O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

SANTA MARIA DE ÉVORA


Esta é a visão de um amigo meu sobre a Catedral de Évora. Partilho-a convosco, pois sei que nessa visão está um profundo entendimento e dele guardarão o que receberão em AMOR.
A "minha" catedral continua inacabada e imperfeita. Cada coluna é uma abertura e não tem tectos...


SANTA MARIA DE ÉVORA


"Que noite gloriosa a de hoje
Cheia de anjos e de névoa
Como aquela noite longínqua
Quando vislumbrei da planície
Uma Rosa na Catedral de Évora."
W. B. YEATS

Os Corvos negros fizeram-se ouvir na Torre Sineira da Catedral Gótica.
No interior, a Luz animou as Colunas... A Senhora do Ó, o Anjo, o Grifo e a Lebre desceram dos pedestais.
O Arquitecto desenrolou o Papiro e fez transparecer a Sua Mensagem inefável... Do triforium ouviram-se sons... A Energia entrou pelas Rosáceas e encontrou-se no Centro e jorrou para cima e para os lados e para baixo.
A Torre Lanterna incendiou-se e iluminou-se nos seus oito lados.
Os Corvos, no exterior, debandaram nas sete direcções do Espaço profundo.
A Palavra, regularmente pronunciada, fez erigir o Templo e acontecer o Ritual. As pancadas soaram, a Porta abriu-se e o Neófito aproximou-se com passada cadenciada e hesitante, do Oriente. Mas não se encontrava só... a Presença do Mestre fez com que a venda lhe caísse aos pés, fazendo-o vislumbrar a Luz almejada. E a Luz era Oiro, e o oiro tinha a forma de Coração e o coração transmutou-se em Rosa, donde brotou uma lágrima de orvalho há muito depositada no seu âmago... com destino de devir e de restaurar...
Sempre os Corvos...
Sempre o Sino... o Som.
O Sentimento transforma-se em Emoção e esta galopa nas asas do Vento a distâncias inimagináveis...
Viemos através da Névoa. A alvura dos Céus que cobria os campos em movimento era fascinante. As papoilas esbatidas no branco da neblina surpreenderam a nossa imaginação...
A flor da esteva ... neve quente e perfumada.
Dádiva e aceitação conduzem ao estado de Alegria.
Santa Maria de Évora - Colunas de Pedra elevadas pelo Silêncio e banhadas pela Luz da Rosa, aquela Luz que aspira unicamente à Libertação. Elevou-se este conjunto de Harmonia e Arte através da Meditação e da Obra. Esta, resultante da Força e da Inteligência; aquela, resultante da quatrilogia simbólica e perene do «Saber, Ousar, Querer e Calar», que teve a duração de dez anos de trabalho secreto de fermentação e espera... o resultado foi a Síntese Iniciática.
Este Silêncio centenário encontra-se sempre e sempre a renovar-se ... O Sol tem a Idade de Centos e Centos de Anos, contudo todos os dias renasce...A Rosa sempre desabrocha e sempre é Fonte Emanadora de Luz, e dia-após-dia revela a Sua Mensagem de Paz, de Amor e Sageza. E a Rosa é Luz e a Luz é o Deus inominável, omnipresente e eterno tal como EU SOU EU...
Colunas de pedra elevadas pelo Sacrifício e banhadas pela Luz da Senhora e pela Luz Interna. Silêncio quase absoluto, silêncio centenar, todavia dia-a-dia renovado. Encontro-me realmente no interior do Templus Dei, no Templus-Tempus, no seio da própria Natureza Divina, tudo à minha volta, pedras, imagens, presenças e ausências, está imbuído de um Silêncio e de uma Energia tal que denuncia a própria Presença do Ser Supremo, inefável, inominável... do qual eu próprio e tudo que me rodeia, fazem parte integrante. Tudo se encontra em harmonia, dentro e fora de mim, por não haver dentro ou fora... Olho em frente e, erectas perante mim encontram-se Jakin e Boaz ... do Templo de Salomão.
Na Entrada do Claustro, perante o Apóstolo, o Tempo parou.
Eis-nos perante o Tempo-sem-tempo das Origens da Criação.
Percorro os Claustros de Pedra e de Sombras, onde a Luz se esvai nos meandros labirínticos da construção dos arcos e contra-arcos, colunas e abóbadas que suportam a perenidade da Obra.
Na Capela do Fundador, Sanctum Sanctorum do Claustro, quiçá de toda a Catedral... deparo, ao centro, na Coluna, com o Homem das Duas Chaves. O garante da Abertura da Porta. O Livro está fechado e selado. A que Portais darão acesso aquelas misteriosas Chaves Templárias? Quando o botão do lótus abrir e florescer livre e radiosamente ao Sol, o Homem, então, sairá da sua letargia e facultará a Entrada aos seus Irmãos de igual condição...
Em frente, a Senhora, de Azul e Vermelho.
Ao avançar na Sua direcção os Anjos Guardiães ordenam, em Silêncio, que me detenha... Paro.
Isis permanece com o Véu. Encontra-se Selado e Virgem, por Juramento Sagrado, a cavidade do Seu Adytum. O Menino recolhe e protege o Livro. Igualmente selado. O Fruto permaneceu Sempre no Seu Sagrado Ventre...
Contudo os Tempos estão chegados para se elevarem e retirarem as pedras e conseguirmos finalmente o acesso à PAX PROFUNDA...
Todavia os Dois Vigilantes estão alerta nos seus postos a esquadrar devidamente o Templo e o Mestre Hiram ainda não ergueu a cabeça e colheu a Acácia...
A Rosa+Cruz , presente, ao Alto... O Santo Graal, apontado, em baixo... como duas realidades da mesma REALIDADE!
Vagueio sem rumo pelos Claustros vivendo intensamente o místico ambiente emanado pela coloração, pelo odor, pela forma das pedras da construção. Por entre as arcadas góticas, ao alto - o Athanor... Os Corvos o rodeiam vezes sem conta, quiçá procurando a inevitável transmutação que, da sua negritude putrefacta atinjam a alvura e a purificação e façam parte do resultado final da Obra.
Avanço, rodeado por uma luz doirada, e as pedras brilhantes de sol e oiro tocam-me fundo e fazem-me escutar sons de recordar, e fazem-me sentir os gestos ritmados do pedreiro construtor , prenhes de intenção e de sentido quando transformavam a pedra bruta e realizavam o sonho da sua vida de labor e de oração. Pedreiros, monges, mestres e companheiros partilham, aqui e agora comigo, a minha condição de aprendiz da Arte da Vida.
Os meus acompanhantes, imóveis na sua natureza de pedra, esquadram o Claustro - S. João, S. Marcos, S. Lucas, S. Mateus - e são o suporte existencial do próprio Claustro, racionalizando e quiçá justificando a obra...
Se o piso térreo do Claustro se encontra imbuído de uma força Telúrica, em que sentimos a Terra-Mãe em toda a sua pujança criadora... ao passarmos para a claustra superior, ao aproximarmo-nos do próprio Athanor, a Energia muda literalmente de qualidade e entramos no seio da luz livre e sem reflexo. Da horizontalidade passamos à verticalidade, como o Pedreiro passa do nível ao prumo. Aí, e na base de Athanor vemo-nos perante a representação simbólica do Homem que Sabe, que Ousa, que Quer mas que Cala aos ouvidos impuros. É o Homem Peregrino em constante Demanda da Sabedoria-Sageza das Idades - o Homem montado no Cavalo Branco da Tradição Espiritual de todas as Épocas e de todas as Gentes - , aquele que activa e conscientemente contribui para a Evolução Espiritual do género humano, simbólicamente representado pelas cabeças masculina e feminina. Guerreiro por excelência, mas Templário por Via e Vocação Iniciática, guardião da Mensagem Sublime contra os perigos tenebrosos, ameaçadores da Civilização e da Humanidade.
A Iniciação Solar adivinha-se com a representação do seu Portal do Limiar. O Sol e a Lua apadrinham o Neófito sob a Arcada trilobada, nomeação de facto das três Idades do Mundo.
Athanor... o Fogo no seu interior a arder faz rodopiar o Poder contido!
Silêncio!... Num ponto do Espaço, num tempo sem Tempo, arpejos de longínquos sons... de arcaicos sentimentos... de uma Harpa... O tanger da harpa faz lembrar não sei que distantes realidades... sentidas com uma intensidade de deslumbrar e de deslumbramento. Ouvida pelo ouvido... sentida pelo sentir do baixo-ventre e traduzida pelo coração, torna-se numa e mesma realidade de re-lembrar e de re-descobrir. Os Celtas, os Druídas, os Bardos... Merlin!... Daí até à Grande Mãe abarcante e omnipresente vai um pequeno passo de infinito alcance!...
E logo, a voz humana... a Voz!... os sons de vibração circular, os jogos do sentir entre a Voz e a Harpa... os vislumbres da Memória Interna do EU levando-me até ao limiar do Eterno Presente... E logo e sempre o Fogo, a Chama... Athanor, e no seu seio ,os deuses e os Elementos... O Silêncio!
O Vermelho, o Negro, o Amarelo acompanham e aquecem todo este sentir, e ainda o Castanho e o Dourado, que me fazem filho bastardo deste tempo e filho pródigo daquele tempo do Devir que toca os confins do SER...
Olhando Athanor e adivinhando a presença sublime do seu Fogo Interior, compreendo-lhe a Mensagem de Silêncio... a Linguagem do Silêncio... Ela arde por dentro de mim, de nós, e transborda, do pequenino graal, ao meu redor, através do Olhar e do Gesto, do Rito e do Ritmo, através do Sentimento. Ela arde dentro de mim e anseia pela Demanda... Ela está presente mesmo na obscuridade mais profunda... Manifesta-se na Estrela Flamígera, a Oriente, no Templo da Perfeição.
Athanor arde e a Energia escorre e purifica à sua passagem.
É nesta atmosfera de ritmos e ritos sagrados que encaro o Mestre e Ele me confere o direito de olhar o Pergaminho dos Postulados Ocultos que reza:
1. Uma Vida penetra o Universo e o mantém em Existência.
2. O Universo fenoménico é a manifestação de um eterno, ilimitado Princípio, para além do alcance do entendimento humano.
3. O espírito (ou consciência) e a matéria são as duas polaridades da Realidade última. Os dois, com a acção recíproca entre eles, incluem uma trindade da qual procedem inumeráveis universos, que vêm e vão num interminável ciclo de manifestação e dissolução, todos eles constituindo-se enquanto expressões dessa Realidade.
4. Ao nível do macroscópio, cada Sistema Solar é um ordenado esquema governado por leis da Natureza que refletem uma inteligência transcendente. A Deidade é Lei. A Evolução impera.
5. O Espírito do Homem é idêntico, na sua essência, ao Espírito Supremo Uno. Essa Unidade, essa Alma Superior, dentro da qual o ser particular de cada homem está contido e feito uno com todos os outros.
6. A Lei é Cíclica e o Homem é o seu próprio legislador. A Liberdade e a Consciência do Homem evoluem consoante evoluir o seu auto-conhecimento.
7. A Totalidade é a chave para a compreensão do Homem e do Universo.
Assim me transmitiu o Mestre. Assim eu o transmito.
ORDO AB CHAO!
R.A.,Evora, 1994.

