O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Canção do dia de sempre

"Tão bom viver dia a dia...
A vida, assim, jamais cansa...

Viver tão só de momentos
Como estas nuvens no céu...

E só ganhar, toda a vida,
Inexperiência... esperança...

E a rosa louca dos ventos
Presa à copa do chapéu.

Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Nada jamais continua,
Tudo vai recomeçar!

E sem nenhuma lembrança
Das outras vezes perdidas,
Atiro a rosa do sonho
Nas tuas mãos distraídas..."
Mário Quintana

poema simbolista

Vetustas portas de cristais errantes

Às horas mortas gastas e frias,

Aquecidas pelos membros palpitantes

Das vidas fogosas e vazias,

Vejo em teus braços de oiro cintilantes,

Rubis e brilhos e cores que irradias

Na brancura dos mármores contrastantes

Das velhas portas gastas e frias.

E acendo os incensos dos turíbulos

À tua passagem palpitante

Queimando a roupa fina dos vestíbulos

Entre passos acesos, coruscante,

Asas na dança das aras dos prostíbulos,

Sobre os lívidos mármores, triunfante.

ávila

Terra Salgada

Da superfície da pele nasce água e sal... lágrimas e su-o-r, ao ser o interior dos olhos ao mesmo tempo exterior, por reflectirem este fielmente. A pele do ser humano é então a própria superfície da Mãe-terra, de onde surge a água do mar, cada ser é uma sua reprodução, no entanto, ainda não nascida, por manter o seu exterior interior à Mãe-terra, somente aliando os dois, se verá a Vida, ao unir-se animal e vegetal num só Reino... o do Mar do Amor, o qual dará à Luz a Terra do Sal*, assim que o exterior do Homem for o exterior da Terra, por o seu interior ser o dela também: quando o que fazem os olhos do Homem o fizer todo o seu corpo, quando para lá das janelas, os olhos, se abrirem as Portas do Corpo, o Coração - da Terra.

"Entre a nossa alma e o nosso corpo há muitas janelas; se estão abertas, deixam passar as emoções, se estão fechadas filtram apenas, só o amor as pode escancarar a todas ao mesmo tempo e de repente, como uma rajada de vento. Quando estão abertas, o corpo ilumina a alma e a alma ilumina o corpo, como num sistema de espelhos."
Susanna Tamaro, "Vai aonde te leva o coração"

|*O sal é o sol da terra.|

Senhora do amor, da fertilidade, do ouro, do "Sol Glorioso", dos rios e das fontes; mulher-menina

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

cenário I

Após o canto luzidio das escravas,

Nuvens que exilam balas

De sol, azul de chumbo e transparências

No pano prenhe que cicia do

Cordame altíssimo da chuva.

Pequenos barcos de fumo,

Assim genuínos, do chão

Vão recolher a tradição

Trovejante na poeira

Do arco tenso em grandiosa voz

Que abriu as cordas insuspeitas.

O sol retoca-nos depois o rosto

Molhado num chão de lama seca e

Arrasta os nossos olhos para o mar

Com doçura. Uma noite amadurece

e a brisa puxa do rasgado bolso

Uma cobra infinita,

Mãe de si própria, o país duplo da verdade.

Astronomia essencial: somos o sonho da Lua como Sol, de Deus como Homem

Ao pôr-do-sol
Eterna cópula
Se junta a Lua
Mãe oculta

A sublime aurora
Traz-nos a glória
Do filho inocente
Descoberto sorridente


















"Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive"
Ricardo Reis

A outra
face da lua
não está oculta,
está aqui.
O que não vemos
é o que agora
vivemos,
o que o Homem ignora
é aquele que o sonha.
No lado escuro da Lua
está o menino que dorme
e deseja que o mundo
brinque ao amor...
acorde!

Reis-do-chão... da Terra

SER, RÉS. Só pode existir quem vive no rés-do-chão da Terra, pois é o chão o coração que liga todo o ser à vida - com a cabeça a voar em ideias o Homem abandona-o:

o chão da Terra é o Céu.

CATEDRAL

Para todos os que me lêem e os que me vêm ler na mesma luz de olhar. Para os que me não vêem ou lêem, também.

