
domingo, 11 de outubro de 2009
Amor Imparcial

Recomendo
Na dança segue princípios terapêuticos, procurando aumentar o bem-estar. Ao aumentar a consciência do corpo e da mente estabelece uma melhor conexão com os outros e com o ambiente.
As aulas da Ulla Janatuinen são construídas com o intuito de vitalizar o corpo e esclarecer a mente. As aulas são dirigidas tanto para pessoas com experiência na dança, como para pessoas sem experiência. Procura-se transmitir maneiras fáceis e agradáveis de usufruir do movimento corporal, prolongando o bem-estar adquirido para além das aulas.
“Eu acredito que cada um de nós tem uma capacidade natural de dançar e partilhar a energia com os outros, através do movimento. O meu objectivo é aumentar a harmonia entre o corpo a mente. Aprender a ouvirmo-nos a nós próprios é o primeiro passo neste caminho, e a dança é um óptimo meio para chegar lá. ”
Buscamos através do movimento fazer um reencontro com nós próprios, descobrir as nossas tensões e hábitos corporais e permitir a mudança. Explorando o movimento e a consciência corporal, com base em técnicas de Dança Contemporânea e Terapia da Dança e Movimento, procuramos encontrar um novo equilíbrio físico e psicológico.
Contactos: Ulla Janatuinen 967841441 ujanatui@hotmail.com
sábado, 10 de outubro de 2009
Saudação
É do rumor fundo e eterno do silêncio
Que a voz evoca a narrativa trágica
Fomos, em algum tempo, traídos pelo Tempo
É por ele que libertamos a palavra
Para que o Amor seja o rumor de fundo
Que o dia guarda na sua mão fechada
E a palavra desenhe no coração do drama
Os símbolos e os signos da nossa história antiga
O que não pode ter voz que não seja metáfora,
O que não se arruma na estrutura de um verso,
de uma sílaba, de um som
Não pode cair na infâmia de um grito!
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
mel e cinzas

e sobre o que de verde se aproxima
sacadas, caminhos que se estendem
num abraço acalmado a par e passo
cada passeio das espessas avenidas
todos os significados poemáticos
do pensamento, desta arte pintada
pela idade fotográfica do verde
bosque, do verde o mar, da árvore
ponte enigmática, do jardim,
estreitos, que mal se desenrolam
na clara distância mosqueada
pela divina caixa que brilha
as cúpulas e arcadas, os raios do sol,
todos os rugidos de mel cambiante,
efeitos que a luz adida produz
da beleza arrebatada ao infinito
à nascente de imagens original
diferença
Mal de te amar neste lugar de imperfeição,
Onde tudo nos quebra e emudece,
Onde tudo nos mente e nos separa."
Sophia de Mello Breyner Andresen,
Ritos do Punhal

Imagem: Google
O phurba ou phurba é um punhal ritual usado em rituais de exorcismo associados à escola Nyingma e simboliza a capacidade da sabedoria subjugar as forças malignas. A ponta afiada do punhal representa a sabedoria como ponto concentrado e parado que se fixa na contemplação da bondade. O phurba é usado em ritos que envolvem o "assassinar" de uma efígie humana que representa o mal que se pretende vencer. Este mal pode ser um inimigo do Dharma, mas também pode ser o "eu" inatamente egoísta. Como um utensílio riual primariamente da escola Nyingma, não reformada, o phurba é proibido a todos os membros da Gelukpa, excepto aos Dalai Lama, que desde o quinto Dalai Lama têm dado e recebido ensinamentos da doutrina e prática Nyingma.
John Peacock, O Caminho Tibetano de Vida, Morte e Renascimento, Plátano Editora, 2005, p.108
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Em todo o lado,
Mahavira

Imagem: Google
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
serpente, II

Que vale o orgulho? A dor é, como a vida, eterna.
Mas a força defende e a compaixão redime.
Sou, na humana floresta a planta heróica e terna.
Contra a violência um roble, e pura a prece um vime.
Por onde reviveu, silvando, a hidra de Lema,
Fuzilou no meu braço a cólera sublime.