A minha religião

Se a vida não é eterna para quê levar a sério o que logo passa?
Se a vida é eterna o que levar a sério senão o que o seja também: o amor sem limites?

A minha religião tem só um mandamento: viver à beira-mar do amor.

Um brinde ao Paulo Feitais

Saúde, Irmão!

provérbio nhaneca

"a luz com que vês os outros é a luz com que te vêm a ti"

provérbio lunda

"a corça nunca pariu na frente do leão"

A Catedral

Uma catedral não é uma morada. A Sagrada Família, em Barcelona, é o paradigma de todas as catedrais: perfeitas e inacabadas. O homem só consegue habitar o imperfeito porque acabado. Uma catedral é um lugar, um lugar onde se sente que o criador pode ainda voltar, ou de onde se afastou. Uma catedral é um lugar de onde Deus se ausentou. Ou, simplesmente, onde o criador pode voltar depois, não se sabe quando, nem de que maneira. As rochas aparecidas e consumidas, pela erosão no meio do mar, podem ser pilares, colunas e traves-mestras de uma catedral, acessíveis quase só pelo olhar. A catedral pode estar no que emerge, ou no que se esconde no fundo do mar. É morada de luz e pássaros, de navegadores que rumam para o sul, de peixes, corais e serpentes que dançam com a neve do mar. Uma catedral é uma passagem para a luz, para a claridade que apaga as sombras, as desfaz com os poemas que a Sophia sabia cantar.
Uma catedral não é um abrigo. Em Santa Sofia, em Istambul, percebe-se que uma catedral está assente, como uma ave de porte imenso, num ramo frágil, numa fenda, numa placa móvel que dança uma melodia que nenhum órgão saberá jamais tocar e de onde as vozes que poderiam cantar fugiram para contar as estrelas na imensa noite de deserto dos profetas entregues às tempestades de vento e à distância plena do mar. A catedral é o bando de aves solenes que atravessa e desenha minaretes sonoros com e nas nuvens da abençoada chuva-mãe.
Uma catedral não é um templo. Em Santo Estêvão, em Budapeste, percebe-se que, numa catedral, Deus nunca falará de si ali. Nem de si, nem ali. Uma catedral é um lugar onde Deus se senta silencioso para desenhar e pintar aquele que o sacerdote, ou o pontífice nunca deixará entrar. O santo, o sem nome, o pobre, o ferido lancinante, o perdido, o louco, o filho pródigo. Uma catedral não é um lugar para se rezar. Uma catedral é um ateliê sem tecto para deixar o céu entrar e continuar a fascinar. E só assim, talvez salvar como sabia o Calígula de Camus.
Uma catedral não é um lugar de peregrinação. Em Santiago de Compostela, na Galiza, percebe-se que uma catedral não é o fim da viagem, o lugar da chegada. A catedral não é a pedra, o cimo, o eco no acaso dos ventos, a devoção repetida na luz frágil das velas, por entre as neblinas e as chuvas ancestrais. A catedral é uma passagem, uma estação antes do tempo, da dor e da sua múltipla frutificação. Uma catedral é uma árvore: uma cerejeira, uma macieira, uma laranjeira. Uma catedral é uma árvore com uma vasta cabeleira de cores e botões em flor.
Uma catedral não é uma gramática em pedra mármore manuscrita, nem a folha de ouro revestida. Em S. Pedro, em Roma, percebe-se que uma catedral não é um livro, um silabário em que Deus ausente, ou inesperado, deixasse inscritas as deixas do seu dialogar. Uma catedral é um rosto que desfaz o texto a consagrar, um rosto de Pietá esculpido em pedra e sal no seu incessante lacrimejar. Uma lágrima é a água baptismal com que o rio Jordão promete, como João, dentro de nós, a supra-humana condição.
A catedral é um rasgo, um rastro, um grito, um mito que não se consegue recuperar e na qual não nos é permitido circular, ou sequer permanecer para a podermos visitar. Não é morada, é a visão para o que na condição profética de tudo largar, desabrigado e indireccionado, atravessar o deserto que fica longíssimo do mar. A catedral não é do tempo nem é um templo. Fora do tempo e da eternidade. Porque seguramente ao “que invisível se vê…” (Fernando Pessoa) só é acessível para os seres de interioridade e de internalidade. Seres (s)em regresso, órfãos do mundo, viajantes oníricos nas lágrimas que os reconduzem à origem do mundo, arqueólogos das ruínas da catedral edénica, nos jardins suspensos da memória. A catedral é a imagem intacta de Outrora.
A catedral é inacabada e o seu inacabamento é a sua perfeição. A haver um criador seria um nómada errante nas paisagens da Terra, do Fogo, do Céu e do Mar. O criador criaria a sua morada numa paisagem que poderia ainda ter que inventar. Mas, se houver um criador também este não precisará de qualquer abrigo para repousar. Um criador não repousa num lugar: repousa na quietude e no silenciar, dentro, no âmago fundo, do inexistente. A haver um criador também ele não quererá um templo, porque não haverá qualquer linguagem com que lhe falar e um Outro com quem dialogar. O criador tem que ser um não-Outro que não se possa olhar. O que é preciso é que exista um ateliê para Ele poder criar, recriar, descriar. É preciso um céu para Ele, nos dias de êxtase, milagre ou convulsão, pintar a tela grande do horizonte com cores e seres que sejam de espantar. É preciso o éter para Ele poder ser o fogo, o Sol, o rubro manto a que os corpos nus e as almas mortas se entregam na vastidão insondável do entardecer, antes também do imóvel e pleno luar e enlutar.
A catedral é o rosto humano a chorar e a infância que se recusa a falar. A catedral é a água límpida, fria e fresca que só o divino raiar pode acalorar. Prévia às sombras, na luz inicial, imóvel, antes da Terra girar, só a catedral sabe ensinar a arte de emudecer aos que bem-aventurados nunca hão-de aprender a argumentar. A catedral tem colunas, absides que são memórias do Sol no seu ante-despertar, é daí que o Criador gosta de se aproximar e com asas de Dédalo nos convidar a chegar.
A catedral é a amendoeira na ladeira, o branco-rosa da sua flor de Fevereiro. Não o verde-azul infinito dos vitrais, da rosácea de vidro, no cimo dos altares centrais e laterais. Porque Deus não é finito nem infinito: é faminto e, por isso, semeia jardins que são hortos e onde de madrugada os pássaros – antes das paredes erguidas e dos altares com círios acesos, dos coros e das orações, dos textos e das consagrações – escolhem os nichos para as vozes ensaiarem e soletrarem em melodias espontâneas o silabário incerto e indecifrável do Criador, que varia, do pouco que se sabe, nos sons, nos tons e nas estações. Uma catedral é um pomar, um campo de árvores, um lugar por onde um dia uma Voz, num espaço [do] invisível, começou e ninguém ainda, homem, ave, peixe, deus ou artista ouviu, respondeu ou completou.
Por isso uma catedral é uma página branca, esta tampa, esta campa onde, Mãe, às vezes, te venho cantar sílabas e sons com lágrimas e suspiros, esperando um dia, por essa janela, te poder voltar a chamar. E gritar, mãe tenho uma pomba no peito que nunca me esqueci de Amar. É por ela que passa o que de mais puro consigo pensar.

É também esta a imagem, sobretudo a dos textos, a que faltava. É nela que com obscura clarividência o ouvir se faz ver, a audição se faz contemplação. Para que Luíza não se esqueça que tenho dentro de mim movimentos de pomba e eles são o meu corpo a escrever.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A Terra do Fogo: o Santo Graal, o Sangue Real

"Amor é fogo que arde sem se ver"
Camões

Todo o ser é amor, todo o ser é chama invisível, transmutada em água e sal na superfície do corpo: segundo uma experiência recente a água do mar pega fogo.

O magma ou lava é o fogo que à superfície se transforma em terra, como o sangue se forma em tecido, porém, enquanto a terra o reproduz inteiramente, o tecido humano permanece funcionando como fronteira, realizando-se toda a sua função vital para lá da superfície da pele, ou seja, esta continua a ser placenta, unindo o ser humano ao interior, ao útero da Mãe-Terra: o reino animal ainda não nasceu como o vegetal do corpo da Terra, estando o mar do fogo a encaminhá-lo para a Ilha do Sol.


















(A cereja da Noiva...)
O Sangue Real sur-girá quando o Homem nascer veramente da Mãe-Terra, quando o sangue dos Dois se unir, assim chamado por só então o Homem passar a existir realmente, a ser eterno.