O Homem é uma catedral. Sempre em metamorfose, sempre a mudar, sempre a nascer e a morrer. O corpo guarda a nossa alma, desenha-a em movimentos suaves, pinta-a com cores inexistentes que se vêem em todo o espaço inextenso. Não tem portas nem janelas a catedral da alma. É vazia para as divisões, distinções e separações. Una para as multiplicações. É sem arquitectura a catedral da alma. A matéria de que é feita não é vulnerável aos efeitos do tempo. É sem tempo, o templo. As suas pedras, as suas figuras, nada são senão sinais. Símbolos para a leitura silenciosa de uma escrita com todos os sinais dentro de um indivisível e uno corpo espiritual. O espírito que o sustenta é uma pomba livre no céu. As rosáceas são buracos no céu, onde o azul é mais transparente e vibrante e não se vê parado em nenhum lado, esse voo de pomba que é o espírito santo, no centro sem centro desse espaço aberto e invisível. É sem princípio e sem fim. Com ser e sem haver. Os sopros vêm em todas as direcções. As colunas do templo são braços e abraços. Como asas transparentes os vejo. E a pedra em que assentam é uma pedra rasa sobre o chão verde, em espiral elevado. É uma pedra de Sol a arder por si mesma. A pomba está em cima, está de lado, está em baixo, voa onde desaparecemos, e aparece onde voamos. Por isso uma catedral é um lugar sagrado. Faz vibrar quando quer a pedra do peito, não reflecte o que vemos senão o que sonhamos.

Pois uma catedral não existe completa nem perfeita, nem estática. Uma catedral é uma Serpente sempre para além, a ultrapassar. Tal como um imenso oceano sempre a encher e a vazar, sempre em movimento, uma catedral é um som fundo e vago, a inspirar e a expirar. Uma catedral há-de ser como um berço para nascer e uma campa para morrer. E nesse berço passam os movimentos dos que amamos e embalam-nos e afagam-nos; e nessa pedra rosa onde dormimos e repousamos, passam os passos dos que amamos e parece que vão mais devagar, em oração, os passos em oração sobre o nosso corpo e a nossa alma são uma missa de louvor ao templo que somos. São o retiro espiritual do nosso repouso. Uma catedral é uma saudade de Ser.

Uma catedral é uma montanha onde o ar é mais puro e parece que o céu não acaba para os pássaros que soltamos. Uma catedral é um pássaro porque é mais ágil o seu voar do que o seu pensar. Uma catedral somos nós dentro do nosso corpo a sonhar e a rezar.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

SANTA MARIA DE ÉVORA


Esta é a visão de um amigo meu sobre a Catedral de Évora. Partilho-a convosco, pois sei que nessa visão está um profundo entendimento e dele guardarão o que receberão em AMOR.
A "minha" catedral continua inacabada e imperfeita. Cada coluna é uma abertura e não tem tectos...


SANTA MARIA DE ÉVORA


"Que noite gloriosa a de hoje
Cheia de anjos e de névoa
Como aquela noite longínqua
Quando vislumbrei da planície
Uma Rosa na Catedral de Évora."
W. B. YEATS

