O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


terça-feira, 22 de julho de 2008

saudade tenho é da Mãe Natureza cuja canção de embalar o nosso DNA nunca esquecerá

extractos de um texto intitulado 21 teses sobre o trabalho de José Tavares
publicado no número 19 de 2005 da Revista Utopia cuja numero 25 sai nesta 4ªfeira



“Nunca se trabalhou tanto como hoje. Por todo o mundo, dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, milhões de individuos gastam todo o seu tempo a trabalhar ou a procurar trabalho. Mas a maioria dos individuos não são senhores do tempo e daquilo em que se ocupam; as necessidades a que estão condenados são criadas e fomentadas exclusivamente pelos lucros que as mercadorias oferecem àqueles que são donos do trabalho.

A sociedade da ordem e da norma está na iminência de realizar outro milagre: que o cidadão esteja simultaneamente no cume do entusiasmo e no cume da passividade!

Enquanto a actividade humana, escravizada ao trabalho, fôr um instrumento de tortura, ele há-de realizar-se segundo as regras da compulsão, da desigualdade e da hierarquia. E os governos, seja qual fôr o sua forma, reproduzirão o modelo autoritário e simbolizarão as relações de subordinação.

Para os moralistas, especialistas e donos do trabalho, este significa honra e alegria porque significa bons lucros; para os outros, é um exercício monótono, repulsivo e que nunca será bem pago. Não é o sal da vida, nem “uma acção inteligente do homem sobre a matéria que distinguiria o ser humano dos animais”. O trabalho revela-se uma manipulação robótica, uniforme, elementar, sem génio, sem vida; uma relação que provoca sofrimento, suplício e miséria!

Os trabalhadores que trabalham de modo consciente para perpetuar o mundo tal como ele é. Convencidos que o mundo não pode ser outra coisa senão luta e fadiga, não têm tempo para mais nada senão trabalhar, o que os leva a imporem as mesmas condições aos outros. Vivem em permanente competição e concorrência.

Para os trabalhadores que conseguiram coincidir a sua paixão com o seu trabalho o tempo não conta porque encontram prazer na fadiga, enquadrando-se com a maioria quando a situação o exige ou a moral o impõe.

Os trabalhadores contrariados, os mais numerosos, que acompanham sem interesse nem paixão uma tarefa repetitiva, aborrecida e desesperante, muitas vezes totalmente inutil e nociva, pertencem à categoria dos excluídos, individuos sem qualificações, desempregados ou precários.

Não é possível que a atitude de respeito pelo trabalho difundida no séc. XIX, continue a existir, uma vez que a relação com o trabalho foi radicalmente alterada, já não se trata de subsistência directa, as pessoas foram transformadas em seres dominados pelas suas próprias obrigações e tentações.

Os sindicatos que se dizem defender os direitos dos trabalhadores são parte integrante do processo de reprodução do capitalismo e dos sistema hierárquico, mesmo afirmando oposição como o cidadão comum de ideias “progressistas”, põem de lado a crítica radical pela necessidade de produzir. Estão limitados à luta pelo aumento de salários que se esvai mal aumenta o custo de vida. Convertidos em intermediários, os sindicatos passam o tempo em negociação de multiplos acordos com o Estado.

O trabalho, terreno falseado e pantanoso da actividade humana, é um fomentador de patologias.

Os bens comuns como a terra, a água, o ar, convertem-se em mercadorias onde impera a lei da escassez. Escandalosa monetarização da vida presente.

Nesta sociedade que tudo consome e tudo destrói o salário é droga dura por excelência!"

a conhecer:

http://en.wikipedia.org/wiki/John_Zerzan

http://en.wikipedia.org/wiki/Anarcho-primitivism

domingo, 20 de julho de 2008

Amor

Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
mesmo sem pés chegarei a ti,
mesmo sem boca poderei invocar-te.
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue.


Rainer Maria Rilke


Isto é qualquer coisa de fabuloso!
Junto a este poema duas fotografias com duas linhas de palavras.
Numa espécie de sonho... ponho ao mesmo nível de sentir e de agir o micro e o macro.
O micro, aqui representado pela dualidade. O macro, pela multiplicidade...
O Amor pelo outro e o Amor pelos outros, o incondicional.
O eu e o todo. Ou o todo e a parte.
O princípio e o fim, e o caminho que vai do princípio ao fim.

Enjoy
:)





São precisos sempre dois.
Um para dar
Outro para receber.





Mas podemos ser sempre mais.
Mais a dar.
Mais a receber.

Fui Eu Que Vi




Fui eu que vi a gaivota que partiu, levando no bico o tempo que passa.
A gaivota voava e ninguém a alcançava.
Fui eu que vi a pomba branca a voar.
Trazia nas asas a esperança infinita
de um mortal que grita e se agita.
Nas suas asas brancas, a esperança caminhava e ninguém a apanhava.

Vi também o adormecer da borboleta colorida,
com asas de seda e de cetim,
da cor da alma que duvida,
da cor da dor e da alegria que há em mim.
Adormeceu, como que a sorrir, de tão pouco sonhar e nunca ganhar.





Fui eu que vi partir a escuridão,
contida numa nuvem de verão,
que deixou reinar a claridade circular.
Partiu e, com ela, fugiu a angústia e a raridade de ser e de não ser.
Vi sorrir a água e cantar a mágoa
do ar que respiro da paz de viver.

(Fui eu que vi)

Sereia*


Era dia 27 de Abril de 1997... quando escrevi este texto.
Não sei o que me deu para revelar aqui e hoje, uma parte da minha adolescência.
Sim, é um texto de adolescente que, obviamente, nunca foi publicado sob qualquer forma existente de publicar o que quer que seja.
Sempre gostei de poesia e achava que podia combinar palavras à minha maneira e chamar-lhes poemas...

Hoje estou 'práqui' virada :)
Melhores dias virão :)

Mais umas sábias palavras de Nikos Kazantzakis (Report to Greco)

"(...) Father Akákios, a short, rotund monk with swollen feet, had spent the entire day painting Saint Antonius, and now, stroking a fat black cat on his knees, he spoke movingly about the saintly eremite. It seems that a girl came to him one day and said, "I have observed all of God´s commandments; I place all my trust in the Lord. He will open the gates of paradise for me." Saint Antonius then asked her, "Has poverty become wealth for you?" "No, Abba." "Nor dishonor honor?" "No, Abba." "Nor enemies friends?" "No, Abba." "Well then, my poor girl, go and get to work, because right now you possess nothing."

As I looked at the simple Akákios, who was perspiring from too much food, the fire´s great warmth, and the memory of the frightening ascetic, I kept thinking what a rosy-cheeked Antonius he must have been painting all day, and I was possessed by a diabolical urge to say to him, Go and get to work, poor fellow, because right now you possess nothing. But I did not speak. A crust of lard, habi, and cowardice envelops the soul; no matter what it craves from the depths of its prisom, the lard, habit, and cowardice carry out something entirely different. I did not speak - from cowardice. (...)

I am less affraid of the major vices than of the minor virtues, because these are lovely faces and deceive us all too easily. For my part, I want to give the worst explanation: I say I did it from cowardice, because I want to shame my soul and keep it from doing the same thing again. (...)"

Giovanni Falcone e Paolo Borsellino



Desculpem o arcaísmo mas não sei mostrar links directos para o You Tube.
Fez este mês 16 anos desde o assassinato de Paolo Borsellino que, com Giovanni Falcone (assassinado, este, quase dois meses antes), como sabemos, constituiu uma dupla de desemplumados pensadores e fazedores contra uma importante forma de Mal. E de Mal também se tem falado muito neste blog nos últimos dias.

Julgo que merecem plenamente constar aqui, como referência e inspiração multímoda e estímulo actuante.

http://www.youtube.com/watch?v=8DBwd_1nRpQ

sábado, 19 de julho de 2008

The Greatest Silence: Rape in the Congo "o conflito com mais mortos desde a 2ª Guerra Mundial"


"Não consigo compreender. Durante os dois anos que passei a trabalhar no filme, 1.4 milhões de pessoas morreram, ou seja, o número de mortos vai agora em 5.4 milhões. Não sei porque é que, pelo menos no Ocidente, temos este tipo de ofuscação em relação ao que se passa em África. As pessoas dizem, "ah, isso são guerrilhas entre tribos africanas malucas que se matam umas às outras", mas eu não acho que seja redutor dizer que se trata pura e simplesmente duma guerra de recursos. E quando se vê a coisa dessa forma, percebe-se a cumplicidade dos países de Primeiro Mundo no conflito, porque basta olharmos para o nosso telemóvel para ver uma ligação directa entre o coltão nos seus componentes (um minério cuja maior reserva se encontra na República Democrática do Congo) e a morte de milhões de pessoas. E acho que nós não queremos ter essa visão das coisas!"