DÉCIMAS

linguagem vetusta
emplumada de pura

DÉCIMAS DO GENÉSIO PONTES


Visco branco e palmeirão
Vara de ouro e pilriteiro
O cardo-santo e rinchão
Fel da terra e noveleiro


Verónica e trepadeira
Feto-macho, valeriana
Tramazeira e verbena
Sanamuda e ulmeira
Mil folhas e cerejeira
Urze e selo de Salomão
Goivo e amor de hortelão
Canabras e avoadinha
Espinheiro e sargacinha
Visco-branco e almeirão

Betónica e pulmonária
Sanícula e tasneirinha
Sarão-curto e cavalinha
Pinheiro silvestre avelária
Pepino S.Gregório, aliaria
Douradinha e sabugueiro
Norsa-preta e alfeneiro
Nevada dos gatos, violeta
Luminária e faia-preta
Vara de ouro e pilriteiro

Erva S. Roberto, ficária
Tussilagem, salgueirinha
Trevo de água, carvalinha
Ninho de cuco, vulneraria
Silvão-macho e fumaria
Celidónia, dente-leão
Consola-real, urtigão
Feto real, morangueiro
O cardo-santo, rinchão

Alfazema e escrofolária
Alecrim e pimpinela
Erva terrestre e rosela
Cardo-corredor, saponária
Nevada, papoila ordinária
Mangerona, marmeleiro
Erva-férrea, algodoeiro,
Silva-macha, matricária
Pé-de-leão, paritária
Fel da terra, nevoleiro

O vazio é o que se chama demónio

No momento em que amarmos a vida tal como ela é, ela muda para nós. Enquanto só quisermos amar uma parte da vida ela não pode mudar, porque a transformação, o nascimento de algo novo ocorre sempre por união de duas partes antagónicas. Bom e mau. Masculino e feminino. Um pólo isolado nunca deu luz. Não existem inimigos, existem amigos perdidos ou vazios. Não existe mal, existe ausência de bem. Não existe morte, existe ausência de vida... (ou mal e morte são ausência). Não existe problema, existe uma solução que ainda está vazia, como a noite é o dia que ainda não amanheceu.

Quando olhamos algo sombrio, olhamos aquilo que ainda não é, mas que tudo pode ser! Olhamos aquilo que será revelação! Olhamos algo que encerra uma infinitude de possibilidades. Só a partir do escuro é que a luz toma o seu máximo esplendor. Estar apagado é um momento solene, como o é o céu da noite, ou os instantes que antecedem o abrir das cortinas de uma peça de teatro, ou o nascimento de um bebé. O vazio é só um tesouro escondido.
Ser mau não é mau, é ser bom demais... Vale a pena reprimir por ser bom demais? Vale a pena gritar ao dia por ele estar a chegar ao fim? Vale a pena quebrar o relógio por ser tarde? Ou vale a pena suspender a expiração? Ou não perdoar?
Vale a pena impedirmos-nos de ser quem somos? Para quê? Para ficarmos a não ser? Para que existimos nós? Para nos trairmos a nós mesmos? Temos medo de quê? De sermos nós? De quê? Do vazio de nós? Do silêncio? Será que o dia tem medo da noite? E o céu tem medo da terra? Será que temos mais medo de nós do que da nossa ausência? Deixemo-nos de caprichos e sejamo-nos de uma vez por todas! Nada há a esconder que não possa ser aceite. Tudo o que vemos e que nos aterroriza, não é o que vemos, é o que esconde o que vemos. Não é esse acto que é horrendo, é o termos de fugir de nós próprios que é horrendo. É o termos vergonha de nós mesmos que dá dó. Não é a notícia que nos devia perturbar, é o que ela não é que nos devia causar náusea. É o que lhe falta que nos devia incomodar. E que nos incomoda. É a FALTA DE AMOR. É esta ausência de nós.

O Movimento - Linguagem


"
Cependant, si nous vivons dans, par et à travers le mouvement, c’est le plus souvent sans en être vraiment conscients. Au jour le jour, que représente vraiment le mouvement dans notre vie ?
Dans le meilleur des cas, c’est une source de plaisir : pour les sportifs, des sensations fortes venues de leur muscles ou de leur sang ; pour les artistes, l’acte créateur passant para leur corps en mouvement. Mais même là, le plaisir vient davantage des effets du mouvement que du mouvement lui-même. Quand le mouvement permet de prendre son enfant dans ses bras, de prouver à quelqu’un qu’on l’aime, on est plus attentif au contenu affectif du geste qu’au geste lui-même. Et dans le pire des cas, le mouvement n’est plus qu’un ensemble de gestes volontaires ou automatiques usuels, utilitaires, qui nous servent à marcher, manger, aller travailler, faire des courses… Dans la vie quotidienne, le mouvement n’est plus que le parcours monotone des mêmes allées et venues, sans surprise.
Il faut se rendre à l’évidence : l’attention portée sur la gestuelle n’est pas à la hauteur de son importance fondamentale dans la vie humaine. Le mouvement est utilisé, mais non valorisé ; connu, mais non reconnu ; on en abuse sans jamais l’habiliter. Débordements de sollicitations, pression de la performance, canons de la réussite…, les bonnes raisons ne manquent pas pour expliquer – justifier ? – que l’homme soit coupé d’une partie essentielle de lui même. Mais si l’insensibilité qui en résulte est moins visible qu’un retard moteur ou mental, elle ressemble fort à un véritable handicap, et joue un rôle primordial dans nombre de difficultés physiques et psychologiques.

La recherche de Danis Bois peut se définir comme une action thérapeutique visant á combler l’inconscience majeure qui touche le mouvement : « Quand je parle du corps, je regarde sa gestuelle et la conscience qui l’habite. Malheureusement, le corps est devenu dense et privé d’une certaine forme de conscience. Le mouvement s’est mécanisé, automatisé, et a perdu sa richesse naturelle. Lorsque j’observe le langage gestuel de l’homme non entraîné, il m’apparaît aussi pauvre qu’une langue qui utiliserait en tout et pour tout 500 mots. A force de faire des mouvements sans y prêter la moindre attention, la sensation concrète d’habiter un corps se perd progressivement, et parfois même la conscience de soi, de sa propre identité, finit par vaciller. Le langage verbal s’apprend, le langage du corps s’apprend de la même façon. Le mouvement est une écriture indélébile, un témoignage vivant de ce qu’est la nature humaine dans sa plus grande dimension.»
"


In Le mouvement dans tous ses états- Les recherches de Danis Bois – Eve Berger

Corpo e movimento


"
(...)
Pour mesurer l’importance du mouvement dans notre vie, imaginons un corps entièrement privé de l’outil premier de son mouvement, c’est-à-dire ses articulations : non seulement aucun mouvement serait possible, mais l’homme serait dans l’incapacité absolu de communiquer avec autrui, il ne pourrait pas prolonger dans l’action le fruit de sa pensée. Probablement même serait-il incapable de penser : « Il n’est pas juste de dire que l’homme pense avec son cerveau. Ce n’est pas avec son cerveau qu’il pense, c’est avec son corps tout entier ; il pense avec ses doigts, il pense avec ses pieds, avec son ventre, comme il pense avec son cerveau ; il pense avec l’ensemble. » (A. Janet)

Nos articulations sont donc bien autre chose que de simples exécutantes anonymes, soumises à note cerveau, et destinées à déplacer le corps pour satisfaire nos besoins. Elles sont un outil primordial de notre vie relationnelle, ont leur mot à dire dans tout ce que nous disons, permettent d’appuyer un message, de le faire passer, d’offrir à l’autre ce que nous avons de plus profond, de plus authentique. « Les mouvements de la tête qui donnent l’âme d’une expression, le mouvement de la bouche qui délivre la parole, le mouvement des membres qui ponctue le verbe, le mouvement de la main qui guide la plume, dépendent tous totalement du monde articulaire. » (Dannis Bois)

"

In Le mouvement dans tous ses états- Les recherches de Danis Bois – Eve Berger

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

"We want the world and we want it now" J. Morrison

Como pode alguém se reencontrar tão profundamente através de quem se perdeu?
Jim Morrison, Fernando Pessoa, Elis Regina...

Porque o natural do ser humano é viver perdido de si, é não saber quem é, é viver sem pensar o que deve ou o que não deve fazer, porque o antinatural é esta sociedade falsamente conhecedora de como se deve viver a vida, ignorante que a luz e a sombra são no âmago o mesmo, que viver sabendo é coisa que para a corrente do rio da vida não interessa para nada, porque ela não existe por ou para ser sabida, apenas para ser vivida superficialmente, através do corpo, pois nada há de mais fundo que a superfície do mundo, que imaginar outros fundos é perder este para ficar com nenhum. Que o Jim e os outros poetas marginais morreram prematuramente porque eram demasiado perfeitos para este mundo ainda a aprender a ser mundo, que é o Homem que teima em escolher uma margem do rio em vez de nele embarcar de modo inteiro, que de marginal existe só esta invenção mental de mundo: todo o pensamento é marginal ao corpo, todo o ser humano torna-se marginal cada vez que pensa.
Apenas aceito pensar como via para o não pensar, apenas aceito viver na terra dos marginais como via para a terra do mar.

"Waiting for the Sun"...
"I'll tell you this... No eternal reward will forgive us now for wasting the dawn."
Jim Morri-son

domingo, 10 de agosto de 2008

O mundo* ao contrário

A Escola, tal como a sociedade, não está organizada para seres cujas mentes nasceram de corpos, mas para seres cujos corpos nasceram de-mentes.

|*O O-limpo é o próprio mundo*, o qual significa limpo, quando este nascer como tal. Os Jogos Olímpicos ainda não começaram... os Xutos estão certos, o mundo é ainda imundo.|

sábado, 9 de agosto de 2008

TITANIC


a força bruta que fez este folhado
de lama e lava
se afundar

é a mesma
que empresta
leveza e movimento
às asas
da gaivota

Sei de um Rio



Vídeo: Bruno de Almeida
Letra : Pedro Homem de Mello
Voz: Camané

A Fome da Alma

(Porque merece destaque)

"ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer."
Natália Correia

E quem diz poesia diz arte... a única mensagem para ser levada a sério não é a da ciência nem de outros conhecimentos pretensiosamente objectivos, mas a dos subjectivos, pois só o subjectivo existe - ou peço desculpa... mas não me incluo na sociedade-objecto.

Diálogo a cores com El-Rei D. Sebastião (I)

“É O que eu me sonhei que eterno dura, / É esse que regressarei.”

