O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 18 de agosto de 2009

Narciso



É fácil, quando se nasce à beira do Lago, viver o símile do espelho, cada rosto, cada gota dessa água viva que nos entorna, em mil cambiantes, anamorfose caleidoscópica, devolve uma imagem da sede de aprovação que o fita. Ainda me lembro, quase trinta anos depois, do conselho do velho analfabeto, quase cego, quase centenário, já sem idade e agora, perdido no tempo, com um nome que vai morrendo a cada ano, era o homem mais velho da aldeia e era a memória mais completa daquelas gentes, a sua morte foi o ocaso dum mundo de acenos e vislumbres, de dores e de resignação, uma monadologia completa, compreendendo todos os conviventes e o padre Eterno, e todos os anos, no Outono os meninos que ele trouxe ao colo e levou à pia baptismal, quase toda a gente lhe chamava “padrinho”, a «um pobre diabo! Só o Doutor Pimentel tinha mais afilhados… mas um padrinho sem lustros e sem tusto…», iam-se finando, deixando a saudade a pairar entre as bocas desdentadas dos velhos que ficavam, com os olhos virados para dentro, para o mundo que a memória regurgita nas viragens da tristeza de cada um.

O seu conselho: «Nunca deixes de ser gente! Faças o que fizeres, nunca deixes de ser gente!»

E o que é deixar de ser gente, Sr. Augusto? Ser gente, menino da cidade, é viver pela palavra, ser conhecido pela palavra dada, ser reconhecido na palavra recebida, ser gente é não ser nada meu menino, é ser tudo o que a vida quiser, é respeitar cada um, seja quem for, e é não julgar, se julgares alguém não estás a ser gente e não terás onde te esconder da vergonha, sabes o que é a vergonha, menino? É a tua palavra não valer nada. Entras na venda e só compras o que o dinheiro que tiveres no bolso te deixar comprar. Há coisas que o dinheiro não compra. Há coisas que, quem é gente não vende. Já foste à Represa das Almas? Fica ali nos terrenos que a Viúva Pimentel deixou a Santa Bárbara… Se olhares lá para dentro verás se és gente. O que vires lá dentro te dirá.

Há poucas semanas um homem da aldeia suicidara-se lá, dependurado num ramo duma figueira, os seus pés ficaram a um palmo das águas esverdeadas, a sua ambição fora mergulhar mais fundo, mais fundo ainda do que o poço da sua solidão, o “arratado”, assim lhe chamara o povo e com isso, talvez, o ajudaram a selar o destino. Sempre se sentira feio, pasto de pancada e de escárnio, sem maldade suficiente para assassino a sangue frio, resolveu afogar a aldeia toda num laço de corda numa noite de Finados.

Não era agradável, ou fácil, a aproximação a esse lugar cuja natureza oracular estava mesclada com o medo e a perdição sem retorno. Só há poucos anos me aproximei desse local, com muita dificuldade por causa do abandono a que foram votados os campos de cultivo adjacentes. A aproximação da água só era possível a partir dum único ponto, um penedo que se sobrepunha ao emaranhado de silvas e de flora bravia, pejada de cardos com os seus picos mordentes. O cheiro a giesta mesclado ao agridoce das águas do pequeno lago levou-me a mente para longe, para um tempo e um espaço com uma amplitude só comparável às lembranças da infância, em que tudo parece belo como estiver, seja como for que se encontre, desde que aconteça encontro. E lembrei-me do conselho do Sr. Augusto e, com uma nitidez impressionante, da nossa última conversa, uns dois ou três anos depois desse encontro decisivo. A sua condição física tinha-se deteriorado muito, falava devagar, mas sempre com o seu sorriso de criança eterna, o seu atributo mais recordado por todos os que o conheceram. Estava quase surdo e a vista continuava enevoada porque tardavam notícias da operação às cataratas em Coimbra, «já não vale a pena gastar dinheiro no táxi para ir às consultas, achas que vale a pena ser operado por mãos que não são capazes de cumprir a palavra? Sendo a vista um dos mais belos dons de Deus?», ainda acredita na palavra dada, Sr. Augusto? «A palavra não se dá, rapaz, a palavra não é nossa, não é para nós, a palavra é-nos dada para dizermos aqui estou, daqui ninguém me tira, nem trinta mil diabos!». E ao referir-se aos exércitos do demo persignou-se, quase que numa atitude de escárnio e cuspiu para o chão.

Tínhamos acabado de assistir a um episódio da novela “O Bem Amado” e divertíamo-nos com os trejeitos da personagem Zeca Diabo, o Sr. Augusto ficou divertido ao saber que eu tinha um vizinho em Lisboa que era a cara chapada do Zé Cadeado, era assim que o meu companheiro de serão televisivo na venda do Joaquim Sapinho pronunciava o nome, talvez para não ter que cuspir no cão e persignar-se sempre que o fizesse, mas a deformação fonética também se poderia ficar a dever à surdez. Mas é certo que a personagem não tinha, aos olhos sorridentes do nonagenário, qualquer conotação diabólica, antes pelo contrário. Era a única personagem da novela que se dava ao respeito, a única que era gente, «já reparaste que o Zé Cadeado é muito parecido com o Arratado? Lembras-te dele? Andava sempre bêbado e aos caídos… Mas o Zé Cadeado é a prova até que até os infelizes podem ser felizes, depende é da forma como aproximam os beiços da Represa das Almas, há quem não possa aguentar com o que vê lá dentro!».

«Não há nenhuma Represa das Almas no Brasil? Ó Alfacinha, há represas das almas em toda a parte!».

Estas palavras foram levadas de enxurrada pelo som vibrátil do regato em harmonia com o coaxar das rãs e o refrão do canto dos grilos e vi-me face-a-face com o espelho de água onde pude ver o meu reflexo. E apercebi-me da multidão que dava corpo àquelas formas fugidias, desfiguradas pelo pouso suave das libélulas, os trinta mil diabos, todos perfilados, todos angélicos e reluzentes, o coro das sereias que compõe a banda sonora duma vida de homem, «vai por aqui, faz isto, compra aquilo, tem isto, tem aquilo, quer isto, deita isso para o lixo, vive o luxo enquanto podes…». Mas todos são o mesmo rosto, o Ego que se projecta no entorno em que nos situamos e surge em todos os apelos e forja todas as promessas e levanta todo o tipo de altar ao único deus a quem se fazem todos os sacrifícios, um deus esquivo, incapaz de aquietação.