"O documentário com mais sucesso até agora continua a ser a Marcha dos Pinguins porque as pessoas gostam de coisas fofinhas e peludinhas, não gostam de coisas fofinhas e peludinhas

mortas."



lisa f. jackson

sexta-feira, 18 de julho de 2008

DESIGN

Não sei bem o que significa
Julgo que é desenho

Mas não só desenho
“tout court” como diriam os franceses
Porque então seria desenho e nada mais

Desenhar uma árvore
Uma casa
Com chaminé e fumo e o sol
Como um ovo estrelado
Que qualquer criança desenharia nas primeiras classes
Será desenho ou será design?

Chama-se designer a quem faz design

Entre Salvador Dali
Picasso Rotko
Leonardo da Vinci
Onde os pintores e os designers?

Algum será uma ou outra coisa por excelência?

Julgo que design
É o desenho para ser usado:
O “a poesia é para se comer” de Natália Correia
Ou um retrato das searas de trigo
De José Manuel Rodrigues

O maior designer de sempre
Terá sido
O desenhador do universo

Que desenhou o Sol e o calor
E a fotossíntese
E as cores do arco-íris
E a Lua e Marte
- tão longe mas tão perto

E a Via Láctea
Como um enorme espanador perpétuo
E Andrómeda – você precisa de conhecer Andrómeda –
Um caracol de Pastelaria
Feito de milhões de estrelas

O maior designer de sempre
Terá sido
O desenhador do Universo

Que fez tudo tão infinitamente grande
Mas tão breve
Que bastam a contê-lo
Nove simples sílabas de um verso

O Estado da Nação

Passei hoje toda a manhã na Assembleia da República, para assistir à discussão da petição sobre os Direitos Humanos no Tibete, de que fui o primeiro subscritor e que obteve 11000 assinaturas. Mas não é disso que venho falar. Venho falar da confirmação directa da imagem que já tinha do estado da nação, no que respeita aos seus representantes parlamentares.
Hoje era o último dia de trabalhos antes das férias parlamentares, com uma agenda cheia de debates e votações sobre projectos de lei e petições. Às 10 horas, quando abriram os trabalhos, as bancadas teriam no máximo um terço dos deputados. À medida que os vários oradores, do governo e dos partidos, tomavam a palavra, aquilo a que se assistia era o seguinte: dos escassos presentes, ninguém parecia estar a ouvir absolutamente nada; uns levavam o portátil e mandavam mails, outros falavam ao telefone, uns conversavam em pequenos grupos, alguns de costas viradas para o orador, outros liam tranquilamente os jornais: diários, desportivos, etc. Apenas interrompiam estas actividades para aplaudirem maquinalmente o orador do seu partido, voltando depois ao mesmo.
Foi só por volta do meio-dia que o hemiciclo se começou a compor e só então chegaram as figuras mais relevantes e as caras mais conhecidas dos vários partidos, com ar descontraído, palmadinhas nas costas e sorrisos cúmplices para os seus correlegionários. Foi por essa altura que a petição relativa ao Tibete começou a ser discutida. Quando a deputada do PS começou a apresentar o relatório sobre a situação no Tibete, elaborado a partir das reuniões que o grupo parlamentar dos Negócios Estrangeiros manteve connosco, o ruído das conversas era tal que ela teve de parar por duas vezes e o próprio Presidente da Assembleia, Jaime Gama, de pedir silêncio aos "senhores deputados". Sem qualquer efeito. O ambiente era igual ou pior ao de uma turma das mais indisciplinadas do ensino primário ou secundário. Em abono da verdade, ressalve-se que só a bancada do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista mantinha relativamente maior silêncio e compostura.
Seria apenas hoje, por ser o último dia antes das férias? Não. Uma amiga que lá trabalha esclareceu que é sempre assim.
Após a apresentação das várias matérias em debate, nestas circunstâncias de total alheamento e desrespeito mútuo, ia-se seguir a votação. Levantei-me e vim-me embora. Estava elucidado e só pensava que, após dois mandatos de quatro anos nesta vida, saem de lá com belas reformas para sempre.
Estou esclarecido sobre o estado da nação, espelhado no seu Parlamento, que deveria ser-lhe exemplo. Só pergunto, a mim e a vocês, se são estes os nossos representantes, se são estes que queremos como representantes. É isto democracia, partidocracia ou mediocrecracia? E o que fazemos?

Um Modo de Ser, Um Modo de Arder

A Saudade está inscrita na minha forma de viver. Posso querer amputar esse modo de ser, mas não sei por onde começar. Não encontro o lugar dessa saudade em nenhuma parte do meu corpo. Não sei a que lugar da alma posso dirigir o bico da tesoura ou a faca afiada. Mas ela está lá. Sei que algures na origem de tudo, nessa fenda, nessa separação primeira ou última, ela foi criada para viver eternamente. Há no mundo muitas pessoas. Essas pessoas que vejo no mundo, porque as vejo com os olhos que a Saudade implantou nos meus, agitam-se, sofrem, afligem-se, morrem, matam. No mundo que a saudade gerou há divisão. Há gente pobre e rica; há guerreiros, poetas, místicos, religiosos, seres de excepção e de regras. Por todos a minha saudade se derrama em dor. Não sei se a dor é só minha, mas encontro a cada volta da vida, motivos de dor que não lamento. Vejo-os como filhos da saudade e na sua presença ausente eu encontro uma lição para a minha vida saudosa, mas nenhuma me expurga o sentimento mesmo da Saudade. Conheci muitos seres fracos, cobardes, vazios, mas nenhum deles era a sua fraqueza, o seu vazio a sua cobardia. Conheci também heróis na sua circunstância e no seu destino; conheci bravos e corajosos seres, na vida e na morte. Nenhum desses seres era a Bravura e a Coragem. Há no mundo, também conheci alguns, seres que irradiavam luz e bondade e, os seus gestos, o seu olhar, as suas palavras, trazem alívio, bálsamo e pacificação. Eles não eram a Luz, a Bondade e a Paz. Eram a Saudade de tudo isso, a mimar gestos antiquíssimos para a parcela de saudade com que os olhava. Da morte, esses seres trazem para a vida a sombra que se formou nos meus olhos. E se a saudade é para alguns a alma do mundo, como amputá-la do meu peito sem que antes morra? Olhar com saudade é ver acompanhado. É olhar todos os seres e ver neles o mundo da sua própria saudade e da nossa; é sua alma saudosa a derramar-se na vida, a marcar no chão e nos astros a sua sombra chorosa. Se os vejo, assim, como me vejo, órfãos do exílio da terra, a procurar alçar-se acima da sua altura, a lutar e a sonhar em pensamento a dor original do mundo, como não amá-los na sua espessura, no seu corpo degradado, na sua trágica e inútil caminhada? Na sua fuga ao inexorável destino que os trouxe à terra, para que se cumpra o mundo, e a saudade dele seja a nossa mesma dor. Ardo em saudade, esta tarde, por todos os fogos de todas as sombras, por todos nós.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Estação das queimadas

Fotografia: Robert and Shana Parkeharrison - Burn Season


Sonhai-me como se fora uma seara de Gramíneas, forragem em chamas, voragem incendiária. Labaredas altas, fogo fátuo que nenhuma carne humana soube alguma vez apagar. Olhai-me com olhos de arado, com mãos de foice que se desintegram na impossibilidade de me dilacerar. Vede, pois, que o rasteiro nesta superfície vos toca sem jamais vos agarrar, que a fundura da planície, a recta perfeita, o que se precipita em cascata de fumo nevoento vos deixa planar sem nunca vos aprisionar. Esquecei vossas mãos, vossos braços, pés, olhos e penetrai no mais imo deste lugar onde vossa água, breve, se evapora; o oxigénio se consome e só em fogo, pelo fogo, tudo quanto é nó consumido vos quererá desatar.

