domingo, 6 de junho de 2010
A Arte na era do porquinho Babe - 2ª, 7 de Junho, 23 h, no Jardim de Inverno do Teatro S.Luiz (Chiado)
Tudo começou há 15.000 milhões de anos com uma explosão de luz na noite do tempo. O Universo era um puré homogéneo em expansão de electrões, fotões, quarks, neutrinos e outras belas e exóticas partículas como os gravitões e os gluões.
Umas dezenas de microssegundos após esta explosão o universo era já um caldo primitivo de quarks e gluões e um quadragésimo de microssegundo depois, quando a temperatura já tinha descido um bilião de graus, os quarks uniram-se para gerarem os nucleões: protões e neutrões.
Foi um pouco como um pudim que se mete no forno: à medida que incha, as passas afastam-se umas das outras. Poeiras interestelares iniciaram uma dança em volta de embriões de estrelas, formando discos análogos aos anéis de Saturno, que pouco a pouco se começaram a unir constituindo estruturas rochosas de dimensões sempre crescentes, acabando por se aglomerarem em planetas. Um desses planetas, ainda incandescente, escapando inexplicavelmente às forças magnéticas que o sustinham num ponto exacto de uma galáxia, viu-se engolido num fino tubo de espaço-tempo – também conhecido como buraco de verme -, entrando num universo paralelo ligado ao nosso por um comprimento de onda que nos permite viajar no tempo.
A vida nesse planeta sem passado, presente ou futuro, não apareceu nos oceanos, como durante muitos anos se acreditou, mas sim em lagoas e pântanos – locais secos e quentes durante o dia, frios e húmidos de noite - nos quais longas cadeias de moléculas ficaram cativas associando-se espontaneamente em pequenas cadeias de ácidos nucleicos, formas simplificadas do ADN, que viriam a ser o futuro/ presente/ passado suporte da informação genética dos seres desse planeta.
Jajouka, assim se chamou/ chama/ chamaria esse planeta, nasceu da argila e os seres que nela habitavam/ habitam/ habitaram, eram compostos de poeira do meta big bang e continham neles toda a memória do universo.
É neste planeta que sempre existiu, existe, e nunca existirá, que foi concebido este espectáculo, que retracta A Arte na era do porquinho Babe.
MENU
ENTRADA – Souflée de Mental Noise, servido akusmaticamente por Ilsa D´Orzac, acompanhado de esculturas metalizadas à lá Rui Chafes.
COUVERT – Sons eletrónicos marinados em laptop por D.W.ART
APETIZER – Strawb Rock au vapeur com voz de Bernardo Devlin
VEG DISH – Manifesto fresquinho com vídeo pedagógico e gritos de animais por Paulo Borges & Vítor Rua & Ilsa D´Orzac
CONSUMÉ – Performance apimentada por Carlos Zíngaro e Ainoah Vidal
PRATO I – Bateria cortada às fatias com facas por Marco Franco & Iana Reis
PRATO II – Contrabaixo salteado com piano preparado por Hernâni Faustino & Manuel Guimarães
VEG LYRIC – Canção com coração e alma por Rita Braga
FAST FOOD – Brain Waves com óculos de luz no forno por Karlheinz Andrade
DESSERT – Salada de sons improvisados com molho de performance regado em vídeo art por Vítor Rua & Carlos Zíngaro & Manuel Guimarães & Hernâni Faustino & Marco Franco & Ilsa D´Orzac & Sílvia Tengner
Umas dezenas de microssegundos após esta explosão o universo era já um caldo primitivo de quarks e gluões e um quadragésimo de microssegundo depois, quando a temperatura já tinha descido um bilião de graus, os quarks uniram-se para gerarem os nucleões: protões e neutrões.
Foi um pouco como um pudim que se mete no forno: à medida que incha, as passas afastam-se umas das outras. Poeiras interestelares iniciaram uma dança em volta de embriões de estrelas, formando discos análogos aos anéis de Saturno, que pouco a pouco se começaram a unir constituindo estruturas rochosas de dimensões sempre crescentes, acabando por se aglomerarem em planetas. Um desses planetas, ainda incandescente, escapando inexplicavelmente às forças magnéticas que o sustinham num ponto exacto de uma galáxia, viu-se engolido num fino tubo de espaço-tempo – também conhecido como buraco de verme -, entrando num universo paralelo ligado ao nosso por um comprimento de onda que nos permite viajar no tempo.
A vida nesse planeta sem passado, presente ou futuro, não apareceu nos oceanos, como durante muitos anos se acreditou, mas sim em lagoas e pântanos – locais secos e quentes durante o dia, frios e húmidos de noite - nos quais longas cadeias de moléculas ficaram cativas associando-se espontaneamente em pequenas cadeias de ácidos nucleicos, formas simplificadas do ADN, que viriam a ser o futuro/ presente/ passado suporte da informação genética dos seres desse planeta.