Os monstros persegui de caverna em caverna,
Sufoquei de antro em antro a peste, a infâmia e o crime.
E, ó Homem, libertei-te!... E, enfim, depondo a clava,
Inerme semideus, sonhei, doce fiandeiro,
De roca e fuso, aos pés de Onfália, num arrulho...
Alma livre no assomo, e na piedade escrava,
Sou raio e beijo, ardor e alívio, águia e cordeiro.
A força que liberta, e o amor que vence o orgulho!
Hércules (Trilogia II),
por Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac
imagem: Hércules esmagando a serpente, fresco da casa de Vettius
O SENTIMENTO CÓSMICO DA VIDA - 9 de Outubro
PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA
O curso mostra como nalguns autores fundamentais da poesia
portuguesa contemporânea a experiência de si é inseparável da experiência
da totalidade do mundo, dos seres e das coisas, bem como, por vezes, do que
os transcende. Comentar-se-ão poemas de Antero de Quental, Guerra Junqueiro,
Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen,
Casimiro de Brito e António Ramos Rosa e reflectir-se-á sobre a sua
actualidade, no momento crítico que a humanidade atravessa na relação
consigo, a natureza e os seres vivos.
Orientado por Paulo Borges
4 sessões, a partir de 9 de Outubro, sempre às sextas (18h00-19h30)
Inscrições:
967049286 / 918113021
http://www.agostinhodasilva.pt
Rua do Jasmim, nº11 - 2º - 1220-228 Lisboa (ao Príncipe Real)
40 euros
desatenção
Melancolia dourada cintilação do que há de dentro brota
O favo da espera translúcida aparência do que vem
Ao lume da vida na inquietação do reverso da escuta
Toda a música é silente na suspensão da aurora
A audição das coisas deixa-as em cinza calcinadas de antecipação e saciedade
A ossatura do desejo são duas asas de bruma uma fuga a semear-se na treva do depois
Um susto contido pedra a pedra da anestesia de ser na habituação às coisas
Viver em suspensão a boca cerrada para as palavras de fogo
As mãos pescadas à linha para serem só instrumentos de repetição
Criaturas de fundura trazidas para o aquário das tardes fechadas por fora
O que vier assim afogado nas águas paradas da mesmidade
Não poderá furtar-se à contra-luz da surpresa
Essa fome de novidade que esconde o facto de tudo ser novo
A cada instante
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O Império das Luzes
Antes de Começar
A BONECA - É verdade!...Nesse tempo não sabia que tu eras como eu...
O BONECO - É verdade!...nem eu!...e podíamos ter falado tanto, dentro da algibeira!...Fartei-
me de puxar por ti!...
A BONECA - Eu não sabia que eras tu!
O BONECO - Era eu!
A BONECA - Porque não me disseste ao ouvido?
O BONECO - Eu não sabia que tu ouvias!
A BONECA - Pois ouvia!
O BONECO - E tu nunca te aborrecias de estar sempre na posição em que o Homem te tinha dei-
xado?
A BONECA - Punha-me a pensar...Pensei muito! Pus por ordem todas as coisas que aconteceram
comigo...Sei tudo de cor...
O BONECO - Conta, conta o que sabes!...
A BONECA - Só há uma coisa que eu não sei e que também aconteceu comigo...
O BONECO - O que foi?
A BONECA - Não sei explicar a razão por que são tão pequenas as pessoas que vêm todas as
noites ver o espectáculo!...
O BONECO - (Ri.) São assim tão pequenas porque ainda não chegaram a grandes...As pessoas pequenas chamam-se crianças.
A BONECA - Isso não sabia eu...Era a única coisa que eu não tinha sido capaz de compreender!...Via umas pessoas maiores e outras mais pequenas, e não sabia a razão.
O BONECO - Ah! Ah! Ah!
A BONECA - Naturalmente estás-me a enganar?...
O BONECO - Não te estou a enganar, não...estou a rir-me do que terás para contar se não sabias
que as pessoas antes de serem grandes começam por ser pequeninas!...(Ri.)