Pontos Luminosos



Pontos Luminosos


No silêncio basta um sopro e todo o tempo estremece
como se afasta cantando mais para dentro
a própria noite

Guardei para ti relâmpagos inúteis
prata feita de medidas vagas
e inclinada superfície implacável
cordas e alçapões

Do ponto mais alto do céu a 56 milhões de quilómetros
um dia me dirás
«desde a idade do gelo nunca estivemos tão próximos»


José Tolentino Mendonça, A Estrada Branca


Há coisas mesmo bonitas de se lerem.
Por isso, partilho este amor de estrelas e de noite transcrito.

Fragmentos de Novalis





" Quando a chave de toda a criatura
seja mais do que número e figura,
e quando esses que beijam com os lábios,
e os cantores, sejam mais que os sábios,
e quando o mundo inteiro, intenso, vibre
devolvido ao viver da vida livre,
e quando a luz e sombra, sempre unidas,
celebrem núpcias íntimas, luzidas,
quando em lendas e líricas canções
escreverem a história das nações,
então, a palavra misteriosa
destruirá toda a essência mentirosa"


Novalis, Fragmentos de Novalis
(tradução de Mário Cesariny)

Shambhala - Por uma sociedade iluminada

"Se bem que cada um de nós seja responsável por ajudar o mundo, pode acontecer que, tentando impor as nossas ideias ou a nossa ajuda aos outros, acabemos por acrescentar ao caos. Muitas pessoas têm teorias sobre as necessidades do mundo. Alguns afirmam que o mundo tem necessidade de comunismo, outros que carece de democracia; para alguns, a tecnologia salvará o mundo, para outros destrui-lo-á. Os ensinamentos Shambhala não visam converter o mundo a uma nova teoria. A visão Shambhala parte da hipótese de nos ser necessário em primeiro lugar descobrir em nós mesmos o que podemos oferecer ao mundo antes de estabelecer uma sociedade iluminada. Então, para começar, devemos esforçar-nos por examinar a nossa própria experiência a fim de ver o que ela contém de útil para enobrecer a nossa existência e para ajudar os outros a fazerem o mesmo.
Se estamos dispostos a lançar aí um olhar imparcial, veremos que, apesar de todos os nossos problemas e de toda a nossa confusão, apesar de todos os altos e baixos emocionais e psicológicos, há alguma coisa de intrinsecamente bom na nossa existência de seres humanos. A não ser que experimentemos este fundamento de bondade na nossa própria vida, não podemos pretender melhorar a vida dos outros. Se não somos senão seres miseráveis e infelizes, como poderíamos sequer imaginar uma sociedade iluminada e ainda mais realizá-la ?"
- Chögyam Trungpa, Shambhala - The Sacred Path of the Warrior (Shambhala - A Via Sagrada do Guerreiro)
linha verde ou linha azul

Ouço pessoas no metro a falar sobre outras pessoas, a dizer que gostam muito delas e vão ter saudades. A dizer bem de outras pessoas, o que é raro. Nomeiam as pessoas pelo nome e são americanas e hippies. Eu não sinto nada disto por pessoas e é de alguma forma triste e seco. A bem dizer também não sinto nada destes sentimentos agarrativos e muito emocionantes por coisas que não pessoas. Ou seja, não sinto nada e já estou como o outro. O que sinto, para dizer que sinto alguma coisa, é medo de não sei o quê, de pessoas e de mais nada porque que é o mundo senão pessoas? Estão por todo o lado.
Se fosse para um sítio sem pessoas o que sentia era nada, ou uma simples pacificação sem nada de emocionante, um sentimento de estabilidade por saber que não ia acontecer nada senão aquilo: nada. Não havia olhares nem olhares meus sobre mim. Eu não sinto nada. O máximo que sinto nos últimos tempos são pacificações pontuais quando me encontro sozinha, nada de outras coisas que façam andar para a frente ou para outro sítio qualquer. A serenidade pontual faz-me ficar onde precisamente estou. Chamemos-lhe apatia. E agora vou trabalhar.

20/5/2007

segunda-feira, 14 de julho de 2008

António Quadros

14 de Julho de 1923 nascia em Lisboa António Quadros

o quadro nunca acabado


Tudo que escrevi até hoje

foram asfixias infatigáveis d’agonia,

intenções inconscientes para um segundo eu ler,

anomalias abjectas a tornar realidade já amanhã

com direito a promessa desconcertante

e cruel auto-desonra em seguida.

Mas, com estes livros que aqui nascem

toda a voracidade à tangente será recusada

e, do útero do caos, emergirá recompensa...

Repudio o óbvio massificado e creio

na individualidade universal capaz de

nunca se cansar de viver lamentos e palpites

que inflamarão o brilho de cada falésia,

como cócegas num cadáver idêntico

que, ao mínimo contacto, acolherá o impalpável

sem receios do nosso interior absurdo.

Os facilitismos da fala são substimados,

cegam a participação à imposição imediata

de cada confissão registada no auto dos olhos

poder assumir e sugerir achaques tão díspares nas

imperceptibilidades onde intenções são sentenciadas

e grupos espessos finalmente deformados...

Tanta sílaba já vi deambular no secretismo

da tentativa suposta relegada para outro erro,

porque fúria é fracasso que colapsará

se te agarrares ao vexame da própria sarna;

desliga a mentira e abraça a integridade

quando sentires a sugestão constante

irradiar-se com calafrios compreensivos,

arremessa-te como aperitivo no

espeto da cobra dorsal do licor ritual.




in TREPIDAÇÃO/TREPANAÇÃO (ou a ausência de evolução)
2004

P´RA PULARES

à memória de mários:

de Sá Carneiro
& Botas

usamos iguais processos
não falamos iguais línguas
morreste à míngua de excessos
eu vivo ao excesso de mínguas

A Pele do Obscuro


No tempo em que era Obscuro, estávamos todos vivos e éramos felizes…. Escrevia epístolas ordenadas em romanos números e outras que, invisíveis, escorregavam para o vazio da inconsciência consciente de mim. Estava frio e escrevia poemas atirados às interrogações retóricas, para as quais nunca havia resposta… Não havia resposta, só uma longa, constante e febril interrogação. Não conhecia, então, os sons iluminados da escrita e da escuta invisíveis… Só sabia do mar, da saudade e das viagens à roda do abismo do ser. Chorava numa gruta a inexistência das luminosidades incandescentes. Atirava runas e alfabetos para os sinais de uma familiaridade funda e paradoxal. Não tinha os pés de azul ou mar pintados. Era o mar, eu era o oceano fundo de uma memória desconhecida, e pedia aos deuses, sem o saber, uma flor de seda para a sede dos olhos. Conhecia as bailarinas cegas dos retratos pintados na memória, e atirava ao vazio de tudo a temerária flor da alma absconsa e do grito sem eco. Desconhecia o rosto das bailarinas cegas com que tinha sonhado num passado, agora futuro. Tinha nos olhos a névoa de um laço preto no braço do mundo. Vivia a orfandade radical dos deuses como a ferida aberta e funda de uma escrita atirada para o muro do vazio de alfabetos de luz. Nunca, como então, a Serpente percorrera caminhos mais transcendidos, para além de Deus, dos Homens e da Natureza. Havia Pessoa, Pascoes, Heraclito, Heidegger, Spinoza, São Tomás de Aquino, Vieira, Camões, tantos rostos deste país…Havia Índias de que não conhecia o fim e rosas em cada círculo de emoção, desenhadas em cruz, na cruz do mundo.
Hoje desaguo-me em águas, e chamo de mãe a memória que guardo. Saudosa me revejo e me desconheço. A pele deixada é agora rio serpenteando os astros e as dunas. Paisagens de Luiza ao contrário, e as mesmas… Perfumes de Isabel em pedrinhas inúmeras dum rio claro… uma fonte de beber e não secar. Hoje, quando o Obscuro me visita, tenho saudades do seu rosto inominável, da sua voz vinda de nenhum lugar, do seu mistério de Arlequim nu, de Trovador patético, de Gilgamesh choroso sobre o corpo morto de Enkidu… Saudades de quando era rei de uma tragédia sem girândolas de flores para os olhos. Só a Rosa me era desejo… Saudades das princesas que houve nas Margaridas que havia, das crianças místicas que despertavam no mar dos olhos… Sou uma alma saudosa do futuro e uma Serpente Emplumada.
Para onde foi tudo o que era? É disso que sinto saudades. Dessa clareira de alma que me é ausência e presença eterna. É nessa clareira que encontro o país. O lugar raiz de todas as ausências, de esperança coroada, essa clareira de alma cravada na negrura do rosto desfeito em pluma de sentir.

domingo, 13 de julho de 2008


quem se atreve?