Jajouka, assim se chamou/ chama/ chamaria esse planeta, nasceu da argila e os seres que nela habitavam/ habitam/ habitaram, eram compostos de poeira do meta big bang e continham neles toda a memória do universo.
É neste planeta que sempre existiu, existe, e nunca existirá, que foi concebido este espectáculo, que retracta A Arte na era do porquinho Babe.
MENU
ENTRADA – Souflée de Mental Noise, servido akusmaticamente por Ilsa D´Orzac, acompanhado de esculturas metalizadas à lá Rui Chafes.
COUVERT – Sons eletrónicos marinados em laptop por D.W.ART
APETIZER – Strawb Rock au vapeur com voz de Bernardo Devlin
VEG DISH – Manifesto fresquinho com vídeo pedagógico e gritos de animais por Paulo Borges & Vítor Rua & Ilsa D´Orzac
CONSUMÉ – Performance apimentada por Carlos Zíngaro e Ainoah Vidal
PRATO I – Bateria cortada às fatias com facas por Marco Franco & Iana Reis
PRATO II – Contrabaixo salteado com piano preparado por Hernâni Faustino & Manuel Guimarães
VEG LYRIC – Canção com coração e alma por Rita Braga
FAST FOOD – Brain Waves com óculos de luz no forno por Karlheinz Andrade
DESSERT – Salada de sons improvisados com molho de performance regado em vídeo art por Vítor Rua & Carlos Zíngaro & Manuel Guimarães & Hernâni Faustino & Marco Franco & Ilsa D´Orzac & Sílvia Tengner
"É por gula que os homens recusam a razão e portanto o direito de viver aos animais"
"É por gula que os homens recusam a razão e portanto o direito de viver aos animais: narcisismo humano, "soberba", philautia ou mau amor de si mesmo, explicável pela pléonexia, a avidez, o desejo injusto de se estender sobre os direitos de outrem, na ocorrência o desejo de comer sempre mais, em detrimento de outras vidas"
- Elisabeth de Fontenay, La raison du plus fort [resumindo o pensamento de Plutarco].
- Elisabeth de Fontenay, La raison du plus fort [resumindo o pensamento de Plutarco].
Pontes
Pontes. Sempre gostei da ideia de ponte. Da noção de ter algo a ligar duas margens distintas e distantes. E gosto sobretudo das pontes que não são visíveis nem palpáveis e que unem margens improváveis.
Improbabilidade – ora aí está uma ideia que também me agrada.
(Gosto muito de ideias. Mas talvez vos fale disso numa outra oportunidade, se não se importarem.)
As margens que se ligam de forma improvável são ricas e únicas. Proporcionam caminhos que se fazem uma vez. Viagens de ida e sem volta. Sem volta, porque quando as margens improváveis se ligam, não há volta a dar.
E não há mesmo, pois nas minhas pontes improváveis não há lugar para rotundas onde seja possível dar uma volta e regressar. O caminho é um. Aquele, e não outro. E de uma margem posso sempre caminhar no sentido de outra, demorando-me o quanto baste aqui e ali.
Hoje demoro-me nesta ponte, cujo nevoeiro me desafia a permanecer e a descobrir o que nele se esconde.
Texto de Joana Sousa | fotografia de Marco A. Pires | projecto olhar a palavra
Etiquetas:
olhar a palavra
DIÁLOGO BREVE
CARMINA BURANA
de ouvido pouco afeito aos caprichos da música, devo confessar-me feliz quando dei por mim a identificar com precisão a composição de origem medieval. De Carl Orff- até ousei acrescentar apenas de memória
nesta noite fiquei nos últimos lugares, numa cadeira de plástico mesmo ao lado do operador que rege (gere?) o SOM. No fim apoteótico da peça resolvo exibir os meus conhecimentos musicais, atirando ao homem da mesa-de-mistura:
- Carmina Burana?
ao que o empenhado técnico respondeu:
- não, esta noite é Mafalda Veiga
sábado, 5 de junho de 2010
Houve um tempo
sem hora marcada
sem dia nem noite
um tempo sem tempo
com tempo de ser
Abracei teu peito
beijei-te sem medo
e o sol nasceu cedo
dando conta do tempo
Muda a hora
o dia se prolonga na noite
roubando cada manhã
Nasço e morro num dia
Antes bato as asas
Voo e viajo
Tão doce é o presente
Tempo de sempre
Tão tempo de ser
sem hora marcada
sem dia nem noite
um tempo sem tempo
com tempo de ser
Abracei teu peito
beijei-te sem medo
e o sol nasceu cedo
dando conta do tempo
Muda a hora
o dia se prolonga na noite
roubando cada manhã
Nasço e morro num dia
Antes bato as asas
Voo e viajo
Tão doce é o presente
Tempo de sempre
Tão tempo de ser
Um novo paradigma: o Estado ecológico
"Se se considera a primeira vocação da filosofia política, não me parece exagerado acrescentar esta nova característica do Estado racional: o Estado de direito social e democrático deve integrar também uma dimensão ecológica. Entendo por isso que a conservação dos fundamentos naturais da vida deve constituir uma das funções principais do Estado. Todo o Estado que não cumpra esta tarefa perde a sua legitimidade [...]"