A megalomania, a compulsão para ser mais do que qualquer outro, o querer ver-se projectado numa tela de cinema, iluminada de todos os lados por focos de aprovação, o achar-se idolatrado, como deter as chamas do fogo que não queima e não é fogo, mas teima em consumir tudo o que possa ser submetido ao objectivo supremo do auto-endeusamento?

As vidas vazias precisam da aprovação de cada um dos trinta mil diabos, e pensar isto chegou ao ponto de se prolongar num arrepio provocado pelo frio da brisa vinda da sombra profunda da figueira, é um exército imenso que pode, se bem administrado, preencher toda uma vida. «O que vais deixar na terra? – Perguntou-me o Sr. Augusto com uma voz grave e sem o seu sorriso tão familiar – nada! Passa com a leveza do vento, não queiras agarrar o que te não pertence, bebe a água fresca da fonte enquanto há sede e quando não houver sede, sabe reconhecê-lo…».

Da prudência

"Se abraçares a prudência, serás em toda a parte o mesmo; e, segundo a variedade das coisas, e dos tempos o pedir, assim te acomoda às ocasiões; nem as coisas te mudem, mas amolda-te tu a elas: bem como a mão, que ou se abra, e estenda, ou se feche, é sempre a mesma.

[...]

Sê parco em louvar, e mais ainda em vituperar; [...]

Dá testemunho à verdade, e não à amizade.

[...]

Não te arraste a autoridade do que fala; nem atentes a quem diz, mas o que diz; nem olhes a quantos agrada, mas a quais"

- São Martinho de Braga (Dume), Formula Vitae Honestae (Regra da Vida Virtuosa), cap. I, "Da prudência", in Vida e Opúsculos de S. Martinho Bracarense, Lisboa, Na Tipografia da Academia Real das Ciências, 1803, pp.147-150.

resposta a alguns conselhos adaptados de Neruda sobre como escapar à infelicidade

quem se guia por conselhos
mesmo que sábios como os de Neruda
e não por aquilo que sente

saiba que não é por aí que a sua vida muda
-morre lentamente

Rosa-dos-ventos




Sandálias de pescador


Simples/Minimalismo

"O Zen difere de todas as outras práticas religiosas de meditação devido ao seu princípio da falta de suposição. O próprio Buda é rudemente rejeitado; na verdade ele é quase blasfemicamente ignorado (...) é também uma imagem e portanto deve ser posta de lado."

in Introdução ao Zen-Budismo, Editora Pensamento, p. 24.

caos atómico (aos anónimos)

não nos deixamos induzir em erro pelo facto de os indivíduos se comportarem como se nada soubessem de todas estas preocupações. a sua inquietude mostra quanto eles estão informados a este respeito; pensam neles próprios com uma precipitação e um exclusivismo que nunca se encontraram até agora; constroem e plantam para si apenas e para um só dia; a caça à felicidade nunca é tão grande senão quando deve ser feita hoje e amanhã; porque, depois de amanhã, a caça poderá já talvez estar fechada. vivemos na época dos átomos e do caos atómico.

nietzsche, considerações inactuais, schopenhauer educador,4.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

"Busca a tu complementario, / que marcha siempre contigo, / y suele ser tu contrario"

- Antonio Machado

"Confiamos, / en que no será verdad / nada de lo que pensamos"

- Antonio Machado

anoitecer no Deserto

Quando a mágoa atinge a suavidade
o céu finalmente escurece
e a noite pousa em silêncio;
e é do lado de dentro do que assim se abisma
que irrompe um sopro fundo
que vem fundo abrir no peito a Rosa.

Várias máximas

Irmãos, todos estamos aqui para morrer. Aproveitemos enquanto estamos vivos.

Amemo-nos uns aos outros profundamente. Dêmo-nos uns aos outros sem falsidade.

A inveja e a soberba caminham de mão dadas. Acabemos com elas.

Nunca te esqueças que a vida tatua-te permanentemente. Não sintas culpa; é sempre tempo de mudar.

Texto inspirado pelo tema "Would" de Alice in Chains

Perco-me em ti, levas-me a lugares que antes desconhecia. Dás-me prazeres nunca antes experimentados no isolamento. Extasias-me e libertas-me de tudo. A força necessária para escrever e contigo delirar. Decaio erguendo-me na lama remexida da tua omnipotência. Transportas-me pelos caminhos sem caminho do infinito da mente e vives-me num simples som: Om. Om é o teu som sem Om. Nirvana é o teu estado sem nirvana. O meu corpo explode e rapidamente se desvanece no nunca, inerte, activo em ti. Tão poderosa és que medo tenho de me perder em ti. Medo que é simultaneamente ansia por ti, não de te ter porque te tenho, mas de te sentir mais e mais, até às profundidades do abismo que não é abismo senão em mim. Encontro-te na encruzilhada sempre que lá vou parar. Temo pelo meu caminho, mas desejo-te fortemente como se me apetecesse destruir-me. Não me quero tanto destruir, mas explodir. Não como quem explode mas como quem tudo é e por isso tudo deixa de ser. Contigo, tudo deixo de ser e torno-me mentalmente produtivo. Eu sou tu, minha heroína.

Vários poemas escritos aqui e agora e não revistos

Noite escura

Na noite escura
eis o meu luzeiro
sol de pouca dura
ou eterno agueiro?

Na noite escura
um ao outro ampara
faz do negro candura
do lixo jóia rara

Na noite escura
há uma voz que chama
queres ficar na rua
ou deitar-te na cama?

Na noite escura
que não fiquemos sós
quebremos a altura
que separa a voz.


Amoroso ensejo

Não consigo dormir
depois de te ter visto
este meu para ti ir
devia eu tê-lo previsto

Não consigo dormir
depois de te falar
eis que não vou partir
p'ra não ter de regressar

Não consigo dormir
porque tudo é transparente
e se antes estava a rir
são agora estou doente

Não consigo dormir
tal é o meu desejo
de te ter profunda a rir
dado amoroso ensejo.


Nuncas meus

Saio de madrugada
de mim perdido todo
em busca de nada
liberto-me do lodo

Pela estrada fora
vou acelerando
e se morrer agora?
morrerei caminhando

Perdido em nuncas meus
na mística da saudade
sonho com sempres teus
da mais terna idade

De tudo já liberto
ainda desacordado
p'r' o supra-ser desperto
em lucidez alucinado.

domingo, 16 de agosto de 2009

Se buscas o infinito, larga o contingente. Torna-te puro, mas não arrogante.