a salto

mãos ao ar
as ideias pra cá
sobretudo as palavras

abra-me esse cofre

você aí no chão
- não mexe

todas as palavras
sim todas as palavras metidas neste saco



isto é um assalto

sábado, 12 de julho de 2008

Serpentes ao Sol

Alguém reconhece, aqui, alguém?
Eu já reconheci...
Mas isso sou eu que vejo bem ao longe
E sinto saudades.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Poema para Mário de Sá-Carneiro


Nem de seda nem de ouro, as vestes quero, perfumadas
Para os bancos do jardim velado, entre choupos e cantos
Quero nuas as vestes para a morte das acácias deitadas
Fontes de dormir, entre o mar e o barco. Terras altas de prantos

Vêm beber à sede das hortas, as horas que esperam recados…
Tremem quebrantos as serras, e as vozes feras dos lobos
Devoram a pobreza das ervas do caminho. Tambores irados
Acordam a chuva outonal dos rios. Nem uma gota falte nos lodos

Pantanosos, veias de prata crescente na secura opiácea do dia!
Batam chicotes para a dor do Entrudo! Mário, é hora de ser mudo
Vistam-se os campos da nudez do vinho, sementes de alegria
Para o requiem de mim: nu, gordo e em brasa, vestido de cetim e tudo

O que é fresco e fica bem à esfinge branca em purpurina e verso
Quero alaridos, gritos e desmaios, quando chegar o jardineiro coxo
Que ninguém me aborreça se vestir um xaile e usar um terço
Na mão direita, e na sinistra, um lírio desmaiado e murcho e roxo.

Arpoador

Contemplo a orla do Rio de Janeiro ao fim de um dia de cansaço.

Os areais de Copacabana e Ipanema, sinuosos como divinos seios oferecendo-se a fileiras de prédios ajoelhados em veneração aos imponentes morros - Chapéu-Mangueira, Babilónia, Cantagalo, Vidigal, Pedra da Gávea, onde o verde luxuriante da floresta e o disparar espérmico de rajadas de metralhadora pela Polícia Militar e os gangues do tráfico convivem numa estranha harmonia.

Sobre as nossas cabeças voam aves de rapina.

No regresso a casa, um menino de rua viciado em cola contorce-se na calçada, gritando de fome e congestão mental.

O meu sangue ferve com a terrível beleza de tudo isto.

Rio de Janeiro, Shiva-Shakti feita cidade, os teus contornos são as mandíbulas de Kali.

Amo-te como nunca amei outro lugar.

Futuro primeiro, Passado depois

Em dia de nevoeiro, escrevo pela primeira vez neste blog.
Lembro-me de ficar a ver o nevoeiro horas a fio, de observar o seu movimento.
É uma experiência engraçada, ver como se movimenta uma massa de água suspensa no ar.

Deixo aos leitores um texto de desejos para o futuro, primeiro, e para o passado, depois.



Que o dia amanheça e escureça,
que a casa tenha porta e janela,
que a luz desça e mostre a cor,
que o escuro não seja nunca o único lugar,
que cada lugar seja de alguém, um dia,
que sempre haja uma espécie de líquido que nos envolva por fora e por dentro,
que o chão que piso seja o tal apoio para as quedas e para os caminhos,
e que os caminhos sejam sempre muitos, mas um só, ao mesmo tempo.



Que de palavras se encham as folhas de papel, livros, blocos, blogues,
que hoje tenha sempre um ontem e um amanhã,
que o amanhã faça o anteontem ter parecido um dia e seja mais do que isso,
que estrelas brilhem no céu, nas ribaltas, nos olhos,
que pulsações sejam sentidas a galope dentro dos peitos deste mundo,
que os sorrisos vindos de dentro se vejam cá fora,
e que o que julgo que sejam sentimentos falem sempre mais alto e, ás vezes, gritem.





Que haja sempre luz daquela que ilumina e nos deixa ver mais claramente,
que os povos habitem os espaços em harmonia,
que o sol permita os regressos e as partidas, mas nunca para sempre,
que possamos ouvir mais sons e emitir menos ruídos,
que gostemos de outros ao mesmo tempo que não gostamos disto ou daquilo,
e que tenhamos tempo para podermos partilhar qualquer coisa com cor, com sabor, com cheiro, aparência, melodia, qualquer coisa que se sinta.





Que espíritos se soltem, dancem e sonhem,
que alguém em conjunto com alguém possa construir,
que toda a construção humana e espiritual, material e imaterial, dê frutos,
que todos sejamos crianças contentes em dias de sol,
que sempre rebentem ondas salgadas aos nossos pés,
que as tempestades por que passamos sejam breves e passageiras,
que as bonanças sejam só as calmarias da alma e do coração,
e que alma e coração possam juntos ser sempre o mais importante das nossas vidas.





Que tenhamos imagens de sobra para ver e lembrar, para mostrar e para fazer de novo,
que um seja sempre equivalente a outro, ou a dois,
que o conjunto e as partes sejam o pé que sustenta o corpo, a mão que abre, o braço que estende,
que o corpo seja um nenúfar e se suspenda na água,
que cada ponto do universo tenha um ponto correspondente,
que objectos especiais tenham lugares especiais ou corações especiais onde habitem,
que cada um tenha uma janela favorita para olhar, para espreitar, para abrir e fechar,
que os olhos vejam sempre mais além, mais por cima das nuvens, mais depois dos montes,
e que nem sempre tudo seja o que os olhos vêem, mas antes o que a alma sente.




O texto original foi publicado no meu blog em Fevereiro.2008
Prometo não me repetir de novo, mas achei que devia começar desta forma.

Intempestivos e Actuais - Mario Saa

"A humanidade é doente!
São sôfregos de perdão e coisas grátis e resmungam quando perdoam.
Pisam por gosto e insultam e rogam tolerância a todo o mundo!
A sociedade é um creme com granizos de pimenta e o homem em sociedade é um pingo de bílis numa cápsula.
Misérrima é a liberdade dos povos e a harmonia entre os homens!
Que enfadonha liberdade e que enfadonha harmonia!
Só o benfeitor é como a sola porque tem as mãos livres para aceitar quem as não tiver cheias para dar.
A humanidade não é odienta, enjoa! Ainda é mesquinha de mais para que possa ocultar o inconveniente!
Podre e viscosa gente, carregada de afeições, ódios e algemas; podre e viscosa gente bem mais putrefacta em terra de vivos que no campo dos mortos.
No entanto desesperei de achar melhor: resta-me porém a consolação de que algum dia acabará o reino dos estúpidos.
Mas quantos degraus lhes faltam para subir?"
- Mario Saa, Evangelho de S.Vito, Lisboa, Monteiro & Cª - Livraria Brasileira, 1917, pp.76-77 (ortografia actualizada).

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Intelectuais

Notas para um futuro romance da minha autoria.

"(...) Aqueles intelectuais que, para além dos limites da sua casa, nunca viveram mais nada do que a universidade e os seus apêndices. Cabeças cheias de filosofia em putrefacção, arrotando um desprezo mal assumido por todos os que nunca tiveram interesse, ou acesso, à livralhada que lhes formatou as cabecinhas.

Desprezo também por todos aqueles factos da existência que parecem contradizer a sua visão do mundo, baseada em belas teorias sobre cidades e governos ideais que, graças à providência, nunca exitiram nem hão de existir. E ainda bem, pois, se existissem, seriam o produto acabado da completa maquinização de todos os seres, da subjugação da complexidade de tudo o que existe aos critérios de umas quantas prateleiras ambulantes de boas intenções que, em nome do Bom, do Belo, da Pátria, da Classe-não-sei-das-quantas, do Enésimo Império ou seja lá do que for, cogitam engrenagens de dimensão cósmica que, ao serem postas em funcionamento, trituram todos os valores em nome dos quais foram engendradas.

Sobre elas pairam, triunfantes, os cogitadores de todas essas fantasias, desforrando-se das prisões que são os seus corpos alérgicos e mal-fodidos, vingando-se de todos os escarros na cara, óculos partidos, pontapés nos tomates e socos nas mamas dados pelos seus colegas mais caparrosos e melhor adaptados à lei das selvas em que transitam, esses sim, os verdadeiros guardiães da higiene e força da "raça".