Os versos vêm indireccionados. São de um poeta, são de Pessoa. São enviados por outro poeta e por uma pessoa: _______________. Quem mos enviou, nas horas terminais do sonho e do sono, enviou-mos por saber que preciso de falar com poemas e com poetas, com sombras e deuses, com mortos e incriados, para regressar; sabe que preciso da sua companhia para suportar a existência aqui e agora, sabe que nunca acordo e não me é relevante distinguir entre o sonho e a realidade, sabe que não consinto a dúvida da terceira meditação cartesiana, sabe que vou e venho, chego e parto, com a alma muito silenciosa para escutar os que me são congénitos: já me sabe inapta para o mundo e para os que falam ininterruptamente e não sabem da minha surdez, da minha cegueira, do meu estado inanimado para o tangível; sabe que sou intangível, não inatingível. Sabe como dialogar comigo, sabe trazer o terceiro incluído até nós, entre nós. Desta vez trouxe o rei. Nunca tínhamos falado, entre nós, do rei, de El-rei D. Sebastião. Mas ele já me tinha falado muitas vezes do seu rei. Tenho até para mim que o meu bom amigo é um outro rei.
Quando envia os versos penso, dadas as circunstâncias, não sei como dizer-lhe que O rei nunca me falou nem eu falei com Ele. Tenho apenas ouvido falar-vos os dois. Deambularem em torno do império e do Poema, desenharem a giz o contorno do que o não tem, citarem os versos que vos unem num ponto único e invisível, a Ilha dos Amores. Tenho-vos visto nas ruas em dias de nevoeiro acinzentado, lado a lado, e pressentido que se chamar por um, o outro me responde, indistinta e provavelmente, uma voz única. Tenho-vos surpreendido nas sombras e escutado entre os versos e as sábias meditações. E tentava confessar-te, bom amigo, que eu, que nunca desconfiei do poder dos versos nem da métrica musical que me enlouquece, nunca tinha ouvido falar dentro de mim O rei. Nesse instante, no kairos dessa confissão, na simultaneidade dessas palavras que escrevia, na verdade branca da alma, com a emergência da paisagem plana, dou comigo, nas planícies sólidas e silentes, na atmosfera constante e quase imóvel do calor alentejano, a vê-lo e a escutá-lo. O rei nobre no seu país pobre!
Não sei como contar-te, sem mistério e emoção, sem perturbação e sem tristeza, essa com que me conheces como um rosto único, que viajei com o rei até aos seus mistérios e aos seus degredos e nessa peregrinação fui para além de toda a solidão e da experiência solipsista com os outros. Sim, tu bem sabes que é, quase e só com eles, que a linguagem tem dificuldade em ser ética e religiosa. É sobretudo com os vivos que a linguagem desune em vez de unir. É sobretudo com os outros e dos outros que a linguagem é só juízo e comunicação. O teu rei, dialogante comigo, tinha-me roubado ao mundo. Os versos relembrados, evocados, e a tua dádiva inesperada tinham sido as tabuinhas com que me libertaste dos dias e dos trabalhos, da morte em vida com que nos restantes meses de estio estive amortalhada. Ah! mas os versos que me enviaste foram pombas, foram sombras, foram trigo e foram uva! Foram quentes ventos para o deserto. E, com os versos, gentil amigo, desencadeaste uma espécie de experiência não totalmente apreensível para mim desde Herberto Helder e de Photomaton & Vox. O rei aparecia e desaprecia nas ondas luminosas, também inacabadas e impermanentes, nas ondas magnéticas com que o calor se configura e reconfigura nos horizontes ilimitados para os que rumam para o Sul.
O rei, amigo, não me aparecia, à primeira vista, como o Júlio Pomar o tinha pintado na paisagem-tela: assim imperfeito, desfeito quando ele ainda está intacto, assim morto quando ele ainda está vivo, assim perecido quando ele é imperecível, assim aproximante quando ele ainda está distante. Ai amigo, como à primeira vista tudo confusamente me inquietava: o via bem a ele e tão mal o via no quadro! Até que depois percebi. Ai, amigo, o que percebi! O teu rei é o sol, o teu rei é o Bem! O teu rei não vem morto no burro, não é uma Ideia montada num jerico como Napoleão montado a cavalo. O teu rei não é deste mundo nem partiu a galope num raríssimo equídeo para fundar um império. O teu rei não é a Ideia fora de si. O teu rei é uma ideia que volta a si e o império que o chamou é desde antes do tempo, realíssimo na alma e no Poema. O Poema é o grande mar da alma, só em torno do Poema, as almas como ilhas, reúnem os que se encontram e é a esse encontro, fora do tempo e do espaço, que se chama Amor e só há Amor entre os que lêem e se lêem. Assim, como uma Ideia, como um indefinível (e Platão bem sabia que tentar definir uma Ideia mais não era do que a frustre tentativa que a todos, mesmo ao filósofo, deixava em aporia…) o via eu, ao rei, na paisagem, mas não sei que paisagem era, nem onde estava, nem de onde vinha, nem para onde ia. Não ia nem vinha, o teu rei. O teu rei, rei-filósofo, não é terrestre nem celeste, é de um Outro Mundo. Ah o teu rei que me visitou na paisagem indeterminada não vem morto de um império por haver, o teu rei está vivo no império sempre havido! Como o via e sob que forma me aparecia o rei nobre de um país pobre!?
Não sendo o morto, nem vindo montado num burro, nem como Cristo para uma gruta sendo desviado, o bom rei que me chegava, chamado pelos versos que me enviaste, vinha agora na sua real metamorfose: na luz. Feito luz! O seu sonho que eterno dura é o sol. O teu rei é um ritmo luminoso – É esse que regressarei – que a todos, incluindo o burro, alumia. Sendo Ideia, o teu rei é o que tudo contorna, a luz à volta do morto, a luz em torno dos que figuram e dos que se desfiguram, do Poema e do País. Por isso o Poeta o recebe, não como morto, mas com a deferência de quem deixa entrar, não se sabe em que portas, o luzeiro, o que resplende. Por isso também o Poeta não o esquece mas o convida, porque se um Poeta o fez partir só outro o pode fazer regressar. Por isso ainda o palhaço ri e o tambor não pára de rufar, por isso, no quadro e na paisagem-tela, há poesia e há festejar. Há um chegar, há uma forma estranha de amar. Como no Fédon, o que morre ou está morto, não parte, regressa, não deixa de falar, tem aqueles com quem dialogar. Nesse sentido, o poeta espera-o e recebe-o por ter com quem poder conversar-cantar. Sem direcção o acolhe. Este não é um corpo que se decompõe, é um poema que se compõe. E Pessoa espera-o, esperam-no os que ainda são pessoas. Porque no deserto não há problemas, há poemas., não há confrontos, há encontros. Não há eu, há Ele. Ei-lo ao Rei! E um grito de estertor infindo secou a minha voz: o rei falava-me com cor, calor e som.


