O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sábado, 17 de janeiro de 2009

Estranheza

À memória de Fernando Neves

Ser é estranho. A experiência de haver algo é estranha. Haver realidade, sujeito e mundo, haver eu, outros e coisas, haver estes pensamentos e palavras que o nomeiam - seja isso o que for, real, ilusório ou real e ilusório - , é de um estranhamento sem fundo.
O mais estranho de tudo é o sentimento de ser, o sentimento de se ser, o sentimento/pensamento de se ser um ser, de existir. O que é isto de me sentir, de me sentir um ser distinto do mundo e dos outros seres, de me sentir aqui e não ali, de me sentir um/num corpo que oculta uma contínua metamorfose emocional e mental? O que é isto que se diz ser um corpo e um corpo humano? O que é isto de haver uma forma e de a considerar a minha forma? O que é isto de haver uma cabeça, um pescoço, um tronco, dois braços e duas mãos, duas pernas e dois pés? O que é isto de haver um rosto e de o considerar o meu rosto? O que é isto de haver dois olhos, duas orelhas, um nariz, uma boca? O que é isto de ter pele, carne, ossos, tendões, nervos, músculos, órgãos, sangue, linfa, secreções, mucos, fezes e urina? O que é isto de passar o tempo imóvel e em movimento, a deitar-me, levantar-me, sentar-me e a andar? O que é isto de estar sempre acordado ou a dormir, a sonhar ou não? O que é isto de passar o tempo a fazer coisas ou a não fazer nada e ter consciência disso? O que é isto de estar em silêncio, respirar, pensar, falar, agir? O que é isto de percepcionar continuamente o que julgo e se diz ser o meu corpo, as minhas emoções e os meus pensamentos? O que é isto de percepcionar continuamente o que considero seres e objectos e o que é considerá-los isso? O que é isto de poder continuamente tocá-los, agarrá-los, falar-lhes, afectá-los?
O que é estar aqui, neste preciso instante, a sentir-me sentado no que se diz ser uma cadeira, a bater com o que se diz serem dedos no que se diz ser um teclado, enquanto sinto e penso o que se diz ser sentir e pensar isto e contemplo o que se diz serem caracteres a aparecerem no que se diz ser um ecrã, enquanto o que se diz ser um gato se levanta e desloca para junto do que se diz ser um aquecedor?
E o que é isto que se diz ser a minha vida? O que é este contínuo, dia após dia e noite após noite do que se diz serem dias e noites, manhãs e tardes, acordar, levantar-me, lavar-me, fazer exercícios físicos e espirituais, vestir-me, saudar a família, estudar, escrever, traduzir, conduzir, dar aulas, comer, beber, urinar, evacuar, dormir? O que é isto que se diz ter família, filhos e companheira, amigos, inimigos e indiferentes? O que é isto que a tudo isso acompanha, a babélica multidão do que se diz serem sentimentos e emoções, sempre mutáveis, a sucederem-se e a converterem-se uns nos outros: amor, apego, ódio, raiva, medo, indiferença, ciúme, inveja, ternura, orgulho, vaidade, compaixão, avareza, desejo, alegria, tristeza, esperança e seus contrários? E o que é a vertiginosa turbamulta do que se diz serem pensamentos e palavras, de tudo isso inseparáveis? O que é ter um nome? O que é responder a ele como se efectivamente me designe, quando não sei o que é isso ou esse que designa nem o que é ser? E o que é ter passado pelo que se diz ser o nascimento e ir passar pelo que se diz ser a morte?
O que é interrogar e pensar tudo isto e o que ou quem é – se, como dizem, o há – quem assim interroga e pensa? O que é cada um destes pensamentos e palavras? O que é um pensamento e uma palavra? O que é dizer e pensar o quer que seja? Haver palavras e pensamentos é tão estranho quanto haver o que se pense e diga.