Objectivos pessoais 2009/10

- Tirar a especialização em Filosofia e Estudos Orientais;
- Meditar e fazer retiros de meditação;
- Catequese e (possivelmente) Baptismo;
- Possivelmente participar num grupo de Estudos Bíblicos;
- Deixar de fumar (hoje, quando acabar este maço);
- Não consumir qualquer tipo de drogas;
- Tornar-me vegetariano;
- Comprar o mínimo possível.

Uma ética para a civilização tecnológica

"Verificando-se que vivemos hoje, em permanência, à sombra de um utopismo não desejado, automático, que faz parte do nosso modo de funcionamento, somos perpetuamente confrontados com perspectivas finais cuja escolha positiva exige uma sabedoria suprema - uma situação impossível para o homem como tal, porque ele não possui essa sabedoria, e em particular impossível para o homem contemporâneo, que nega a própria existência do seu objecto, a saber, a existência de um valor absoluto e de uma verdade objectiva. A sabedoria é-nos o mais necessário precisamente quando nela menos cremos.

Se portanto a natureza inédita do nosso agir reclama uma ética da responsabilidade a longo termo, comensurável ao alcance do nosso poder, ela reclama então igualmente, no próprio nome dessa responsabilidade, um novo tipo de humildade - não uma humildade da pequenez, como a de outrora, mas a humildade que exige a grandeza excessiva do nosso poder que é um excesso do nosso poder de fazer sobre o nosso poder de prever e sobre o nosso poder de avaliar e de julgar. Face a este potencial quase escatológico dos nossos processos técnicos, o desconhecimento dos efeitos últimos torna-se ele próprio a razão de uma contensão responsável - o segundo melhor bem após a própria sabedoria"

- Hans Jonas, Das Prinzip Verantwortung [O Princípio Responsabilidade. Uma ética para a civilização tecnológica], Frankfurt am Main, Insel Verlag, 1979, pp.54-55.

Um contributo para que a cultura portuguesa e lusófona se sintonize com as grandes questões do nosso tempo. Aqui, como em quase tudo de essencial, há que voltar a Antero, significativamente descartado pela maioria da dita "filosofia portuguesa"...

Uma Musa para Pascoaes - Uma flor d'Alma


Fotografia de Flor Garduño

(Dedicado a Teixeira de Pascoaes e a Isabel Santiago a quem reverencio, oferecendo-lhes o gosto antecipado de uma flor do deserto, colhida no "jardim de Saudades" em futuros imaginados...)


Ela caminha no deserto. As suas formas desenham no chão a sombra de uma flauta cantante sobre a areia tórrida. Caminham devagar, movendo-se como a Serpente e a sua sombra, no círculo amplo do mundo. O seu vulto é como uma miragem. Aparece e desaparece, na distância branca do vestido. Um som de flauta eleva-se nos ares e o poeta está fora da sua montanha. As dunas estão quentes e os pés do Poeta, acostumados a subir pacientemente a serra até ao cume, para a ver a ausência do mar e da voz, no imo do Silêncio que dança e canta, os pés do poeta sofrem e a imagem afasta-se, por detrás das dunas. O poeta procura a sua musa, orientando-se pelas estrelas que caem e se acendem no coração do deserto. O mar é já uma Saudade nos seus olhos. O poeta quer abraçar a figura que dança, agora, com passos miúdos, a dança das cinturas finas e do ventre. A dança da Serpente no Mundo. A dança da Terra. A cabeça do poeta é uma montanha a arder e uma pedra na sua boca é fogo divinizado. O poeta tem Saudades do mar da montanha de outrora. Agora o deserto não tem onde se esconder do calor que abrasa e o horizonte é uma linha muda que não escreve. É uma linha de Silêncio. Ela, a Musa do Poeta, aproxima-se à frente de um grupo de dançarinos que a seguem e tocam instrumentos de percussão e flautas. O Poeta olha para dentro dos olhos brancos dos pássaros gigantes e a sua pele queima. Não chove deste lado do céu, e uma estrela que cai é como se fosse uma folha, e nele uma “alma sobe” para a colher. Para lá do deserto, o Poeta invoca; Ó alma, rasga a névoa em que te escondes”: Rasga o véu nocturno em que te escondes. Quero ver-te. O poeta trepa pelo grito e chama em seu auxílio a “pedra negra". Uma ladainha sai da sua voz, uma litania: a litanía dos “negros silêncios abismáticos”; “desertas amplidões” lembradas. Só a estátua dum Dante que falasse/Aos ventos da loucura! A mulher foi-se aproximando do poeta e sem que este desse conta, tinha a cabeça poisada no seu colo. E a Senhora da Noite, a rainha do deserto de Saudades, lavou o seu vestido na água das lágrimas e passou-as pela testa em febre do Poeta. Os ventos da loucura sopravam no deserto e o mar nascia nas suas mãos, divino e em Saudade. Como um caminho que se abria ao lábio, os dedos do poeta entrelaçavam-se na infinita saudade em que se acham. Anda a Noite a queixar-se, num clamor de mágoas tão profundas - Ouve-se dizer o Poeta, antes do beijo da noite lhe cobrir as pálpebras. Um cheiro a canela e açafrão desprendia-se do lume do céu.

sábado, 15 de agosto de 2009

Uma nova civilização

"Não se trata pois de encontrar "soluções" para certos "problemas", mas de visar uma alternativa global ao estado de coisas existente, uma nova civilização, um modo de vida outro, que não seria a negação abstracta da modernidade, mas a sua "sobresumpção" (Aufhebung), a sua negação determinada, a conservação das suas melhores aquisições e a sua superação rumo a uma forma superior da cultura - uma forma que restituiria à sociedade certas qualidades humanas destruídas pela civilização burguesa industrial. Isto não significa um regresso ao passado, mas um desvio pelo passado, em direcção a um novo futuro, desvio que permite ao espírito humano tomar consciência de toda a riqueza cultural, de toda a vitalidade social que foram sacrificadas pelo processo histórico desencadeado pela revolução industrial e procurar os meios de as fazer reviver. Não se trata pois de querer "abolir" o maquinismo e a tecnologia, mas de os submeter a uma outra lógica social - isto é, de os transformar, reestruturar e planificar em função de critérios que não são os da circulação das mercadorias: a reflexão socialista autogestionária sobre a democracia económica e a dos ecologistas sobre as novas tecnologias alternativas - como a geotermia e a energia solar - são primeiros passos nesta direcção. Mas são objectivos que exigem uma transformação revolucionária do conjunto das estruturas socio-económicas e político-militares actuais"

- Michael Löwy / Robert Sayre, Révolte et mélancolie. Le romantisme à contre-courant de la modernité, Paris, Payot, 1992, pp.301-302.

