O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


domingo, 18 de setembro de 2011

PARÁBOLA DO POTE E DO MACACO

contava-se em Moçambique
que uma maneira prática de afastar macacos de uma plantação
consistia em meter alguns amendoins
dentro de uma vasilha de boca muito estreita
à justa medida de o macaco introduzir a mão

- sejamos práticos - um pote de cerâmica

o macaco
com alguma dificuldade introduzia a mão
até alcançar
os frutos proibibos

enchia-a bem então
o que a aumentava de volume
não lhe permitindo a retirada
nem mesmo à vista do proprietário da plantação

dos amendoins
o avaro macaco não abria mão

esta a parábola do pote
e do macaco
em que fica bem claro
o risco de se encher demasiado a mão

sábado, 17 de setembro de 2011

Eurídice

Eurídice (Eurydike):
Uma Dríade, mulher de Orfeu;
Filha de Laomêdon e de Esparta, de sua união com Acrísio nasceu Danae;
Mulher de Licurgo, rei de Neméia, e mãe de Arquemoro;
Mulher de Creonte, rei de Tebas, que se matou ao receber a notícia do suicídio de seu filho Hêmon.

Eurídice é sempre a Mulher, independentemente das múltiplas versões da sua genealogia.

Eurídice deixou-se morder pela cobra. Ela sabia ser necessário descer ao inferno e permanecer lá algum tempo. Orfeu é que não se entende. Tristemente, a intimidade é castigada no final. Orfeu pode ser um pouco maçador na sua fidelidade limite. Em todo o caso, é de um Orfeu que a humanidade precisa.

Vou Fazer Muitos Poemas - de Flávio Lopes da Silva

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Reserva-me um lugar silencioso
verde de preferência
Um dois por quatro – tenho fetiche com os pares
Rodeia esse espaço de gente

Inventa a semente – sem mente
Que outra coisa perdes
Se o que te resta é nada?
A dor da partida – revisitada
O vazio que é tudo e nada
Perco a sombra
que julguei ser minha
Como te perdes ignorante
Se não existes?
Na Sé foram as nossas juras de amor
Debaixo da cruz entreguei-me
fazendo jus ao pecado
Abri as pernas e tu choravas
a dor que se adivinhava
despi meus seios
semeei meu leite na tua boca
feito a Virgem Maria.
Na Sé foi o fim do amor
desencontrado no acto
Enquanto te vinhas eu gritava: PARTO!

A viúva chorava a morte tardia do marido embuchado
O cego cantava numa ladainha riscada:
-Senhora dá-me teu leite que também tenho sede

E o orgasmo? O que é feito dele?
Miragem do passado. PARTO

- mas e o fim começou na sé? qual fim? qual sé?
- trocadilhos da mente que as vezes se escapam

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

ARCO(?) -IRIS

heliocientista
físico
meteorologista
queres que acredite em ti?

explica-me primeiro
por que não é possível ver
o arco-íris
inteiro

redondo como o Sol
igual ao sonho
do poeta

explica-me cientista
por que não é o arco-íris um aro
colorido

de roda de sonhada
bicicleta

domingo, 11 de setembro de 2011

se a mudança
se faz teimosa
senta com ela
agora, deixa-te ir
teu sorriso de criança
deu -me o dia antes da noite
teu olhar sem dor
deu-me a manhã antes do dia
esqueço a hora que partes
descanso meu corpo no teu
canta o beija-flor
e o dia é ontem todo o dia
desde ontem
deixa que o céu encontre a terra
o mar durma na areia
a chuva fermente o pão
deixa que o que nunca teve 
paragem certa fique onde está
sem nunca ficar
Voam pombas na capela,
e só tu dás por elas
deixam no ar o cheiro do orvalho
e só tu dás por ele
choram como se o dia fosse noite
e só tu cuidas delas
poisa a pomba na cruz
e só tu deixas-te ir

sábado, 10 de setembro de 2011

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

PENSE

numa passagem regressiva pelo meu blog
dei com esta pergunta inquietante
:

e se a SOMBRA fosse branca?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

abraço a incerteza
nada sei além deste instante

que respiro
fossem os deuses homens

e a hora seria amanhã
fossem os homens deuses

e a vida seria agora.

domingo, 4 de setembro de 2011

CIGARRA

Enquanto chora, canta
Enquanto dorme, acorda 
Solitária, descobre-se
Dançam borboletas na paisagem verde
Adormece a leoa coberta com amor
Vive a vida a hora, sem pressa 
Morna, suada, preguiçosa.


Calam silenciosas as pedras
Montanha que nos alcança
Voam gaivotas, nasce outra flor
A noite se alonga no amanhecer
o vinho escorrega
pela garganta
aqueçe o corpo
descobre o ventre

encontra a Besta
o Anjo com sede
amor adiado
Desço ao abismo
entre o paraíso e o inferno
existo

sábado, 3 de setembro de 2011