Outros, mais frios, mais calculistas, e por isso mais fluentes na subtil arte de trnasformar sentimentos alheios em instrumentos de auto-sujeição, não fazem mais do que alrgar à dimensão do cosmos as práticas que lhes permitiram manter um mínimo de integridade no meio da sua selva. Chegam até a lucrar com isso, usando a simplicidade de espírito dos que os rodeiam como estribos para os atrelar à sua vontade, tornando-os assim nos executores de estratégias às quais a sua inteligência e reputação de "bons meninos" não lhes permite emprestar o rosto.

Uma coisa une esses intelectuais e as bestas sadias que lhes servem de algozes. É o mesmo fio condutor que une a República Platónica, o Terceiro Reich, a Ditadura do Proletariado, o Leviathan, o Campenonato do mundo de Futebol, a Globalização e Messianismos vários: Uma imensa, parcamente reprimível mas facilmente camuflável vontade de poder."

emcanto


Em canto

Ante uma alma

De austero porte

Continuo a acreditar

Que o universo não acaba

Numa ideia minha –

Mas inigualável,

Adamantina e ungida

Saudade a arder em brasa

À beira de um céu

Vago e vazio.

CALOR


o homem disse
a propósito de Mercado
ser a situação actual
bastante introgessiva

nem o homem sabe
seguramente o que dizia
nem eu sei
nem nunca saberei
o que é
introgressivo

a palavra contudo
me parece clara
e me agrada
e a sinto perfeitamente adaptada
ao tempo que faz hoje:
mais de quarenta graus de temperatura
o sol a reluzir no céu
como no guiador cromado
de qualquer
nossa primeira bicicleta

os pássaros calaram-se nos galhos
sombreados dos freixos e dos choupos
nas oliveiras cinzentas
nem as cigarras cantam
como se o calor
lhes tivesse impiedosamente
derretido as asas

procuro nos poetas gregos:
Arquílogo de Paros
Ìbico de Régio
em Safos natural de Lesbos
a palavra exacta
que defina
este insuportável
desarranjo meteorológico

posso associá-lo
vagamente a Vulcano
ou à fusão do átomo
ao efeito de estufa
nada porém que me diga tanto
como o insuspeitado introgressivo
do homem
a propósito de
Mercado

sendo que
não poder sair à Rua
é um estado
indiscutívelmente introgressivo
não me resta outra saida
que não seja:
despir a alma
e pendurá-la num cabide
onde corra
um mínimo de aragem

e deixá-la assim a abanar
inflada como vela de pequeno barco
T-shirt de Ulisses
que o conduzisse
de regresso
a Ítaca

é penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor
disse Alceu de Mitilene
há pelo menos
dois mil
e setecentos anos

isto
pelo facto simples
de não ter sido ainda
a propósito de Mercado
criado o inefável
vocábulo
INTRO
GRESSIVO

Canto-te... [fragmento]

"[...]

Canto-te tudo o que desliza e dança no rio do mundo
as auroras súbitas e as noites precoces
as rosas que se emaranham sobre os túmulos
as fontes que brotam nas grutas do coração
a murmurar sob a pele de estarmos aqui
os pressentimentos jovens de um despertar maduro
os sinais inequívocos do medo vencido
o drapejar da bandeira de todas as vitórias

Canto-te o diáfano manto da melancolia
a triste alegria que desponta das brumas
a morte que vem nas crinas do vento
a chamar-nos para a cinza dos dias
e o ébrio rompante que a tudo trespassa
o heróico canto que do imo do peito brota
e de eterno início em grinaldas sagra
o oiro jovem dos peitos inflamados

Canto-te estas coisas que entre nós pulsam
estes esplendores esta pujança este viço
tudo isto que se não sabe e nos emudece
num espanto que sobe das entranhas
a tremeluzir no uivo dos ventos
nos labirintos que pela terra serpenteiam
no segredo dos jardins mais íntimos
nas rodas vivas que no corpo giram
e imortal o transmudam

Canto-te tudo isto
pois tudo isto é o que nos soergue e nutre
tudo isto é o trono onde reinamos
olhos nos olhos
irados e doces
gentis e feros
unidos e separados
a dançar para além de sermos alguém
a vestir todas as formas do possível

Assim te celebro no encanto de tudo o que nos envolve
ó tu que invoco do fundo maior que o real
ó tu que despontas, de ouro e prata coroada
adamantina, de mistério ungida,
ó Inigualável !

[...]"

- fragmento de um terma (tesouro espiritual) evocativo do jogo sagrado de Yeshé Tsogyal e Guru Rinpoche, oculto na terra de Oddyana, na língua das Dakinis, pela força da saudade de um obscuro escriba entrevisto numa colina sobre o Tejo e traduzido em portuguesa língua na manhã do dia 6 de Dezembro de 2007.

Das Saudades que Havia

Uma ânsia de mim candente me não livre
Do outrora que a cada instante ganha o tempo
Um porão cheio de nada a tudo sobrevive
Mesmo às chamas com que arde o mesmo vento.

Não sei por que razão, ou sem razão alguma, me vem a chama
Arder em brasa à beira de um céu vago e vazio
A hora hesita, gira em espiral a luz branca e insana
Cai do tinteiro de ontem, em lágrima, a sombra dum navio.

Quem vem lá? Que estranha e negra a noite se vislumbra
Da névoa que durou por sobre a amurada?
Não é a flor do vento, nem lua, nem penumbra
É uma sombra mansa, um feitiço de lua, uma clareira amada.

É a alma do mundo a chamar em surdina o pensamento
De uma onda maior que ainda não chegou e tarda
A luz em que saudosa vagueia a sombra do momento
Que quando a vejo, já de mim saudosa, sinto a saudade apartada.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

um poema de António Manuel Couto Viana





António Manuel Couto Viana é natural de Viana do Castelo, onde nasceu em 1923. É poeta, dramaturgo, ensaísta, memorialista, gastrólogo e autor de livros para crianças. A sua estreia literária fez-se em 1948 com o livro de poemas O Avestruz Lírico. Dirigiu com David Mourão-Ferreira e Luís de Macedo as folhas de poesia Távola Redonda. Publicou, até hoje, mais de uma centena de obras, sobretudo de poesia.
Desde cedo interessou-se pelo teatro, tendo colaborado como actor, cenógrafo, encenador e empresário em várias companhias, uma das quais o Teatro do Gerifalto. Para além da poesia e do teatro dedicou-se também à literatura infantil, através de ensaios, escrita e tradução de livros, e dirigiu, entre outras edições infanto-juvenis, a publicação Camarada (1949-1951).
Em 2004, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda editou-lhe a obra quase completa 60 Anos de Poesia, em dois volumes, de cerca de quinhentas páginas cada um. No mesmo ano, saía O Velho de Novo, com a chancela da editora portuense Caixotim. Recentemente, A. M. Couto Viana editou o livro de poemas Digo e Repito (Averno, 2008) e Restos de Quase Nada e Outras Poesias (Averno, 2008), donde se tira este poema:

Lá para o fim

Já não frequento o café
Nem de subúrbio, nem de cidade:
A minha vida, agora, é
Uma bengala e a saudade.

Perdi interesse pela evasão.
O rodear-me de nova gente.
Ganhei o gosto por outro pão
Mais indicado para o meu dente.

Nenhuma escrita já é memória.
Já não me perco por qualquer lado.
Deixei o nome na sua glória.
Deixei o corpo no seu pecado.

Fluía o verso. Mas, hoje, estanca
Ante uma alma de austero porte.
Foi rosa rubra. É rosa branca.
Que imaculada lhe seja a morte.

http://www.editora-averno.blogspot.com/
http://www.harmoniadomundo.net/Poesia/Couto_Viana.htm

Consciência e Ilusão

"Tudo é ilusão.
A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade.
Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.
Criar é mentir.
[...]
A própria ilusão é uma ilusão.
[...]
Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica - a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar nem como sendo, nem como não-sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões, mas ter consciência não é uma ilusão.
[...]
Temos todos a noção de que há qualquer coisa: isso é falso. Não há; não há nem não há. A própria consciência não existe, mas é a única verdade"
- Fernando Pessoa, "O Desconhecido", in Textos e Ensaios Filosóficos, I, estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho, Lisboa, Ática, 1993, pp.44-46.

Jardins



Sorriem as flores

dentro do nosso sorriso?