"Só amadurecem aqueles que experimentam a imensa amplidão da sua vulnerabilidade" (Rose Marie Muraro, Patrona do Feminismo Brasileiro)

Uma Mulher que fez quase tudo o que lhe disseram para não fazer...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Não posso deixar de saudar a verdadeira acção directa efectuada pelos membros do Colectivo 31 da Armada

Corpo


O corpo é um bocado de carne. O corpo vivo é algo diferente disso, porque sente. Na morte, algo sai do corpo e este assume a sua natureza puramente carnal - ou morta? Um bocado de carne, insensível e inerte como uma pedra. Apercebemo-nos de que ele é carne. Tantas e tantas vezes absortos do corpo, não pensamos nele, daí não pensarmos nele como carne: a consciência do corpo torna-se audível sobretudo nos momentos de dor. Aí dizemos - eu sou isto. Carne. E desaparecem as vãs esperanças e ilusões sobre a nossa suposta espiritualidade enquanto entes. Pois em nós o próprio ser espiritual está misturado com o ser corporal e são, possivelmente, indistintos. O espírito sente o que acontece ao corpo e o corpo não se revê nos cantares do espírito, que aparentemente tudo comanda. Mas o espírito revê-se no pranto do corpo. Ante a ferida aberta, o espírito agoniza e perde-se em orações e rezas, escapes e fugas da dor. Aí dizemos - faz isto passar. Anestesia.

Mundo

Existem mundos escuros sem luz mas existem mundos piores. Onde não há luz, não há sofrimento: o mundo é uma mistura de amor e sofrimento; mesmo a luz encerra a escuridão interior que perpassa o mundo na sua potência. De facto, o mundo é uma mistura de uma exterioridade que propriamente não existe, e da interioridade que perpassa aquilo que é aparente. Nunca ninguém sai da sua própria interioridade e tudo é interior. Tudo é sentido. O próprio Nada para lá disso é sentido. Vento. Cada ser consciente de si vive num mundo sentido particular - o seu - e se Krishna é uno e múltiplo assim também é o mundo. No fundo, o mundo é uma mistura de interioridades que existem no Nada, sendo elas o infinito de Sempre. O próprio Sempre. O Sempre é este fluxo intemporal, sem tempo, supra-eterno, desde sempre e para sempre, de entes aparecendo e desaparecendo no Jogo do Tempo: desde sempre e para sempre muitos que são um - arquetípicos, existentes ou prototípicos. O Nada é sentido como a escuridão para lá do movimento de todas as coisas. O movimento de todas as coisas é o Sempre. O Sempre é o Tudo. O Tudo é simplesmente tudo. Tudo é tudo o que é actual. Tudo o que é, é actual - não existem entes potenciais. Um ente em potência é um ente que não existe. E tudo o que existe é este acto uno constituído por multiplicidades, diferenciações. Ao longo do tempo. Um único movimento desde sempre e para sempre, uma orquestra da Eternidade tocando uma sinfonia com as suas harmonias e desarmonias, aparecendo, sendo e desaparecendo, quem sabe se reaparecendo a tempos. Isso é o Mundo. Para lá dele existe algo sem nome, indefinível e desconhecido. Uma escuridão que para muitos em muitos momentos é Luz e Refúgio. Precisamos dela por causa da maneira como o mundo é. A verdade nem sempre é preferível à mentira. A alienação é uma causa pela qual vale a pena lutar em certos momentos, como os de grande sofrimento. Nesses momentos, é preferível senão necessário que nos alienemos de tudo para escapar ao sofrimento. Morfina. (Precisamos de Deus. Deus é a Escuridão que protege e dá força, o Refúgio escuro onde estamos protegidos, e a Luz da Salvação para quem acredita na Salvação. Nós e o mundo somos de maneira tal que precisamos de Deus; de tal maneira é o nosso Fado.) Refúgio. Isso é Deus.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

"Sonho acordado"


(Um sonho que tive e de que me lembrei, em Saudade, a propósito do "Rei Profeta", aqui postado há dias e do desafio colocado a Isabel Santiago por Teixeira de Pascoaes, o próprio. Veio do jardim para a Serpente. Como podia eu recusar um pedido de meu pai? Pois para retomar o fôlego...)

Quando a minha alma estava no mar, quando olhava as águas e os movimentos das gaivotas, tive um sonho vivo, como “uma fotografia”, mas com mais profundidade e altura. Nesse sonho, apareceu-me um mundo mais belo, por detrás da beleza do mundo; ouvi um som mais puro, para além do som belo do vento e das ondas que batem na praia. Nesse sonho acordado, ouvi . Senti, de modo muito intenso, o cheiro dos pinheiros, do mar, das algas, e sorri pacificamente, como se tudo estivesse certo num mundo certo: espelho de deus, era como se a difícil equação que resolve o mistério do mundo se tivesse resolvido na simplicidade de um novo olhar, como um jogo de criança, um espelho novo e limpo. Nesse sonho eu vi. Mas no “meu” poema, no “meu” sonho, era como se o mundo tivesse luz dentro da própria luz do mundo; e a luz do Sol trazia e levava uma mulher vestida de oiro que era a Mãe e o Sol, os dois no Um. A Realidade era como um olhar, que era Ele, sem sombra, um olhar sem fundura, nascido aqui.
Depois que a sombra chegou, depois de Deus, eu não sabia estar. Eu estava e “era” dentro e fora de mim, em simultâneo e em todas as direcções, mas pensava que era outra coisa. Carne espiritual e luz divina era a Realidade que via. Percebi que deus está dentro das coisas e fora delas, e as atravessa sem lhes tocar, num mesmo olhar cego. Percebi que, para Deus, as coisas são o que são e para os poetas e os místicos, as coisas são “entre elas,” o oco da Realidade. Foi isso que percebi. Pareceu-me a mesma coisa do avesso ou às avessas. Foi isso que me pareceu Isso. No meu sonho acordado, compreendi que é errado fechar os olhos a tudo Isto. Percebi que, mesmo que não visse o sonho e o mundo exterior na sua máxima Beleza e Verdade, mesmo que fechasse os olhos, e os mantivesse fechados algum tempo, como um cego que vê de outra maneira, continuaria a ver o mar, a sentir os perfumes das árvores e das flores; continuaria a ouvir o ruído subtil, acima dos lábios e dos ouvidos humanos: um som divino, em cascata de luz, como um céu que caísse em cima da realidade, através dos olhos de um anjo.
Tenho sonhado este sonho que me sonha, como se fosse a realidade vivida. O sonho é uma porta para ver a Realidade que existe sem portas e para além delas. Desligada do que chamam mundo, mais me aproximava da essência dele, quanto mais isolada, mais crescia dentro de mim o mar que lá havia desde o Princípio, desde a Origem. Sonhar era tão real como viver. Era como aprender de novo: aprender a fazer um laço, quando percebemos que é mais difícil desfazê-lo. Nascemos porque alguém nos encantou e atou o pulso ao mundo e fez um laço. Esse laço desatou-se quando nascemos, e voltou a fechar-se enquanto crescíamos e aprendíamos a esquecer. Esse nó que nos prendia e não nos deixava sonhar, era ilusão. Atámos a esse pulso o mundo que nos rodeava, nomeando-o e “apropriando-nos” dele, para vestirmos o pulso e a carne nus. “Isto é 'meu'! “Eu Sou”! “Eu quero!” Este modo de olhar as coisas foi dando sucessivos “nós” em redor da iludida ideia de posse do mundo e do sonho. De tal modo assim era, que já não podíamos ver a verdadeira vida. Era como se deitássemos água num recipiente partido: quanto mais água entrava, mais saía. E nunca enchia a jarra. Foi por essa janela que o rei assomou, Iabel, a mesma por onde o anjo caíu, na mesma hora, levantado pelas borboletas.
Bem-hajam!

