O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 10 de janeiro de 2009

Receita de Mulher

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Qu tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da [aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.



Vincius de Moraes

in Antologia Poética

Publicações Dom Quixote, 2006

"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"

Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.

veja entrevista em: http://www.vejosaojose.com.br/fredyandrade.htm

P´RA PULAR

Tanto mal que se tem feito
Com vista a que o Bem se instale
Não daria mais proveito
Tentar evitar o Mal

Povo que Lavas no Rio



Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda
Bebi em malga que me esconde
O beijo de mão em mão.
Era o vinho que me deste
A água pura, puro agreste
Mas a tua vida não.

Aromas de luz e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição.
Povo, povo, eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.

Povo que lavas no rio
E talhas com o teu machado
As tábuas do meu caixão.
Pode haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não.

Nostalgia da unidade e seu círculo vicioso


Giorgio Chirico,"As musas inquietantes"


"O primeiro procedimento do espírito é distinguir o que é verdadeiro do que é falso. No entanto, mal o pensamento reflecte sobre si mesmo o que descobre é, inicialmente, uma contradição. É inútil esforçar-se para ser convincente a tal respeito. Durante séculos ninguém tratou o caso com uma demonstração mais clara e mais elegante que a de Aristóteles: ‘A consequência frequentemente ridicularizada dessas opiniões é que elas se destroem por si mesmas. Porque, afirmando que tudo é verdadeiro, afirmamos a verdade da afirmação oposta e, consequentemente, a falsidade da nossa própria tese (pois a afirmação oposta não admite que ela possa ser verdadeira). E, se dizemos que tudo é falso, também esta afirmação se torna falsa. Se declaramos que só é falsa a afirmação oposta à nossa, vemo-nos não obstante forçados a admitir um número infinito de juízos verdadeiros ou falsos. Porquanto, quem emite uma afirmação verdadeira declara ao mesmo tempo que ela é verdadeira, e assim por diante até o infinito.
Esse círculo vicioso é só o primeiro de uma série em que o espírito que se inclina sobre si mesmo se perde num torvelinho vertiginoso. A própria simplicidade destes paradoxos leva a que sejam irredutíveis. Quaisquer de sejam os trocadilhos e as acrobacias da lógica, compreender é, antes de tudo, unificar. O desejo profundo do próprio espírito nos seus procedimentos mais evoluídos vai ao encontro da sensação inconsciente do homem diante do universo: ele exige familiaridade, tem fome de clareza. Para um homem, compreender o mundo é reduzi-lo ao humano, marcá-lo com o seu selo. O universo do gato não é o universo do formigueiro. O truísmo de que ‘todo pensamento é antropomórfico’ não tem outro sentido. Assim também o espírito que procura compreender a realidade só pode considerar-se satisfeito se a reduz em termos de pensamento. Se o homem reconhecesse que também o universo pode amar e sofrer, ele estaria reconciliado. Se o pensamento descobrisse nos espelhos fenómenos cambiantes, relações eternas que pudessem resumi-los e resumirem-se elas próprias num princípio único, poder-se-ia falar de uma felicidade do espírito de que o mito dos bem-aventurados seria apenas um ridículo arremedo. Esta nostalgia da unidade; este apetite de absoluto ilustra o movimento essencial do drama humano. Mas que esta nostalgia seja um facto não significa que deva ser imediatamente apaziguada. Porque, se acaso transpondo o abismo que separa o desejo da conquista, afirmamos com Parménides a realidade do Um (seja lá o que ele for), caímos na ridícula contradição de um espírito que afirma a unidade total e com a própria afirmação prova a sua diferença e a diversidade que pretendia resolver. Basta esse novo círculo vicioso para sufocar as nossas esperanças."

(Albert Camus, "Le Mythe de Sisyphe" Gallimard, Paris, 1962, pág. 31 e seg.)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009



«hummmm.... looks familiar that name...»

Dory in, Finding Nemo.



(foto minha numa estação de serviço perto da Lousã, ontem).

Participe e ajude a divulgar as actividades da União Budista Portugesa

Car@s Amig@s,

A União Budista Portuguesa é uma associação sem fins lucrativos,
representante oficial do Budismo em Portugal, que oferece desde 1997
múltiplas actividades benéficas para o corpo e a mente, seminários e
cursos de introdução ao Budismo, além de organizar e apoiar a vinda de
Mestres budistas a Portugal (como Sua Santidade o Dalai Lama), de
promover múltiplos eventos científicos, culturais e inter-religiosos e
de dar apoio a vários actividades sociais em prol dos mais
desfavorecidos.
Os responsáveis pelos cursos e aulas de yoga e meditação, bem como
pelos seminários sobre filosofia budista, são pessoas qualificadas, na
grande maioria com mais de 25 anos de estudo e prática.
Esforçamo-nos por manter contribuições muito acessíveis para as nossas
actividades e uma real indisponibilidade financeira nunca é
impeditiva. Vimos assim solicitar que divulgue as nossas actividades a
todos os potenciais interessados.