- Vittorio Hösle, Philosophie de la Crise Écologique, tradução de Matthieu Dumont, Marselha, Éditions Wildproject, 2009, p.194.
- Vittorio Hösle, Philosophie de la Crise Écologique, tradução de Matthieu Dumont, Marselha, Éditions Wildproject, 2009, p.194.
reconstrução
aeróstato
zepeline
passarola
balão
quanto mais me sonhei
menos consegui passar de
grácil
frágil
efémera
bolinha de sabão
sexta-feira, 4 de junho de 2010
permanecer

“Deixa-te estar aqui,
perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas,
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui,
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui.
Prossegue nos gestos,
não pares,
procura permanecer,
sempre presente,
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás,
de maneira a poder dizer sou isto é certo,
mas sei que tu estás aqui.”
Ruy Belo, Toda a Terra-Todos os Poemas
Foto: A.R. Dias
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Ressurreição
Gemem nos infernos da terra desolada
As árvores secas negras e queimadas
Assim gememos nós
Defuntos infantes de uma Terra Pura
Errantes no limbo da saudade
Do que nunca foi nem pode ser
Mas instante cresce e vem
Com o irreprimível fulgor do inadiável
As suas raízes são as nossas
Febris veias sinuosas
Afundando-se e alastrando silenciosas
Nas auroras negras que há por dentro das coisas
A revolver o íntimo do mundo em insónias e espantos
Espectros lentos que sobem à tona
Chamas surdas que crepitam e crescem
A lavrar o íntimo da imensidão
Que tarda em amanhecer
Ó turba que adias o despertar
Da rumorejante noite do haver
Sepultos no âmago dos mundos
Alucinados assomamos aos berços aos afagos e aos rostos
Ao riso e às lágrimas
Da faminta aurora do existir
Aos sepulcros caiados do que parece
Ao delírio do nascer e morrer
E assim rondamos na roda do desejo
Que a própria boca outra sempre beija
E o alucinado devir sem fim renova
Mas o que agora, ó Irmãos, vem
Por entre este murmurante e tépido renovar do mundo
Por entre este amoroso halo que às coisas nimba
Por entre estas ridentes e floridas núpcias de tudo
Por entre estas danças cantos coroas e grinaldas
É outra coisa
É a vera verdade prima
Primavera do despertar que nunca conheceu sono
O eterno vivente na orla sem margens do existir
O que ressuma da ânsia da terra queimada
E do silente gemido das vidas e das coisas
O que cresce do fundo de o não haver
E em cada um de nós se faz alento e carne
No súbito espanto de tudo
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
É mistério maior que o haver mundo
Mistério maior que o haver
Tal qual maior que todo o mistério
É o jamais termos sido possíveis
É o jamais ter havido alguma coisa
E sequer a ideia de haver
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
É a eterna e instante Ressurreição
De nada jamais ter início
E assim, mas de outro modo
Oblíquo, fulgurante e maravilhoso
Tudo ser afinal e sempre possível
O que agora se celebra e canta é este prodígio natural
De nada ser um
Esta revoada de corpos
Que, ígneas pombas bravas, do imo de cada poro
Em adamantinos ímpetos se nos elevam
E súbito se transmudam em miríades de vidas várias loucas e impossíveis
A multiplicarem-se ébrias das infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há no esplendoroso vazio de tudo
Ó turbamulta cascata vertigem abismo
De tudo quanto passado presente futuro
Se viveu vive viverá
E aqui agora simultaneamente se vive imagina pensa sente
De tudo quanto sem acontecer ocorre
De tudo o que se agita raiva e revolve
Em dor júbilo medo esperança
No fundo sem fundo
Da terrível e fantástica inconsciência disso
É esse o grande tumulto que aqui agora
Neste e em todos os cantos
Neste e em todos os poemas
Dos fundos da terra queimada desponta
O grande clamor das árvores mirradas retorcidas sedentas
O grande clamor dos mortos desatentos esquecidos
Rompendo eras mundos infernos
em rebentos viços e seivas novas
Das árvores nossos corpos amotinados insubmissos amantes
Estendendo grandes ramos
Vigorosos braços pulsantes
Em filigrana ao espaço cingidos
Nossos corpos uns aos outros abraçados enxertados fundidos
Multiplicados em folhas flores frutos
Espontaneamente jovens e maduros
Explosivos de tão plenos tão frementes tão puros
E neles todos os nossos sonhos as nossas alucinações a nossa loucura
Todas as vidas todas as mortes
Todas as lágrimas todas as fezes todo o sangue
Todo o furor toda a impotência
Toda a fome toda a sede todo o cio
Todos os encontros todas as perdas todas as despedidas
Todo o ranger de dentes todo o tactear às escuras
Todas as alegrias todos os pasmos todos os júbilos
Todas as esperanças todos os desenganos
Todo o vício toda a virtude
Todos os crimes todas as expiações
Todos os infernos todos os mundos todos os céus todos os paraísos
Tudo isso e o seu rotundo nada
O seu imenso vazio a sua prodigiosa evanescência
Em cada fruto brilhante e pleno que da miríade de nossos ramos pende
Imperioso e súbito se avoluma até eclipsar o espaço
E neste mesmo instante em torrencial vertigem de luz explode
Branco
Vermelho
Negro
.........................................