Floresce

o olhar

nas paisagens?

terça-feira, 8 de julho de 2008

POEMA PARA ILUSTRAR EM CASA

Olha, Daisy
(perdoa, tentei tudo:
Rita, Eva, Amélia, Margarida
Lucy de Lucília – nada joga certo como Daisy )

Está um calor aqui no Alentejo
Neste magrebino Junho
Que me sinto grelhar
Por um Sol inclemente
Sinto-me num forno de lenha em plena combustão
Num microondas à máxima potência
Num ferro-de-engomar com o botão do termóstato
Rodado todo à minha mão direita

Já fechei janelas e postigos
Que vertem directamente para a Rua
Já corri cortinas
Baixei estores
Já vedei frinchas das portas
Com os clássicos chouriços virtuais – de serradura
E olha, Daisy,
Nem assim me liberto
Deste insustentável
Pinatubo

O calor perturba, Daisy,
Com pouca coisa pode levar-nos a uma pontinha de loucura

Sei que não adianta nada o que fui fazer agora:
Fechar à chave
As portas todas
Que atiram para a Rua

Bruteza

A bruteza pura da flor
É como a bruta pureza do amor
A arte mais velha, mais longa
É o subir do olho ao alto azul
Sobre uma terra amena e ampla ao sul
Em sudação de lágrima com sal
E comoção ao ver-se tão diverso e tão igual

Do homem que vem da menina
Que não sabe de onde vem
E é rainha sem vintém
De um Paraíso numa página
Da Lei

A pureza bruta da flor
É a bruteza pura do teu lábio
A latejar de cor e em cada laivo
Um riso, uma procura
Talvez febre
De ser ébrio

e por falar em...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

ANIVERSÁRIO DE CHAGAL

Hoje lembrei que não nasceste. Não morreste. Trouxeste flores para a tarde do teu regresso. Nunca saíste daqui. Mesmo que me desmintam direi que nunca aqui estiveste.

Mesmo assim, ofereceste à nossa iludida voz, a tinta com que pintaste a tua passagem na barca. Dissolveste em tinta azul a pétala da rosa e foste com ela florir o outro lado do rio.

domingo, 6 de julho de 2008

this fire is out of control, we have got to burn this city!


Despertemos senhores e senhoras,
esqueçam que tripam com camas e pódios,
nossa vida decorre adormecida vacina
na busca pelo transversal perverso
que nos desperta sem querermos descobrir
o que atrái a simplicidade à matéria.

Como raios de luzes a rasgar as nuvens,
estrelas organizam seu legado orgânico
sempre oposto, danada dádiva de epena,
ter que falar sobre o que cresce e insere-se
nos símbolos do presente lacrimejante,
perante moldes compostos falhados de geleia
cujos sonhos semelhantes não se entesam,
são sobrestimados facilmente, requer
características mais masoquistas
que arrogantes, com a velhice começam
a interromper a experiência crua
e, aos magotes de lulas deixo-me
largar ante o desconforto filosófico
para relembrar quem fui e quem serei;
mera lenga lenga a desejar o milho
do vizinho, querido hipocampo FMI,
picuinhando cada tela pombalina como
quem ainda nunca foi experimentado,
dominando-se a implementar o polvo
que nasceu no céu e para lá não voltará,
será nunca libertino da honesta cola uhu
que vive o diário sozinho, acompanhando
este fim do mundo onde se repetem
trepadeiras cobrirem casas inteiras,
é supra geometria sem enfeites falsos,
é a predisposição de quando ouves a
palavra poesia, só arrancada com dentes
afiados à força porque, cada padeiro ama
cabalamente seus bolos recheados e,
não será minha pupila soporífera que,
algum dia, o fará não saborear sua criação
e impedi-lo de a instituír para dEU's provar.

Seremos mártires de voodoo-iluminatii?

A buganvília laranja-pálido cheira a
nicotina alcatroada e bloqueia a passagem
ao carteiro até à moradia onde durmo,
plebeus cardeais intrigam-me, respirando
tudo é erradicável e fácil de respeitar
e, sem querer, implementei grelhas de
desastres hipotéticos que acho desejar,
quando exprimo nada interessar alguém
acreditará nesta ténue e torturada escrita.


in quimicoterapia
2004

Foliar! Porque EU sou ISSO!


Algarve, anos 80

(...) Lá não há espaço para lamúrias. A única saudade concebível é a de viver o momento presente até ao limite dos possíveis, à dissolução naquele calor líquido ao qual os elementos nos convidam e que o nosso corpo, qual hóspede mal-educado, não consegue corresponder. Ah, que alegria transbordante, que diferença em relação ao recem-adquirido siso pequeno-burguês que eu pressentia em casa, correspondência etérea do guinchar dos guindastas e das linhas severas dos prédios que começavam a emergir que nem cogumelos à nossa volta. Mas é preciso lembrar que o sentido da nossa existência, a dos filhos da nova promessa de mobilidade social, era redimir os nossos pais de todo o cheiro a pasto, a mosto e a estrume que lhes tivesse ficado entranhado, se não no corpo na alma quase paranóica de medo de "voltar atrás", à "parvalheira" das aldeias, das casas térreas e da distância em relação ao mundo de maravilhas que lhes era prometido pela rádio e pela TV barulhenta do café local. Por isso, era preciso saber merecer todas essas benesses trazidas pela recem-adquirida prosperidade com uma higiene imaculada, com um exorcismo de tudo o que fossem odores corporais e quaisquer vestígios de matéria orgânica. Para merecer a verticalidade e o cheiro marmóreo dos prédios novos, para nos parecermos donos das "sedans" Japonesas que finalmente se tornavam acessíveis aos ex-filhos da miséria e do obscurantismo, era preciso mostrar um controle absoluto sobre tudo o que fosse entusiasmo, excesso, qualquer impulso que fosse sub, extra ou humano, demasiado humano em nós. O objectivo supremo, incosciente para todos e para bem da nossa saude mental, seria a quimera de transmutar o invólucro carnudo e aquoso do nosso corpo na solidez higiénica do mármore.(...)

Notas para um futuro romance

sábado, 5 de julho de 2008

A Presença da Saudade

Pacto

Amemos o impossível, porque é o único que nunca nos não pode decepcionar.

Ainda a Saudade

Instantes há em que, desprevenidos e sem intenções, livres dos hábitos mentais e emocionais, subitamente nos surpreendemos trespassados de um inefável sentimento de infinito, plenitude, felicidade, potência, luminosidade e liberdade. Não somos senão isso que sentimos e sabemos então, pela mais simples evidência, ser essa a realidade e verdade primeira, última e eterna de tudo. Porque nesses instantes a plenitude que sentimos é a plenitude, não a nossa irreal plenitude, mas a plenitude de todas as coisas. A plenitude que se sente sem cisão sujeito-objecto, a plenitude que se vê sem conceito, a plenitude em que corpo, sentidos, mente e consciência são tudo a testemunhar e celebrar a sua eterna infinidade, perfeição e esplendor. Uma plenitude sem centro nem periferia, sem interior nem exterior, sem proprietário nem destinatário. Uma plenitude sem porquê nem para quê. A plenitude.

Então somos e sabemos tudo, sem nada ser nem saber. Vemos tudo, sem em nada pensar. E também vemos, quer no âmago desses instantes, quer já na sua memória reflexiva e saudosa, que não somos e nada é como antes o concebíamos. Vemos que não somos e nada é como nos dizem. Vemos que nada é, nunca foi e nunca será realmente separado disso que nos sentimos. Vemos que nada, nós, os outros, a totalidade do que antes pensávamos como seres, coisas e fenómenos, separados, finitos e limitados, com entidade, substância, forma e características próprias, com origem, duração e fim, com nascimento, vida e morte, jamais em verdade assim existiu, existe ou existirá. Tudo se revela simultaneamente inseparável, osmótico e irradiante de um não sei quê, numa glória irredutível a todo o conceito e palavra. Tudo é vazio de limites e pujante de esplendor e intensidade. Nesses instantes exultamos e o mundo é Festa. Sem porquê nem para quê. Sem quem nem quê.

E doravante se sabe que nada mais tem plena realidade, sentido e valor senão experimentar, fruir e celebrar tal plenitude. E, manifestando-a ainda, a ela logo reconduzir toda a consciência que dela se distraia, destinando se ao sofrimento, pelas vias mais adequadas à natureza da sua distracção. Por pura sensibilidade, amor e com-paixão. Sem esforço. Espontaneamente. Com a contagiante espontaneidade de ser sempre em Festa. A única Festa autêntica: aquela que tudo é, sem excepções, sem convidados.