Próximos eventos na nossa sede em Lisboa (Calçada da Ajuda, 246, 1º dtº):

- Curso de Introdução à Meditação - Luís Carmo - início em 12 de
Janeiro, das 19.40 às 21.40
- Seminário de Introdução ao Budismo (As 4 Nobres Verdades e os 4
Selos) - Paulo Borges - 31 de Janeiro, das 15 às 19 h
- Consultas de Medicina Tibetana - Tulku Lama Lobsang - 2 de Fevereiro
- Curso de Introdução à Meditação Budista - Paulo Borges - início em 4
de Fevereiro, das 19.30 às 21.30

Para mais eventos e informações, também sobre as nossas delegações e
centros em todo o país:
213634363
www.uniaobudista.pt
sede@uniaobudista.pt

O presidente da Direcção

Paulo Borges

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

"Este livro é a minha cobardia"

"Este livro é a minha cobardia.
[...]
Porque escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar; não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. [...]
Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas dos propósitos, folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.
Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar"

- Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, pp.168-169.

perdoem qualquer coisinha

há dias eu soltava memórias com Saudades
sobre os tempos da Reforma Agrária.
Volto a invocá-los- para fins hoje diversos.
Para falar de um insignificante poeminha da época
que perdi, como tantos outros, porque escritos no inadequado suporte para esse efeito.
O Poema. Título:

"Dás oliveira...."

dás oliveira
frutos redondos
colhê-los dói
nas mãos nos ombros

dás oliveira
frutos pequenos
sabê-los de outros
-a quem os colhe-
não lhes dói menos

dás oliveira
frutos amargos
das feridas fundas
que vais fazendo
nos dedos magros

era quando nós sentiamos assim: simples mas duro.
eu ia a casa de Saudades beber tintos. Uma vez ouvimos a notícia da morte de Neruda.

"Dás oliveira"- nunca mais eu soube nada dele. Nunca datei um poema, esclareci outrodia. Nem sequer me dou ao trabalho de guardar a esmagadora maioria. Cuido de os tirar do bolso da camisa - para não me entupirem o filtro da máquina- de- lavar.
é do tempo de "Carta-aberta a um ladrão de automóveis", que teve, à época, algum sucesso mediático. Talvez no entardecer da Revolução de Abril - 76-77 ?

2007 - volvidos portanto 30 anos - dou comigo a descobrir o narcisismo de procurar na NET os meus feitos pessoais.
passo várias vezes pela parceria "Meu nome/nome de compositor musical", sem parar para estabelecer nexos, tão absurda me parecia a associação.
Resolvo então remexer a memória em torno da musicalidade de dás oliveira. E concluir que era um simulacro de poema que eu teria escrito há muito tempo.

tinha sido musicado; fazia parte do Repertório de vários grupos Corais, entre os quais o de Queluz - que me apressei a contactar, sabendo que ia ser apresentado em Sintra no Concerto comemorativo do 25 de Abril.
Autor da música: Fernando Lopes Graça.

Ora bem, é o mesmo Grupo Coral de Queluz que vai no próximo Domingo, dia 11 de Janeiro, pelas 17 H , entre um escolhido e seguramente recomendável repertório, interpretar o insignificante mas musicalmente esmagador "Dás Oliveira". Incluido no seu Concerto de Ano-Novo. Platero toma a liberdade de convidar você. Aceita?
Platero vai fazer tudo por estar lá, na esperança de verter mais uma lagriminha vinda de onde nem ele ainda descobriu

Carta de um velho quando jovem

Depois do que te disse
descansei

escrevo-te sem endereço
no reverso do que fiz

não escolho as ruas onde moras

paro no verso
nunca atravesso

fecho-me na caixa do correio
à espera que me escrevas

melhor é acampar
no dedo direito deste magro braço d'água
cingido à complicação elementar
de estar vivo.


Boaventura de Sousa
Madison e Outros Lugares
Edições Afrontamento
1989

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Pluma


Para a Ana Margarida Esteves e para todos os Emplumados


Que triste não saber florir!
Que venda , Senhor, lhes vendou os olhos
Para que não vejam o milagre da vida
A aconter, mesmo ao mais escuro milagre
Porque ao que sabe florir
Até o mais raso malmequer é estrela
Se à palavra deixarmos voar
Em níveos céus, e ao corção deixarmos o dizer.
Nunca a lata será triste e feia
Se tocada pelos olhos de Deus
Que não tem olhos nem é
O que perdoa ou castiga.
O Homem que não traz camisa
E o frio lhe fustiga o corpo
E quase o mata, há-de sempre suavisar,
Há-de sempre amortecer a dor
O que caminha na senda do bem.
Não há felicidade fora de nós, sem Ele
Nem dentro de nós a há, fora Dele.
Chamemos-lhe o que cada um
Nomeie no que em si mais alto arda
É aí que nos encontraremos sempre
Unidos como nem os que o mais são
Ousaram ser.
Não consumimos Deus nem Ele nos consome
Ele é em nós e nós nele
Somos um terceiro que é Todo e o mesmo.
Deus não perdoa ao mau nem ao bom
Não nos perdoa o havermos traído
A sua entrega e o seu Amor.
Deus não vinga a si mesmo.
Nem é de alguém propriedade
Nem de si, nem do Mundo nem de Deus
O segredo da Serpente é aí, nesse Amor
Com plumas que das plumas se renasce
O que nem plumas tem, nem vendo o acho
Com qualquer sinal de Ser o vejo
Em mim arder: uma fogueira que queima
Mas não destói. Uma Luz de tão negro ser
Que é alta a chama e arde em combustão
Acesa em nós, de sagrado não ser.

De Bosh

O mar é um bicho,
Batem as ondas
Sovam-me inteiro
Neste ringue aquático de desrazão
Fico científico, bêbado, prolixo
O mar é um bicho
E eu que sou, sem ti?