Agora pode enfim haver mundo
Sonho eternamente livre de o ser
Todos os seres infantes sem nome sem pais sem pátria sem casa
Todos os fenómenos danças cantos hinos jogos
Todos os sons poesia muda
Todos os pensamentos invisíveis asas
Omnipresentes no infinito do espaço que não há
Todas as coisas
Ressurreição de as haver
Todas as coisas
Ressurreição
De a haver
As árvores secas negras e queimadas
Assim gememos nós
Defuntos infantes de uma Terra Pura
Errantes no limbo da saudade
Do que nunca foi nem pode ser
Mas instante cresce e vem
Com o irreprimível fulgor do inadiável
As suas raízes são as nossas
Febris veias sinuosas
Afundando-se e alastrando silenciosas
Nas auroras negras que há por dentro das coisas
A revolver o íntimo do mundo em insónias e espantos
Espectros lentos que sobem à tona
Chamas surdas que crepitam e crescem
A lavrar o íntimo da imensidão
Que tarda em amanhecer
Ó turba que adias o despertar
Da rumorejante noite do haver
Sepultos no âmago dos mundos
Alucinados assomamos aos berços aos afagos e aos rostos
Ao riso e às lágrimas
Da faminta aurora do existir
Aos sepulcros caiados do que parece
Ao delírio do nascer e morrer
E assim rondamos na roda do desejo
Que a própria boca outra sempre beija
E o alucinado devir sem fim renova
Mas o que agora, ó Irmãos, vem
Por entre este murmurante e tépido renovar do mundo
Por entre este amoroso halo que às coisas nimba
Por entre estas ridentes e floridas núpcias de tudo
Por entre estas danças cantos coroas e grinaldas
É outra coisa
É a vera verdade prima
Primavera do despertar que nunca conheceu sono
O eterno vivente na orla sem margens do existir
O que ressuma da ânsia da terra queimada
E do silente gemido das vidas e das coisas
O que cresce do fundo de o não haver
E em cada um de nós se faz alento e carne
No súbito espanto de tudo
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
É mistério maior que o haver mundo
Mistério maior que o haver
Tal qual maior que todo o mistério
É o jamais termos sido possíveis
É o jamais ter havido alguma coisa
E sequer a ideia de haver
O que agora se celebra e canta, ó Irmãos
É a eterna e instante Ressurreição
De nada jamais ter início
E assim, mas de outro modo
Oblíquo, fulgurante e maravilhoso
Tudo ser afinal e sempre possível
O que agora se celebra e canta é este prodígio natural
De nada ser um
Esta revoada de corpos
Que, ígneas pombas bravas, do imo de cada poro
Em adamantinos ímpetos se nos elevam
E súbito se transmudam em miríades de vidas várias loucas e impossíveis
A multiplicarem-se ébrias das infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há nas infinitas possibilidades que há no esplendoroso vazio de tudo
Ó turbamulta cascata vertigem abismo
De tudo quanto passado presente futuro
Se viveu vive viverá
E aqui agora simultaneamente se vive imagina pensa sente
De tudo quanto sem acontecer ocorre
De tudo o que se agita raiva e revolve
Em dor júbilo medo esperança
No fundo sem fundo
Da terrível e fantástica inconsciência disso
É esse o grande tumulto que aqui agora
Neste e em todos os cantos
Neste e em todos os poemas
Dos fundos da terra queimada desponta
O grande clamor das árvores mirradas retorcidas sedentas
O grande clamor dos mortos desatentos esquecidos
Rompendo eras mundos infernos
em rebentos viços e seivas novas
Das árvores nossos corpos amotinados insubmissos amantes
Estendendo grandes ramos
Vigorosos braços pulsantes
Em filigrana ao espaço cingidos
Nossos corpos uns aos outros abraçados enxertados fundidos
Multiplicados em folhas flores frutos
Espontaneamente jovens e maduros
Explosivos de tão plenos tão frementes tão puros
E neles todos os nossos sonhos as nossas alucinações a nossa loucura
Todas as vidas todas as mortes
Todas as lágrimas todas as fezes todo o sangue
Todo o furor toda a impotência
Toda a fome toda a sede todo o cio
Todos os encontros todas as perdas todas as despedidas
Todo o ranger de dentes todo o tactear às escuras
Todas as alegrias todos os pasmos todos os júbilos
Todas as esperanças todos os desenganos
Todo o vício toda a virtude
Todos os crimes todas as expiações
Todos os infernos todos os mundos todos os céus todos os paraísos
Tudo isso e o seu rotundo nada
O seu imenso vazio a sua prodigiosa evanescência
Em cada fruto brilhante e pleno que da miríade de nossos ramos pende
Imperioso e súbito se avoluma até eclipsar o espaço
E neste mesmo instante em torrencial vertigem de luz explode
Branco
Vermelho
Negro
.........................................