É desses instantes, uma vez interrompida a sua não-duração, é dessa plenitude, uma vez interrompida, velada ou diminuída a fruição dela, que há a mais funda saudade, ou, melhor dizendo, a saudade, memória-desejo de perfeição e absoluto, de um Bem para além de o ser, pois sem conceito, contraste ou oposição. Porque, embora referida a pessoas e seres, experiências e estados, tempos e lugares – os encantamentos da infância, o primeiro ou um grande amor, uma amizade ou comunhão com vislumbres de eterno, os entes queridos que partiram ou se ausentaram, uma imagem, um odor, um sabor, os lugares desses deslumbramentos –, a saudade que deles havemos é afinal a saudade da glória que neles e em nós então, consciente ou inconscientemente, em maior ou menor grau, vivemos, vislumbrámos ou pressentimos. A saudade da fugaz dissolução das opacidades do mundo convencional. A saudade de rasgos para além de estarmos aquém. A saudade de um encontro íntimo. De um estar mais perto do que não sabemos. Da graça de um Bem imaculado por medos, defesas, anseios e expectativas. A saudade da realidade-verdade plena, irredutível a sê-lo.

A saudade, como indicam possíveis etimologias do seu surgimento na experiência galaico-portuguesa, da saúde primordial de todas as coisas, trocada pelo consciente ou inconsciente anelo do que a sente haver perdido, do que se sente cindido da comunhão primeira, sentindo e padecendo assim o isolamento e solidão seus e, por ventura, dos outros seres, e que por isso aspira a reintegrá-la, buscando a sua salvação ou, numa melhor possibilidade, a salvação de tudo: o comum regresso à saúde dessa plenitude primordial e sempre instante. Pois a saudade que fundamos no passado para a projectar no futuro, no anseio de um futuro onde reencontremos o bem havido, é afinal a saudade do eternamente presente, a saudade de haver vivido, momentaneamente, a plenitude do agora, de um agora que se desvendou porque, naqueles deslumbramentos, se suspenderam os nossos condicionamentos habituais e habitámos mais próximo da infinita intimidade dos seres e das coisas. A saudade que desses instantes havemos, a nimbá-los da difusa mas doirada aura do ideal, é pois a saudade dessas efémeras coincidências com o, ou tão só tangências ao, profundo coração do mundo, em que súbito nos surpreendemos integrados, acolhidos e embalados no seio de um Agora sem antes nem depois.

- pré-publicação de um excerto de Da Saudade como Via de Libertação, Lisboa, Quidnovi, 2008.

Veladoras Saudosas




a ouvir o rumor antiquíssimo do mar




sexta-feira, 4 de julho de 2008

Nem título provisório

Tarde de Verão...
Uma leve brisa de ar percorre a montanha levando os habitantes de uma próxima povoação a reunirem-se de emergência por debaixo do velho Salgueiro, à porta do café germinado.
Finda a hora do almoço, já em meia-volta para o abrigo, Pedro descobre duas das suas ovelhas totalmente remoídas. Se o rebanho tivesse mil cabeças era motivo provável para nem se preocupar, há comida para nós e para eles, iria pensar.
A natureza planeara um ataque a treze ovelhas, que no seu reduto proporcionavam o acrescido ganha-pão ao mestre Carpinteiro.
João, velho Ansião, negociante e contrabandista de profissão havia declarado o estado de emergência... Há que contactar aqueles que regem as leis naturais da coabitação Homem-Bicho! - apelou.
Seria de esperar, após uma fervorosa troca de ideias, um ataque em massa (respeitando a ideia do autor), com batedores experientes, aos causadores da imensa tragédia, mas não. Impôs-se o bom senso e... ânimos acalmados.
Com o auxílio dum lápis de refugo, de umas palavras desenhadas e frases bem construídas, foi redigida a missiva à autoridade regulamentadora.
Pedro sente-se mais calmo, e claro está, qualquer tostão que venha sempre será bem empregue e embora escasso poderá vir a remediar a compra de um borrego, ou mesmo os dois.
A época do ano não era favorável.
O Outono aproximava-se…
O Outono veio e com ele o esquecimento.
Desfeita a reunião, emitida e enviada a carta, declarou-se o fim do trabalho selado com duas fatias do outro presunto e um tinto fresco, para manter saúde.
Já a geada cortava quando a tragédia bateu à porta...
Um Inverno-Rei ceifando a vida a mais umas quantas canhonas.
Seis no total, repartidas por Pedro, duas novamente, Zé da Montanha três e João com a restante.
Deveria ter chegado uma resposta mas nem por ela se ouviu...
O estado de emergência fora novamente declarado.
Com a população abrigada em frente ao café, intimada pela trovoada, foram apresentados os factos. Ouviram-se opiniões... chegou-se ao consenso.
Tomada a decisão...
Veio a madrugada e os sinos a rebate.
Uns e outros chegavam lentamente... agasalhos de palha em deslocação ao centro, marcas de sangue na ponte velha... setas, a indicar o caminho a percorrer... olhos expectantes, arregalados em contraste com outros, agora sem vida.
O Salgueiro era deus, o tampo de granito, o altar e em cima, Homem-Bicho finalmente em repouso, gozando a eternidade... num silêncio de bosque, humanamente vazio.
21 de Setembro de 1997
(sem título)
E assim continuará,
seja talvez essa a verdadeira lição...
(0hours left)
Vergílio Torres

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Labirintos

Esta é a história de Ariadne, filha de Minos, a história de uma mulher apaixonada. Teseu, bravo herói, ouviu falar a pitonisa e partiu em direcção ao labirinto. Na manhã anterior, aurora antiga, de um passado de tributos , Teseu olhou o céu e viu, em futuras visões que só aos heróis é dado ver, a coroa de estrelas que no futuro firmamento lá brilhava. Não conhecia ainda a bela princesa.
No braço armado da coragem, a lança brilha no escuro e no peito o Amor de Ariadne indica-lhe o caminho. O homem segura o fio de lã da idade do cordeiro e entrega a mulher nos braços de Dionísio. Deixada na ilha, Ariadne vem a esposar Dionisos, seu consolador desses dias de tristeza e abandono. Foi aí, e só aí, que a coroa antevista por Teseu foi lançada em pedras de brilhar para a escritura do céu, onde ainda hoje permanece, encostada a Hércules e ao Homem que segura a Serpente. Mas, paras isso, Ariadne tivera que morrer. A Senhora dos Labirintos é a guardadora da janela dos tempos. A pastora do tempo dos cordeiros. Mulher dançante e extasiada, conhecedora do caminho dos chakras. Conheceu Sileno e as figuras do s mundos vedados, nos seus rituais de iniciação. Sempre deixando as vestes em cada descida e renascendo numa nova pele. Finalmente, recebe o cesto com a oferenda da viril virtude masculina. Depois, uma deusa alada sobre ela abate o chicote que Ariadne aceita humildemente. Por fim, a mãe recebe no seu colo de consolação a lágrima da mulher.
Agora, enfeitada e adornada, a mulher olha-se no espelho de Eros. É a esposa de Dionísio outra rainha, antes princesa de Teseu amada. Foi o Amor/iniciação que transformou Ariadne na mulher liberta em si da figura do herói, mas integrando nela a força criadora resultante dessa união. Estamos sempre a tempo de nunca entrar no labirinto. Mas só entrando nele, dele nos libertamos.

Nos 28 anos do "Cântico Jovem para a tua Rebelião"

Cântico Jovem para a tua Rebelião


para a minha Amiga Maria Azenha
e para o seu discípulo João Belo Azenha


Com os deuses e a cicuta se fazem milagres verdadeiros,
se é que mesmo há milagres na esfera densa que é a vida
Tomar droga mas sonhar pode ser o mesmo que partir
sempre em busca do Ideal que está latente na face oculta,
perigosa face dolorida na esfera imensa que é a vida.
Não te esqueças, pois, irmão, de contar bem as estrelas certas
que sobrevoam tua cabeça em veras noites de Lucifer,
não te esqueças da raiz e pois do caule também a folha
que espalham cedo a criação e pois a uva o malmequer;
não te esqueças da pintura e pois do caule da vida pura
minha pátria zangada no universo da escuridão
não te esqueças de Van Gogh cortando a orelha e tudo o mais
não te esqueças de Voltaire e pois do Freud também Rousseau,
não te esqueças de Lucifer e tu também Lautréamont,
não se esqueçam meus amigos e vós ó doidos doidos varridos
que já há gente nesta terra que prefere o mar à voz da guerra
que já há gente muita gente muita atenção é muita gente
que despreza a continência e a estupidez e vai em frente

Lisboa, 3/7/80

Paulo Brito e Abreu

Longa vida ao vate!