Sai bruxa desgarrada
Bruxa desmedida
Vai-te vadiar
És lua encarnada, Vénus ressequida
Feia de morrer
E de matar
Chaga ensandecida
Voa da memória
Voga na memória
Quero ser julgado no teu tribunal dos mortos
No teu amplo curral de porcos
Quero-te esventrar
Quero-te acender
Vela encimesmada
Chaga caridosa
Dóis-me, ó dolorosa,
Quero-te fenecer
Fazes-me
Fezes
Fazes-me preces por mim
Desilude-me de mim
Desincumbe-me de ti
Atira-me do teu lábio-despenhadeiro
Do teu seio
Dá-me rotas para horrorosas paragens
Para nefandos alhures
Alivia-me algures
No centro, ao meio
Faz-me devir
Devagar
Faz-me divagar matrona impudica
Afaga-me, costela espúria
Desfralda-me ebúrnea constelação
E muda-me
A mim
Odeio-te genuinamente, cara amiga
Acho-te linda, acho-te lixo
Neste inenarrável inferno indiviso
Vou deixar-te
Ermar-me
Para nunca

Ai, sou cativo
Sou lastro, lustro, um anti-luxo
Um anti-Lucho, um frustre esguicho
E embruxado, e sigo a broxar
E quanto ao mar, é bicho
(Bicho, vagalhão, montada tormentosa em líquido fatalmente vivo)
Apenas e só
Por nele
Eu entrar

sem titulo II




Sobre a busca da "Felicidade"

http://mysticbourgeoisie.blogspot.com/2006/03/positively-fourth-street.html

Thursday, March 16

positively fourth street
you got a lotta nerve to say you got a helping hand to lend you just want to be on the side that's winning~ dylan

While the book cover gives the impression of plain brown wrapping paper -- what are we to think? that no salesman will call? -- the title page is a whole different story. Look at it. Like a goddam inscription carved in Roman capitals -- or an LA freeway billboard after some fondly imagined neocon revolution has safely returned us to Tradition. Welcome to the latest installment of "positive" psychology.
The subtitle is even richer: A Handbook and Classification. So what we have here is essentially a cross between the nosological taxonomy of the DSM-IV with a sort of field guide to the better sorts of people.
I'll level with you. I spent no more than five minutes flipping though this thing in a Barnes & Noble aisle, and one of the co-authors I'd never heard of. But I had heard of the other author, and bought most of his books as exhibits in my planned trial of dangerous morons v. the people. I despise Martin Seligman and his fucking "learned optimism," both on principle and irrationally -- as is my God-given prerogative as a non-academic who owes no lipservice allegiance to fictions like fairness and critical distance. The very existence of this book makes me want to break things.
Or at least write paragraphs like that. Damn, that felt good!
But hey, don't take my word for it; work up your own apoplexy. The first chapter of Character Strengths -- a generous 84 pages worth -- is available via this PDF download from Oxford University Press. And speaking of OUP, that's where Seligman first came up on the radar, in a little number called Learned Helplessness. Again, you have to wait a beat for the subtitle kicker: A Theory for the Age of Personal Control.
That was the last respectable publisher Seligman had for quite some time. I'm sure he was crying all the way to the bank, because what he did then was to start writing for the much more lucrative Self-Help section -- books like Learned Optimism: How to Change Your Mind and Your Life, and the one that got him onto Oprah, Authentic Happiness: Using the New Positive Psychology to Realize Your Potential for Lasting Fulfillment. Sure, it's still psychology, but it's that positive psychology. You know, like that dry heat. I ask you: how am I supposed to learn optimism and achieve authentic happiness as long as run-amok rogue academics are still writing this kind of junk?
For instance, in Positive Psychology in Practice, the authors of a paper called "Positive Psychology: Historical, Philosophical, and Epistemological Perspectives" say (p. 17):
...the human being should, as Seligman and Csikszentmihalyi maintain, be conceptualized and understood as a being with inherent potentials for developing positive character traits or virtues. This idea is the core of the actualizing tendency as described by Rogers and self-actualization as described by Maslow. For positive psychology, the concept of good character thus becomes the central concept.
What Maslow wrote about this purportedly positive psychology (in Motivation and Personality, 1987) was, perhaps most succinctly, this:
The study of crippled, stunted, immature, and unhealthy specimens can yield only a cripple psychology and a cripple philosophy.
What is it about that statement that bothers me? Could it be that this is precisely the kind of rhetoric about "the unfit" that comes straight out of the eugenics movement -- and don't forget (jog your memory here) that Maslow started out under the wing of one of America's foremost eugenicists, Edward L. Thorndike. Similarly, in Religions, Values, and Peak-Experiences, Maslow writes:
I have already written much on scientistic, nineteenth-century, orthodox science, and intend to write more. Here I have been dealing with it from the point of view of the dichotomizing of science and religion, of facts (merely and solely) from values (merely and solely), and have tried to indicate that such a splitting off of mutually exclusive jurisdictions must produce cripple-science and cripple-religion, cripple-facts and cripple-values.
Not to regard these sorts of deus-ex-machina pronunciamentos as unscientific is (merely and solely) delusionary . To see them as somehow apolitical is (merely and solely) crap.
At EDGE: The World Question Center (the brainchild of John Brockman, whose world-class humility is the stuff of legend), there's a piece by Martin E.P. Seligman -- "Psychologist, University of Pennsylvania, Author, Authentic Happiness" -- in which he writes:
In the sociology of high accomplishment, Charles Murray (Human Accomplishment) documents that the highest accomplishments occur in cultures that believe in absolute truth, beauty, and goodness. The accomplishments, he contends, of cultures that do not believe in absolute beauty tend to be ugly, that do not belief [sic] in absolute goodness tend to be immoral, and that do not believe in absolute truth tend to be false.
Note that the book Seligman references -- Charles Murray's Human Accomplishment: The Pursuit of Excellence in the Arts and Sciences, 800 B.C. to 1950 -- is an extended paean to Blind Boy Apollo and the All-White Astronauts of Western Civilization.