Os Corvos negros fizeram-se ouvir na Torre Sineira da Catedral Gótica.
No interior, a Luz animou as Colunas... A Senhora do Ó, o Anjo, o Grifo e a Lebre desceram dos pedestais.
O Arquitecto desenrolou o Papiro e fez transparecer a Sua Mensagem inefável... Do triforium ouviram-se sons... A Energia entrou pelas Rosáceas e encontrou-se no Centro e jorrou para cima e para os lados e para baixo.
A Torre Lanterna incendiou-se e iluminou-se nos seus oito lados.
Os Corvos, no exterior, debandaram nas sete direcções do Espaço profundo.
A Palavra, regularmente pronunciada, fez erigir o Templo e acontecer o Ritual. As pancadas soaram, a Porta abriu-se e o Neófito aproximou-se com passada cadenciada e hesitante, do Oriente. Mas não se encontrava só... a Presença do Mestre fez com que a venda lhe caísse aos pés, fazendo-o vislumbrar a Luz almejada. E a Luz era Oiro, e o oiro tinha a forma de Coração e o coração transmutou-se em Rosa, donde brotou uma lágrima de orvalho há muito depositada no seu âmago... com destino de devir e de restaurar...
Sempre os Corvos...
Sempre o Sino... o Som.
O Sentimento transforma-se em Emoção e esta galopa nas asas do Vento a distâncias inimagináveis...
Viemos através da Névoa. A alvura dos Céus que cobria os campos em movimento era fascinante. As papoilas esbatidas no branco da neblina surpreenderam a nossa imaginação...
A flor da esteva ... neve quente e perfumada.
Dádiva e aceitação conduzem ao estado de Alegria.
Santa Maria de Évora - Colunas de Pedra elevadas pelo Silêncio e banhadas pela Luz da Rosa, aquela Luz que aspira unicamente à Libertação. Elevou-se este conjunto de Harmonia e Arte através da Meditação e da Obra. Esta, resultante da Força e da Inteligência; aquela, resultante da quatrilogia simbólica e perene do «Saber, Ousar, Querer e Calar», que teve a duração de dez anos de trabalho secreto de fermentação e espera... o resultado foi a Síntese Iniciática.
Este Silêncio centenário encontra-se sempre e sempre a renovar-se ... O Sol tem a Idade de Centos e Centos de Anos, contudo todos os dias renasce...A Rosa sempre desabrocha e sempre é Fonte Emanadora de Luz, e dia-após-dia revela a Sua Mensagem de Paz, de Amor e Sageza. E a Rosa é Luz e a Luz é o Deus inominável, omnipresente e eterno tal como EU SOU EU...
Colunas de pedra elevadas pelo Sacrifício e banhadas pela Luz da Senhora e pela Luz Interna. Silêncio quase absoluto, silêncio centenar, todavia dia-a-dia renovado. Encontro-me realmente no interior do Templus Dei, no Templus-Tempus, no seio da própria Natureza Divina, tudo à minha volta, pedras, imagens, presenças e ausências, está imbuído de um Silêncio e de uma Energia tal que denuncia a própria Presença do Ser Supremo, inefável, inominável... do qual eu próprio e tudo que me rodeia, fazem parte integrante. Tudo se encontra em harmonia, dentro e fora de mim, por não haver dentro ou fora... Olho em frente e, erectas perante mim encontram-se Jakin e Boaz ... do Templo de Salomão.
Na Entrada do Claustro, perante o Apóstolo, o Tempo parou.
Eis-nos perante o Tempo-sem-tempo das Origens da Criação.
Percorro os Claustros de Pedra e de Sombras, onde a Luz se esvai nos meandros labirínticos da construção dos arcos e contra-arcos, colunas e abóbadas que suportam a perenidade da Obra.
Na Capela do Fundador, Sanctum Sanctorum do Claustro, quiçá de toda a Catedral... deparo, ao centro, na Coluna, com o Homem das Duas Chaves. O garante da Abertura da Porta. O Livro está fechado e selado. A que Portais darão acesso aquelas misteriosas Chaves Templárias? Quando o botão do lótus abrir e florescer livre e radiosamente ao Sol, o Homem, então, sairá da sua letargia e facultará a Entrada aos seus Irmãos de igual condição...
Em frente, a Senhora, de Azul e Vermelho.
Ao avançar na Sua direcção os Anjos Guardiães ordenam, em Silêncio, que me detenha... Paro.
Isis permanece com o Véu. Encontra-se Selado e Virgem, por Juramento Sagrado, a cavidade do Seu Adytum. O Menino recolhe e protege o Livro. Igualmente selado. O Fruto permaneceu Sempre no Seu Sagrado Ventre...
Contudo os Tempos estão chegados para se elevarem e retirarem as pedras e conseguirmos finalmente o acesso à PAX PROFUNDA...
Todavia os Dois Vigilantes estão alerta nos seus postos a esquadrar devidamente o Templo e o Mestre Hiram ainda não ergueu a cabeça e colheu a Acácia...
A Rosa+Cruz , presente, ao Alto... O Santo Graal, apontado, em baixo... como duas realidades da mesma REALIDADE!
Vagueio sem rumo pelos Claustros vivendo intensamente o místico ambiente emanado pela coloração, pelo odor, pela forma das pedras da construção. Por entre as arcadas góticas, ao alto - o Athanor... Os Corvos o rodeiam vezes sem conta, quiçá procurando a inevitável transmutação que, da sua negritude putrefacta atinjam a alvura e a purificação e façam parte do resultado final da Obra.
