inocente. Enquanto nenhum olhar a contaminar permanece em perfeito uníssono com o mundo. Se não for vista, a imagem e o objecto que ela representa permanecem para sempre juntos… Sim, tu sorris… é apenas quando olhamos para a imagem, que… o que está contida nela, essa coisa, que ela contém, morre, desaparece… Apresento-te… a minha biblioteca de imagens nunca vistas… Todas estas imagens foram filmadas sem intervenção do olhar humano. Nunca ninguém as viu enquanto foram gravadas, ninguém as verificou depois. Filmei-as todas com a câmara pendurada atrás nas minhas costas! Estas imagens mostram a cidade como ela é... e não como eu desejaria que fosse. Seja como for, cá estão elas, no seu primeiro e doce sono da inocência, prontas a ser visionadas por alguma geração futura, com um olhar diferente do nosso… Tu sorris… eu também… que não te preocupe meu amigo, já não estaremos cá...

in Viagem a Lisboa, Wim Wenders
tradução livre
Há quem me peça que não escreva com tanta dor. Há quem me peça que os ais sejam os uis de quem ri. Há quem me peça que faça de conta, porque quem não se dá conta,  não sofre nem geme. 
Enquanto escrevo, sorrio na descoberta do fim.
Depois de hibernar, vem a vontade de voar. No céu encontro o ar, no mar me encontro - sereia. 
Entre, é o meu destino próximo. Sono longo, onde nada foi dito ou ouvido. 
Intervalo presente - liberdade.  



 

domingo, 14 de agosto de 2011

AMANTE


Limou as arestas, limpou o pó. Do que restou, ficou com o vermelho da paixão.
Ela é a sombra que não me acompanha e rouba a parte de mim que sonha.
Deixou comigo a dor da ausência.
Com um sorriso generoso ocupou meu lugar. Roubou meus gemidos na cama.
Inventou a tormenta quando ouviu a promessa amor eterno.
Deu-me de volta a fadiga de vida.

ARCA SEM FUNDO

PESSOA tinha/tem
uma ARCA de ferro onde guardava tudo o que escrevia

a ARCA parece não ter fim

como se fosse uma arca
com tabuleiros
que vão sendo removidos
à medida que são lidos os seus escritos

só que
removido cada tabuleiro vazio
há sempre outro por baixo
mais cheio ainda
do que todos os tabuleiros de cima

e o que está escrito
nos papéis dos tabuleiros de baixo
é sempre mais bonito
mais profundo
do que o que está escrito nos papéis
dos tabuleiros de cima

haverá um - o de baixo de todos -
a uma fundura infinda
a que ninguém chegará
nem chegou a sonhar chegar ainda

e esse tabuleiro
é que há de estar a abarrotar
de papéis com palavras escritas
literalmente as mais profundas

e essas sim
serão de todas
as palavras escritas
as mais profundas
as mais Li (n) das

sábado, 13 de agosto de 2011

número de CIRCO

senhor ministro
- deixemos de exercícios ilusórios

quem tivesse o "instinto"
de que tinha que vir
a apertar o cinto

não teria já
providenciado
suspensórios?

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

constatação

não é que a minha
camisola preta
atraia agora mais cabelos

brancos hoje
sobre a camisola preta
aos mesmos
é mais fácil vê-los
Quando nasceu dei-lhe a mão,
Devagar toquei cada um dos seus pequenos dedos,
tentando que os meus se encaixassem nos dele.
Se o desejo fosse, só por si, suficiente,
todas as crianças do mundo seriam felizes.
Dor que trago agora no peito, tão escondido que mal posso suportar.
A violência fechada e tumultuada nas ruas, entre torpedos de ira.
Bolas de sabão que se multiplicam no abandono de uma nova civilização.
Sofrimento que invade meu corpo, pela tristeza
De todos os seres que se traiem na existência

Por tudo lhes ter sido negado à nascença.
Se o desejo fosse, só por si suficiente,
nenhuma criança morreria à fome
Teriam por sofrimento único
a ignorância do não sofrimento.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

SOLILÓQUIO

gosto da solidão
:
estar só - não falar com ninguém

contudo deixem-me ser franco
às vezes já me sabe bem
ouvir falar alguém

nem que seja a voz
do próprio Multi- Banco

- por favor
retire o seu cartão

sábado, 6 de agosto de 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Poesia sobre o ciclo das rochas

Pra quem vive neste Planeta
E que pisa nesse chão,
O ciclo das Rochas
Eu trago com admiração,
Nesse texto resumido
Do magma ao metamorfismo
Passará por minha mão...

O material rochoso
Quando vem a se fundir,
Transforma-se em magma
Que no vulcão vai fluir.
De lava é chamado
E quando cristalizado
Rochas Ígneas faz surgir!

Nas áreas vulcânicas
Há de se observar
Que as rochas mais comuns,
Os Basaltos (até o Vesicular),
Têm arranjo aleatório
O que não é notório
Pois os minerais, não dá pra se enxergar!

Se a Ígnea Vulcânica
Vira Rocha na superfície,
A Ígnea Plutônica
Não chega aqui na planície,
Gerando o Gabro e o Granito
Pois o Diabásio é um tipo
Mais próximo da superfície!

Pra continuar o Ciclo
Eu trago detalhes,
Sobre outra classe de Rochas
Que são as Sedimentares.
Frutos da erosão
Percorrem vários lugares
Antes de se depositarem
E em rocha se tornarem!

As Sedimentares detríticas
Como o Argilito e o Siltito
Tem o tato macio,
Diferente do Arenito

Que é áspero e friável
Muito mais erodível
Perante os outros tipos.

Conglomerados e Brechas
Não tem estratificação,
Mesmo assim são detríticas
O que os Calcários não são
São Calcita e Dolomita
As classes desse tipo
São químicas, com razão!

A Pressão e a Temperatura
Agindo prolongadamente
Sobre um corpo rochoso
Nas profundezas do chão
Causam a transformação
Do material em questão!

O metamorfismo pode ser
De Contato ou Regional
Mudando as estruturas
Daquele material.
É a recristalização
Dobra, foliação...

A Ardósia é a primeira
No grau de metamorfismo
Depois vem o Filito,
Que é anterior ao Xisto.
O Gnaisse é bandado
E o migmatito, ondulado...

Qualquer das rochas
Está sujeita à alteração,
Em se tratando de um ciclo
Aberto à ocasião.
Pois a natureza não erra,
Quando compõe a Terra:
É pura imaginação!

Leandro Caetano de Magalhães

terça-feira, 2 de agosto de 2011

AVISO

tenha sempre em conta
o possível cheiro
do que põe na NET

não esqueça
- a rede
espalha-se pelo éter

CONVERSA

amigo
sem-abrigo
meu este meu aquele
meu desgovernado

meu safado
desvalido

sou superior a ti
sabias

acabo de engomar a camisa
para falar contigo

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Massagem Zen: O que é a "Massagem Zen"?

Massagem Zen: O que é a "Massagem Zen"?: "'Massagem Zen' é o nome que alguém que recebeu as minhas massagens lhe chamou. E eu resolvi adoptar esse nome porque não uso uma técnica def..."

GA FA NHOU TRO

ver extremidade das patas
- de cor e aspeto que se confundem com acúleos da roseira

-mimetismo requintado? ou minha vontade de que assim seja?

para o Rui, que tem o mesmo gosto por estas coisas que parecem
naturais

RECADO

não tarda
estaremos todos juntos
fora deste mundo

mau será
se pelos que cá ficarem
tivermos que pôr luto