Agora pode enfim haver mundo
Sonho eternamente livre de o ser
Todos os seres infantes sem nome sem pais sem pátria sem casa
Todos os fenómenos danças cantos hinos jogos
Todos os sons poesia muda
Todos os pensamentos invisíveis asas
Omnipresentes no infinito do espaço que não há
Todas as coisas
Ressurreição de as haver
Todas as coisas
Ressurreição
De a haver
quarta-feira, 2 de junho de 2010
10 de Junho - Colóquio "A Missão de Portugal no Mundo": Portugal, que Futuro? (últimas inscrições abertas)

Programa
9H – ACREDITAÇÃO
10H – ABERTURA E BOAS VINDAS AOS COLÓQUIOS 2010 – LUIS RESINA
10H30 – 11h20 - PAULO BORGES – “UMA VISÃO ARMILAR DO MUNDO: A VOCAÇÃO UNIVERSAL DE PORTUGAL E DA LUSOFONIA “
11h20 - 12h10 - FERNANDO ALBUQUERQUE - “A FUNDAÇÃO DO REINO” “suas implicações no Ciclo 1917 – 2012”
12h10 – 13h00 – MARIA FLÁVIA DE MONSARAZ- “ Portugal Astrológico-O Mito e o Destino “
13H30 – 15H – ALMOÇO
15H – 15H50 - JOSÉ MANUEL ANES – “ Portugal e o Império do Espírito Santo “
15H50 – 16H40 – MIGUEL REAL - "A Europa de Hoje e o Portugal de Amanhã“
16H40 – 17H20 – LUIS RESINA – “ Os Grandes Ciclos da Alma Portuguesa “
17H20 – 17H50 – COFFEE BREAK
17H50 – 18H40 – MARCO RODRIGUES – “ Movimento Evolucionário, Frente Evolucionária, Aglutinação dos potenciais evolucionistas e revolucionários da Alma Portuguesa”
18H50 – 19H20 – QUESTÕES EM PLENÁRIO (resposta a perguntas postas por escrito ao longo do dia e sorteadas )
19H20 FECHO COM CONCERTO DO CORO RICERCARE EM HOMENAGEM A PORTUGAL
Porquê falar hoje da Missão de Portugal no Mundo? Haverá ainda uma Alma genuinamente Portuguesa? Se sim, quais as suas características e a sua missão? Qual será a Mensagem que a Alma Lusíada tem de manifestar para que Portugal possa cumprir o seu desígnio? Para dar resposta a estas questões, resolvemos lançar um repto aos intelectuais, pensadores e espiritualistas deste país para sabermos se ainda temos valores fundamentais com os quais nos identifiquemos verdadeiramente de corpo e alma. Em caso afirmativo o que podemos fazer com isso? Caso contrário, iremos continuar a ser vítimas de nós próprios, subjugados a um sistema social e político maioritariamente assente nas leis do capital, na competição e no desrespeito pelos valores humanos e pelas leis da natureza? Este é o convite lançado a todos os oradores, escritores e pessoas interessadas nesta temática de toda a comunidade lusófona, que sob a forma presencial ou escrita, queiram participar e colaborar neste evento.
Para quem queira enviar artigos para publicação, estes deverão ser dirigidos ao Jornal Milénio jornalmilenio@sapo.pt Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar ou a Luís Resina lresina@sapo.pt
Data e Local:
10 Junho quinta-feira Lisboa - Auditório da Estação de Metro do Alto dos Moinhos (Benfica)
Valor do Ingresso para o Colóquio a partir de 20 de Maio: 45 euros para o NIB -
003601069910004607297 (Ana Proença) / Estudantes: 10 euros
POST-SCRIPTUM
I
Mais pourquoi de leur cendre évoquer ces journées
Que les dédains publics effacent en passant?