A Santa Úrsula - Luís Camões e Vittore Carpaccio


Vittore Carpaccio
Italian painter, Venetian school (b. 1472, Venezia, d. 1526, Capodistria)
Meeting of the Betrothed Couple and the Departure of the Pilgrims
1495
Tempera on canvas, 280 x 611 cm
Gallerie dell'Accademia, Venice




Meeting of the Betrothed Couple



A Santa Úrsula
(
...)Estando neste porto a bela armada

Tomando o necessário mantimento,
Pera poder seguir sua jornada,
E dar terceira vez o treu ao vento;
Sendo parte da noute já passada,
A Virgem lá no seu retraimento,
Quando estava dormindo toda a frota,
A Cristo orou assim, branda e devota:

— Amor, divino Amor, Amor suave,
Amor que amando vou toda rendida;
Com quem não há na vida pena grave,
Sem quem glória real não há na vida;
Amor, que do meu peito tens a chave,
Amor, de cujo amor ando ferida,
Quando verei, Amor, o que desejo,
Pera que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que de amor cheio e de brandura,
D’amor enches est’alma saudosa;
Amor, sem cujo amor e fermosura,
Não pode nunca haver cousa fermosa;
Amor, com cujo amor anda segura
Uma vida tão fraca e duvidosa,
Quando verei, Amor, o que desejo,
Pera que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que por amor te dispuseste
A restaurar o mundo errado e triste;
Amor, que por amor do céu desceste;
Amor, que por amor à Cruz subiste;
Amor, que por amor a vida deste;
Amor, que por amor a glória abriste,
Quando verei, Amor, o que desejo,
Pera que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que mais e mais sempre te aumentas
No coração que lá contigo trazes;
Amor, que de amor puro te sustentas
No fogo em que tu mesmo arder me fazes;
Amor, que sem amor não te contentas,
De tudo com amor te satisfazes,
Quando verei, Amor, o que desejo,
Pera que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que com amor me cativaste;
(se livre pode ser quem não cativas)
Amor, que em tais prisões m’asseguraste
As esperanças dantes fugitivas;
Amor, que suspirando m’ensinaste
A derramar por ti lágrimas vivas,
Quando verei, Amor, o que desejo,
Pera que veja, Amor, o que não vejo?

Quando verei um dia em que ofereça
Por ti ao cruel ferro o peito forte,
E cercada de virgens apareça
Na tua soberana e eterna corte;
Onde lá cada uma te mereça,
Cá passando comigo a própria morte;
E todas dando o sangue juntas, todas
Celebremos contigo eternas bodas?

Fazei-me já, Senhor, esta vontade
Que tenho de te ver, que sempre tive,
Dês que me deu lugar a tenra idade,
E lume de rezão nesta alma vive,
Não queiras, meu Amor, que a saudade
Sem tal bem a mi só da vida prive;
Que se muito se alarga este desterro,
Por ela irei a ti, não por o ferro.

Desata o meu espírito saudoso,
Do nó mortal em que se vai detendo,
Primeiro que três vezes pressuroso
O Sol os doze signos vá correndo.
Espaço é que tomei, meu doce Esposo,
Pera outro esposo meu ir entretendo:
Mas a meu amor crendo, de ti creio
Que acabes com a vida meu receio.

Inda neste fervente e justo rogo
Úrsula suspirando procedia,
Quando dum resplendor como fogo
Divina voz ouviu, que assi dezia:
« Ó virgem, que soubeste fazer jogo
Do que no mundo tem valia,
Entende que da volta que fizeres,
Aqui quero que seja o que tu queres.»(...)

Luís Vaz de Camões

Eros Carioca

Amo cada vez mais o Rio de Janeiro, principalmente por aqui termos, escancarado diante dos nossos olhos, o melhor e o pior da natureza e da condição humana. Cidade anti-hipócrita por natureza, mesmo nos seus aspectos mais hipócritas, pois assume sem rodeios a sua hipocrisia, assim como todos os seus outros defeitos e virtudes.

Se fosse uma cidade plácida e "organizadinha" perderia toda a sua beleza. Aqui rebentam todas as ilusões. Da sua putrefacção brota a compaixão e crescem os sonhos.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Stalker 1979 de Andrei Tarkovsky



What was it? A meteorite? A visit of inhabitants of the cosmic abyss? One way or another, our country has seen the birth of a miracle - the Zone. We immediately sent troops there. They haven't come back. Then we surrounded the Zone with police cordons... Perhaps, that was the right thing to do. Though, I don't know...''


the journey of three men travelling through a post-apocalyptic wilderness called the Zone to find a room with the potential to fulfil one's innermost desires.

A Língua

Não resisto a colocar aqui este excerto do artigo da Isabel Santiago publicado na revista Nova Águia, primeiro número:

"É a Língua que descobre territórios para a alma, descobre o que está para além das fronteiras do dito e do constituído como sentido e significação intemporal que um conjunto de falantes já tinha como acervo e prática dialogante, e como compreensão de si e da vida. A Língua alarga não o espaço real e físico, mas o espaço da comunhão e da revelação do que somos independentemente do espaço e do tempo em que nos encontramos."

É por isso que é preciso prezar quem cuida da Língua, quem a alarga, quem a distende, quem não a manipula, porque são esses que fornecem os mecanismos constitutivos da identidade e da comunhão: os poetas e os pensadores. Para que a vida não seja a mecanização e a subserviência às leis da produção e do consumo enquanto fonte geradora de riqueza e destruidora do planeta (a única riqueza). A esta hora o nosso primeiro ministro dá uma entrevista na RTP; quem aposta que nem uma única palavra será pronunciada sobre a Cultura?

Folia. Tu és Isso ! - Quinta da Regaleira - 3 de Julho - 22 h



Caras Amigas e Amigos,

Com a notícia da estreia da reposição da minha peça "Folia", na versão "Tu és Isso", no dia 3 de Julho, pelas 22 h, na Quinta da Regaleira, segue também o convite para a apresentação do meu último livro "A cada instante estamos a tempo de nunca haver nascido" (aforismos), pelo poeta Jorge Telles de Menezes, e da revista "Nova Águia" (ambos editados pela Zéfiro), pelas 20.30, no mesmo local.

Conto com a vossa Presença.

Tat tvam asi ! That you are ! Tu sei questo ! Umri in se preobrazi ! Tú eres eso ! Das bist du ! Ça tu es ! Su ei tis ! Dat ben je ! Hoc es ! Ti si to ! Anta dháka ! Detta är du ! Khyerang di rê ! Tu és isso ! Tu és isso ! Tu és isso !

pulhítica

não confundir:

Falta de pão
com

Flauta de Pan

terça-feira, 1 de julho de 2008

Desmascarando-me

Vive a vida o mais intensamente que puderes. Escreve essa intensidade o mais calmamente que puderes. E ela será ainda mais intensa no absoluto do imaginário de quem te lê.
Vergílio Ferreira

AMOR


Pois que Eros é filho da Pobreza, dorme junto às portas, coberto pelos farrapos da noite, sob as estrelas do céu florescente, céu anil. Nem mortal nem imortal. Esconde o seu rosto entre as ramagens, e parte, andarilho e errante. Calando sua beleza. Certa noite mais funda, em que o céu não mostra o oculto pulsar das galáxias do mundo, Eros pergunta a Zeus onde mora a Beleza. Não havia lagos brilhantes onde ver o seu rosto. Não tinha rosto. Sorria de ausência, segurando entre os dedos, o fio velho do ouro deixado pelos montes ao entardecer. A lã entrelaçada do ouro é a corda por onde Eros sobe. Espreita o dia de ontem. Psiqué vagueia por ali, frente ao oceano da memória, a ver o dia partir em dois o coração do tempo.
De si mesmo ferido, Eros adormeceu. Foi acordado por uma borboleta que lhe marcou no ombro uma tinta de amor que o há-de matar.
A voz dos juncos do rio chora, mas os grãos da mesma espécie continuam separados. Lã de ouro, água da nascente levada no bico das águias, dentro do frasco de vidro, ampulheta do tempo, saudade viva do amor. Eros sonha a Beleza e sonhou que morria por amor dela. Lá encontra o perfume deixado por Psique. Julgando ser a sua amada, Eros dormiu o amor de Psique nos braços de Perséfone. A borboleta marcada no seu ombro voou dali e, até hoje, Eros persegue-a. Hoje visitou o meu jardim.