O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Arpoador

Contemplo a orla do Rio de Janeiro ao fim de um dia de cansaço.

Os areais de Copacabana e Ipanema, sinuosos como divinos seios oferecendo-se a fileiras de prédios ajoelhados em veneração aos imponentes morros - Chapéu-Mangueira, Babilónia, Cantagalo, Vidigal, Pedra da Gávea, onde o verde luxuriante da floresta e o disparar espérmico de rajadas de metralhadora pela Polícia Militar e os gangues do tráfico convivem numa estranha harmonia.

Sobre as nossas cabeças voam aves de rapina.

No regresso a casa, um menino de rua viciado em cola contorce-se na calçada, gritando de fome e congestão mental.

O meu sangue ferve com a terrível beleza de tudo isto.

Rio de Janeiro, Shiva-Shakti feita cidade, os teus contornos são as mandíbulas de Kali.

Amo-te como nunca amei outro lugar.

Futuro primeiro, Passado depois

Em dia de nevoeiro, escrevo pela primeira vez neste blog.
Lembro-me de ficar a ver o nevoeiro horas a fio, de observar o seu movimento.
É uma experiência engraçada, ver como se movimenta uma massa de água suspensa no ar.

Deixo aos leitores um texto de desejos para o futuro, primeiro, e para o passado, depois.



Que o dia amanheça e escureça,
que a casa tenha porta e janela,
que a luz desça e mostre a cor,
que o escuro não seja nunca o único lugar,
que cada lugar seja de alguém, um dia,
que sempre haja uma espécie de líquido que nos envolva por fora e por dentro,
que o chão que piso seja o tal apoio para as quedas e para os caminhos,
e que os caminhos sejam sempre muitos, mas um só, ao mesmo tempo.



Que de palavras se encham as folhas de papel, livros, blocos, blogues,
que hoje tenha sempre um ontem e um amanhã,
que o amanhã faça o anteontem ter parecido um dia e seja mais do que isso,
que estrelas brilhem no céu, nas ribaltas, nos olhos,
que pulsações sejam sentidas a galope dentro dos peitos deste mundo,
que os sorrisos vindos de dentro se vejam cá fora,
e que o que julgo que sejam sentimentos falem sempre mais alto e, ás vezes, gritem.





Que haja sempre luz daquela que ilumina e nos deixa ver mais claramente,
que os povos habitem os espaços em harmonia,
que o sol permita os regressos e as partidas, mas nunca para sempre,
que possamos ouvir mais sons e emitir menos ruídos,
que gostemos de outros ao mesmo tempo que não gostamos disto ou daquilo,
e que tenhamos tempo para podermos partilhar qualquer coisa com cor, com sabor, com cheiro, aparência, melodia, qualquer coisa que se sinta.





Que espíritos se soltem, dancem e sonhem,
que alguém em conjunto com alguém possa construir,
que toda a construção humana e espiritual, material e imaterial, dê frutos,
que todos sejamos crianças contentes em dias de sol,
que sempre rebentem ondas salgadas aos nossos pés,
que as tempestades por que passamos sejam breves e passageiras,
que as bonanças sejam só as calmarias da alma e do coração,
e que alma e coração possam juntos ser sempre o mais importante das nossas vidas.





Que tenhamos imagens de sobra para ver e lembrar, para mostrar e para fazer de novo,
que um seja sempre equivalente a outro, ou a dois,
que o conjunto e as partes sejam o pé que sustenta o corpo, a mão que abre, o braço que estende,
que o corpo seja um nenúfar e se suspenda na água,
que cada ponto do universo tenha um ponto correspondente,
que objectos especiais tenham lugares especiais ou corações especiais onde habitem,
que cada um tenha uma janela favorita para olhar, para espreitar, para abrir e fechar,
que os olhos vejam sempre mais além, mais por cima das nuvens, mais depois dos montes,
e que nem sempre tudo seja o que os olhos vêem, mas antes o que a alma sente.




O texto original foi publicado no meu blog em Fevereiro.2008
Prometo não me repetir de novo, mas achei que devia começar desta forma.