Avanço, rodeado por uma luz doirada, e as pedras brilhantes de sol e oiro tocam-me fundo e fazem-me escutar sons de recordar, e fazem-me sentir os gestos ritmados do pedreiro construtor , prenhes de intenção e de sentido quando transformavam a pedra bruta e realizavam o sonho da sua vida de labor e de oração. Pedreiros, monges, mestres e companheiros partilham, aqui e agora comigo, a minha condição de aprendiz da Arte da Vida.
Os meus acompanhantes, imóveis na sua natureza de pedra, esquadram o Claustro - S. João, S. Marcos, S. Lucas, S. Mateus - e são o suporte existencial do próprio Claustro, racionalizando e quiçá justificando a obra...
Se o piso térreo do Claustro se encontra imbuído de uma força Telúrica, em que sentimos a Terra-Mãe em toda a sua pujança criadora... ao passarmos para a claustra superior, ao aproximarmo-nos do próprio Athanor, a Energia muda literalmente de qualidade e entramos no seio da luz livre e sem reflexo. Da horizontalidade passamos à verticalidade, como o Pedreiro passa do nível ao prumo. Aí, e na base de Athanor vemo-nos perante a representação simbólica do Homem que Sabe, que Ousa, que Quer mas que Cala aos ouvidos impuros. É o Homem Peregrino em constante Demanda da Sabedoria-Sageza das Idades - o Homem montado no Cavalo Branco da Tradição Espiritual de todas as Épocas e de todas as Gentes - , aquele que activa e conscientemente contribui para a Evolução Espiritual do género humano, simbólicamente representado pelas cabeças masculina e feminina. Guerreiro por excelência, mas Templário por Via e Vocação Iniciática, guardião da Mensagem Sublime contra os perigos tenebrosos, ameaçadores da Civilização e da Humanidade.
A Iniciação Solar adivinha-se com a representação do seu Portal do Limiar. O Sol e a Lua apadrinham o Neófito sob a Arcada trilobada, nomeação de facto das três Idades do Mundo.
Athanor... o Fogo no seu interior a arder faz rodopiar o Poder contido!
Silêncio!... Num ponto do Espaço, num tempo sem Tempo, arpejos de longínquos sons... de arcaicos sentimentos... de uma Harpa... O tanger da harpa faz lembrar não sei que distantes realidades... sentidas com uma intensidade de deslumbrar e de deslumbramento. Ouvida pelo ouvido... sentida pelo sentir do baixo-ventre e traduzida pelo coração, torna-se numa e mesma realidade de re-lembrar e de re-descobrir. Os Celtas, os Druídas, os Bardos... Merlin!... Daí até à Grande Mãe abarcante e omnipresente vai um pequeno passo de infinito alcance!...
E logo, a voz humana... a Voz!... os sons de vibração circular, os jogos do sentir entre a Voz e a Harpa... os vislumbres da Memória Interna do EU levando-me até ao limiar do Eterno Presente... E logo e sempre o Fogo, a Chama... Athanor, e no seu seio ,os deuses e os Elementos... O Silêncio!
O Vermelho, o Negro, o Amarelo acompanham e aquecem todo este sentir, e ainda o Castanho e o Dourado, que me fazem filho bastardo deste tempo e filho pródigo daquele tempo do Devir que toca os confins do SER...
Olhando Athanor e adivinhando a presença sublime do seu Fogo Interior, compreendo-lhe a Mensagem de Silêncio... a Linguagem do Silêncio... Ela arde por dentro de mim, de nós, e transborda, do pequenino graal, ao meu redor, através do Olhar e do Gesto, do Rito e do Ritmo, através do Sentimento. Ela arde dentro de mim e anseia pela Demanda... Ela está presente mesmo na obscuridade mais profunda... Manifesta-se na Estrela Flamígera, a Oriente, no Templo da Perfeição.
Athanor arde e a Energia escorre e purifica à sua passagem.
É nesta atmosfera de ritmos e ritos sagrados que encaro o Mestre e Ele me confere o direito de olhar o Pergaminho dos Postulados Ocultos que reza:
1. Uma Vida penetra o Universo e o mantém em Existência.
2. O Universo fenoménico é a manifestação de um eterno, ilimitado Princípio, para além do alcance do entendimento humano.
3. O espírito (ou consciência) e a matéria são as duas polaridades da Realidade última. Os dois, com a acção recíproca entre eles, incluem uma trindade da qual procedem inumeráveis universos, que vêm e vão num interminável ciclo de manifestação e dissolução, todos eles constituindo-se enquanto expressões dessa Realidade.
4. Ao nível do macroscópio, cada Sistema Solar é um ordenado esquema governado por leis da Natureza que refletem uma inteligência transcendente. A Deidade é Lei. A Evolução impera.
5. O Espírito do Homem é idêntico, na sua essência, ao Espírito Supremo Uno. Essa Unidade, essa Alma Superior, dentro da qual o ser particular de cada homem está contido e feito uno com todos os outros.
6. A Lei é Cíclica e o Homem é o seu próprio legislador. A Liberdade e a Consciência do Homem evoluem consoante evoluir o seu auto-conhecimento.
7. A Totalidade é a chave para a compreensão do Homem e do Universo.
Assim me transmitiu o Mestre. Assim eu o transmito.
ORDO AB CHAO!
R.A.,Evora, 1994.