E falou, falou-me o rei, andando à minha frente e sempre para o indireccionado, como o Poema. E também não sei como contar-te o que me disse o teu rei nobre de um país pobre!
Foi de tal modo poderosa a emergência incontível da sua voz, da voz da luz, de um rei-luz, que logo anulou a evidência do meu corpo e a certeza frágil da minha consciência. Como descrever-te, amigo, o ímpeto, o insuspeitável élan de uma voz no alastramento da luz, das estrelas de mil pontas fosforescentes em que soavam em mim as palavras, os versos de que cada fala fazia eco? Das pontas do quadro (que não sabia sequer presente na memória), das pontas irradiantes do sol na paisagem que não me sabia sequer capacitada para enfrentar, na sua forma brilhante, incandescente, tremeluzente, com que eu o via, com que eu o ouvia, eu pobre fantasma inconsistente no bailado das suas pontas dançantes, esvoaçantes, eu muda e silente, sombra discreta no seu reino de expansão na luz! Grande rei-luz, rei entregue, como mo confessou, à cadência lírica da Poema e da epopeia, habitante permanente das moradas inexistentes a que o Povo Lusíada só chega pelo Poesia: memória reformulada pelo sonho! Anjo renunciante da espada e do poder, porque anjo anunciante do Poema e da temperança, do território-poema e não do território-emblema, regressava, desta vez em mim, como um ritmo luminoso, mais do que luminoso, luminescente e envolvente, e eu com frio do mundo como sempre estou, em dois versos conversando – aceitei o sobressalto do ritmo e da rima, do metro e da métrica, na contagiante abrangência da clarividência e sobre-evidência, com que me apareceu, com que O escutei, luz falante, fogo interpelante, labareda exaltante, sarça-ardente e estrela em flor cadente – aquecida me derretia como cera entregue à sua chama! Olho-O e procuro-O, porque penso que é tempo de anoitecer a Ocidente, temo perder dele a visão, mas de imediato percebo que ainda e sempre dele foge, do Ocidente, da decadência e da morte, e sem que lhe tivesse perguntado, com Línguas de Fogo me disse – atrás do lugar em que tudo nasce há o incomeçado. É para lá que me dirijo sem direcção, rota, caminho ou intenção.
Nesse instante incompreendi o que a meus olhos se impôs como uma misteriosa presença: a luz vermelha, de rubro intenso e fremente que se formava em torno do rei. Era, confesso-te, O rei – naquela nova luz, numa nova génese dialogante em derrame de vivo sangue sobre as minhas mãos expostas, encandeando os meus olhos rendidos – na Sua manifestação exuberante! Um rei sem manto, num manto escarlate de poderosa luz! Não sei se percebi, bom amigo, o sentido, a potência daquele acto, do tom com que mudava o modo de aparecer e dizer, e não sei se consigo dar-to a entender neste relato de encanto e arrebatamento, nesta carta, nesta acta. Nesta folha sem escolha, neste texto sem que mais outro pretexto me leve a escrever-te.
Depois de o ter assim ouvido e assim visto transfigurado, desfiz-me da matéria, não mais me senti res extensa, só intensa, e por isso quando O vi em estado sequioso e, procurei nas suas mãos a taça, o seu cálice de rei das Índias, de aquém e além mar, a taça de diamantes e de pedras preciosas, ele conversando com os meus olhos liquefeitos, os comoveu para deles beber as lágrimas com que sempre dispersei a dor em torno da beleza. Mas não foi só esse beber o que em mim me doía e condoía, essa muda aflição com que a existência se consome, que me aliviou e consolou. Era a sua aparição sem forma, a sua informe presença, a sua voz, a sua melodia clara, transparente à alma, que me convidaram a permanecer e a mais viver de forma extática. O seu império, o quinto como o essencial, é o deserto. Não por ser o mais distante mas por lá passarem muito poucos. Porque no deserto até as estrelas, pontas febris do sol, são como neve refrescante que derrete os signos em sons. Rei dos sopros e das lágrimas de luz, a sua voz rasgou fulgores e comigo cantou os sempiternos amores! Que mágico o baile que o nosso corpo dança, e sem o seu fantasma e sem a sua sombra, se enlaça no do rei quente e nu com que se despe e (re)descobre a sua morada na luz! Ai, e foi nesse enlevo, nesse deserto de sóis e estrelas, nesse fulgor de relâmpagos dóceis e diáfanos que subitamente, num fôlego, num sopro, o rei proferiu, num lance que me supera para sempre o que ainda for e tiver que ser no tempo (!):
sabes – porque leste Christian de Tryoes – que um rei só se salva quando alguém lhe pergunta por que sofre? Faminta leitora, pobre criatura que das páginas fizeste corpo-hóstia dos autores, também eu dei a taça aos cavaleiros perdidos e irreais do Graal que cavalgaram na minha memória, nas suas montanhas e nos seus abismos resfolegavam a um ritmo impressionante e metafísico. Há cavaleiros que correm para os que leram, os leitores. Há cavaleiros que correm ainda para ti célere Amazona de Kleist.
Rei de ritmo luminoso, não sei se sabia, ou se sou cavaleira desse Graal, mas e a coroa? Onde a deixaste cair, quem ta retirou da tua cabeça-sol de que só irradiam Ideias? É óbvio, amigo, que não lho perguntei, mas ele, tendo aprendido com os Poetas, com Camões que o levou e com Pessoa que o fez regressar, a ler o informulado, logo me respondeu: dei a coroa a Antígona e a Inês. Choravam desde há muito a pobre filha de Édipo e a linda morta de Patrício…dei-lhes a coroa para que a troco de toda a dor reinassem para sempre no Amor. A coroa não é, em todo o caso, um objecto masculino, é algo a que cabe melhor destino num feitio feminino.
Não sei se sorriu ou se chorou, na luz intensa tudo se dissipa, tudo se reúne, tudo refulge de uma só e mesma maneira. A sua voz imaculada e doce, a sua voz sem princípio nem fim…trazia a justiça e na sua balança, em cada verso das tragédias que recitava, nas personagens que amava, uma equânime absolvição da dor e do fatal destino se decretava.
Senti, amigo, que voava, delirava, pairava, era faísca e raio, força de luz, calor do sol, e nunca outra qualquer proximidade ao imóvel e absoluto me levou tanto tempo a fruir na alma até sentir que ali desfalecia…enterrada na luz!
E o manto e o ceptro e o veludo e as armas, Os Lusíadas…? Não sei, tendo experimentado a audição da luz e não a desejando parar, para tudo queria eu saber e procurar versos mais do que razões, para ver, para escutar o que me aparecia como o rei mais nu e nobre que eu, enfim e assim, conhecia! E estava eu extasiada a vê-lo irradiar na luz, a jogar as suas potencialidades nas formas das coisas existentes, apagando a sombra, reanimando os mortos e chamando os pássaros distantes, quando, afagando um pouco mais o meu rosto, e nele lançando o seu raio mais quente, me disse o rei nobre num país pobre:
dei-as ao Filoctetes e não os dei a Hamlet. Um sofreu mais do que o outro, entre a vida drama e a vida trágica, dói mais a vida dos que na ilha nem memória de Ofélia nem do Ser podem invocar. Filoctetes não se vingará, não será ardiloso nem viverá usando a razão com argúcia, astúcia e maldição. Por ser Grego, entregará o ceptro e o manto ao visionário cego, a Tirésias, para que o velho sábio cubra o seu corpo e o ceptro o ampare – substituindo o velho bastão com que Creonte o amaldiçoou – nas inóspitas montanhas da verdade onde os templos de pedra já não aspergem sonhos, delírios e visões. Depois, quando mais logo, por uma vinha entrar, e com os bagos cheios brincar e brindar, sem taça e manto, Diónisos me encontrará e complementará: trará consigo, na sua memória fundadora, a pele do bode e a alegria dos poemas e dos versos aquém e contra a elegia. Bons fragmentos de mito me animarão e com eles, fragmentos de literatura me repercutirão ao coração enfermo dos que sofrem e só se salvam na canção.
Eu, ao contrário do que nele não distinguia, dei-me conta nesse instante que chorava e sorria.
Foi nesse momento que me apercebi de duas coisas, como se a mim voltasse, como se agora a minha voz a mim retornasse: uma a de que este rei não existe para um povo histórico, ou para os indivíduos concretos. Este rei é um rei a-histórico e real apenas para os indivíduos leitores, por ele mesmo ser um rei raptado, como Perséfone ao mundo, não pelo reino da morte, mas pelo reino dos Poetas. Como Perséfone, O teu rei virá ao mundo as vezes incontáveis que os ciclos das almas por ele forem chamando, clamando: e versos e cristais de chuva, sobre elas derrame e com uma nova força e com uma nova vida consagre, homens e leitores, ao seu encontro com o que é mais do que esta vida! Lançando versos, em gotas e sons iluminantes, ampare e acolha o rei, o leitor infeliz e o homem vivo por um triz, na sua morada sagrada: no deserto, templo, catedral e altar. Porque aquele que lê, acompanhado pelo rei que foi raptado pela voz perigosa da Poesia grita “o rei não está morto!” Grita-o e exclama-o, porque sabe e pode com ele o coro trágico do lamento e da dor. Sabe o quanto pode o Poema consagrar no altar, na pedra a dor! O teu rei, repito-o, não vem morto, ele, como a tragédia, é o canto enlutado que atravessa a vida e a ascende à interjeição plangente. E, por isso e, só tardiamente me dando disso conta, percebi o quanto de estranho me perturbava. O teu rei, amigo-rei, não se punha como o sol da natureza a Ocidente, o teu rei de rubro pintado e nu, o teu rei sem coroa sem ceptro e sem taça, é o coração do mundo. O que me foi dado ver e ouvir nada mais foi do que o seu ritmo compassivo, o seu tom vibrando no coração da Terra como um Poema em carne vivo.
E, sendo este O teu rei, sei-te, como ele, pulsando vivo a mesma cor, falando com o mesmo ardor, no coração secreto e íntimo dos mesmos versos, com que partes e com que regressas, até à coroação do mundo no Amor. Depois seguir-se-á o diálogo das almas e das afinidades electivas e com outros versos salvarás a miséria pobre das paisagens e dos dias, e com o teu dom amarás, com um Poema, a Vida e a Morte dos que ficam e, dos que partindo, constituem esse reino único dos leitores e dos que escrevem versos de elogio e amor, do Elogio do Amor. E, também, por isso que te sei habitante do deserto e pássaro distante e brilhante nas nossas vidas de treva e sem muitos rasgos de luz.


Para o Manuelinho com quase uma semana de atraso...para as suas bebedeiras de luz e deserto. Para os que têm tido a delicadeza indizível de me lerem. Mais, depois deste texto, não sei que dizer.Um silêncio mudo, um sono poderoso me leva daqui...

O vôo da serpente

(Porque este poema pertence aqui)

Parece-me que não ando a viver,
mas a rastejar num chão que não existe...
porém,
à mínima Luz levantarei vôo.

É a serpente que rasteja,
mas é ela a emplumada,
a que voará.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

«A» máscara


Nasci e vivo con-vencida pelo amor...

Convencer alguém do que digo? Nem a mim me consigo convencer!... Quando dou conta já me convenci antes de me convencer, isto é, apenas reconheço que me convenci... Porque crer com o pensamento apenas pode acontecer a partir da crença com o sentimento, assim, só se crê realmente quando se crê com o sentimento e o sentimento só sabe crer não sabendo como ou em que crê.
Por isso, toda a discussão que seja feita com o objectivo de se convencer alguém é uma brincadeira... pois ninguém se convence conscientemente, assim como ninguém se apaixona por se ter decidido apaixonar. O sentimento convence, o pensamento reconhece.
Quando o pensamento pretende tomar o lugar do sentimento, querendo convencê-lo, o crer* é substituído pelo pensar que se crê, em consequência, o viver é trocado pelo pensar que se vive.

|*crer de acordo com Agostinho vem de coração.|

HOJE!

NÃO FALTEM!
Autocarros: 773, 720, 738
Eléctrico: 28
Metro + próximo: Rato

Somos pré-vida...

"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente."
Bernardo Soares

E o que verdadeiramente somos não existe ainda, só perecivelmente, criando com base no que já está criado.

"Somos morte. Isto, que consideramos vida, é o sono da vida real, a morte do que verdadeiramente somos. Os mortos nascem, não morrem. Estão trocados, para nós, os mundos."
Bernardo Soares

Meu caro Pessoa, é quase isso, apenas ainda não nascemos... vivemos ainda a gestação do que somos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

! balanço

Amor guerra paz sentem muito sentem tanto flores tulipas mar pintam vários tiram fotos muitas imagens mitos salomões princezinhas principezinhos livro fininho. Ecran sempre a ferver é sempre a abrir Amor amor anais anais sereias fogo explicam expõem expiam expio maravilhoso coração maravilhoso é uma alegria uma tristezas fetais smile you're on candid camera brasiu introduza os caracteres vopjup. Fruta da boa fresquinha suspiros cavacas toucinhos do céu descrevem passado infantojuvenil ruis, miguéis, baloiços, loucura, droga, morte. Nada, muaah, sniff, ahahah, ihihih, pisca pisca até à próxima despedem não vão voltam despedem de novo regressam não vão e despedem, vice versa. Chatos comichosos comichão cães animais domésticos peixinhos do aquário feras leoas ommmm entelegibilidade, hum-hum.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Siddhartha

Nascer é tornar o oculto evidente

Todo o fenómeno exterior à Terra parte do seu interior, pois o primeiro é manifestação do segundo, tal como tudo o que acontece com o Filho tem origem na Mãe, pois tudo o que está fora nasce de dentro: o corpo cobre descobrindo o ín-timo.
Achar que são os fenómenos exteriores que condicionam os interiores, que é pensando ou agindo exteriormente - que sempre o é, visto a vida acontecer através da exteriorização - que as soluções nascem, é viver do avesso. O Homem não consegue intervir tão bem que não pudesse intervir melhor não fazendo nada, exceptuando por ventura quando é espontâneo.

De tudo...
De tudo fica só uma coisa
- a que nos originou:
o amor.
De tudo quanto existe
só uma coisa é certa
- a que do sono desperta:
o sonho.