Porque não sei responder em absoluto a estas questões, se me libertar das respostas que outros antes de mim sem as colocar deram e que quase todos sem as colocar e dar dão? E porque julgo quase sempre saber ou faço de conta que sei o que em verdade não sei? Porque me sinto tão incomodado com o súbito despertar a saber que o não sei e, por hábito ou opção, consciente ou inconsciente, sempre por conforto, quase logo disso me distraio e o esqueço? Porque é tão difícil pairar suspenso no abismo da interrogação e tão facilmente resvalo para o chão de tão incertas certezas e inseguras seguranças?

Tudo é tão estranho. E em verdade, mais estranho ainda que o sentimento da estranheza de tudo, é ele ser tão estranho. Pois que há ou se crê haver que se não estranhe? Que há que seja em absoluto familiar, conhecido e próximo, a começar pelo que digo e me dizem ser eu próprio? O que é ser eu próprio?

Ser é muito estranho.

E o que é estranhar? Ser em suspensão de si e de ser? In-ex-istir? Estar aqui alhures?

(Dedico este texto à memória do Fernando Neves, companheiro de escola e brincadeiras na rua, bom jogador de futebol e nada intelectual, com o qual, num belo dia, deveríamos ter uns 8 anos, sentados em cima de um muro que já não existe perto da casa de meus pais, descobri que o sentimento do terrível enigma de tudo, e a interrogação do porque há ser, era algo compartilhado. Recordo-me como se fosse agora de, subitamente, confessarmos mutuamente como pensávamos nisso até à exaustão e à sensação da iminência da loucura ou da explosão. Jamais encontrei na Universidade, ou na leitura e convívio com poetas e filósofos, momento mais gratificante. Tudo o que aqui escrevo não é senão uma redutora extensão desse relampejante diálogo.
O Fernando Neves passou a ter uma doença estranha a partir da adolescência e acabou por se suicidar, após se lançar uma segunda vez da janela da casa dos pais, perto de onde moro. Não se inquietem ou alegrem todavia os leitores, pois não creio ir no mesmo caminho. Creio que a estranheza e a incerteza acerca da própria existência se substituem ao suicídio com evidentes vantagens)

Perguntas a Pablo Neruda no centenário de seu nascimento

“Quando se dita debaixo da terra
a designação da rosa?”
Pablo Neruda, Libro de las Preguntas

Janeiro é um pedaço de brasa extraviada
que inaugura o ciclo da água?


É verdade que os ingleses não saltam?
Os presidentes estão isentos de subir nos colectivos?

Por que às vezes quando dói a alma ri a poesia?
Por que não tem emprego se sobra o trabalho?

Um operário da Ford
vale menos que um carro?

O pedreiro que ergue maravilhas vive numa casa
sem reboco? Tem janela para ver o vizinho?

É que os varredores leva a terra do centro
das cidades para que reviva nas ourelas?

Tem essa mulher um homem em seu braço
ou uma carteira?

Quem se anima a jurar que o Chê é morto?
E por certo, querido Pablo, Miguel e Frederico?

Dobram os sinos?

Vale mais um homem ou a palavra?
Ou um homem de palavra?

Desmancha de rir o menino com chocalho
Ou é o chocalho que solta gargalhadas da justiça?

É que quem vai embora tinha pátria
ou a pátria é virtude em vias de extinção?

Sabe a história se alguma vez, o mundo,
respirou livre de impérios e traidores?

É a lua o jasmim mais próximo do abraço?

Terminará no cárcere também o silêncio cúmplice?

É que há muitos gatos ou os pássaros não morrem?

Desprendeu-se um retalho constelado
ou um menino traçou seu mapa da noite com um dedo?

Que aconteceria se nos hospitais
se deixasse de administrar amor em generosas doses?

Quando entenderá o homem que a mulher leva

a gota de sumo do mundo nos seus lábios?


Regressei um navio?

Por que os ministérios da Economia
são mais importantes que os ministérios da Cultura?

Onde se acabam as perguntam? Então calo, na boca?

Por que a poesia, Neftalí Reyes, companheiro,
entre os escombros como uma rosa indomável?