A minha religião

Se a vida não é eterna para quê levar a sério o que logo passa?
Se a vida é eterna o que levar a sério senão o que o seja também: o amor sem limites?

A minha religião tem só um mandamento: viver à beira-mar do amor.

Um brinde ao Paulo Feitais

Saúde, Irmão!

provérbio nhaneca

"a luz com que vês os outros é a luz com que te vêm a ti"

provérbio lunda

"a corça nunca pariu na frente do leão"

A Catedral

Uma catedral não é uma morada. A Sagrada Família, em Barcelona, é o paradigma de todas as catedrais: perfeitas e inacabadas. O homem só consegue habitar o imperfeito porque acabado. Uma catedral é um lugar, um lugar onde se sente que o criador pode ainda voltar, ou de onde se afastou. Uma catedral é um lugar de onde Deus se ausentou. Ou, simplesmente, onde o criador pode voltar depois, não se sabe quando, nem de que maneira. As rochas aparecidas e consumidas, pela erosão no meio do mar, podem ser pilares, colunas e traves-mestras de uma catedral, acessíveis quase só pelo olhar. A catedral pode estar no que emerge, ou no que se esconde no fundo do mar. É morada de luz e pássaros, de navegadores que rumam para o sul, de peixes, corais e serpentes que dançam com a neve do mar. Uma catedral é uma passagem para a luz, para a claridade que apaga as sombras, as desfaz com os poemas que a Sophia sabia cantar.
Uma catedral não é um abrigo. Em Santa Sofia, em Istambul, percebe-se que uma catedral está assente, como uma ave de porte imenso, num ramo frágil, numa fenda, numa placa móvel que dança uma melodia que nenhum órgão saberá jamais tocar e de onde as vozes que poderiam cantar fugiram para contar as estrelas na imensa noite de deserto dos profetas entregues às tempestades de vento e à distância plena do mar. A catedral é o bando de aves solenes que atravessa e desenha minaretes sonoros com e nas nuvens da abençoada chuva-mãe.
Uma catedral não é um templo. Em Santo Estêvão, em Budapeste, percebe-se que, numa catedral, Deus nunca falará de si ali. Nem de si, nem ali. Uma catedral é um lugar onde Deus se senta silencioso para desenhar e pintar aquele que o sacerdote, ou o pontífice nunca deixará entrar. O santo, o sem nome, o pobre, o ferido lancinante, o perdido, o louco, o filho pródigo. Uma catedral não é um lugar para se rezar. Uma catedral é um ateliê sem tecto para deixar o céu entrar e continuar a fascinar. E só assim, talvez salvar como sabia o Calígula de Camus.
Uma catedral não é um lugar de peregrinação. Em Santiago de Compostela, na Galiza, percebe-se que uma catedral não é o fim da viagem, o lugar da chegada. A catedral não é a pedra, o cimo, o eco no acaso dos ventos, a devoção repetida na luz frágil das velas, por entre as neblinas e as chuvas ancestrais. A catedral é uma passagem, uma estação antes do tempo, da dor e da sua múltipla frutificação. Uma catedral é uma árvore: uma cerejeira, uma macieira, uma laranjeira. Uma catedral é uma árvore com uma vasta cabeleira de cores e botões em flor.
Uma catedral não é uma gramática em pedra mármore manuscrita, nem a folha de ouro revestida. Em S. Pedro, em Roma, percebe-se que uma catedral não é um livro, um silabário em que Deus ausente, ou inesperado, deixasse inscritas as deixas do seu dialogar. Uma catedral é um rosto que desfaz o texto a consagrar, um rosto de Pietá esculpido em pedra e sal no seu incessante lacrimejar. Uma lágrima é a água baptismal com que o rio Jordão promete, como João, dentro de nós, a supra-humana condição.
A catedral é um rasgo, um rastro, um grito, um mito que não se consegue recuperar e na qual não nos é permitido circular, ou sequer permanecer para a podermos visitar. Não é morada, é a visão para o que na condição profética de tudo largar, desabrigado e indireccionado, atravessar o deserto que fica longíssimo do mar. A catedral não é do tempo nem é um templo. Fora do tempo e da eternidade. Porque seguramente ao “que invisível se vê…” (Fernando Pessoa) só é acessível para os seres de interioridade e de internalidade. Seres (s)em regresso, órfãos do mundo, viajantes oníricos nas lágrimas que os reconduzem à origem do mundo, arqueólogos das ruínas da catedral edénica, nos jardins suspensos da memória. A catedral é a imagem intacta de Outrora.
A catedral é inacabada e o seu inacabamento é a sua perfeição. A haver um criador seria um nómada errante nas paisagens da Terra, do Fogo, do Céu e do Mar. O criador criaria a sua morada numa paisagem que poderia ainda ter que inventar. Mas, se houver um criador também este não precisará de qualquer abrigo para repousar. Um criador não repousa num lugar: repousa na quietude e no silenciar, dentro, no âmago fundo, do inexistente. A haver um criador também ele não quererá um templo, porque não haverá qualquer linguagem com que lhe falar e um Outro com quem dialogar. O criador tem que ser um não-Outro que não se possa olhar. O que é preciso é que exista um ateliê para Ele poder criar, recriar, descriar. É preciso um céu para Ele, nos dias de êxtase, milagre ou convulsão, pintar a tela grande do horizonte com cores e seres que sejam de espantar. É preciso o éter para Ele poder ser o fogo, o Sol, o rubro manto a que os corpos nus e as almas mortas se entregam na vastidão insondável do entardecer, antes também do imóvel e pleno luar e enlutar.
A catedral é o rosto humano a chorar e a infância que se recusa a falar. A catedral é a água límpida, fria e fresca que só o divino raiar pode acalorar. Prévia às sombras, na luz inicial, imóvel, antes da Terra girar, só a catedral sabe ensinar a arte de emudecer aos que bem-aventurados nunca hão-de aprender a argumentar. A catedral tem colunas, absides que são memórias do Sol no seu ante-despertar, é daí que o Criador gosta de se aproximar e com asas de Dédalo nos convidar a chegar.
A catedral é a amendoeira na ladeira, o branco-rosa da sua flor de Fevereiro. Não o verde-azul infinito dos vitrais, da rosácea de vidro, no cimo dos altares centrais e laterais. Porque Deus não é finito nem infinito: é faminto e, por isso, semeia jardins que são hortos e onde de madrugada os pássaros – antes das paredes erguidas e dos altares com círios acesos, dos coros e das orações, dos textos e das consagrações – escolhem os nichos para as vozes ensaiarem e soletrarem em melodias espontâneas o silabário incerto e indecifrável do Criador, que varia, do pouco que se sabe, nos sons, nos tons e nas estações. Uma catedral é um pomar, um campo de árvores, um lugar por onde um dia uma Voz, num espaço [do] invisível, começou e ninguém ainda, homem, ave, peixe, deus ou artista ouviu, respondeu ou completou.
Por isso uma catedral é uma página branca, esta tampa, esta campa onde, Mãe, às vezes, te venho cantar sílabas e sons com lágrimas e suspiros, esperando um dia, por essa janela, te poder voltar a chamar. E gritar, mãe tenho uma pomba no peito que nunca me esqueci de Amar. É por ela que passa o que de mais puro consigo pensar.