Uma Musa Para Teixeira de Pascoaes


O teu rosto incendeia-se com a sua nudez. É um ocaso perante a sua aurora carnal. Não estás surpreendido: já estás aí há muito tempo. Aguardando que se dispa, aguardando que se mostre. Estás preparado e só. Ela também não parece ter pressa. Os que se reencontram não têm tempo na alma e no corpo. Esperas mais. Esperas que tudo para ela se recolha e reconverta antes de ti. E tudo se reconverte para a vestir, a sagrar de coroas e pulseiras, ténues véus e um espesso manto. O teu olhar atravessa-a mas não a possui. Ela baixa os olhos para te sinalizar um estremecimento, um atiçamento. Consegues imobizá-la porque ela te sabe aí, mas não te quer suspenso no terror do engano e do desejo. E tu ardes. Ela refresca-te. Preferes ainda assim ouvir nesta distância-dentro, o gotejar das diferentes fontes do seu corpo. Ela inclina-se e trava o abalo das águas que podem corrê-la, transcorrê-la desde outrora, desde sempre. Mostra-te que está preparada: a água que nela corre e transcorre aviva as flores. Despontam mais viçosas na proximidade do seu corpo-leito onde repousarás da espera, da inconsolável individuação e da longa vigília em que nesse mesmo lugar a viste partir e regressar. Acalmarás a febre, o incêndio: é um horto de perfumes e águas. O ar redolente inebria-te. Sentes a derrota do preceito que impuseste à floresta da vontade cheia de sombras e vozes que te arrepiam de medo e fantasia. A ebulição consome a tua passividade convulsa porque, atrás dos olhos, tens o desejo a revelar-se como uma potência divina ou como um raio de Zeus. Os olhos formulam o sussurro do apetite e ela, fingindo não ver, mas ouvindo os vestígios da unidade que se revolvem nas ruínas do teu semblante triste, responde movendo o pé, fazendo que fecha a porta quando ela já não tem chave. E o teu desejo último e primeiro implode com as cores da forja que vos moldou uma só alma em dois corpos distintos-distantes. Ela, intacta ao tempo, não se aflige com as cores estranhas com que a floresta dos afectos te pintou, te envelheceu e te tornou um eremita, etéreo como o vento e a maré. Ela espera-te com incenso: quando entrares pela porta, em cinza juntos no amor-morte, se evolarão pelos céus atrás dos pássaros que perdeste quando ainda eras do tempo e de que ela sabe o rastro intacto. Mesmo sendo silêncio e visão, frémito, grito e fluída evocação. Mulher, terra e mãe que te oferece nos seios, no ventre, nos olhos e nos (a)braços o sentido secreto da tua eternidade lunar. Vem, é a Lua que chama o Ocaso da tua consumação!

Para responder à provocação que muito gostei de um Teixeira de Pascoaes renascido nos comentários ao texto anterior que aqui deixei. Uma musa para Pascoaes é um grande agradecimento ao "poeta" e um pedido de desculpa por ficar tão aquém do que ele merece.

derreter

somos máquinas mal oleadas neste verão de ensandecer. vá lá deus não nos trates como animais.

o que dá sentido à tua vida?

máquinas


não consigo deixar de pensar que sou uma peça numa máquina. há muitas máquinas em pleno funcionamento. uma pequena, una e simples peça que desaparece sem deixar rasto sendo imediatamente substituída. ainda poderia ter alguma espécie de orgulho por fazer a máquina funcionar e venerar o milagre da união, mas não.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

magia

walter benjamim disse uma vez, que a primeira experiência que a criança tem do mundo não é que os adultos são mais fortes, mas sim a sua incapacidade de fazer magia.

aos que ousam Mudar

"Quando eu era jovem e livre, sonhava em mudar o mundo.
Na maturidade, descobri que o mundo não mudaria.
Então, resolvi transformar meu país.
Depois de algum esforço, acabei por perceber que também não era possível.
No final dos meus anos, procurei mudar minha família, mas eles continuaram a ser como eram.
Agora, no leito de morte, descubro que minha missão teria sido mudar a mim mesmo.
Se tivesse feito isso, eu seria capaz de transformar minha família.
Então, com um pouco de sorte, esta mudança afectaria meu país e quem sabe o mundo inteiro."

Epitáfio de bispo Inglês, ano 1100, abadia de Westminster
XVII
Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido. Ó horror
[…]paradoxal deste pensar...