O amor, a união de ondas

O homem e a mulher representam ondas de sentido inverso, espelhadas, que quando se unem formam o mar que são, no útero...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Sobre lágrimas...





As lágrimas que choramos são salgadas
para chorarmos ao pé do Mar
e lhe devolvermos o que lhe pertence.
O Mar sem sal, não é Mar.
Por isso, nós choramos para haver Mar.
E quando as ondas vêm e vão repetidamente,
elas levam as nossas lágrimas salgadas
e aliviam os nossos olhos.
E, como os olhos são o espelho da nossa alma,
as ondas aliviam a nossa alma também.


(não consegui ir de férias sem postar uma última vez... ;))

A caminho da flor da pele...

A vida está a ser o regresso do animal ao coração do vegetal através da água e dos minerais.

Tempestade no mar


Um vento a soprar nas sandálias do tempo é um deus erguido em voo a sobrevoar o futuro. Será que o som da floresta a arder recebe na boca o voo de um deus ainda mais estranho e terrível? Que fazer nesse momento com os versos? Cantarei com as árvores a sua densa sombra morta? Passarei com os rios, no destino corrente do seu leito? Deixarei o meu corpo arrastar-se com as pedras para depois ser cuspido pela fúria do mar contra a falésia do esquecimento?

Tudo isso faz a forma do vento desejar ser barco. Faz da madeira o mastro que o marinheiro sobe, para ver se há palavras navegáveis para devolver à invisível força que nos leva na corrente. Haverá horizonte para além das montanhas? Haverá, para lá do medo, alguma ilha acordada da tormenta das águas?

Das luzes mortas do farol, o negro espectro dos céus cai no grosso mar enegrecido e irado. No tempo de morrer, que palavra de luz lançar ao céu nocturno? Que farei com as palavras afogadas? Devorarei o deus antigo ou morrerei na praia?

Gritarei até perder as forças, por uma palavra inflamada? ou selarei para sempre a boca? O vento devolverá as sandálias do pescador. A floresta dormirá nos olhos de um deus escondido. As árvores, os rios e o mar receberão o meu corpo mudo e um deus soprará uma palavra de vento para dentro dos meus olhos nascidos. Depois da morte, uma palavra será uma pedra dura de silêncio sob a tempestade dos céus?

Quem cantará, agora, essa palavra às sandálias do tempo? Para que, lançada da falésia, uma águia erga na plenitude pacificada da minha morte, uma palavra nova para amortecer a dor. De uma forma ou de outra, estamos todos mortos para as palavras que não voam. Que anjos do futuro chegarão para cobrir de sombra o corpo da Saudade? Em que sopros regresssarei?

Íris, Deusa do Arco-Íris











O tempo conduz a água da vida a unir-se numa só taça... só a água que não se perder no ar continuará a pertencer ao mundo visível.

O Rei não é ideal: é Real

O maior ideal não é uma ideia: é um real inimaginável, "inidealizável", pois o Real arrasa qualquer ideal. A luta por um ideal, contra o que é real, é viver pelo que é servente: o Homem racional serve o servente, ignorando que é Rei.

O meu reino não é deste mundo inundado de ideias de homens, o meu Rei é Real: vive simplesmente, É sem porquê.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cor-por-tug-al: a cor de Portugal

Portugal viveu sempre próximo do mar-sentimento de que foi gerado, a identidade portuguesa mantém-se ligada à sua origem, porém, mantém-se confundida por ventos-ideias que sopram de fora e que se perderam há muito da sua essência marítima-sentimental. Falta apenas a Portugal o reconhecimento de si próprio, deixar-se levar pelas ondas do seu mar, seguir o único caminho que lhe pode fazer sentido, o do sentimento nascido do mar do seu corpo.


















"E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia Nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante-arremedo, realizar-se-á divinamente."
Fernando Pessoa, "A Nova Poesia Portuguesa no Seu Aspecto Psicológico", publicado em A Águia, nº 12, II série

O cais de Belém da partida será o mesmo da chegada... o cais Absoluto, que está para lá de tudo, por conter em si o mundo.
A Nova Índia a descobrir é Portugal.

Mensagem do Encoberto

Fotografia: Will Sanders - Storm, White Sands

D. Sebastião

Sperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.


Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.

Fernando Pessoa, Mensagem

Os Cães de Iggy Pop e Padre António Vieira

No ensaio Dois Cães, Alcir Pécora diz sobre o cão que:
"na hora da identidade em perigo, o animal latiu no sermão de Vieira e também na voz de Iggy Pop" (...)

"O primeiro (Iggy Pop) berrava que queria ser o meu cachorro, a qualquer preço; o segundo protestava reiteradamente ao Superior dos Jesuítas na Província de Portugal, quando se encontrava na iminência de ser expulso da ordem por conta das várias intrigas políticas em que se envolvera, que preferia ser um cão à porta da Companhia de Jesus do que receber a máxima investidura eclesiástica em Portugal. De fato, El-Rei lhe oferecera qualquer posto, como compensação do afastamento da ordem." (...)

"Ambos, em algum momento de sua vida, julgaram que um cão era a melhor figura de sua identidade em perigo, e então acharam que deveriam repeti-lo para mim, sincronizando tempos, lugares e línguas distantes. Fizeram isso uma vez, outra vez, e depois por dias e anos a fio."

Vejam também o rockeiro de 61 anos aqui a berrar I Wanna be Your Dog, numa excelente actuação em Bruxelas perante um público extasiado e animado como se estivesse a ouvir um sermão do Padre António Vieira

canção de adolescente

que nunca amar nos canse
e o mundo mude:

e cada um de nós ajude
e o mundo avance

e cada um de nós avance
e o mundo ajude

(finais de anos 70)

A Ilha das Flores

A luz que vemos é sempre um reflexo do que está no interior dos nossos olhos, porque o que vemos nunca é o que está fora, mas o que está nos nossos olhos. Por isso, o Sol que vemos é sempre o Sol que está dentro de nós. O Amor faz-nos viver fora o que está dentro de nós, pois o nascimento de uma criança é a reprodução externa do que é interno aos pais.
No entanto, o Homem continua a viver através do seu interior e não através do verdadeiro contacto entre este e o exterior, isto é, ainda não nasceu de si mesmo, só então poderá viver inteiramente a plena união dos seus dois mundos, ao viver na flor da Terra - rosa, asor, Açor-es, em que semente e fruto se juntam, quando o cristalino do seu olho se unir à córnea, quando a Lua se unir ao Sol, ficando apenas a íris, cumprindo-se o arco-íris de modo total, a Terra.

Globo ocular terrestre...


















Assim como há ausência de luz no interior do nosso olho, assim o é no centro da própria Terra, por isso, o Sol é o próprio centro da Terra.

A minha crença é a de ser sempre Criança

Posso falar a brincar porque sei que falo a sério, posso mostrar que sei porque sei que posso não saber.

Então porque o deixámos de fazer? Deixámos de falar a sério? Deixámos de saber que se pode não saber? Passámos a falar o que não cremos? Porque desensinámos a nossa Criança?

A Criança não precisa de fingir humildade, sabe que a humildade está em querer aprender com tudo o que vive realmente, em se fundir com o mundo - que é.

Pollock para a A. (I)



Esta noite Pollock não vai beber, não vai ver nem a neve cair, nem a névoa lavanda encobrir os rios. Esta noite Pollock vai chorar ao ouvir-te falar e as suas lágrimas vão pintar este quadro para ti, para a A.

Esta noite não vai acender o cigarro e olhar entristecido para as latas abandonadas em cima da tosca mesa de madeira onde só restos e só descuidos o angustiam. Esta noite Pollock vai pintar um quadro, com a cor da lata de tinta vazia, para ti, para a A.

Esta noite quando olhar a velha caveira que tem entre as caixas, os pincéis e os ácidos, as garrafas vazias, numa bebedeira de verão azul e amarela, A., Pollock vai rasgar na sombra e no inerte os contornos fugazes dos rostos atravessados pelo silêncio das aves que só existem na sua alma depois do álcool. Vai revisitar o teu.
As aves submersas no branco opaco da lua, no branco lunar da tela, em movimentos ilimitados e de aproximação visionária, entrarão para dentro do quadro vazio-pleno e deixar-se-ão tocar para tu os escutares no silêncio das noites, nas madrugadas de vendaval, no promontório onde como árvore cantarás não a solidão, mas a suspensão. As aves são para ti, porque as árvores são a habitação dos pássaros e também dos que foram inventados no caos criador, nesse caos para que apontas com as mãos e te entusiasmas em metáforas e cogitações. Sabes A., é nesses entusiasmos que pincelas com a mão de Pollock e consegues a aceleração para o seu ritmo primevo e originante.


Pollock para A.

Quando tu falas A., Pollock pinta. Começas com o olhar triste, acendes o cigarro, poisas o copo e soltas as palavras. Em ti as palavras não são signos, são movimentos e linhas, são borrões, são colorações, são febres, são calores, são erupções, e as cores mancham-nos o cérebro. Não se pensa o que tu dizes, vemos o que tu dizes, ruborizamos as cores com que dizes. A., quando falas a neve cai como nalgumas pinturas e há rios que correm para dentro de nós e não há tema, há implosão, há explosão, há deflagração. Há sequência não há encadeamento, há impulso, não há ordem, há reverberação não há consolidação. Há entusiasmo não há encomiasmo. É por isso que ouvir-te falar é ver Pollock a pintar. Quando tu falas Pollock não precisa de esperar pela catedral. Há uma catedral. A catedral do deus desordenado, do deus perdido atrás das formas, do deus hesitante do sentido, do deus que tem memórias aprisionadas no espaço e no tempo. E, largados por ti à porta da catedral, a uma catedral só com porta e sem paredes, sem altar e sem sacrifício, tu perguntas, como num conto de Kafka, como se abre a porta (?).
E eu não sei. Sabes por que não sei? Porque a porta da catedral és tu. E tu não és um livro para uma leitora, és um cometa, e o teu rosto branco tem uma cauda branca como não há lembrança de outro assim dentro dos céus da minha memória e eu fico à distância a receber o infinito que a porta suspende mas não contém. É por isso que, sendo uma porta, me ofereces o deserto por onde passam mais vezes os cometas de que o deus desordenado se esquece, quando desenha nas formas que desconhece as pontas das estrelas, e a luz lhe escapa não apenas em velocidade, mas em fuga. Depois olhas-nos e ouvimos Bach dentro das sombras entardecidas do teu olhar. Passam anjos de Rilke no ar, invisíveis mas tangíveis, e um deles pede que te leia alto um poema para descansares as mãos e o ritmo abrandar à porta da tua catedral sem rosácea, porque inundada da luz com que no deserto o sol rasga os olhos e os fecha para o oriente da vida insuspensa atrás de tudo e em tudo.