É também esta a imagem, sobretudo a dos textos, a que faltava. É nela que com obscura clarividência o ouvir se faz ver, a audição se faz contemplação. Para que Luíza não se esqueça que tenho dentro de mim movimentos de pomba e eles são o meu corpo a escrever.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A Terra do Fogo: o Santo Graal, o Sangue Real

"Amor é fogo que arde sem se ver"
Camões

Todo o ser é amor, todo o ser é chama invisível, transmutada em água e sal na superfície do corpo: segundo uma experiência recente a água do mar pega fogo.

O magma ou lava é o fogo que à superfície se transforma em terra, como o sangue se forma em tecido, porém, enquanto a terra o reproduz inteiramente, o tecido humano permanece funcionando como fronteira, realizando-se toda a sua função vital para lá da superfície da pele, ou seja, esta continua a ser placenta, unindo o ser humano ao interior, ao útero da Mãe-Terra: o reino animal ainda não nasceu como o vegetal do corpo da Terra, estando o mar do fogo a encaminhá-lo para a Ilha do Sol.


















(A cereja da Noiva...)
O Sangue Real sur-girá quando o Homem nascer veramente da Mãe-Terra, quando o sangue dos Dois se unir, assim chamado por só então o Homem passar a existir realmente, a ser eterno.