Note also that Charles Murray is co-author of The Bell Curve, perhaps the most racist book published in the last fifty years.
Now tell me again about these supposedly "scientific" -- not to mention true, good and beautiful -- metrics of character and virtue? Call me a negative unhappy pessimist, but fuck you, Marty.





Um Novo Credo, de Frei Betto O.P. (A propósito de um post de Ana Margarida Esteves e da micro-novela que quase se lhe seguiu aqui)

Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões existentes e por existir. Deus que precede todos os baptismos, pré-existe aos sacramentos e desborda de todas as doutrinas religiosas. Livre dos teólogos, derrama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se crêem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misteriosos do pós-morte.

Creio no Deus que não tem religião, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natureza e nos seres humanos. Deus ourives em cada ínfimo elo das partículas elementares, da requintada arquitectura do cérebro humano ao sofisticado entrelaçamento do trio de quarks.

Creio no Deus que se faz sacramento em tudo que aproxima, atrai, enlaça, abraça e une – o amor. Todo amor é Deus e Deus é o real. Em se tratando de Deus, bem diz Rumî, não é o sedento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.

Creio no Deus que se faz refracção na história humana e resgata todas as vítimas de todo poder capaz de fazer o outro sofrer. Creio em teofanias permanentes e no espelho da alma que me faz ver um Outro que não sou eu. Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem no entanto conseguir fitar ou agarrar o astro que me aquece.

Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da mendiga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diverte-se quando o nosso destempero profere blasfémias.

Creio no Deus que, na minha infância, plantou uma jabuticabeira em cada estrela e, na juventude, enciumou-se quando me viu beijar a primeira namorada. Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a lua para enfeitar as noites de deleite e as auroras para emoldurar a sinfonia passarinha dos amanheceres.

Creio no Deus dos maníacos depressivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio no palco do coração e, suada a música, arrebata-nos à saciedade.

Creio no Deus do estupor de Maria, da trilha laboral das formigas e do bocejo sideral dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumento, sem pedra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela própria fraqueza.

Creio no Deus que se esconde no avesso da razão ateia, observa o empenho dos cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amorosa de corpos excretando sumos a embriagar espíritos.

Creio no Deus intangível ao ódio mais cruel, às diatribes explosivas, ao hediondo coração daqueles que se nutrem com a morte alheia. Misericordioso, Deus se agacha à nossa pequenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusão de estultices humanas.

Creio sobretudo que Deus crê em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo mistério abissal de três pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiência desbordou nessa Criação sustentada, em todo o seu esplendor, pelo frágil fio de nosso ato de fé.

Fonte: http://www.pastoralis.com.br/pastoralis/html/modules/newbb/viewtopic.php?topic_id=1518&forum=1

Outra: http://pt.wikipedia.org/wiki/Frei_Betto

PASSEIO SOCRÁTICO Por Frei Betto

Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças. "Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc.

A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável. É próprio do humano – e nisso também nos diferenciamos dos animais – manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico. A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte.

Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais. Trata-se de um ritual que possui rubricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela. Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos econômicos e filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós."

O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão. Para o povo maori da Nova Zelândia cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais de África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígene cultua uma árvore ou pedra, um totem ou ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um determinado vinho guardado na adega, uma jóia?

Assim como um objeto se associa a seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista a gata borralheira transforma-se em cinderela… Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder.

Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade. Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela mas não é ela: bens, cifrões, cargos etc. Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas.

Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo. "Nada poderia ser maior que a sedução" – diz Jean Baudrillard – "nem mesmo a ordem que a destrói." E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja.

Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito algo. "Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo. Olham-me intrigados. Então explico: Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz".

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2007/11/403577.shtml

cumprir


Alguns têm na vida um grande sonho e falham a esse sonho.

Outros não têm na vida nenhum sonho, e faltam a esse também.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego.



Foto de Carlos Rema.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

maiúsculas

D



W



H

sem titulo


Apresento-vos a esposa do filósofo esloveno Slavoj Žižek, a modelo argentina Analia Hounie e me lembro do lapso freudiano (Sigmund Freud) lendo o nome da esposa...mas deculpem...os actos falhos não são limitados ao discurso oral ou a desejos sexuais reprimidos, podendo afectar até mesmo à cognição, que se vê prejudicada por fixações do inconsciente...

A "Libertas Decembrica" encerra hoje com a Festa dos Reis, mas a Festa dos Loucos continua ...

... se tem duvidas, vejam este grupo maravilhoso de pessoas, cuja loucura esfuziante os transforma em reis e rainhas.

Pois e, a minha deformacao profissional de sociologa e provocadora "gratuita" por vezes da-me para estas coisas ...

Apelo à guerra

Farto da paz, farto da luz, farto da farta de inclusões!

Sem fronteiras meu General! Uma guerra que nos una!

Apartaríamos a morte (própria forma de pensar),

Duraríamos do Sol à penumbra de razões!


Reflexo de guerra

Reflexos;

Formas limpas, ilusões.

Espelho-ferro da indústria.

Uma centena de canhões…

 

Fartos da paz, fartos da luz, fartos da falta de voz;

Uma caravela portuguesa, triste casca de nós!

- Que este mar patenteie ideias?

- É infinito ideal!

Perdido ao encontro de tudo!

Estou em crise Portugal!