Esta noite, depois de discutir e partir algumas garrafas contra as paredes de madeira, de gritar para soltar o seu daimon, A. e Pollock vão conversar comigo junto à porta por onde passa um rio e um pescador, sentado e cego, desenha movimentos que são de Agosto e são Deus. A. olhará para mim e eu vê-la-ei em simultâneo no céu do verão, na tela de Pollock e nos movimentos do pescador. A tem escondido no rosto um cometa. E eu vejo-o/a e sinto a proximidade dos deuses. Depois fecho os olhos e oiço as vozes misturadas de Holderlin e Rilke. E a vida é um quadro secreto para revelar aos que encontramos ou reencontramos.



domingo, 3 de agosto de 2008

A Chama

Porém muito nos foi dado
De quanto é divino. A chama foi-nos
Posta nas mãos, e areias e correntes do mar.
Muito mais do que o modo humano
Nos são aquelas forças estranhas familiares.
E os astros diante dos teus olhos
Te ensinam, porém nunca chegarás a ser-lhes semelhante.
(...)


Friedrich Hölderlin, Hinos Tardios
Tradução de Maria Teresa Dias Furtado





Vou seguir a estrela guia e ver onde me leva este céu.
Quando e onde chegar, quero ver mais estrelas a brilhar.

Vou pegar em mim e vou mergulhar em mar alheio.
Vou chegar a outras costas, usar as correntes de mar salgado que existem... até chegar a outra praia, a outra areia, a outro porto de abrigo.
Nesse abrigo ficarei uma semana a saborear tudo de novo que existe. Vou ver novos sons, saborear outras cores, sentir novos sabores.
Provavelmente, uma areia mais quente. Estou curiosa :)

Vou lá ver como é, mas volto.
Volto sempre. Volto à minha praia, ao meu mar e estes grãos de areia que me rodeiam e me dão forma e cor e vida.

Desejo a todos os 'Emplumados' deste blog que, como eu, estejam em tempo de feriar... muita Paz e muita Luz, altos voos razantes (para poderem sempre poisar seguros), belos saltos no tempo e no espaço, alguns mergulhos (porque não?) em marés cheias e, alguns, em marés vazas, pouco vento acompanhado de areia, muito ar puro (para renovar artérias e sangue e vida).

Aos que ficam por cá, desejo muitas plumas, muitos altos e baixos que vislumbrados do horizonte sejam o mesmo que luz e mais do que sombra.

E tudo e tudo e tudo*

A Falta, a Rasura da Palavra


Para a Isabel, a agradecer o tudo que conseguiu para o poeta. Para a Luiza que traçou em azulejo o desenho para a moldura do quadro que falta e para os Paulos que o pintam no pensamento e contemplam a plenitude dessa falta desde a sua origem.

Falta um quadro, Isabel. Sei que falta um quadro, mas não sei qual é nem como ele é. Já olhei várias vezes para os três e... Mesmo mudo, o poeta haveria de ter um tom, um som, uma sílaba para cobrir o branco da tela; um travessão, como uma ponte, para atravessar a palavra e dirigi-la para o coro que são todas as pedras cantáveis que a montanha guarda. Ou os sons frescos do rio que alisa as pedras moventes debaixo do sol. Se eu fosse Gabriela soprava uma pedra. Do seu arder desenharia mil tonalidades e figurinhas em cadernos com veios de folhas e flores de silêncio em cima da estante. Esse seria o quadro que faltava… E haveria sempre luz para os candeeiros das mesas, e flores para as jarras. Haveria decerto uma casa feita de palavras e palavras a arder nas chaminés do Inverno. Mesmo mudo, Deus não iria deixar uma nota sem cor para o canto do poeta. Se eu fosse Matisse desenharia os corpos, a dançar em roda, em tons rosa sob um céu azul. Teriam os pés verdes, quando o arroz estivesse a romper, depois seriam de amarelo-torrado, os corpos da dança de roda, quando as palhinhas do verão se soltassem sério o vento a bailar com as sementes, e saltariam para os pés dos dançarinos, em movimentos leves, vendo-se cair... Se eu fosse Kandinski, haveria festa de cor. As casas garridas fariam contraste com o negro dos ramos das árvores de Inverno, e o mundo seria pintado de pinceladas grossas para as palavras mais pesadas, e de geometrias sopradas em todas as direcções do espaço, pelo geómetra do mundo, para as palavras soltas do poeta. E haveriam de traçar na boca do poeta o ritmo dos pés dançantes de Matisse….

Se eu fosse Delvaux, uma mulher de olhos grandes e vazios, como pedras mudas, haveria de esperar na estação a viagem que nunca acontecia… E esperaria com a mesma fé essa partida ou essa chegada confundidas numa lágrima que o poeta não soube chorar. Mas se eu fosse Chirico, desenharia no centro da praça dois amantes sem rosto beijando-se no silêncio da tarde, a arder ao fundo do quadro. Mas eu não sou nenhum deles. Sou o quadro que falta. Sou um poeta sem palavras à procura de uma falta. Falta um poema, para esse quadro, uma sinfonia para esta nota; uma sílaba de sal para o mar; um grão que fosse, apenas, uma partícula a pairar na distância de um milheiral em chamas; uma asa salgada a acenar na distância; um pássaro para guardar na asa o tesouro da incompletude do poeta… Mas há uma falésia que o céu atirou para o esquecimento; um barco de Renoir que se afasta nas águas do Sena, levando dentro o meu vestido de seda para as horas do esquecimento de mim…Uma voz de guitarra para tingir a água; um país sem fronteira cheio de braços; um saltimbanco de Picasso, um cavalo azul sob fundo azul e sol e tudo, a romper a superfície do quadro do esquecimento. E a tristeza é uma mulher de negro a chorar na praia, e podia ser em Portugal, no mundo, nas galáxias que moram na lonjura de uma palavra para acender dentro de mim, fora de mim, uma cantografia que não fosse este balbuciar de prece incerta a um deus que dorme; uma partitura sem palavras nem sons… A tua voz, mãe! A tua voz cantaria o quadro que falta e eu não me deixaria cair pela rede desta tecitura sem texto, feita de ausência e de memória. Lembro um quadro… E as mãos haveriam de segurar outras mãos e depois largá-las no espaço cartografando-as na cantografia da paisagem sem quadro.

A-guando... até às Portas do Sol: o Fado Tropical da Terra

Quando o Ser deixa de se sentir
apenas interior e se sente exterior,
torna-se no que é, os Dois.
Quando o Homem deixa de se sentir
apenas finito e se sente infinito,
regressa ao que é, a Deus.
Quando a Terra deixa de estar
separada e volta a unir-se,
nasce para o que é, o Paraíso.
Quando Portugal deixa de ser
o que pensa para ser o que sente,
acorda para o que é, o Brasil.

Em sequência ao texto da Saudades... :)

A Voz do Sexo é a Voz do Céu, do Cio: a de Deus, de-o Dois. É pelo sexo que Deus brinda a humanidade com a Eterna Criança que vive no fundo de cada ser humano.
Desde sempre, o que o Homem finge desprezar é aquilo que ainda o mantém vivo: o regresso do homem ao interior da mulher pela penetração sexual... do filho ao ventre da mãe, da dor ao interior do prazer, do ódio ao interior do amor, da Terra ao seu interior... no Sol, da mortalidade ao interior da imortalidade.
O que faz rodar a Terra, a chave da Porta do Sol, do Paraíso: o sexo entre os opostos do mundo.
O Útero da mulher representa a matriz para a qual a Terra caminha, onde tudo é Um, onde os sexos se voltam a juntar*...
|*Hermafrodita, do grego, Hermes, Mercúrio + Afro-dite, Vénus.|

Fado Tropical da Terra
Portugal é o que o Novo Mundo está... sendo.
O sentimento português é o da união de tudo, é o de fusão com o todo: a origem Lusa é o infinito, o seu futuro o eterno.
O português só se sente através do intenso, do total, do extremo, tem sede do ilimitado, da liberdade plena! Não se contenta em estar contente, precisa de ser o que o contenta. Não deseja o que é possível, deseja ser o impossível. Não quer ver o que é o mundo, quer-se ver mundo. Não pretende amar o mundo, pretende ser o Amor do mundo. Não nasce para viver no mundo, nasce para vivê-lo. O sentimento português é o de ser a Eterna Criança do mundo, que não julga o mundo nem lhe exige nada, de ser tudo e nada, de ser o que é: Deus, o Se-r-Bastião do mundo.
Portugal é o símbolo do regresso do Pai e da Paz à Humanidade, é o Coração do Terra, pelo fogo do Espírito Santo, a redenção total da humanidade pela sua maternidade: o nascimento do Novo Homem, a Criança Portuguesa à solta, transparente, legítima, verdadeira por estar em todo o lado e não ser de nenhum.
A essência do Novo Mundo é este vazio imenso, que nos-me enfada, me contraria e contradiz, que me complementa e completa no que sou. A partir do qual canto a agonia deste Amor que me mata e faz viver, que me envelhece e renova, que me entristece e alegra... ao estar o Filho Luso no Novo Mundo e sendo a Mãe portuguesa ainda do Velho, estando a viver o Filho o que a Mãe é, estando a Mãe sentindo o Filho dentro dela e estando ele fora. Portugal só será quando não for, porque quando não for Mãe será o próprio Filho, estará novamente dentro de si, voltará a unir o ser com o estar, regressando ao nada que é tudo, em que lugar e tempo não existem, em que o Amor é Rei, em que homem e mulher estão juntos, em que os opostos voltam ao que são, em que o instante da Aurora não tem princípio nem fim, em que tudo É Um: A Ilha dos Amores.

sábado, 2 de agosto de 2008

O Padre Giovanni di Lorenzzo (À maneira de Bocaccio)

(Agora que o Paulo está de férias e o Casto Severo tem estado ausente (risos...) vou publicar aqui um pequeno e malicioso conto, à maneira de Boccacio. Espero não ferir nenhuma suceptibilidade e não aniquilar por completo a minha reputação...)
Giovanni di Lorenzzo, um jovem padre bem dotado e bem casado (com a Santa Madre Igreja, claro está!), resolve regar uma flor e provar as delícias do amor.