Entre elles et ce jour ont marché douze années :
Oublions et la faute et la fuite et le sang,
Et les corruptions des pâles adversaires
-Non. Dans l'histoire il est de noirs anniversaires
Dont le spectre revient pour troubler le présent.
II
Il revient quand l'orgueil des obstinés coupables
Sort du limon confus des Révolutions
Où pêle-mêle on voit tomber les incapables,
Pour nous montrer encor ses vieilles passions
Et hurler à grands cris quelque sombre horoscope
. -En observant la vase aux feux d'un microscope,
On voit dans les serpents ces agitations.
III
S'agiter et blesser est l'instinct des vipères;
L'homme ainsi contre l'homme a son instinct fatal :
Il retourne ses dards et nourrit ses colères
Au réservoir caché de son poison natal.
Dans quelque cercle obscur qu'on les ait vus descendre,
Homme ou serpent, blottis sous le verre ou la cendre,
Mordront le diamant ou mordront le cristal
.
IV
Le Cristal, c'est la vue et la clarté du JUSTE,
Du principe éternel de toute vérité,
L'examen de soi-même au tribunal auguste
Où la Raison, l'Honneur, la Bonté, l'Equité,
La Prévoyance à l'oeil rapide et la Science
Délibèrent en paix devant la Conscience
Qui, jugeant l'action, régit la Liberté.
V
Toujours sur ce Cristal, rempart des grandes âmes,
La langue du sophiste ira heurter son dard.
Qu'il se morde lui-même en ses détours infâmes,
Qu'il rampe aveugle et sourd dans l'éternel brouillard.
Oublié, méprisé, qu'il conspire et se torde,
Ignorant le vrai Beau, qu'il le souille et qu'il morde
Ce Diamant que cherche en vain son faux regard.
VI
Le Diamant? c'est l'art des choses idéales,
Et ses rayons d'argent, d'or, de pourpre et d'azur
Ne cessent de lancer les deux lueurs égales
Des pensers les plus beaux, de l'amour le plus pur.
Il porte du Génie et transmet les empreintes.
Oui, de ce qui survit aux Nations éteintes
C'est lui le plus brillant trésor et le plus dur.
28 mars 1862.
Alfred de Vigny (1797-1863)
Mais pourquoi de leur cendre évoquer ces journées
Que les dédains publics effacent en passant?
Entre elles et ce jour ont marché douze années :
Oublions et la faute et la fuite et le sang,
Et les corruptions des pâles adversaires
-Non. Dans l'histoire il est de noirs anniversaires
Dont le spectre revient pour troubler le présent.
II
Il revient quand l'orgueil des obstinés coupables
Sort du limon confus des Révolutions
Où pêle-mêle on voit tomber les incapables,
Pour nous montrer encor ses vieilles passions
Et hurler à grands cris quelque sombre horoscope
. -En observant la vase aux feux d'un microscope,
On voit dans les serpents ces agitations.
III
S'agiter et blesser est l'instinct des vipères;
L'homme ainsi contre l'homme a son instinct fatal :
Il retourne ses dards et nourrit ses colères
Au réservoir caché de son poison natal.
Dans quelque cercle obscur qu'on les ait vus descendre,
Homme ou serpent, blottis sous le verre ou la cendre,
Mordront le diamant ou mordront le cristal
.
IV
Le Cristal, c'est la vue et la clarté du JUSTE,
Du principe éternel de toute vérité,
L'examen de soi-même au tribunal auguste
Où la Raison, l'Honneur, la Bonté, l'Equité,
La Prévoyance à l'oeil rapide et la Science
Délibèrent en paix devant la Conscience
Qui, jugeant l'action, régit la Liberté.
V
Toujours sur ce Cristal, rempart des grandes âmes,
La langue du sophiste ira heurter son dard.
Qu'il se morde lui-même en ses détours infâmes,
Qu'il rampe aveugle et sourd dans l'éternel brouillard.
Oublié, méprisé, qu'il conspire et se torde,
Ignorant le vrai Beau, qu'il le souille et qu'il morde
Ce Diamant que cherche en vain son faux regard.
VI
Le Diamant? c'est l'art des choses idéales,
Et ses rayons d'argent, d'or, de pourpre et d'azur
Ne cessent de lancer les deux lueurs égales
Des pensers les plus beaux, de l'amour le plus pur.
Il porte du Génie et transmet les empreintes.
Oui, de ce qui survit aux Nations éteintes
C'est lui le plus brillant trésor et le plus dur.
28 mars 1862.
Alfred de Vigny (1797-1863)
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Já me cansa o mar,
sempre aquele mesmo vai e vem das ondas,
a paisagem fixa do poente quase a desmaiar,
o pontinho negro lá ao fundo de uma embarcação
a confundir-nos com um pássaro que regressa,
o vendedor de gelados a puxar pelas veias do pescoço para gritar,
a bandeira verde,
amarela e vermelha, sem gente para tomar conta,
porque ser e nada é a mesma cousa
os godos qua atiramos à agua e voltam,
a areia fina e molhada que escreve os nomes,
a areia grossa que não deixa escrever os nomes,
os amantes nas dunas em espectáculos ao ar livre,
os homens de camisa aos quadrados à pescador
mas que não são pescadores,
a espuma do mar que nunca chega a dizer para que serve.