Rosto de Ulisses


Como borboleta em redor das flores
Estou de volta do sonho, a tactear a luz
O rosto
Do branco de uma folha
À espera que uma palavra se desprenda
E voe por sobre o pensamento
Para tornar mais claro
O mistério da hora
E aumentar o brilho
À renda desse mar, ao peitilho das ondas
Colar no teu pescoço ágil de gaivota
Uma dedada de mim no diadema
Incrustado de pérolas e de espuma.
Ulisses, que atas sandálias ao vento
E prendes navios na concha do teu peito
Mulher, que olhas do cimo do castelo
O teu reino do longe e do desterro
Na tua mão, mulher, cresce uma ilha
Onde o exílio é flor rara e cativa.
Amo essas ondas que no meio traçam
Uma linha, caminho dos meus lábios
Onde afloram anéis, néctar e brilhos
Estrelas que vejo na luz do teu cabelo negro.
Negro como o mar crescido
De noite
Com a distância e o aroma dos sonhos mais densos
Distância entre
O mundo e a palavra
Abismo de orfandade, um porto que se alcança
No vazio de uma espera onde o sono é farol.
De regresso à ideia prometida
De uma terra mais lisa, de uma maçã mais de oiro
De um sol mais diamante do que estrela
Para cortar este silêncio que fere.

então queres ser escritor?/ charles bukowski

se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração da tua cabeça da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-
-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.


Charles Bukowski (1920-1994)

Sê 'em ti mesmo o teu próprio culminar' (Stirner)


Salvador Dali,"Galatea de las Esferas"(1952)


“Como a nossa época está à procura da palavra que exprima o espírito que a habita, numerosos são os nomes que invadem o proscénio, pretendendo todos serem os melhores. Por todos os lados se manifesta o mais diverso fervilhar de partidos e em torno da herança apodrecida do passado reúnem-se as águias do momento. Os cadáveres políticos, sociais, religiosos, científicos, artísticos, morais e outros, abundam por todo o lado e, enquanto não forem todos consumidos, o ar não se purificará e a respiração dos viventes continuará opressa.
Sem a nossa participação, a nossa época não achará a palavra justa, pelo que todos deveremos trabalhar nesse sentido. Mas, se é certo que esta é a nossa tarefa, poderemos com razão perguntar o que se fez e se conta fazer connosco. Teremos de nos interrogar acerca da educação que nos deverá tornar capazes de sermos os criadores dessa palavra. Procura-se desenvolver conscienciosamente a nossa disposição para nos tornarmos criadores, ou antes, somos tratados como criaturas cuja natureza apenas admite a amestração? Esta questão é tão importante quanto qualquer das nossas questões sociais; na realidade, é mesmo mais importante, visto estas repousarem nesta base decisiva. Sede completos, e assim efectuareis algo de realizado. Sê 'em ti mesmo o teu próprio culminar' e dessa maneira, também a vossa comunidade e a vossa vida social alcançarão a culminância”.

Max Stirner, “O falso princípio da nossa educação”, inTextos Dispersos”, Via Editora, Lisboa, 1979, pág. 63 e seg.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

que diabo!




e mais sobre ele:

www.dubitoergosum.xpg.com.br/1indfluss2.htm

Provocacoes de Slavoj Zizek

(para ver os links referidos neste texto, acessem o original em http://mysticbourgeoisie.blogspot.com/2008_02_01_archive.html)

Monday, February 4
Infested with ideology

I could never quite wrap my head around Slavoj Zizek. The first book I ever looked at by him was The Puppet and the Dwarf: The Perverse Core of Christianity. I initially picked it up because, having been raised Catholic, I could relate to the title. However, after about ten minutes I was all like "hand me those pliers!"
This state of affairs has changed with my discovery of the following clips. I think I might be in the verge of becoming a rabid fan.

The ultimate postmodern irony is today's strange exchange between the West and the East. At the very moment when, at the level of "economic infrastructure," Western technology and capitalism are triumphing worldwide, at the level of "ideological superstructure," the Judeo-Christian legacy is threatened in the West itself by the onslaught of New Age "Asiatic" thought. Such Eastern wisdom, from "Western Buddhism" to Taoism, is establishing itself as the hegemonic ideology of global capitalism. But while Western Buddhism presents itself as the remedy against the stress of capitalism's dynamics -- by allowing us to uncouple and retain some inner peace -- it actually functions as the perfect ideological supplement.

Revenge of Global Finance by Slavoj Zizek
In These Times, 21 May 21 2005

The following is from Zizek's Interrogating the Real (pp. 84-85) in a section titled "The 'Third Culture' as Ideology." Lest you wonder precisely which 'Third Culture' Zizek is referring to, scan this 1991 screed by John Brockman. Brockman's entire book is online here.

It is thus crucial to distinguish here between science itself and its inherent ideologization, its sometimes subtle transformation into a new holistic 'paradigm' (the new code name for 'world view'). A series of notions (complementarity, anthropic principle, and so on) are here doubly inscribed, functioning as scientific and ideological terms. It is difficult effectively to estimate the extent to which the third culture is infested with ideology. Among its obvious ideological appropriations (but are they merely secondary appropriations?), one should, again, note at least two obvious cases: first, the often present New Age inscription, in which the shift in paradigm is interpreted as an advance beyond the Cartesian mechanistic-materialist paradigm toward a new holistic approach that brings us back to the wisdom of ancient oriental thought (the Tao of physics, and so on).