Intempestivos e Actuais - Mario Saa

"A humanidade é doente!
São sôfregos de perdão e coisas grátis e resmungam quando perdoam.
Pisam por gosto e insultam e rogam tolerância a todo o mundo!
A sociedade é um creme com granizos de pimenta e o homem em sociedade é um pingo de bílis numa cápsula.
Misérrima é a liberdade dos povos e a harmonia entre os homens!
Que enfadonha liberdade e que enfadonha harmonia!
Só o benfeitor é como a sola porque tem as mãos livres para aceitar quem as não tiver cheias para dar.
A humanidade não é odienta, enjoa! Ainda é mesquinha de mais para que possa ocultar o inconveniente!
Podre e viscosa gente, carregada de afeições, ódios e algemas; podre e viscosa gente bem mais putrefacta em terra de vivos que no campo dos mortos.
No entanto desesperei de achar melhor: resta-me porém a consolação de que algum dia acabará o reino dos estúpidos.
Mas quantos degraus lhes faltam para subir?"
- Mario Saa, Evangelho de S.Vito, Lisboa, Monteiro & Cª - Livraria Brasileira, 1917, pp.76-77 (ortografia actualizada).

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Intelectuais

Notas para um futuro romance da minha autoria.

"(...) Aqueles intelectuais que, para além dos limites da sua casa, nunca viveram mais nada do que a universidade e os seus apêndices. Cabeças cheias de filosofia em putrefacção, arrotando um desprezo mal assumido por todos os que nunca tiveram interesse, ou acesso, à livralhada que lhes formatou as cabecinhas.

Desprezo também por todos aqueles factos da existência que parecem contradizer a sua visão do mundo, baseada em belas teorias sobre cidades e governos ideais que, graças à providência, nunca exitiram nem hão de existir. E ainda bem, pois, se existissem, seriam o produto acabado da completa maquinização de todos os seres, da subjugação da complexidade de tudo o que existe aos critérios de umas quantas prateleiras ambulantes de boas intenções que, em nome do Bom, do Belo, da Pátria, da Classe-não-sei-das-quantas, do Enésimo Império ou seja lá do que for, cogitam engrenagens de dimensão cósmica que, ao serem postas em funcionamento, trituram todos os valores em nome dos quais foram engendradas.

Sobre elas pairam, triunfantes, os cogitadores de todas essas fantasias, desforrando-se das prisões que são os seus corpos alérgicos e mal-fodidos, vingando-se de todos os escarros na cara, óculos partidos, pontapés nos tomates e socos nas mamas dados pelos seus colegas mais caparrosos e melhor adaptados à lei das selvas em que transitam, esses sim, os verdadeiros guardiães da higiene e força da "raça".

Outros, mais frios, mais calculistas, e por isso mais fluentes na subtil arte de trnasformar sentimentos alheios em instrumentos de auto-sujeição, não fazem mais do que alrgar à dimensão do cosmos as práticas que lhes permitiram manter um mínimo de integridade no meio da sua selva. Chegam até a lucrar com isso, usando a simplicidade de espírito dos que os rodeiam como estribos para os atrelar à sua vontade, tornando-os assim nos executores de estratégias às quais a sua inteligência e reputação de "bons meninos" não lhes permite emprestar o rosto.

Uma coisa une esses intelectuais e as bestas sadias que lhes servem de algozes. É o mesmo fio condutor que une a República Platónica, o Terceiro Reich, a Ditadura do Proletariado, o Leviathan, o Campenonato do mundo de Futebol, a Globalização e Messianismos vários: Uma imensa, parcamente reprimível mas facilmente camuflável vontade de poder."

emcanto


Em canto

Ante uma alma

De austero porte

Continuo a acreditar

Que o universo não acaba

Numa ideia minha –

Mas inigualável,

Adamantina e ungida

Saudade a arder em brasa

À beira de um céu

Vago e vazio.

CALOR


o homem disse
a propósito de Mercado
ser a situação actual
bastante introgessiva

nem o homem sabe
seguramente o que dizia
nem eu sei
nem nunca saberei
o que é
introgressivo

a palavra contudo
me parece clara
e me agrada
e a sinto perfeitamente adaptada
ao tempo que faz hoje:
mais de quarenta graus de temperatura
o sol a reluzir no céu
como no guiador cromado
de qualquer
nossa primeira bicicleta

os pássaros calaram-se nos galhos
sombreados dos freixos e dos choupos
nas oliveiras cinzentas
nem as cigarras cantam
como se o calor
lhes tivesse impiedosamente
derretido as asas

procuro nos poetas gregos:
Arquílogo de Paros
Ìbico de Régio
em Safos natural de Lesbos
a palavra exacta
que defina
este insuportável
desarranjo meteorológico

posso associá-lo
vagamente a Vulcano
ou à fusão do átomo
ao efeito de estufa
nada porém que me diga tanto
como o insuspeitado introgressivo
do homem
a propósito de
Mercado

sendo que
não poder sair à Rua
é um estado
indiscutívelmente introgressivo
não me resta outra saida
que não seja:
despir a alma
e pendurá-la num cabide
onde corra
um mínimo de aragem

e deixá-la assim a abanar
inflada como vela de pequeno barco
T-shirt de Ulisses
que o conduzisse
de regresso
a Ítaca

é penosa
a estação e tudo
esmorece com o calor
disse Alceu de Mitilene
há pelo menos
dois mil
e setecentos anos

isto
pelo facto simples
de não ter sido ainda
a propósito de Mercado
criado o inefável
vocábulo
INTRO
GRESSIVO

Canto-te... [fragmento]

"[...]