Almada Negreiros
in Antes de Começar
Colecção Baratinha, Raiz Editora, 1995
Do tornar-se igual a Deus como condição para o compreender
- Hermes Trismegisto, Corpus Hermeticum, XI, 20.
“O que chamamos começo é quase sempre fim / E atingir um fim é atingir um começo” - T.S. Eliot
E, contudo, ainda que por inteiro difiram, florescem como se fossem sebe do mesmo cercado:
Apego ao eu, às coisas e às pessoas, desapego
Do eu, das coisas e das pessoas; e, crescente entre ambas, uma indiferença
Que se assemelha às demais como a morte à vida,
entre duas vidas situada; inflorescente, entre
a ortiga viva e a morta. Eis a utilidade da memória
Para a libertação; não menos amor mas sim expansão dele
Mais lá do desejo, e libertação, pois,
Do futuro e do passado. É assim que o amor a um país
Começa por ser apego ao nosso campo de acção
e acaba por ter tal acção como de pequena monta
Conquanto nunca indiferente. A história pode ser servidão
Ou pode ser liberdade. Vede como agora rostos e lugares
se desvanecem junto com o eu que, conforme pôde, assim os amou
Para renovarem-se, transfigurados, segundo um outro padrão.
T.S. Eliot, Four Quartets, “Little Gidding”, III
(in:”Thomas Stearns Eliot, “Poems”, The World’s Poetry Archive, 2004, pág. 44)
mensagem

(mesmo depois depois de alguns dias sem comunicações, não nos demos por vencidas enviando mesmo assim uma mensagem...)
As duas habitantes de Anaedera, dão-lhe os parabéns pelo aniversário.
Agradecemos o contributo da sua criação numa serpente viva, que tem permitido desenvolvermos sentido estético de leitura e escrita, pela partilha de libertar o que nos vai na alma, na comunicação com os outros habitantes.
Obrigada pelos laços que tem criado entre nós e consigo.
Desejamos que esta nova fase, lhe retribua pelo fazer do que mais ama e com aqueles que mais estima!
E que a vida o surpreenda ainda muito mais, com mais beleza, mais amor e plena criação!
Cassilda e Natacha
Forró do Professô...
O que não recomeçou foi o calar de bico dos jararacas jubilados.
Será que não metem férias de asnear, quando passam a pasta e a cadeirinha a outros jericos doutores? Parece que não.
Broncos até ao "fazerem tijolo"!
Vêem como a escola faz mal à saúde?
PREVENÇÃO
(Para um sujeito que não me larga as canelas)
Se no soneto... sou quase perfeito
ao cabo de insistente labutar,
há que reconhecer, sem duvidar,
que em tudo o mais não tenho menos jeito,
sendo talvez até, provavelmente,
bastante mais certeiro e contundente!
JOÃO DE CASTRO NUNES
Coimbra, 6 de Outubro de 2009.
Entre os tais filhos da tal,
uns pequenos outros grandes,
uns bugalhos outros landes,
consoante cada qual,
há também que ter em conta,
equidistantes da ponta,
aqueles que desde logo,
estando fora do jogo,
são talvez, segundo creio,
por se encontrarem no meio,
os que inspiram mais receio:
são indivíduos ambíguos,
nem distantes nem contíguos,
que podem ser, afinal,
os veros... filhos da tal!
JCN
Os bloguistas que se comentam a si próprios... fazem-me lembrar aqueles que, nas festas, deitam os foguetes... e logo deitam a correr para apanhar... as canas. JCN
...
"Há outros bloguistas, entretanto, que me fazem lembrar aqueles que fazem a figura que eles crêem ver nos outros, ao ficarem a vê-los nas festas, a deitarem foguetes e a correrem para apanhar as canas (isto, é claro, se estas não caírem em cima dos ditos).
Assim, perdem a festa! Ou melhor, são a parte mais insignificante da festa: a risota a que sempre se prestam aqueles que não acham piada ao que a tem!"
Ele há cada poema, santo Deus!
que é de a gente fugir a sete pés
sem para trás olhar, nem de través,
como ante um pelotão de filisteus!