Poema de Gabriel Impaglione

Tradução de António Miranda

Pôr-do-sol





Praia de Carcavelos

Homens de Mármore

Sonho com claustros de mármore

onde em silêncio divino

repousam heróis, de pé.

De noite, aos fulgores da alma,

falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

Por entre as filas; as mãos

de pedra lhes beijo; entreabrem

os olhos de pedra; movem

os lábios de pedra; tremem

as barbas de pedra; choram;

vibra a espada na bainha!

Calada lhes beijo as mãos.


Falo com eles, de noite.

Estão em fila; passeio

por entre as filas; choroso

me abraço a um mármore. — “Ó mármore,

dizem que bebem teus filhos

o próprio sangue nas taças

envenenadas dos déspotas!

Que falam a língua torpe

dos libertinos! Que comem

reunidos o pão do opróbrio

na mesa tinta de sangue!

Que gastam em parolagem

as últimas fibras! Dizem,

ó mármore adormecido,

que tua raça está morta!”


Atira-me à terra súbito,

esse herói que abraço; agarra-me

o pescoço; varre a terra

com meus cabelos; levanta

o braço; fulge-lhe o braço

semelhante a um sol; ressoa

a pedra; buscam a cinta

as mãos diáfanas; da peanha

saltam os homens de mármore!



poema de José Martí (1853–1895)-poeta cubano

Tradução portuguesa de Henriqueta Lisboa

L'AMOUREUSE

Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien a dire.


Paul Eluard, in Capitale de la douleur, Poésie/ Gallimard, 1966.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A Face Oculta dos Progressos Técnicos

Os progressos técnicos, que toda a gente está confundindo cada vez mais com progresso humano, vão criar cada vez mais também um suplemento de ócio que, excelente em si próprio, porque nos aproxima exactamente daquele contemplar dos lírios e das aves que deve ser nosso ideal, vai criar, olhado à nossa escala, uma força de ataque e de triunfo; mais gente vai ter cada vez mais tempo para ouvir rádio e para ir ao cinema, para frequentar museus, para ler revistas ou para discutir política, e sem que preparo algum lhe possa ter sido dado para utilizar tais meios de cultura: a consequência vai ser a de que a qualidade do que for fornecido vai descer cada vez mais e a de que tudo o que não for compreendido será destruído; raros novos beneditinos salvarão da pilhagem geral a sempre reduzida antologia que em tais coisas é possível salvar-se.
O choque mais violento vai dar-se exactamente, como era natural, nos países em que existir uma liberdade maior; nos outros, as formas autoritárias de regime de certo modo poderão canalizar mais facilmente a Humanidade para a utilização desse ócio; sucederá, porém, o seguinte: nos países não-livres, porque nenhum há livre, mas enfim mais livres, algumas consciências se erguerão dos destroços e pacientemente, com todas as modificações que houver a fazer, converterão o bárbaro ao antigo e sempre eterno ideal de «vida conversável»; nos outros, a não sobrevir uma revolução causada pelo tédio ou pelo próprio desabar da outra metade do mundo, o trabalho será mais difícil porque se terá de arrancar os homens, no seu conjunto, à ideia de que o que vale é a segurança material, o conforto técnico e, se for possível, nenhum rumor de pensamento dialogado.
Esta não já invasão mas explosão de bárbaros terminará a nossa Idade Média, aquela que veio ininterruptamente, só superficialmente mudando de aspecto, desde o século III ou IV até nossos dias, e que se caracterizará talvez pelo esforço de fazer regressar o homem de uma vida social a uma vida natural.


Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
Fonte: Citador

Às vezes

fotografia "Retorno-I" by Fernando Figueiredo in www.olhares.com/fernandofigueiredo

para a susana

às vezes
estou num ponto da casa,
e sei, e sinto,
que tu estás algures
noutro ponto
da mesma casa.

e sinto, e penso:
demos mais um passo
para a vida eterna.
cada um de nós deu mais
um passo
em direcção à sua morte.

e perdemos mais este momento
em que podíamos ter falado,
ou entretecido bocas
e olhares.

tomámos, em diferentes
sítios da casa,
diferentes caminhos;
iniciámos trajectos
discordantes
em direcção ao nosso
desaparecimento
na noite do espaço/tempo.

quando nos despedirmos,
que diremos?
até onde, até quando?

será possível termos
partilhado tanto,
e partir assim sem aviso,
como se nos tivesse sido roubada
toda a história anterior?

por isso, peço:
quando estiveres para morrer
noutro ponto da casa,
por favor diz primeiro.

combina comigo,
para eu ir morrer lá também.



Vítor Oliveira Jorge
Pequeno Livro de Aforismos
Seguido de Algumas Alumiações
Porto, 2005

Apontamento

Os jardins parecem abandonados. A infância também. No palácio, as estátuas reflectem, como espelhos, algo que não deixam partir. Prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. As salas estão arrefecidas e nada é real. O belo não existe, como bem sabia Kant. Inexiste. As salas e os jardins do palácio são belos. Mas quando ela se pergunta se o arrefecimento vem do clima, logo percebe que vem do que parece que finda.
A Ideia é ainda, para o humano, o que vem do que está fora do tempo, mas o visita. A Ideia não vem até ela, é ela que vai ao palácio, e o palácio, pensa, é uma obra que a invade de melancolia. A Ideia, no palácio, petrifica-a. Para ela, o palácio continua, como na infância, um lugar velho, um antiquíssimo lugar de reconhecimento. Continua velho, como na infância, continua com ela um continuum de mútuo envelhecimento. Agora ela sabe que a obra de arte não pode ser conhecida porque é um ethos de recolhimento e acolhimento. Na obra de arte, a Ideia é uma visão de reconhecimento e, na ruína da obra, a Ideia resgata-a para a Origem. É por isso que as ruínas brilham mesmo quando arrefecidas. A Ideia paira sobre elas como uma poeira de luz, como um vulto ou manto oculto vagando por entre as portas, no entreaberto, na altura dos tectos, nas sombras ou nas cores consumidas, nas colunas, nas volutas carcomidas. Sente-a em permanente vertigem pelo tempo. Pensa na Capela Sistina e experimenta a mesma sensação, Deus recua nos interiores da pintura de Miguel Ângelo, como recua em silêncio no Antigo Testamento, na obra de arte a Ideia recua. A Ideia de Beleza recua até à ruína…
É esse recuo que gera, no contemplativo, a obediência. É preciso ficar onde uma Ideia não parte mesmo quando se afasta. Assim é com ela, ela prefere obedecer à beleza que a transcende do que à lógica que domina. Assim, presa à Beleza, sente, o belo é belo. Fala para B. mas não consegue partilhar esse sentimento invasivo do Belo. Pensa ainda, antes do coro entrar, que sabe ela do sono? Sabe que o sono é sono. E se lhe sorri, a B., é porque passa à sua frente, como um vulto ou um manto que se quer oculto para sempre, a Ideia. Dela recebe uma bênção. E essa sabe-a, ou melhor consegue dizê-la, a bênção que vem da Beleza é a tristeza. Percebe, antes da música, por que razão consegue o melancólico a visão da Beleza. Há nele e nela um júbilo que talvez venha, Paulo e Lapdrey, da divina mania, talvez o divino ou a Ideia só se ofereça como um dom, porque, lembra-se de ter ouvido ou lido, não sabe a quem nem quando, Deus dá aos que estão em sono profundo e não tanto aos que estão em vigilância permanente. A Beleza abre ao que está vivo e com sono uma morada no sonho, promete um movimento interior ao olhar para o lugar onde dança a imagem pairante, como a pureza promete ao arrependido um lugar à direita do Pai. O melancólico adormece e envelhece, por isso, escutando e vendo a dança segundo a música do tempo. Acompanha com o olhar os coros que cantam, os coros que a dançam. O melancólico é como Janus, o dos dois rostos, é com o olhar elanguescido e adormecido pela música do tempo, o que está voltado para os que vivendo, na roda da vida, conhecem o prazer, a riqueza, a pobreza e a vitória e é, com o olhar rejuvenescido, o que olha para trás, para a Origem. Os homens melancólicos são como as estátuas, reflectem como os espelhos algo que não deixam partir, prendem a palavra ao silêncio, o invisível ao visível. Os homens melancólicos não perdem dentro de si a infância. Ela é, dentro deles, o Diónisos que o tempo sacrifica, mas o seu outro rosto voltado para trás, glorifica.