Fernando Pessoa
in Poemas Dramáticos
Edições Ática,

terça-feira, 11 de agosto de 2009

sol nocturno

o sol nocturno preenche-me o coração. caíndo no abismo negro agarro-me às sombras de vida do longínquo presente na escuridão e rejeitando um deus inexistente grito interiormente por todas as minhas forças. eu. sobrevivo lutando dolorosa e arduamente nos negros trilhos do inconsciente desconhecido contra um deus com muitos nomes mas o sol nocturno guia-me na escuridão. o sol nocturno alumia-me na imensidão. aprendendo pela escuridão da humana existência, recaem gélidas e petrificantes sobre a minha mente as obscuridades do acasado mar de sofrimento que a humanidade perpassa como dolorosa lança de dor e lágrimas. inevitável. o sol nocturno acompanha-me na tribulação.

O Rei Profeta

Le Prince du desert, Matteo
O rei que em sonho dorme acordou neste Agosto, e sem desgosto de ter perdido o tempo, tem a indelével sensação de que escuta o canto das gaivotas. Caminhando no deserto, esse não lugar, nesse sem tempo, tem a imperfeita impressão que elas esvoaçam brancas e luminosas por cima da sua cabeça e as suas vestes dançam sem vento, em saudade, na bruma que ele trouxera consigo da travessia e da contemplação do mar. O seu canto salpica-lhe a visão da aurora das ondas que, mesmo no mais profundo breu, são a manhã alva do mar. O rei relembra que o mar é a manhã, a aurora interminável do mundo e do seu ante-princípio. Ouve-as, em coro, como que ensinadas por um profeta que sempre ouviu, mas a quem nunca viu, a entoar a música perdida da origem. O rei não permanece imóvel.
Gosta de vê-las na luz compacta da madrugada em cantografia nos ares, no vazio que é o deserto por ser o não lugar. Gosta de descortiná-las nos lençóis de luz que contornam a sua visão, no sem tempo, em coreografia. O rei gosta da escrita invisível do som, o rei gosta da escrita impermanente do corpo e do movimento. O rei gosta do indefinido do sentido no som e do indefinido da cadência no movimento. O rei gosta que as gaivotas tenham atravessado as orlas da costa e passando rente aos pinhais lhe tragam a pena da asa do corvo, a poesia dos trovadores e a poesia do vento, a melodia sem outro fim que a pura melodia, a harmonia musical de uma medida que inebria a alma e o seu silêncio. O preenche e o implode em abrasamento e em paixão. O conduz ao silêncio ardente dos místicos e à visão espiritual do Bem. É em estado de paixão – em estado musical e em vibração – que o rei as acolhe, indiferentemente de ser em situação ou em ilusão. Para o rei, as gaivotas, o seu espectral surgimento nessa casa vazia que é o deserto, nessa catedral inacabada por onde em demanda se encontra com o que é do Alto que na luz se derrama como uma epifania permanente, leva-o a sentir a proximidade de um contacto com um rosto difuso que tanto pode ser o seu como o de Deus. O que é indiferente, visto que no deserto tudo é divino porque nada é e o Nada é sem Nome. O rei sente o inomeável e sente as gaivotas. As gaivotas são as guardiãs de um silêncio que o leva a aspirar ao manuscrito impossível e sem autor.
O rei desfeito, na poeira da luz que é também a poeira do deserto, não pertence à Terra, é uma espécie de vulto. O rei vulto que atravessa o deserto, como figuração solar, como figuração lunar, tece em sonho esse manuscrito como a Senhora de Shalott no seu tear as visões do espelho mágico que é uma consciência dotada de infância e de loucura. Do vulto do rei desprende-se um menino, desprende-se um louco. A identidade desfaz-se nas tempestades nocturnas e o vulto caminha indireccionadamente como o pobre tolo por entre memórias que não se reorganizam em torno de um eu, de um si mesmo. As memórias são visões e a dividi-las, como numa pauta, há um refrão. Um som específico que trouxe do mar e das ondas, do que é fundo e profundo, do que canta em cima de uma matéria móvel e se parece sempre com um pranto. O rei aspira ao manuscrito interrompido pelo canto das gaivotas. O seu corpo que o não é, é um pano de Lázaro que veste a memória dos que o esperam como redentor de um país de poemas por fundar. Um rei dessubjectivado - um morto que é vivo, um vivo que não combate contra a morte – que ao entardecer aparece como um conjunto de sarças bruxuleando no horizonte como numa pintura impressionista. Assim vagueia, assim passeia o rei que, ouvindo as gaivotas, não compõe a sua autobiografia – ele que não é só ser vivo, é um morto que está vivo – mas se oferece aos que por lá passam a sua heterografia. O seu devir outro. O manuscrito do rei que passa e nos seus passos na areia fica inscrito o testemunho de um vulto, de um rei louco e criança. Manuscrito de quem se sente múltiplos, de quem se sente vários. Um manuscrito compossível aos poetas e aos profetas. Só nos textos poéticos e nas vozes proféticas os vários são variações. Oscilações musicais onde os passos são compassos, onde a leitura é substituída pela audição dos gritos e dos cantos, dos espectros sonoros que tremem na luz diurna e espalham terramotos no silêncio que desce das estrelas. (Pascoaes)
O manuscrito do rei é um manuscrito redigido na Língua pura da infância e dos devaneios. Rei que atravessa o deserto, em delírio e fantasia, é como o pobre tolo um asceta, um profeta dos mortos e dos que hão-de vir. Dos que renascem. Ele pode olhar os mortos porque o seu rosto não tem olhos, é cego, da sua boca aberta, como no anjo de Klee, saem vozes indecifráveis, há um coro, múltiplos em simultâneo, em vozearia. O manuscrito do rei é a ópera dos mortos que Orfeu não conseguiu concluir por ter tocado com o olhar o que é intocável: a glória dos que renascem envoltos em panos que são asas. Porque é esse o desejo dos que, permanecendo fora do deserto, sofrem. O seu desejo clama por anjos. O rei vislumbra-os na brancura da penugem das gaivotas, o rei escuta-os, como um eleito, no seu canto. O céu é a imensa janela por onde eles hão-de chegar e cair. Rilke sabia que os anjos não discursavam, nem falavam. Os anjos são uma aparição sem conteúdo. São a forma da salvação e da Língua sem juízo ou julgamento. O manuscrito impossível do rei pode bem ser o poema das gaivotas que profetizam o reino dos anjos por vir. O manuscrito que um certo canto profético anuncia aos homens que o encontram por emprestarem a sua voz a todos os sinais indecifráveis do mundo e do que chega para além dele.