São pavorosos... pelo que respeita
ao tema, ao conteúdo, às intenções,
à falta de hrmonia, aos palavrões,
às formas... em que nada se aproveita!
Há que presente ter que a Poesia,
a bem dizer, de modo algum se casa
com sentimentos vis de grosseria!
Com seu disfarce de intelectuais,
ainda andam por aí, a arrastar a asa,
ocultamente... alguns neandertais!
JOÃO DE CASTRO NUNES
Coimbra, 5 de Outubro de 2009.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Parabens
E agora o momento por que todos esperavam ainda que o não soubessem: uma música de parabéns para o Paulo Borges.
Peço que abram as portas aos "anónimos" dos comentários, é a entrar!
Obrigada.
P B.mp3 -
"Balada ditirâmbica do pequeno e do grande filho-da-puta" - Alberto Pimenta
Aqui deixo, pois, este impertinente "textículo" de Alfredo Pimenta, dedicando-o aqui emocionadamente a Paulo Borges, como "presente de aniversário". Também ele bem conhece esta numerosa, rastejante e terçolhenta fauna. Com um forte e fraterno abraço.
Balada ditirâmbica
do pequeno e do grande filho-da-puta
I
o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.
todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.
II
o grande filho-da-puta
também sem certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multipliccação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.
Alberto Pimenta
Sagrado é o Poeta! Deus lhe deu
o dom de com beleza se ocupar
de tudo quanto é fora do vulgar
sob a rotunda abóbada do céu!
Fala das rosas, fala das crianças,
ou seja, "o que no mundo há de melhor",
fala dos astros, fala sobre o amor
e a doce mãe "fazendo à filha as tranças"!
Rebaixar um Poeta... é ofender Deus
que nele delegou sua vontade
de elevar o moral da sociedade!
Viva Camões e abaixo os fariseus
que por falsa virtude, hipocrisia,
declaram guerra aberta... à Poesia!
JOÃO DE CASTRO NUNES
Coimbra, 5 de Outubro de 2009.
Parabéns!
Dzongsar Jamyang Khyentse
"Defesa do Poeta" - Natália Correia
Entre o poema lido por Natália Correia e o texto por ela fixado para a edição da "Poesia Completa" existem ligeiríssimas diferenças.
Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
Natália Correia, "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pág. 330 e seg.
N.B. Nesta edição, o poema leva a seguinte nota, do punho da autora: "Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.".
domingo, 4 de outubro de 2009
50 maneiras de amar Paulo Borges
2 vigiar
3 suspender
4 azular
5 enverdescer
6 apascentar
7 tropeçar
8 deslizar
9 escorregar
10 mergulhar
11 chapinhar
12 pular
13 aninhar
14 raspar
15 sorver
16 verter
17 guardar
18 orar
19 miar
20 perder
21 tremer
22 buscar
23 arrebentar
24 apagar
25 adormecer
26 quietar
27 fenecer
28 decompor
29 fecundar
30 brotar
31 acolorar
32 florir
33 ressuscitar
33 escrever
34 reescrever
35 cantar
36 pautar
37 solfejar
38 conduzir
39 trazer
40 abrir

41 levar
42 oferecer
43 pausar
44 dourar
45 encandear
46 ofuscar
47 abalar
48 trespassar
49 cegar
50.....
Trabalho os meus sonetos como quem
lapida diamantes... a partir
de cristalina rocha, que em si tem
a luz primordial... a transluzir.
Não é tarefa fácil... certamente,
pois além de mão firme e resoluta
carece de harmonia equivalente
à musica dos astros... sem batuta.
JOÃO DE CASTRO NUNES
O resto do soneto deixo-o para "saudadesdofuturo", em reciprocidade. JCN
Dia Mundial do Animal. Lusofonia.
Idolatria do Bezerro de Oiro pelo Povo de Israel
sábado, 3 de outubro de 2009
"Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo"
[...] Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
[...] Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência"
- Sophia de Mello Breyner Andresen, "Posfácio", in Livro Sexto, Lisboa, Caminho, 2006, pp.73-74.