Escutando musicalmente Diónisos, o coro, os melancólicos esperam a apresentação da Ideia. Apolo visita-os nessa escuta adormecida. Só a escuta prepara a visão, como só o discurso não escrito treina a memória – como sabia Platão – para o reconhecimento da Ideia. E assim, sonham, que os humanos se reconhecerão filhos dos deuses: escutando a música dos coros que, transformando a dor em alegria, nos mostram a vida como festa da agonia. Os melancólicos esperam o trágico. Porque na música, a Ideia, ressurgindo num movimento do corcel dominado pela Ordem e pelo Ritmo – por Apolo – recua para dentro do homem. No corpo arrefecido, no corpo adormecido e no corpo ferido de mortalidade, a dança segundo a música do tempo, prende com a atenção o que da Ideia perpassa e de nós se afasta. O homem sonha esse outro que dentro de si, velho, é para sempre criança, a recriança. É na ruína que a Origem se anuncia e recria. É na infância que a voz é una com o todo.

Este breve apontamento sobre melancolia, Beleza e música nasceu por causa do poema de Platero que musicalmente escutei no palácio, o lugar onde a minha alma em criança se deu conta da sua melancolia e no domingo, recriando os movimentos do tempo, foi recriança. Grande e grande é a Beleza do poema e da oliveira. Puro o óleo que nos unge de inocência e lembrança.

Curso de Literatura Portuguesa na Galeria Matos Ferreira

MATOSFERREIRA - GALERIA DE ARTE

BAIRRO ALTO - Rua Luz Soriano, 18 / 1200 - 247 LISBOA * Tlf: 213 230 011 Tlm: 962 953 722

CURSO DE LITERATURA PORTUGUESA

Por DUARTE DRUMOND BRAGA

21 de Janeiro a 11 de Março / 2009

A GALERIA MATOS FERREIRA vai promover em parceria com a ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA um interessante Curso sobre Literatura Portuguesa.

OBJECTIVO
O objectivo do Curso é fornecer um panorama da literatura portuguesa da geração de 70 até ao modernismo, um dos períodos mais ricos da nossa tradição literária.

O curso dividir-se-á em dois blocos, o primeiro dos quais respeitante ao período que vai de 1865 até às correntes finisseculares, e o segundo relativo ao modernismo, sendo que a primeira aula de cada bloco será sempre dedicada à necessária contextualização histórico-cultural.

PROGRAMA
I. Da Geração de 70 até às correntes do fim-de-século:
A geração de 70 e os caminhos do Fim-de-Século;
António Nobre: memória individual e memória nacional;
Cesário Verde: a transformação poética do mundo;
Os Pobres de Raul Brandão: a ficção no fim-de-século.

II. O Modernismo Português
O modernismo em Portugal e a modernidade estética;
Poesia de Teixeira de Pascoaes: panteísmo e saudade;
Introdução a Fernando Pessoa;
Alberto Caeiro: ignorância e revelação.

HORÁRIO, INSCRIÇÕES E PREÇO
As aulas serão realizadas em período pós-laboral às quartas-feiras, de 21 de Janeiro a 11 de Março, inclusivé, ou seja nos dias 21, 28, de Janeiro, dias 4, 11, 18 e 25 de Fevereiro e ainda nos dias 4 e 11 de Março, das 19h00 às 20h30.