À Iolanda e ao David. Anjos que me libertam de todas as formas de sofrimento e enclausuramento na linguagem. Silenciosas criaturas que trazem inscrito nos gestos o som do deserto e o movimento do vento original. Ao Paulo que me lembra o rei mesmo quando ele vem fora do tempo.

PRA PULAR


lê o Diário de Notícias
na praia da Nazaré
o vento faz-lhe carícias
no dedo maior do pé

navega em mar de blandícias
em notas de rodapé
o sal o sol as delícias
entre o que sonha e o que é

Boas Férias

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

revolução

viva obama. viva a revolução e a correia do norte, e a traida pelo clinton (hilariante)

visões do limbo

desvaneço no limbo entre o ter sido e o vir a ser, limiar onde se obscurecem as mais luminosas ilusões. a minha mente está vazia e ergue-se ante o meu olhar a pura visão. não existe vislumbre ou nunca algum permeando o sempre que na ilusão da eternidade vivo. esta percepção ilumina tão intensamente a treva que incandescida impossibilita um pensamento outro.

domingo, 9 de agosto de 2009

Da revolução como "tradição mais profunda"

"Uma revolução é um apelo de uma tradição menos perfeita a uma tradição mais perfeita, um apelo de uma tradição menos profunda a uma tradição mais profunda, um recuo de tradição, uma ultrapassagem em profundidade; uma busca em fontes mais profundas; no sentido literal, uma refontalização...No fundo uma revolução não é uma revolução plena a não ser que seja uma mais plena tradição, uma mais plena conservação, uma tradição anterior, mais profunda, mais verdadeira, mais antiga, e assim mais eterna"

- Charles Péguy, Oeuvres en Prose, 1, Paris, La Pléiade, 1968, pp.1377-1378.

sábado, 8 de agosto de 2009

Luggala

Para Garech Browne

Uma e outra vez, em sonhos, regresso àquela margem. Há um vento que se levanta, uma gaivota tenta rasar os pinheiros, as ondas murmuram e rebentam ao longo da clara foice da pequena praia.
Abrindo caminho por entre juncos e caniços, saltando um riacho lamacento, aproximo-me do templo à beira de água, santuário da morte, pedra angular da tua tristeza. Fico de pé lá dentro, junto de um dos pilares do mausoléu, observo a água na taça de pedra. Quando assa a ondulação do vento, surge uma calma superfície, como um espelho ou um cristal. E nela se ergue a tua face, triste para além das palavras, triste com a aceitação de uma sequência cega, implacável. É que há três túmulos junto deste templo cinzento, de um irmão mais novo, de uma meia-irmã e de um irmão adulto, morto aos vinte e um anos. Os seus monumentos de granito de Wicklow são aqui tão naturais como as rochas dispersas, mas não há qualquer promessa de ressurreição, apenas silêncio derradeiro do lugar, a face xistosa e desfeita do cascalho, as escuríssimas águas do lago glacial.


John Montague
in Uma Luz Diferente
Quetzal Editores, 1993

segredo

baal laab baal(zinho) baalidades filosofia

e apareceu kairos, que tinha na mão um ceptro que significava a realeza, e deu-o ao primeiro deus criado, e este tomou-o e disse: 'o teu nome secreto será de 36 letras'

hasan-i sabbah, sargozast-i sayyid-na

a carne e o osso

perdido em busca do caminho para casa perco o olhar em frente não sei sinceramente em quê. subitamente reparo que olho para uma livraria que curiosamente tem uma viola empoeirada dentro, ao fundo. o livreiro guitarrista, penso enquanto rio carinhosa e calorosamente bem dentro. num mundo por vezes tão cruel e tão estranho sinto a luz da esperança pela primeira vez nesta vida, pervade-me a fé uma luz de facto. ao reflectir sobre ela só posso concluir que adveio da minha experiência passada não de ontem mas de sempre, dado que a emoção é influenciada por toda a memória. a consciência da fisicalidade das coisas e em particular das pessoas e animais, de tudo o que é carne e onde se pode espetar uma faca causando dor, muita dor, sofrimento, morte, é mais do que importante fundamental para se compreender a realidade para lá da névoa. porque a realidade é isso. sim, existe o espírito e tudo isso, mas bolas vivemos num mundo de carne e osso! existirá algo mais improfanável do que a carne e o osso? um templo que é um pedaço de pedras, ainda que de adoração aos mortos, vale mais do que uma vida em vida de carne e osso seja ela qual for? ou talvez a maior obra de arte de sempre? uma ideia? não existe algo tão digno como uma vida de carne e osso, nem coisa alguma de tão especial, respeitável e mesmo venerável como a carne e o osso: realidade-fragilidade; e ao mesmo tempo quanta capacidade de sofrimento! a pessoa morta não é carne nem osso, saiu, talvez nem exista. perdido em busca do caminho para casa medito nestas visões sobre a carne e o osso, que penso escrever quando chegar.

Pela boca morre o peixe, pela Língua morrem os povos

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

no metro

regresso a casa após outra jornada de trabalho. no metro a contemplar a paisagem urbana: pessoas na máquina, mas sobretudo reflexos de pessoas em vidros que dão para túneis cinzentos, sujos, apodrecidos; lá fora os cabos eléctricos carcomidos serpenteiam velozmente ao longo das paredes esburacadas. sinto que acedo indirectamente ao mundo; tudo se revela uma tentacular e peganhenta rede de ligações onde sem onde nada nunca se torna palpável. percepciono-a como real em falta ou demasia mas o simplesmente real aparece-me como um nunca da minha imaginação. pervade-me permanentemente esta alegre ou dolorosa obscuridade que se impõe como um manto de invisibilidade entre mim, que não devia existir, e o sempre que nunca foi.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Dez "asas" a sobrevoar o tempo que corre


O tempo é um buraco para onde caem as coisas que aconteceram. É ele que torna possível o impossível.

O tempo é um lago onde dormem as flores que seguem à tona das águas. O tempo é acordarmos dele, a flutuar no mar.

O tempo é um Oceano renascido e renascente: inesgotável como tudo o que é eterno.

O tempo é o Nada onde dormem as nossas lembranças mais antigas. Nascemos com ele?

O tempo é o mistério do que é relativo. O tempo impede que as coisas aconteçam todas ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

O tempo tem asas, diz-se. A nossa profunda individualidade é como o tempo: peregrina no coração dos outros.

Tempo é uma fotografia. O instante em que as bolhas de água se desprendem da onda.

O tempo não existe. Existiu muito antes da criação, à espera dela.