4 de Outubro: Dia Mundial do Animal - Acções do PPA
A acção de rua decorrerá na zona da Expo e o encontro está marcado para as 13:30 em frente ao Centro Comercial Vasco da Gama, junto à estátua de ferro. Apareça também para nos demonstrar o seu apoio, assinar, entregar fichas de assinaturas preenchidas ou esclarecer qualquer dúvida sobre o PPA!
O nosso apoiante e conhecido actor, Heitor Lourenço, estará presente.
No Porto o encontro está marcado para as 16:00 no Cais de Gaia (em frente ao Posto de Turismo - junto ao parque de estacionamento) para um passeio pela zona, durante o qual iremos distribuindo panfletos, recolhendo assinaturas e naturalmente trocando ideias sobre o Partido Pelos Animais.
O núcleo do Partido Pelos Animais na Madeira marcará esta ocasião com um pequeno passeio simbólico pela cidade do Funchal. O encontro terá lugar às 17:00 no parque de Santa Catarina.
Também no Algarve, Viseu e Cartaxo procederemos a recolhas de assinaturas.
Contamos consigo!
"Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais..."
- Fernando Pessoa
O Super-Homem
- Encontrei-o na rua ia sozinho
Não via a dor nem a pedra nem o vento
Sua loucura e sua irrealidade
Lhe serviam de espelho e de alimento"
- Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Super-Homem", Livro Sexto, Lisboa, Caminho, 2006, p.65.
Tudo é vazio saído do vazio
Musas do Poeta - Sem Imagem, a lembrar Clarissas...
Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!
A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!
A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!
Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!
A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!
(Casimiro de Abreu)
Detesto a grosseria; sobretudo
quando é gratuita, sem razão de ser,
e que é sintoma, por assim dizer,
de falta de carácter... e de estudo.
Por trás da ofensa não justificada
há sempre uma alma sórdida e mesquinha
que se arrepela toda, que se trinha
ao comprovar que é pouco mais que nada.
Que triste é ver, perante uma obra de arte,
escultura, pintura, poesia,
alguém menosprezar... fazendo a parte
de se tratar de pura fancaria,
como a raposa fez... ao constatar
que não podia as uvas alcançar!
JoÃO DE CASTRO NUNES
COIMBRA, 3 de Outubro de 2009.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
a potenciais plagiadores
rosto (para saudades, com alegria)
gilles deleuze,mil planaltos- capitalismo e esquizofrenia2, ano zero- rostidade
RETROSPECTIVA
Gosto, confesso, de sentar-me à tarde
num banco de jardim ou de avenida
e em paz com todos, sem qulquer alarde,
rever como num filme a minha vida:
a minha infância, os meus estudos, tudo
o que me sucedeu durante os anos
da minha juventude e, sobretudo,
as minhas ilusões e desenganos.
Quanta baixeza vi, quanta nobreza
achei também em muita criatura
com que lidei sem sombra de vileza!
Mas o que mais me abisma é constatar,
"alma minha gentil", a quanta altura
por ti pôde chegar meu grande amor!
JOÃO DE CASTRO NUNES
Coimbra, 2 de Outubro de 2009.
Reencontro

"Olhamo-nos e não acredito no que vejo!
O nosso reencontro!
O teu sorriso tocou-me,
relembrou meu passado
fez brilhar o meu presente...
...Ouvimo-nos: a tua voz deixou-me em sonho!
Falei-te sobre a vida,
entendeste-me e voaste por aí…
Não sabia teu rumo e com saudades fiquei.
...a alegria percorreu meu corpo,
voavas para junto de mim.
Renasceram os encontros …"
de José Manuel Brazão
imagem: hubble
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Na minha pequenez de grão de areia,
face ao mundo dos astros e não só,
sou tanto como nada, uma mão cheia
de coisa alguma, um átomo de pó.
"Bicho da terra" me chamou Camões:
na condição de humana criatura,
em que lugar, meu Deus, é que me pões
na tua sigilar nomenclatura?