DÉCIMAS

linguagem vetusta
emplumada de pura

DÉCIMAS DO GENÉSIO PONTES


Visco branco e palmeirão
Vara de ouro e pilriteiro
O cardo-santo e rinchão
Fel da terra e noveleiro


Verónica e trepadeira
Feto-macho, valeriana
Tramazeira e verbena
Sanamuda e ulmeira
Mil folhas e cerejeira
Urze e selo de Salomão
Goivo e amor de hortelão
Canabras e avoadinha
Espinheiro e sargacinha
Visco-branco e almeirão

Betónica e pulmonária
Sanícula e tasneirinha
Sarão-curto e cavalinha
Pinheiro silvestre avelária
Pepino S.Gregório, aliaria
Douradinha e sabugueiro
Norsa-preta e alfeneiro
Nevada dos gatos, violeta
Luminária e faia-preta
Vara de ouro e pilriteiro

Erva S. Roberto, ficária
Tussilagem, salgueirinha
Trevo de água, carvalinha
Ninho de cuco, vulneraria
Silvão-macho e fumaria
Celidónia, dente-leão
Consola-real, urtigão
Feto real, morangueiro
O cardo-santo, rinchão

Alfazema e escrofolária
Alecrim e pimpinela
Erva terrestre e rosela
Cardo-corredor, saponária
Nevada, papoila ordinária
Mangerona, marmeleiro
Erva-férrea, algodoeiro,
Silva-macha, matricária
Pé-de-leão, paritária
Fel da terra, nevoleiro

O vazio é o que se chama demónio

No momento em que amarmos a vida tal como ela é, ela muda para nós. Enquanto só quisermos amar uma parte da vida ela não pode mudar, porque a transformação, o nascimento de algo novo ocorre sempre por união de duas partes antagónicas. Bom e mau. Masculino e feminino. Um pólo isolado nunca deu luz. Não existem inimigos, existem amigos perdidos ou vazios. Não existe mal, existe ausência de bem. Não existe morte, existe ausência de vida... (ou mal e morte são ausência). Não existe problema, existe uma solução que ainda está vazia, como a noite é o dia que ainda não amanheceu.

Quando olhamos algo sombrio, olhamos aquilo que ainda não é, mas que tudo pode ser! Olhamos aquilo que será revelação! Olhamos algo que encerra uma infinitude de possibilidades. Só a partir do escuro é que a luz toma o seu máximo esplendor. Estar apagado é um momento solene, como o é o céu da noite, ou os instantes que antecedem o abrir das cortinas de uma peça de teatro, ou o nascimento de um bebé. O vazio é só um tesouro escondido.
Ser mau não é mau, é ser bom demais... Vale a pena reprimir por ser bom demais? Vale a pena gritar ao dia por ele estar a chegar ao fim? Vale a pena quebrar o relógio por ser tarde? Ou vale a pena suspender a expiração? Ou não perdoar?
Vale a pena impedirmos-nos de ser quem somos? Para quê? Para ficarmos a não ser? Para que existimos nós? Para nos trairmos a nós mesmos? Temos medo de quê? De sermos nós? De quê? Do vazio de nós? Do silêncio? Será que o dia tem medo da noite? E o céu tem medo da terra? Será que temos mais medo de nós do que da nossa ausência? Deixemo-nos de caprichos e sejamo-nos de uma vez por todas! Nada há a esconder que não possa ser aceite. Tudo o que vemos e que nos aterroriza, não é o que vemos, é o que esconde o que vemos. Não é esse acto que é horrendo, é o termos de fugir de nós próprios que é horrendo. É o termos vergonha de nós mesmos que dá dó. Não é a notícia que nos devia perturbar, é o que ela não é que nos devia causar náusea. É o que lhe falta que nos devia incomodar. E que nos incomoda. É a FALTA DE AMOR. É esta ausência de nós.

O Movimento - Linguagem


"
Cependant, si nous vivons dans, par et à travers le mouvement, c’est le plus souvent sans en être vraiment conscients. Au jour le jour, que représente vraiment le mouvement dans notre vie ?
Dans le meilleur des cas, c’est une source de plaisir : pour les sportifs, des sensations fortes venues de leur muscles ou de leur sang ; pour les artistes, l’acte créateur passant para leur corps en mouvement. Mais même là, le plaisir vient davantage des effets du mouvement que du mouvement lui-même. Quand le mouvement permet de prendre son enfant dans ses bras, de prouver à quelqu’un qu’on l’aime, on est plus attentif au contenu affectif du geste qu’au geste lui-même. Et dans le pire des cas, le mouvement n’est plus qu’un ensemble de gestes volontaires ou automatiques usuels, utilitaires, qui nous servent à marcher, manger, aller travailler, faire des courses… Dans la vie quotidienne, le mouvement n’est plus que le parcours monotone des mêmes allées et venues, sans surprise.
Il faut se rendre à l’évidence : l’attention portée sur la gestuelle n’est pas à la hauteur de son importance fondamentale dans la vie humaine. Le mouvement est utilisé, mais non valorisé ; connu, mais non reconnu ; on en abuse sans jamais l’habiliter. Débordements de sollicitations, pression de la performance, canons de la réussite…, les bonnes raisons ne manquent pas pour expliquer – justifier ? – que l’homme soit coupé d’une partie essentielle de lui même. Mais si l’insensibilité qui en résulte est moins visible qu’un retard moteur ou mental, elle ressemble fort à un véritable handicap, et joue un rôle primordial dans nombre de difficultés physiques et psychologiques.