Não sei se em Messina se em Verona – os testemunhos aqui no povo divergem – vivia um padre dedicado às orações e à sua casa e propriedade. Casto e puro, o bem dotado padre tinha por hábito, todas as noites, à hora nona, passear pelo jardim de sua casa, para tomar o fresco da noite e agradecer bênçãos aos seus inúmeros santos de devoção. Tantos eram os agradecimentos que o mantinham puro.
Numa dessas noites de agradecer a Deus e aos santos, ouviu um rouxinol piar, atrás dum grande vaso de hortênsias que se esquecera de regar nesse dia. O jovem Lorenzzo pensou e disse: «Olá, um rouxinol lembrou-me o que eu tinha que fazer: regar as pobres flores…» e pôs-se a agradecer e a rezar também pelo rouxinol e por todas alminhas que pisam a terra e também pelas que voam nos ares.
Foi buscar o regador e dirigiu-se para o fundo do quintal, a cantarolar de alegria de vida boa e sã, o que não era seu hábito, mais piedoso, severo e reservado.
– Vem cá regar-me, padre! – Ouviu uma voz dizer alto – Alto lá,!... alto aí, que isto é milagre!
Foi-se chegando, de regador na mão, para regar a flor, quando sentiu que uma mão lhe segurava o dote e não o largava. O santo padre sentiu desejo e prontamente deu o que lhe era pedido. Dormiu a santa noite regalado.
Ao outro dia, chegada a hora do seu passeio, o jovem sentia em si a chama de homem acender-se de novo e o perfume da terra a chamá-lo. Depois de agradecer aos santos, não esquecendo esta bênção secreta, ouviu uma voz, desta vez mais forte, mais grave, que dizia mais ou menos as mesmas palavras – Vem cá regar-me, amor! – Aqui o padre benzeu-se e receou antes de se aproximar do vaso, pois já era noite, não fossem os santos estarem a dormir e não poderem atender ao temor da sua alma.
Diz-lhe o homem: «Já vejo, padre, que encontraste o céu.» O padre teve que dizer que sim e, para evitar o escândalo, pediu à testemunha, um pobre jardineiro das terras vizinhas, que guardasse segredo do que tinha visto. O homem fez com ele um trato a contento de ambos. Aos dias pares, faria ele mesmo as delícias de Hortênsia... e nos ímpares podia o padre solicitar os seus favores. Isto feito com o consentimento prévio da mulher, vistosa, mas viúva e sozinha, que se ia também regalando com o trato. Assim, ficava o padre com os dias pares para agradecer e os ímpares para implorar o alívio que com avareza reclamava. Foi assim que viveu vida feliz, não se esquecendo nunca de agradecer a todos a ditosa sede das flores e o terno canto do rouxinol. Quanto à hortênsia, cada dia que passava estava mais viçosa.
Cada onda do mar é um batimento do coração da terra.

RO(U)SAS


as minhas rosas são minhas/
como que dadas pelo céu/
-não minhas porque de mim/
sim porque minhas de eu//

Mari-Sol

Ao passear à beira-rio
vi que a luz do Sol me seguia...
foi então que descobri
que era o Sol que me via
por ser eu o Sol que me ilumina.














Não são os girassóis que seguem o Sol, é o Sol que segue os girassóis, pois cada girassol é o -seu- próprio Sol.

Boas férias aos sortudos, à beira-mar de preferência...

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O Poeta (Saudades, o que consegui...)













Quando o rosto do poeta se pinta de verde, é porque aconteceu a Primavera no céu e as planícies celestes auguram boas colheitas para os vates da Terra. Famintos, pintam o rosto com os reflexos dos arrozais divinos: os poetas têm no rosto as cores do que olham e do que chamam. Olhos e boca abertos para receber os versos verdes, as hastes frágeis com que o vento faz largar os grãos do arroz dos deuses. O rosto do poeta é um campo verde, um arrozal intenso, um arrozal extenso, grãos reunidos à volta do olhar, à volta dos lábios entreabertos. Rosto de arrozal, chão de grãos divinos, o poeta é o mondador do arroz espiritual.

Na cabeça do poeta, como no corpo do bailarino, não há ordem. Não há direcção. Há música. Entregues ao ritmo, vão os poetas em busca do indireccionado. Porque o poema vem a caminho, mas não traz direcção. É preciso, por isso, olhar e chamar para todos os lados. O poeta não sabe o que ouve, nem de onde ouve. O silêncio e o longínquo não têm lugar, mas vêm do alto: de grãos de silêncio, de grãos de lonjura se compõe o poema.

No corpo do poeta um geómetra enlouquecido só consegue linhas e pontos em fuga. No corpo do poeta mora um geómetra dado a traçar irregularidades: os círculos saem inacabados, as linhas quebram-se antes do fim, os movimentos interrompem-se, os segmentos tornam-se rectas, o ponto não estabiliza, a linha desfaz-se, foge, a irrequietude da forma dilacera o geómetra mas revela o poeta como caosmos.

Quando o corpo do poeta se pinta de azul, é porque o céu se desbotou sobre os corpos da Terra. Nus, os poetas, como mendigos, recebem a cor que o divino doa a quem elege. O poeta recebe a cor, mas o tom no poeta é um som. O som uma profecia intraduzível. O som indecifrável é presença do absoluto. O poeta deixa-se ficar, queda-se, para que os tons e sons se entrelacem na relação com os elementos à volta, e em volta da terra e do céu, de homens e deuses, o poema enlace paisagem e ritmo, se componha paisagem-ritmo.

Depois o poeta senta-se à espera da voz que o cante e sonha as noites das paisagens seguintes. Porque um poema é um sonho que repousa numa paisagem cantável. Num arrozal permanente em que o coro, a corografia, é feita por pássaros nas mãos orquestrais do vento. Uma paisagem permeável ao vento e aos sopros é uma paisagem poética. O poeta espera-a em indigência porque só uma paisagem solar ou lunar preenche a sua necessidade de excesso. O poeta não precisa de sobreviver, mas de saber viver. Só as paisagens musicais têm os grãos que nutrem a fome do espírito. Grãos de arroz e grãos com tons e sons. Grãos de trigo num campo com corvos, grãos guardados e perdidos na falésia escarpada de cré onde as palavras são grãos de areia no baile inconstante do vento e do tempo. O poeta sabe que é a voz de outrora que reúne e afasta os grãos que revelam a paisagem arquetípica de que a alma tem nostalgia. O poema traz essa morada. O leitor terá que procurá-la com a alma liberta dos lugares e das posições. Também a sua cabeça se deve desprender do que a prende, a fixa aos lugares e aos tropos. A leitura nada mais é do que a escuta das paisagens invisíveis e sibilantes que atravessam e se configuram musicalmente na alma. Sabe que lê aquele que escuta e se faz ouvir a si com o texto. Ler é sobretudo cantar. É por isso que, em torno do livro, nasce o ensaio, a tentativa de acertar com a voz que canta. E escrever uma corografia: fazer a grafia das vozes em coro. Oiço com atenção. E sei a paisagem que são em mim. Cantografia.

Esgotável

A minha vida para nada.
Reclamo uma escala de valores absoluta.
(Por vezes consigo escrever muito. Nessas alturas, claro, forço-me a escrever. Fatigo-me, aflijo-me para nada.
No meu apartamento. Estou aqui no meu apartamento. Sim, isso, no meu apartamento de hoje, em casa, que náusea...
É louco, completamente louco: como compreender a palavra "inesgotável".
Estou esgotado, estou esgotado.
Como limitar o ilimitado.
Apenas procuro compreender o infinito. Eu, que desejava que me explicassem o que é o infinito. E coloco-me frente-a-frente com o infinito. Agarro-o pela cintura. Sem armas. Imagino o inimaginável. Esgoto-me inesgotável. Concebo o inconcebível...
Ah! Saber rezar... Nada mais... e quedar-me sossegado.
Estarei a ficar louco?
A fotografia, do senhor Escher.



Criação


A nossa condição existencial é tão baixa e tão pequena que só pode ser fruto duma queda.

Vera-mente

Cada vez que a mente pensa separada do corpo, não nasce, cada vez que pensa dentro do corpo, nasce efémera... ao pensar através do mais interior do corpo, o exterior, nasce eterna.

O prob-lema do português...

O verdadeiro artista não é o que faz da arte a sua vida, é o que faz da vida a sua arte, o verdadeiro poeta não é o que faz poemas na vida, é o que faz da sua vida um poema. Porque sabe que a sua arte-poesia é sempre filha, e que só pode existir unida à mãe viva, ao mar vivo - à matéria e ao movimento da vida.
A mãe de Portugal quer ver os seus filhos vivos como ela - representando a mãe o amor infinito, por isso o mar chama-os continuamente a descobrirem a sua origem plural e a ela regressarem...

La mer di ci c'est plus belle que la mer de la, porque o mar daqui continua a querer ser mar, o mar de lá abandonou-se nas suas ondas, que não o sendo mais se perderam... no ar - sem disso se darem conta. O mar daqui quer nascer vivo de sua mãe, e só nascendo sendo-a ele o consegue...

A minha mente só quer nascer sendo o meu corpo.*

|*- Mas isso já ela o é...
- É?...
É esse o prob-lema do português... é perceber intimamente que ser e estar ainda não estão a ser bem o mesmo, esse mesmo que são.|

a última palavra

Não é nunca a última

Paixão. Persiste,

Eco do sol a depor o dia

Sobre o musgo do planalto:

a

Orar

Em silêncio repetindo os nomes,

Mergulhados na distância dissolvida,

Asas paradas, repetindo os voos

Longitudinais

Junto aos rios

Que ainda não viram o mar;

O peso das águas, constritivo

Da resistência maleável das raízes

Na terra onde nascemos,

Vendados os olhos,

Cegos de caminhos

Que nunca se descobrem.

Não é nunca a última

A palavra.