O Curso tem um limite máximo de 20 (vinte) participantes. O seu preço é de EUR 70,00 (setenta euros), podendo ser pagos em duas prestações de EUR 35,00 cada, devendo a primeira ser paga até 28 de Janeiro e a segunda até 25 de Fevereiro. Inclui material de apoio e confere ainda o direito a certificado de participação.

Os interessados podem-se inscrever através do Tel 21 323 00 11, do Tlm 96 295 37 22, do Email: mfgaleria@netcabo.pt. Em qualquer das opções deverão indicar sempre o número de telemóvel para eventual contacto.

PERFIL DO FORMADOR
DUARTE DRUMOND BRAGA é licenciado em Estudos Portugueses pela FLUL - Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e prepara uma dissertação de mestrado em Estudos Comparatistas sobre literatura portuguesa do fim-de-século.
DUARTE BRAGA leccionou já também cursos sobre cultura e literatura portuguesa dos séculos XIX e XX. Tem publicado alguns trabalhos científicos sobre literatura, cultura e pensamento português, dentro dos quais se destaca a co-organização, com Paulo Borges, do volume "O Buda e o Budismo no Ocidente e na Cultura Portuguesa". Pertence à direcção da ASSOCIAÇÃO AGOSTINHO DA SILVA.

As Fontes

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I, 1944

Casa Cheia

Começou por ser uma casa vazia. Portas e janelas sempre abertas. Chão e paredes de pedra. Tectos transparentes. Também a sua localização era importante. Não era uma casa fixa, circulava, ora rodeada de floresta, ora de nuvens, ora de estrelas. Era uma boa casa. Dormia no chão e nem sentia o frio da pedra. Era feliz. Amigos vinham e iam, como aves de arribação. Abraços, risos, conversas, algumas lágrimas. Era a melhor casa do mundo.

Até que um dia vieram aqueles que não partiram mais.

Começaram por pôr trancas nas portas e janelas e começaram a trazer coisas para dentro de casa. Depois, fixaram-na ao chão, com cabos de aço, para facilitarem a tarefa de acumulação e enchimento. Cobriram os tectos com placa sólida. Trouxeram raiva, amargura, frustração. E coisas, muitas coisas. Coisas sólidas, que ocupam tudo, de todos os tamanhos, côres e texturas, coisas grandes e coisas pequenas, bicudas e redondas, com e sem arestas, de formatos simples ou complexos. A paisagem desapareceu e a casa começou a encher-se do pó dos que não partiam e do envelhecer das coisas. Já nem havia espaço para as aves de arribação, que com tristeza, ainda pousavam nos beirais, de vez em quando, até que um dia deixaram de vir. A casa ficou cheia, muito cheia, e escura e triste. E a alma que vivia lá dentro, deixou de conseguir respirar e morreu, sem espaço e sem luz.

~

Gosto muito deste blog e dos seus membros e pedi ao Paulo Borges para participar. Espero contribuir de forma digna.
Um abraço a todos.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Haiku

Nuas por fora
prenhes de verde por dentro
as árvores esperam.


David Rodrigues
Estações Sentidas. 111 Haiku, 2007
Indícios de Oiro, Edições, Lda


como nos diz o próprio poeta "Talvez a grande sedução do haiku seja o seu carácter conciso. Ainda que sem uma fórmula rígida, espera-se que o haiku tenha aproximadamente cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e, de novo, cinco no terceiro" (Rodrigues 2007, cit. in Estações Sentidas. 111 Haiku, p. 9)

ainda no dizer do poeta "hacaísta" brasileiro Paulo Franchetti "Haikai não é a síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o mínimo, obter o suficiente"

Segundo Gonçalo M. Tavares "Se pensarmos com a fita métrica na cabeça diremos que há pouco para ler, no entanto a leitura de um Haiku É muito mais lenta do que o normal. Ler um Haiku é, de certa maneira, voltar de novo à experiência de aprender a ler, de ler como uma criança -letra a letra - como se a visão fosse menos ver do que tocar" (cit. in prefácio Estações Sentidas. 111 Haiku, 2007)

O universo como um holograma



A realidade objectiva existe, ou será o universo é fantasmático?
Eis parte dum artigo que pode ajudar-nos, ao menos, a pensar nisso.