Também me cansa a terra,
os automóveis alterados, já sem cor primária,
as ruas largas onde cabem cinquenta mil pessoas sem
nenhum grau de parentesco entre nenhuma delas, as lojas
com manequins modernamente equipados a fazer
de chamariz, as fontes ali esquecidas, substituídas
pelas águas em garrafas de plástico, os semáforos
intermitentes a esquecer memórias, os sinais de proibição a decidir
para que lado tenho de ir, os cães à espera de um dono, os chulos
a falar de literatura, as casas valentemente arquitectadas a
esganarem-se umas às outras,
os jardins onde os homens libertam cheiros dos sovacos.
Também me cansa o ar,
o sol a mostrar quem manda, as estrelas de aluminio,
o azul que cá para mim nem sabe ser claro nem escuro,
as nuvens carregadas de revolta e há quem diga que é de chuva,
o deus lá mais em cima, muito lá em cima,
a imprimir livros de banda desenhada, a festejar os seus milhões de anos,
os anjos mudos, o vento mortinho por se revelar, os relâmpagos a fazer dos homens tão pequeninos.
Cansa tudo isto, sempre esta dor revestida de veludo,
as manhãs,
as tardes e as noites a disputarem o dia, os relógios de pulso
a quererem ser donos do tempo, a dona Maria à janela
a perguntar se esta semana escrevi para o jornal,
e sobre quê,
as crianças que chutam a bola sem direcção, as árvores tristes
por não conseguirem vergar a espinha,
os gatos de língua presa no novelo, as mãos sem pulso
o senhor Dantas a dizer que se não fosse o destino
daria um bom guarda-redes, o cardeal que quando se lembra
põe-se a cantar à varanda. O amor escondido no colo de um filho da mãe.
Cansa-me perguntar onde dormem os pássaros,
elaborar sonetos para atingir o amor, acender um cigarro já aceso,
lembrar a vida, esquecer a morte,
lembrar a morte, esquecer a vida, passar a ferro os poemas amarrotados,
enlouquecer por uma ninharia, cansa dizer caramba,
mais aquela dor exótica do romancista, meditar sobre a palavra palavra,
perdoar a masculinidade da solidão, entrar em guerra para sair em paz.
Cansa-me pensar que amanhã voltarei a pensar em tudo isto,
no mar,
na terra,
no céu da minha boca, na minha idade à beira rio,
no sol que me aleijou, na carga que tive de deitar borda fora do silêncio.
Por bem existe um poema de tempo interminável,
versos de muletas à espera de ficarem curados,
sonhos na manga que um deus não soube bem costurar,
pedaços de nada e fartura, rimas por rimar, a loucura sem tratante,
cores,
música,
vinhas simbólicas que o poeta transformará em pétalas,
água, mistério, ruínas,
comboios por cima das cabeças,
ilusões retalhadas a canivete,
lume, pedra,
sombra na sombra,
flor, grito, coração recheado com baunilha,
gaveta, e tudo o que a verdade mentir,
tudo isto é preciso para a vida inteira,
para a morte incompleta,
a saber que o Ser é muitas coisas,
tantas outras que até o gato comeu, já que, depois da festa,
só a poesia salva!
sempre aquele mesmo vai e vem das ondas,
a paisagem fixa do poente quase a desmaiar,
o pontinho negro lá ao fundo de uma embarcação
a confundir-nos com um pássaro que regressa,
o vendedor de gelados a puxar pelas veias do pescoço para gritar,
a bandeira verde,
amarela e vermelha, sem gente para tomar conta,
porque ser e nada é a mesma cousa
os godos qua atiramos à agua e voltam,
a areia fina e molhada que escreve os nomes,
a areia grossa que não deixa escrever os nomes,
os amantes nas dunas em espectáculos ao ar livre,
os homens de camisa aos quadrados à pescador
mas que não são pescadores,
a espuma do mar que nunca chega a dizer para que serve.
Também me cansa a terra,
os automóveis alterados, já sem cor primária,
as ruas largas onde cabem cinquenta mil pessoas sem
nenhum grau de parentesco entre nenhuma delas, as lojas
com manequins modernamente equipados a fazer
de chamariz, as fontes ali esquecidas, substituídas
pelas águas em garrafas de plástico, os semáforos
intermitentes a esquecer memórias, os sinais de proibição a decidir
para que lado tenho de ir, os cães à espera de um dono, os chulos
a falar de literatura, as casas valentemente arquitectadas a
esganarem-se umas às outras,
os jardins onde os homens libertam cheiros dos sovacos.