O tempo não espera - diz o povo. - O tempo é deus e deus é número!

O tempo é fonte, jorra no jardim da alma. É lá que roda sobre si mesmo, jorrando vida.

A lua está maravilhosa, hoje




Reconciliação

Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação -
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E os nosso lábios desejam beijar-se -
Por que hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de cair uma grande estrela no meu colo.


Else Lasker-Schüler
Baladas Hebraicas
(tradução de João Barrento)

É (um bocado) perverso reflectir-se sobre o sofrimento

A ciência, a sabedoria e o amor são (os únicos?) meios para acabar com ou diminuir o sofrimento. Ou a loucura também serve?

Extreme Ways

O sofrimento causa repulsa. Especialmente a (consciência da possibilidade da) dor física e a morte. Dor e morte, os dois grandes males. Dor é dor física. Da morte já não se pode falar. O maior medo é a dor. Aquilo de que mais queremos fugir. Mas é impossível fugir ao envelhecimento. E com o envelhecimento vem a dor ou a doença, e a dependência. Mal estar permanente. Não é necessário, mas provável. Todas as vidas passam por medo ou sofrimento. Medo ou dor. Acredito que haja alguém que não sofra, mas não que nunca tenha sofrido. E todos colocam essa possibilidade.

Desinfestação

Car@s Amig@s,

Encerrei os comentários aos anónimos devido à manifesta queda de nível e linguagem insultuosa e grosseira dos últimos dias. Lamento este recurso, que limita a criatividade e fantasia.

Voltarei a torná-las possíveis se a situação se normalizar. Agradeço a quem aqui vem insultar e provocar que procure outras paragens.

Saudações

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

LAMENTO

não tanto os políticos que enganam para serem eleitos

quanto os eleitores

que elegem para serem enganados

terça-feira, 4 de agosto de 2009

para que conste

o grande sertão é aqui. cada vez mais tristes. cada vez mais pobres. cada vez mais parvos. e desarmados.

ondulação




Chama do vazio da agonia das horas no fundo em estilhaços de atenção

Despida da fulgurância dos oráculos nos sonhos em antecipação

Do não acontecido a voz do não retorno no ermo sem espera

A escuta espraia-se em indefinidas ondas de ansiedade

Inunda a véspera e torna-a intemporal elevação austera

Profundidade abissal em versos rubros de perdição

Encrespada parturiente inconsolável tempestade

De ser sem ser errância impensável navegação

O antigo pulsar do mar como rumo sempre certo

Sem orientação para lá do desacerto

Do coração sem porto e sem abrigo

Ama a serpente, vive a serpente

Tudo se forma no deserto

"Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre"

Agostinho da Silva
in Textos e Ensaios Filosóficos

Portugal profundo e "a grande causa do futuro"

Deambulo pelo Portugal profundo a caminho dos Picos da Europa. Como é grato contemplar a imensidão de paisagens que nos absorvem e fazem esquecer haver humanidade! Nossa Senhora do Viso, São Salvador do Mundo, São Pedro das Águias, que conheci há já um quarto de século pela mão de Dalila Pereira da Costa... A solitária capela românica que valeu um belíssimo poema a Torga.

Longe das neuroses urbanas, torna-se evidente que, felizmente, tudo acabará em bem. A Natureza reabsorverá os humanos, como desde sempre aconteceu. Ninguém escapa ao grande Apeiron. O problema é o sofrimento que a loucura humana causa enquanto teima em persistir na sua arrogante cisão.

Circunstâncias várias levaram-me entretanto a almoçar ontem, informalmente, com Francisco Louçã, do BE, em Penedono. Apresentei-lhe o projecto do Partido Pelos Animais e entrei a partir: disse-lhe que a Revolução tem de ultrapassar a fase antropocêntrica. Contrariamente ao que esperava, concordou inteiramente e assumiu que a "causa animal" era a "grande causa do futuro", reconhecendo que cada vez mais a juventude a abraça. Eu insisti que tem de ser já a grande causa do presente e que não faz sentido separar os interesses humanos e não-humanos, que há que criar uma sociedade melhor para todos. Concordou ainda e disse que o BE assume isso no seu programa. Assume, penso, mas não com o destaque necessário, mais no papel do que na prática. Estivemos mais de acordo sobre a necessidade de divulgar mais em Portugal a riqueza do vegetarianismo e de tornar as questões dos direitos humanos centrais na agenda política. Agradeci-lhe o apoio à causa tibetana. Foi um encontro cordial.

Amanhã espero descer de barco o Douro.

domingo, 2 de agosto de 2009

contra poder

será que a linguagem, mesmo a mais anárquica não serve o poder?

'há, então, índices maquínicos quando uma máquina está a ser montada, e já funciona sem que se saiba como procedem então as partes díspares que a compõem e a fazem funcionar.'
deleuze

salvado (do lixo)

Alguma coisa sobe como um vómito
É o vento
As uvas e o cão
A vide o veneno velho o velho
Que adormece com os olhos espetados
Na fasquia dos seus muitos anos miseráveis
As pulgas no alpendre
Na pocilga vazia
O choupo
De raízes cravadas na gengiva da casa de que só eu sou interior
A hortelã nos pingos da torneira
A náusea da pausa vegetativa dos coentros
Os limões de umbigo
Os diques na caleira da leira de tomate
A Peugeot cinzenta
Pelo vento e pela noite
A grossa grade de portão
Guardada por cães de gonzos ferrugentos
Os velhos verticais no interior do pátio
Das carroças
As sinetas e as vozes
Das franjas das echarpes
Chamando os netos por entre minúsculos fios de ferro
Caracóis nas listras
Vermelhas das peúgas dos miúdos
Quinze graus de tédio no choro com que não respondem
Os chás nas chávenas
Sobre a falsa virgindade das toalhas
A memoria dos aventais brancos
Das criadas roçando nos soalhos
Alguma coisa sobe como um vómito :
É a cor no ecran
Da casa toda branca
Sem interior algum

Vendo carburador em bom estado, como novo. Base de licitação: um nome próprio muito próprio, difícil de desapropriar.

sábado, 1 de agosto de 2009

A realidade é uma bomba

:)

Qual o valor que colocas primeiro na tua escala de valores?

Já morreste com alguém?

Poema que inspirou "Take this Waltz" de Leonard Cohen

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.

¡Ay, ay, ay, ay!Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,violín y sepulcro, las cintas del vals.

(Frederico Garcia Lorca - Pequeño Vals Vienés)