Sometimes, this is even radicalized into the assertion that the scientific shift in the predominant paradigm is an epiphenomenon of the fact that humanity is on the verge of the biggest spiritual shift in its entire history, that we are entering a new epoch in which egoistic individualism will be replaced by a transindividual cosmic awareness. The second case is the 'naturalization' of certain specific social phenomena, clearly discernible in so-called cyber-revolutionism, which relies on the notion of cyberspace (or the Internet) as a self-evolving 'natural' organism; the 'naturalization of culture' (market. society, and so on, as living organisms) overlaps here with the 'culturalization of nature' (life itself is conceived as a set of self-reproducing information -- 'genes are memes').

This new notion of life is thus neutral with respect to the distinction between natural and cultural (or 'artificial') processes -- the Earth (as Gaia) as well as the global market both appear as gigantic self-regulated living systems whose basic structure is defined in terms of the process, of coding and decoding, of passing information, and so on. So, while cyberspace ideologists can dream about the next step of evolution in which we will no longer be mechanically interacting 'Cartesian' individuals, in which individuals will cut their substantial links to their bodies and conceive of themselves as part of the new holistic mind that lives and acts through them, what is obfuscated in such a direct 'naturalization' of the Internet or market is the set of power relations -- of political decisions, of institutional conditions -- which 'organisms' like the Internet (or the market. or capitalism) require to thrive. We are dealing here with an all too fast metaphoric transposition of certain biological-evolutionist concepts to the study of the history of human civilization, like the jump from 'genes' to 'memes', that is, the idea that not only do human beings use language to reproduce themselves, multiply their power and knowledge, and so on, but also, at perhaps a more fundamental level, language itself uses human beings to replicate and expand itself, to gain a new wealth of meanings, and so on.

Mr. Dawkins... Mr. Richard Dawkins... Mr. Pinker... Mr. Steven Pinker... please come to a white paging telephone. In fact, why don't all-a y'all get yo lily white asses on over here!

btw, Mystic B also visited the Third Culture in Positively Fourth Street. And not in the good way.

Cáusticos - Da igualdade de homens e animais na escravidão de ser

"Se considero com atenção a vida que os homens vivem, nada encontro nela que a diference da vida que vivem os animais. Uns e outros são lançados inconscientemente através das coisas e do mundo; uns e outros se entretêm com intervalos; uns e outros percorrem diariamente o mesmo percurso orgânico; uns e outros não pensam para além do que pensam, nem vivem para além do que vivem. O gato espoja-se ao sol e dorme ali. O homem espoja-se à vida, com todas as suas complexidades, e dorme ali. Nem um nem outro se liberta da lei fatal de ser como é. Nenhum tenta levantar o peso de ser. [...]
Estas considerações, que em mim são frequentes, levam-me a uma admiração súbita por aquela espécie de indivíduos que instintivamente repugno. Refiro-me aos místicos e aos ascetas - aos remotos de todos os Tibetes, aos Simões Estilitas de todas as colunas. Estes, ainda que no absurdo, tentam, de facto, negar a lei da vida, o espojar-se ao sol e o aguardar da morte sem pensar nela. [...]
Nós outros todos, que vivemos animais com mais ou menos complexidade, atravessamos o palco como figurantes que não falam, contentes da solenidade vaidosa do trajecto. Cães e homens, gatos e heróis, pulgas e génios, brincamos a existir, sem pensar nisso (que os melhores pensam só em pensar) sob o grande sossego das estrelas. Os outros - os místicos da má hora e do sacrifício - sentem ao menos, com o corpo e o quotidiano, a presença mágica do mistério. São libertos, porque negam o sol visível; são plenos, porque se esvaziaram do vácuo do mundo"

- Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, pp.178-179.

Primaverve

Sente
A Primavera vem rente
À tua pele nua e cara
À tua pele de serpente
Sente
A Primavera desmente
Nos seus bailes rituais
Que tu do quarto da vida
Do cosmos da lida
Nada queiras mais
A Primavera é correio
É desmesura, sinais
De que o inteiro nos conclama
Dentro da artimanha-ossatura
Do esqueleto do intelecto, dos porões resignados
Aos escuros encimesmamentos
Trancados na funda e finita letargia
Da estação do oblívio
Vem
A Primavera é alívio
Corola, desejo, istmo
Que nos separa da ínsula dos Fevereiros
Sente
A Primavera é da gente
O grande sol brotará do teu peito
E como flor no deserto
Beber-te-á todo o pejo de amar
A dança da vida por si só
Tem dó
Tem dom
Vem

domingo, 4 de janeiro de 2009

Para o Platero




Não é uma fotografia brilhante, mas também não era esse o objectivo.
O post do Platero sugeriu-me... No fundo, era bom que todos tivessemos uma quinta assim, ainda que imaginária.

Obrigada, Platero, pela simplicidade.
Deixo aqui esta minha imagem simples e dedico-a a si mesmo.
Se me permite uma dedicatória tão simples que chega a nem ter graça nenhuma

:)

E, já agora, posso também dedicar a todos os Emplumados e Serpenteados deste espaço.
Aos que já encontraram essa quinta dentro ou fora de si mesmos,
Aos que ainda não encontraram, mas até gostavam de encontrar
Aos que ainda não procuraram e aos que nem querem procurar

para quem goste da simplicidade

Sou rural - devo dizer que começo invariavelmente os dias
ateando um lume de lenha numa chaminé que podia ser uma cidade

cheguei a casa
tomei um banho
não muito grande
-do meu tamanho

do meu tamanho
do meu feitio
cheguei a casa
tomei um banho
não muito quente
não muito frio

um quente abraço a todos

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cáusticos - Da leitura e da escrita como formas de luxúria