Admito que não sou nada que preste;
em todo o caso, pelo pensamento,
a ti me elevo em menos de um momento!
Pasmado ante "o silêncio das estrelas",
tenho o condão de estar acima delas
pela massa cinzenta que me deste!
JOÃO DE CASTRO NUNES
1 de Outubro de 2009.
mosto/mostro/monstro
A cegueira de ser só um
Frágil vitral aquático a luzir de dentro
O universo inteiro na ponta da faca de dois gumes
A traição de querer a desolação de ter um rumo
O que fica na memória a servir de lastro à esperança
Ser criança é nada esperar não há o que virá
Não se constrange o que não tem dono
O frio quando há frio a dor se houver dor
A alegria está em tudo nem da tristeza se distingue
Todo me despedaço de luz dançarina
O nevoeiro da manhã é ponte e portal
Não há dentro nem fora
No coração da aurora a perdição inaugural
Arqueiro do impossível todo o esforço é o Longe a despontar
Há um rio que separa as duas margens de não ter fim
Duas pombas de cristal azul afloram as águas e penetram na espuma da angústia
E precipitam-se no fundo de olhos frescos absorvo a inquietude que atravessa o aqui
Tudo é passagem toda a força é miragem e agonia
Só principia o que já morreu
E precipitam-se do céu transmutadas em risos de condor as pombas idas do amor dilacerado em mundo
Serpente, I

"Não há luz.
O tremor do útero anuncia a sílaba...
Digo tua profecia enquanto refaço o evangelho.
A boca sorri tortuosa maldizendo a dança dos temores.
Pronuncie! Não ouse sussurrar o caos.
O terço se enrosca em minha língua,
enquanto a primeira estrela se arrebenta.
Hospedo-me nas gavetas do inferno,
onde os verbos maceram.
Não olhe: vou nascer!
A garganta arreganhada permite o sibilar do cio.
Esfrego-me em teus pudores,
enquanto conjugo um bocado da lua.
As escamas pulsam displicentes,
sob a fronteira húmida da dor.
E o verde rasteja infindável,
trazendo a serpente!"
Agostina Akemi Sasaoka
Imagem: google
(Ao jeito de Teixeira de Pascoaes)
Fruto de milenária evolução
e de matéria orgânica formado,
na origem do meu ser atormentado
fui luz de virtual constelação.
Vim das galáxias, sabe-se lá quando:
talvez já fosse pedra, lama ou flor
que em espiral se foram transformando
por obra do Supremo Criador!
Bicho da terra, como diz Camões,
matéria vil de vísceras e ossos,
sujeita a toda a casta de emoções,
ufano-me de ser, em todo o caso,
entre montões de cósmicos destroços,
o pó de alguma estrela... em seu ocaso!
JOÃO DE CASTRO NUNES
"Quando escrevo - quando encontro o ritmo inaugural do poema, não tenho idade. Nasço aí onde já morri"
O SENTIMENTO CÓSMICO DA VIDA. A EXPERIÊNCIA DA TOTALIDADE NA POESIA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA
Orientado por Paulo Borges
4 sessões, a partir 9 de Outubro, sempre às sextas (18h00-19h30)
Inscrições:
967049286
http://www.agostinhodasilva.pt
Rua do Jasmim, nº11 - 2º - 1220-228 Lisboa (ao Príncipe Real)
40 euros
passagem

Dança rubra
As rótulas do tempo retesam os tendões da espera
Elevo-me na desgraça de ser no depois
A passagem para além não tem tempo nem espaço
Filigrana de lume a expectativa do fim
Tem mil braças a profundidade dum abraço
Pássaro de dentro no sem horizonte do esquecimento
Alado tudo o que margina a absolvição da treva
Vertido em redor em lava perfumada de incensos terminais
No passado no agora no que aí vem
Fique o que ficar será cinza à flor das águas do vau do instante
O salto a vasa o sem regresso que amortece a âncora do impossível
A morte a sorte o norte
A agulha de marear aponta o longe que no peito germina
Secreto regular pleno de tudo o que passa para sempre