Também me cansa o ar,
o sol a mostrar quem manda, as estrelas de aluminio,
o azul que cá para mim nem sabe ser claro nem escuro,
as nuvens carregadas de revolta e há quem diga que é de chuva,
o deus lá mais em cima, muito lá em cima,
a imprimir livros de banda desenhada, a festejar os seus milhões de anos,
os anjos mudos, o vento mortinho por se revelar, os relâmpagos a fazer dos homens tão pequeninos.
Cansa tudo isto, sempre esta dor revestida de veludo,
as manhãs,
as tardes e as noites a disputarem o dia, os relógios de pulso
a quererem ser donos do tempo, a dona Maria à janela
a perguntar se esta semana escrevi para o jornal,
e sobre quê,
as crianças que chutam a bola sem direcção, as árvores tristes
por não conseguirem vergar a espinha,
os gatos de língua presa no novelo, as mãos sem pulso
o senhor Dantas a dizer que se não fosse o destino
daria um bom guarda-redes, o cardeal que quando se lembra
põe-se a cantar à varanda. O amor escondido no colo de um filho da mãe.
Cansa-me perguntar onde dormem os pássaros,
elaborar sonetos para atingir o amor, acender um cigarro já aceso,
lembrar a vida, esquecer a morte,
lembrar a morte, esquecer a vida, passar a ferro os poemas amarrotados,
enlouquecer por uma ninharia, cansa dizer caramba,
mais aquela dor exótica do romancista, meditar sobre a palavra palavra,
perdoar a masculinidade da solidão, entrar em guerra para sair em paz.
Cansa-me pensar que amanhã voltarei a pensar em tudo isto,
no mar,
na terra,
no céu da minha boca, na minha idade à beira rio,
no sol que me aleijou, na carga que tive de deitar borda fora do silêncio.
Por bem existe um poema de tempo interminável,
versos de muletas à espera de ficarem curados,
sonhos na manga que um deus não soube bem costurar,
pedaços de nada e fartura, rimas por rimar, a loucura sem tratante,
cores,
música,
vinhas simbólicas que o poeta transformará em pétalas,
água, mistério, ruínas,
comboios por cima das cabeças,
ilusões retalhadas a canivete,
lume, pedra,
sombra na sombra,
flor, grito, coração recheado com baunilha,
gaveta, e tudo o que a verdade mentir,
tudo isto é preciso para a vida inteira,
para a morte incompleta,
a saber que o Ser é muitas coisas,
tantas outras que até o gato comeu, já que, depois da festa,
só a poesia salva!

“A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua,
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra.
A mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar,
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo? “
Pedro Tamen, A Luz que Vem das Pedras
O que é para mim a Poesia
Vi um anjo na pedra e lutei com ela até o libertar.
Michelangelo
I know nothing in the world
that has as much power as a word.
Sometimes I write one, and I
look at it, until it begins to shine.
Emily Dickinson
Estes dois, o poeta da pedra e a poetisa da palavra, conseguem expressar o mais profundo significado que a poesia tem para mim. Imaginemos que as palavras são como pedrinhas. O não-poeta, o que se julga poeta, mas não o é, pega nas pedrinhas e junta-as, chamando a esse conjunto um poema. O poeta não. O poeta respeita as palavras, respeita as pedrinhas, como Michelangelo respeitava as pedras. Cada palavra tem em si um anjo aprisionado. Não basta juntar palavras bonitas e amontoá-las. O poeta sabe o lugar de cada uma em relação a todas as outras. Todas as palavras têm um anjo e são igualmente importantes, mas o anjo só é libertado pela sinergia entre elas, pela colocação de cada uma delas no lugar certo. Então, o poeta, junta as palavras, como pedras e sabe quais as palavras que ligam umas com as outras, quais as que pertencem a outro poema e guarda essas. Depois pega nas que sobraram e coloca-as no lugar certo umas em relação às outras e elas começam a emitir um ligeiro brilho. Mas não é o brilho da poesia. É o brilho do despertar da poesia. Há que guardar mais algumas palavras ou procurar uma que está escondida. E depois ainda há que baralhá-las de novo e respeitar a distância ou o amor entre elas. E polir o espaço entre elas e algumas palavras são como estrelas no céu, mas outras como laços de seda ou veludo da cor da noite, outras ainda como caules ou rios, umas pulsam, outras descansam. E começam a brilhar com a luz da poesia e o poeta apaixona-se por elas e é com esse amor que lhes dá o polimento final que liberta o anjo nelas. E só então temos um poema. E o conhecimento do poeta para fazer isto vem da sabedoria e verdade iniciais. De nenhum outro lugar. E é por esta razão que todo o poema, todo o poema verdadeiro, se inicia com um despertar. Não das palavras, mas do poeta.
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