"Porque caiu Don Juan na luxúria desesperada? Porque procurava o amor, isto é, a superação do tempo. Porque cai a mente leitora na luxúria da biblioteca? Porque procura o conhecimento, isto é, a superação do tempo. Porque escrevemos? Porque procuramos o silêncio do não precisar escrever mais, isto é, a superação do tempo. É absurdo o que estamos fazendo, Don Juan, leitor e escritor, e é preciso admiti-lo. Mas é um absurdo curioso esse absurdo que estamos fazendo. O mundo dos sentidos, o mundo fenomenal, é absurdo, porque carece de significado. Mas dentro dessa absurdidade todos os atos diabólicos têm um significado: a saber, manter esse mundo absurdo. A absurdidade da qual estou falando agora é absurda dentro da absurdidade do mundo. Trata-se, obviamente, de uma especulação calculada no argumento convulsivo que estou apresentando. Mas nessa especulação calculada reside um germe de esperança. Ler e escrever, aspectos femininos e masculinos da luxúria da mente, têm esse germe de esperança calculada no seu projeto. A luxúria mais evoluída, a luxúria mental, contém o germe da esperança. É um caminho tortuoso e cheio de sofrimento o caminho do ler e do escrever, e geralmente conduz ao inferno. Mas é um caminho acompanhado de esperança. Nem pela luxúria mais desenvolvida está garantido o diabo"

- Vilém Flusser, A História do Diabo, São Paulo, Annablume, 2006, 2ª edição, pp.100-101.

das (im)perfeições do ser


Trapo

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei, a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.


poema de Álvaro de Campos

Pacto em pura perda? - a propósito da postagem de um texto de Cioran



Mais uma vez, por imperativo da dimensão do comentário que determinado texto aqui postado me suscitou (no caso um excelente texto de Cioran, muito pertinentemente postado por Paulo Borges, e titulado “Caústicos – Os Santos”), faço-o como post, para não atamancar, como eu acho desrespeitosamente, um local que deve ser de breves comentários de partilha ou de um certo confrontar de posições e de opiniões.
A questão que levanta Cioran, a questão aguda que levanta Paulo Borges, é das mais interessantes, desafiantes e apaixonantes para o pensar, seja ele “filosófico” ou “teológico”.
Trata-se do problema de saber até que ponto, falando aqui por exemplar metáfora, o prólogo do livro de Job não é o paradigma do que se passa com todos nós, e sobremaneira com todo o homem que se queira “sincero e recto” (Job 1,1): no limite, a necessidade incortornável da presença “probadora” do mal, para que o bem, e sua virtude, isto é, o seu poder, possa manifestar-se em firmeza e, sobretudo, em transcendência de si.
São Máximo o Confessor, num texto que cito aqui de memória (e perdoe-se-me, por isso, algum pendor parafrásico no citá-lo), diz que “os homens santos, na verdade, não escolhem entre o bem e o mal, posto que, sendo vivos tabernáculos do Espírito de Deus, e aderindo a sua alma espontaneamente à Sua Presença neles, têm já o seu espírito acima do imperativo de escolha que advém de tal arbítrio: por isso, são realmente livres”.
Por isso também, ninguém é verdadeira e radicalmente provado num ambiente asséptico e, por assim dizer, “burguês”: isso seria jogar “fazendo batota” com Deus.
É fácil ser virtuoso quando não se tem, aparentemente, melhor vantagem em o não ser. Esta é, no fundo, porventura, a lógica do delinquente e do vulgar criminoso.
É fácil ser caridoso, podendo sê-lo, por querê-lo e por muito ter, dando um pouco (que muito será para quem nada tenha) daquele muito que por certo lhe sobeje. Mas sê-lo-ia, esse mesmo “caridoso”, na mesma medida se quase nada tivesse?
Quem é mais "caridoso"? Um homem poderoso que se presta interesseiramente ao mecenato, assim obtendo conhecidas vantagens fiscais e outras para continuar mais e mais rico, ou quem dê do que lhe faz falta, sem ver a quem e sem fazer juízos de valor quanto à bondade da sua acção - e não como agora se ouve, entre nós, quem governa auto-elogiar a “bondade” das suas acções ou medidas, como se quem governa lá estivesse para fazer outra coisa senão apenas isso…
O ponto em que temos de questionar-nos é o seguinte: seríamos nós diferentes, e em que medida o seríamos, se Deus (ou como queiramos chamar ao grande nexo de sentido das coisas no nosso viver) acedesse, relativamente a nós, a “estender a sua mão” (Job, 1, 11), “tocar em tudo quanto temos”(id.), para assim ver “se não blasfemaríamos d’Ele”(id.) abertamente, na Sua face, na Sua presença em nós?
Talvez, como se diz também no livro de Job, em passagem logo a seguir, Deus permita, como porventura podemos admitir que o faça a muitos dos nossos contemporâneos (seja em cenários de guerra, em territórios ocupados por americanos ou sionitas, por chineses ou outros, ou até por povos “ocupados” pelos seus próprios governos “legitimamente” eleitos numa não verdadeira escolha de alternativas eleitorais) em que, dizíamos, o vírus do mal - vírus é, por certo, linguagem mais compreensível para os nossos dias – infecte tudo na vida menos a alma que sobrevive intacta a todo o terror, a toda a extrema miséria e abandono, situações nas quais se evidencia que o que é verdadeira “propriedade privada” não é transaccionável nem especulável em bolsa (de outros valores), pelos que fazem no teatro deste mundo as vezes de Satanás, qual ele o faz em parábola no livro de Job.
O que se mostra então é a imensa volatilidade daquilo que é a nossa vida, daquilo que sejamos se dela retirarmos tudo aquilo que tenhamos, que seja mera posse, aquilo que sejam as circunstâncias mais ou menos lustrosas em que nos movamos, e o que nelas sejamos.
Quem seremos, o que será de nós, se de tudo que não é realmente o que nós “somos”, formos nós despojados?
Isso, como se vê por exemplos bem recentes, pode acontecer até àqueles que aparentemente estariam (naquilo que supomos e imaginamos) mais precavidos e resguardados contra tais perigos e, estultamente, mais seguros estavam de que tal nunca poderia acontecer-lhes: tal como em Sodoma, no tempo de Lot, não muito diferente do nosso, na verdade, “comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam” (Lc. 17,28), em toda “a grande cidade que reina sobre os reis da terra” (Apo. 17,18).
A voz do poeta de “O Outro Livro de Job”, Miguel Torga, aqui me ocorre, do “Cântico do Homem”(1950), no seu poema “Há Ratoeiras”:


Quando vierem, como feiticeiros,
Tirar-te o espírito do corpo,
Obstina-te, irmão!
Não,
Não
E não!,
Seja qual for a habilidade
E a humanidade
Da encantação.

Lembra-te dum cortiço!
O que ferve lá dentro e dá favos de mel,
É que presta.

Mas se querem a festa
Da tua morte,
Então,
Que levem tudo no caixão:
A alma e o suporte!

Este é, porventura, o canto de quem já pouco espera do homem, ainda que indeciso esteja do que deva esperar de Deus.
Este é o canto de quem muito quereria esperar do homem, mas está quase resignado a nada esperar de Deus.
Onde estamos nós nisto, cada um de nós?
(Gratíssimo, Paulo!)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

lugares de passagem

Cáusticos - Os Santos

"Se velam e oram é para obter de Deus por manha o segredo do seu poder. Pérfidas súplicas as destes revoltados em torno dos quais o demónio se apraz de rondar. Hábeis, dele colhem também por manha o seu segredo, forçando-o a trabalhar para eles. Sabem tirar proveito do princípio maligno que os habita para se elevarem. Aqueles que se desmoronam fazem-no com alguma complacência: tombam não como vítimas, mas como associados do Diabo. Salvos ou perdidos, todos trazem uma marca de não-humanidade, todos se repugnam a conferir um limite aos seus empreendimentos. Renunciam? A sua renúncia é total. Porém, em vez de isso os diminuir e enfraquecer, por ela se encontram mais poderosos que nós, que conservamos os bens por eles abandonados. Aterrorizam-nos, estes gigantes de alma e corpo fulminados. Contemplando-os, temos vergonha de ser homens sem mais. E se, por sua vez, eles nos olham, deciframos as palavras que a nossa mediocridade inspira à sua misericórdia: "Pobres criaturas que não tendes a coragem de vos tornar únicas, de vos tornar monstros". Decididamente, o Diabo trabalha para eles e não é estranho à sua auréola. Que humilhação a nossa por havermos pactuado com ele em pura perda!"

- E. M. Cioran, "La Tentation d'Exister", in Oeuvres, Paris, Gallimard, 1995, p.921.

Quem não age vive morrendo

Quem não age vive morrendo
Perde tudo e até a sua memória
E quem assim vive não vivendo
Será atropelado pela História.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Pensar

pensei que os teus cabelos fossem trigo
que me trouxe o vento para debicar
pensei que as rosas bravas do jazigo
eram versos de inverno para amar

pensei que a lua pintada nos teus olhos
fosse uma estrela lançada desde o mar
pensei que as janelas sem abrolhos
eram portas secretas ao teu lar


pensei que os teus cabelos fossem trigo
que o vento me trouxe para debicar

(nas tardes de anatólia sou, amiga,
uma rosa de nenhum lugar)

pensei que o mel fosse destino
de corpos destinados a se amar

que as pedras fossem no caminho
antigas lendas para além do mar

pensei sem palavras e sem vinho
deitado junto às vides do lugar

que os teus cabelos eram trigo
enlaçados aos meus dedos para amar...


(- Dizei-me, ó meus amigos,
se pensei, sinceramente,
bem ou mal.)


(De Lua de Anatólia)



http://navegare--preciso.blogspot.com/

Convocação à dança de ser






Da voz que, de lés a lés de todos os universos, a todos convoca à dança do Um com um, do Todo com o todos, do ninguém de todos com o tudo de ninguém.

Seres magoadamente solitários seremos tanto mais quanto menos queiramos ser dádiva, dom, entrega, comunhão do que se não divide, do que não tem partilha, do que é tudo para nós em todos, em ninguém.

Nenhum de ninguém – eis o lugar em que somos quando, num "instantâneo" clarão, que em nós "rasgue" o que em nós é túnica sempre inconsútil de ser, e então tudo em nós for beijo que não escolhe a quem, abraço que já abraçado está, alegria que não tem como não ser, amor que, contradição e paradoxo de si, será uroboros de nós no que de nós jamais partira.

De Yulunga, dança que sagra cosmos na não-diferença entre micro e macro aspectos, atravessando todos os universos sem dimensão, nos encontramos sempre, sempre que a pulsão imóvel do ser em nós seja o Saltarello extático em que nos dançamos uns nos outros, na sagaz folia de estarmos vivos e de sermos infantes coroados, por tudo, em todos: divinos e sumamente belos.

A todos vós indistintamente, e a cada um muito em particular, o meu abraço, no abraço a Paulo Borges, convocador desta nossa dança.

Bem hajam! E...“hajam-se”!