"Em 1982 ocorreu um facto muito importante. Na Universidade de Paris uma equipa de investigação chefiada pelo físico Alain Aspect realizou o que pode tornar-se a mais importante experiência do século XX. Não se ouviu falar disso no noticiário da noite. De facto, a menos que se tenha o hábito de ler jornais e revistas científicos, o mais provável é nunca se ter ouvido falar no nome de Aspect.
Todavia muitos são os que pensam que o que ele descobriu pode mudar a face da ciência.
Aspect e a sua equipa descobriram que, sob certas circunstâncias, partículas sub-atómicas como os electrões são capazes de comunicar-se instantaneamente umas com as outras, não obstante a distância que as separe. Não importa se estão a um distância de 10 metros ou de 10 bilhões de quilómetros. De alguma forma uma partícula sabe sempre o que a outra está a fazer. O problema com esta descoberta é que isto viola a há por muita sustentada afirmação de Einstein de que nenhuma comunicação pode viajar mais rápido que a velocidade da luz. E como viajar mais rápido que a velocidade da luz é o objectivo máximo para quebrar a barreira do tempo, este facto perturbador tem feito com que muitos físicos tentem vir com formas elaboradas para rejeitarem as descobertas de Aspect.
Mas também tem proporcionado que outros procurem explicações mais radicais.
O físico da Universidade de Londres, David Bohm, por exemplo, acredita que as descobertas de Aspect implicam que a realidade objectiva não existe como tal, e que, a despeito da aparente solidez, o universo está no seio de um holograma fantástico, gigantesco e extremamente detalhado. Para entender porque Bohm faz tal afirmativa surpreendente, temos primeiro que saber um pouco sobre hologramas.
Um holograma é uma fotografia tridimensional feita com a ajuda de um laser. Para fazer um holograma, o objecto a ser fotografado é primeiro banhado com a luz de um raio laser. Então um segundo raio laser é colocado fora da luz reflectida do primeiro e o padrão resultante de interferência (a área aonde se combinam estes dois raios laser) é capturada no filme. Quando o filme é revelado, parece um redemoinho de luzes e linhas escuras. Mas logo que este filme é iluminado por um terceiro raio laser, aparece a imagem tridimensional do objecto original.
A tridimensionalidade destas imagens não é a única característica importante dos hologramas. Se o holograma de uma rosa é cortado ao meio, e em seguida iluminado por um laser, será ainda encontrada em cada metade uma imagem da rosa inteira. E mesmo que seja novamente dividida cada parte do filme sempre apresentará uma menor, mas ainda intacta versão da imagem original. Ao contrária das fotografias normais, cada parte de um holograma contém toda a informação possuída pelo todo.
A natureza de "todo em cada parte" de um holograma proporciona-nos uma maneira inteiramente nova de entender organização e ordem. Durante a maior parte da sua história, a ciência ocidental tem trabalhado dentro do pressuposto de que a melhor maneira para entender um fenómeno físico, seja ele um sapo ou um átomo, é dissecá-lo e estudar as partes que o constituem.
Um holograma ensina-nos que muitas coisas no universo não podem ser entendidas com tal abordagem. Se tentarmos tomar alguma coisa à parte, de alguma coisa construída holograficamente, não obteremos as peças da qual tal coisa é feita, obteremos apenas inteiros menores.
Este ponto de vista é o sugerido por Bohm como outra forma de compreender os aspectos da descoberta de Aspect. Bohm acredita que a razão que permite as sub- partículas de permanecerem em contacto umas com as outras, a despeito da distância que as separe, não é porque elas estejam a enviar algum tipo de sinal misterioso, mas porque tal separação é uma ilusão.
Argumenta ele que, num nível mais profundo de realidade, estas partículas não são entidades individuais, mas extensões da mesma coisa fundamental. Para permitir visualizarmos melhor o que ele quer dizer, Bohm ilustra-o da maneira seguinte.