La recherche de Danis Bois peut se définir comme une action thérapeutique visant á combler l’inconscience majeure qui touche le mouvement : « Quand je parle du corps, je regarde sa gestuelle et la conscience qui l’habite. Malheureusement, le corps est devenu dense et privé d’une certaine forme de conscience. Le mouvement s’est mécanisé, automatisé, et a perdu sa richesse naturelle. Lorsque j’observe le langage gestuel de l’homme non entraîné, il m’apparaît aussi pauvre qu’une langue qui utiliserait en tout et pour tout 500 mots. A force de faire des mouvements sans y prêter la moindre attention, la sensation concrète d’habiter un corps se perd progressivement, et parfois même la conscience de soi, de sa propre identité, finit par vaciller. Le langage verbal s’apprend, le langage du corps s’apprend de la même façon. Le mouvement est une écriture indélébile, un témoignage vivant de ce qu’est la nature humaine dans sa plus grande dimension.»
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In Le mouvement dans tous ses états- Les recherches de Danis Bois – Eve Berger

Corpo e movimento


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Pour mesurer l’importance du mouvement dans notre vie, imaginons un corps entièrement privé de l’outil premier de son mouvement, c’est-à-dire ses articulations : non seulement aucun mouvement serait possible, mais l’homme serait dans l’incapacité absolu de communiquer avec autrui, il ne pourrait pas prolonger dans l’action le fruit de sa pensée. Probablement même serait-il incapable de penser : « Il n’est pas juste de dire que l’homme pense avec son cerveau. Ce n’est pas avec son cerveau qu’il pense, c’est avec son corps tout entier ; il pense avec ses doigts, il pense avec ses pieds, avec son ventre, comme il pense avec son cerveau ; il pense avec l’ensemble. » (A. Janet)

Nos articulations sont donc bien autre chose que de simples exécutantes anonymes, soumises à note cerveau, et destinées à déplacer le corps pour satisfaire nos besoins. Elles sont un outil primordial de notre vie relationnelle, ont leur mot à dire dans tout ce que nous disons, permettent d’appuyer un message, de le faire passer, d’offrir à l’autre ce que nous avons de plus profond, de plus authentique. « Les mouvements de la tête qui donnent l’âme d’une expression, le mouvement de la bouche qui délivre la parole, le mouvement des membres qui ponctue le verbe, le mouvement de la main qui guide la plume, dépendent tous totalement du monde articulaire. » (Dannis Bois)

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In Le mouvement dans tous ses états- Les recherches de Danis Bois – Eve Berger

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

"We want the world and we want it now" J. Morrison

Como pode alguém se reencontrar tão profundamente através de quem se perdeu?
Jim Morrison, Fernando Pessoa, Elis Regina...

Porque o natural do ser humano é viver perdido de si, é não saber quem é, é viver sem pensar o que deve ou o que não deve fazer, porque o antinatural é esta sociedade falsamente conhecedora de como se deve viver a vida, ignorante que a luz e a sombra são no âmago o mesmo, que viver sabendo é coisa que para a corrente do rio da vida não interessa para nada, porque ela não existe por ou para ser sabida, apenas para ser vivida superficialmente, através do corpo, pois nada há de mais fundo que a superfície do mundo, que imaginar outros fundos é perder este para ficar com nenhum. Que o Jim e os outros poetas marginais morreram prematuramente porque eram demasiado perfeitos para este mundo ainda a aprender a ser mundo, que é o Homem que teima em escolher uma margem do rio em vez de nele embarcar de modo inteiro, que de marginal existe só esta invenção mental de mundo: todo o pensamento é marginal ao corpo, todo o ser humano torna-se marginal cada vez que pensa.
Apenas aceito pensar como via para o não pensar, apenas aceito viver na terra dos marginais como via para a terra do mar.

"Waiting for the Sun"...
"I'll tell you this... No eternal reward will forgive us now for wasting the dawn."
Jim Morri-son