Imagine-se um aquário que contém um peixe. Imagine-se também que não se consegue ver o aquário directamente e que o nosso conhecimento do aquário se dá através de duas câmaras de televisão, uma dirigida ao lado da frente e a outra à parte lateral.
Quando se observa atentamente os dois monitores, acaba-se presumindo que o peixe de cada uma das telas é uma entidade separada. Isto porque, como as câmaras foram colocadas em ângulos diferentes, cada uma das imagens será também ligeiramente diferente. Mas se continuarmos a olhar para os dois peixes, acabamos por adquirir a consciência de que há uma relação entre eles.
Quando um se vira, o outro faz uma volta correspondente apenas ligeiramente diferente; quando um se coloca de frente para a frente, o outro coloca-se de frente para o lado. Se não soubermos dos ângulos em que estão colocadas as câmaras, podemos ser levados a concluir que os peixes estão a intercomunicar-se, apesar de esse não ser claramente o caso.
Isto, diz Bohm, é precisamente o que acontece com as partículas sub-atómicas na experiência de Aspect. Segundo Bohm, a aparente ligação mais-rápido-do-que-a-luz entre as partículas sub-atómicas está a dizer-nos que de facto existe um nível de realidade mais profundo da qual não estamos privados, uma dimensão mais complexa além da nossa própria que é análoga à do aquário. E, acrescenta ele, vemos objectos como tais partículas sub-atómicas como se estivessem separadas umas das outras porque estamos vendo apenas uma parte da realidade delas.
Estas partículas não são partes separadas, mas sim facetas de uma unidade mais profunda e mais subliminar que é holográfica e indivisível como a rosa atrás referida. E como tudo na realidade física está compreendido dentro destes "eidolons", o próprio universo é uma projecção, um holograma.
A esta natureza fantástica acresce que tal universo possuiria outras características surpreendentes. Se a aparente separação das partículas sub-atómicas é uma ilusão, isso significa que, num nível mais profundo de realidade, todas as coisas do universo estão infinitamente interconectadas.
Os electrões num átomo de carbono no cérebro humano estão interconectados com as partículas sub-atómicas que compreendem cada salmão que nada, cada coração que bate, e cada estrela que brilha no céu.
Tudo interpenetra tudo e embora a natureza humana possa procurar categorizar como um pombal e subdividir os vários fenómenos do universo, toda a partição é de fato necessariamente artificial e tudo na natureza se mostra finalmente uma rede descosida.
Num universo holográfico, nem o tempo e o espaço podem já ser vistos como fundamentais. Porque conceitos como localização colapsam diante de um universo em que nada está verdadeiramente separado de nada, tempo e espaço tridimensional, como as imagens dos peixes nos monitores também podem ser vistos como projecções de uma ordem mais profunda.
Este tipo de realidade a nível mais profundo é um tipo de super-holograma no qual o passado, o presente, e o futuro existem simultaneamente. Isto sugere que, tendo as ferramentas apropriadas, um dia poderá ser possível entrar dentro deste nível de realidade super-holográfica e trazer cenas do passado há muito esquecido. Seja o que for que o super-holograma contenha, ele é ainda uma questão em aberto. Pode-se até admitir, por mera suposição, que o super-holograma é a matriz que deu origem a tudo no nosso universo e que, no mínimo, ele contém cada partícula sub-atómica que existe ou existirá. Cada configuração da matéria e energia que é possível - de flocos de neve a quasars, de baleias azuis aos raios gama - deve ser visto como um tipo de "depósito" de ''Tudo que é".
Embora Bohm admita que não há maneira de saber o que mais pode estar oculto no super-holograma, ele arrisca em dizer que não temos qualquer razão para admitir que ele não contenha mais. Ou - como ele coloca a questão - talvez o nível super-holográfico da realidade seja um simples estágio além do qual repousa 'uma infinidade de desenvolvimento posterior'."

Fonte: http://www.keelynet.com/biology/reality.htm