Canto-te tudo o que desliza e dança no rio do mundo
as auroras súbitas e as noites precoces
as rosas que se emaranham sobre os túmulos
as fontes que brotam nas grutas do coração
a murmurar sob a pele de estarmos aqui
os pressentimentos jovens de um despertar maduro
os sinais inequívocos do medo vencido
o drapejar da bandeira de todas as vitórias

Canto-te o diáfano manto da melancolia
a triste alegria que desponta das brumas
a morte que vem nas crinas do vento
a chamar-nos para a cinza dos dias
e o ébrio rompante que a tudo trespassa
o heróico canto que do imo do peito brota
e de eterno início em grinaldas sagra
o oiro jovem dos peitos inflamados

Canto-te estas coisas que entre nós pulsam
estes esplendores esta pujança este viço
tudo isto que se não sabe e nos emudece
num espanto que sobe das entranhas
a tremeluzir no uivo dos ventos
nos labirintos que pela terra serpenteiam
no segredo dos jardins mais íntimos
nas rodas vivas que no corpo giram
e imortal o transmudam

Canto-te tudo isto
pois tudo isto é o que nos soergue e nutre
tudo isto é o trono onde reinamos
olhos nos olhos
irados e doces
gentis e feros
unidos e separados
a dançar para além de sermos alguém
a vestir todas as formas do possível

Assim te celebro no encanto de tudo o que nos envolve
ó tu que invoco do fundo maior que o real
ó tu que despontas, de ouro e prata coroada
adamantina, de mistério ungida,
ó Inigualável !

[...]"

- fragmento de um terma (tesouro espiritual) evocativo do jogo sagrado de Yeshé Tsogyal e Guru Rinpoche, oculto na terra de Oddyana, na língua das Dakinis, pela força da saudade de um obscuro escriba entrevisto numa colina sobre o Tejo e traduzido em portuguesa língua na manhã do dia 6 de Dezembro de 2007.

Das Saudades que Havia

Uma ânsia de mim candente me não livre
Do outrora que a cada instante ganha o tempo
Um porão cheio de nada a tudo sobrevive
Mesmo às chamas com que arde o mesmo vento.

Não sei por que razão, ou sem razão alguma, me vem a chama
Arder em brasa à beira de um céu vago e vazio
A hora hesita, gira em espiral a luz branca e insana
Cai do tinteiro de ontem, em lágrima, a sombra dum navio.

Quem vem lá? Que estranha e negra a noite se vislumbra
Da névoa que durou por sobre a amurada?
Não é a flor do vento, nem lua, nem penumbra
É uma sombra mansa, um feitiço de lua, uma clareira amada.

É a alma do mundo a chamar em surdina o pensamento
De uma onda maior que ainda não chegou e tarda
A luz em que saudosa vagueia a sombra do momento
Que quando a vejo, já de mim saudosa, sinto a saudade apartada.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

um poema de António Manuel Couto Viana





António Manuel Couto Viana é natural de Viana do Castelo, onde nasceu em 1923. É poeta, dramaturgo, ensaísta, memorialista, gastrólogo e autor de livros para crianças. A sua estreia literária fez-se em 1948 com o livro de poemas O Avestruz Lírico. Dirigiu com David Mourão-Ferreira e Luís de Macedo as folhas de poesia Távola Redonda. Publicou, até hoje, mais de uma centena de obras, sobretudo de poesia.
Desde cedo interessou-se pelo teatro, tendo colaborado como actor, cenógrafo, encenador e empresário em várias companhias, uma das quais o Teatro do Gerifalto. Para além da poesia e do teatro dedicou-se também à literatura infantil, através de ensaios, escrita e tradução de livros, e dirigiu, entre outras edições infanto-juvenis, a publicação Camarada (1949-1951).
Em 2004, a Imprensa Nacional - Casa da Moeda editou-lhe a obra quase completa 60 Anos de Poesia, em dois volumes, de cerca de quinhentas páginas cada um. No mesmo ano, saía O Velho de Novo, com a chancela da editora portuense Caixotim. Recentemente, A. M. Couto Viana editou o livro de poemas Digo e Repito (Averno, 2008) e Restos de Quase Nada e Outras Poesias (Averno, 2008), donde se tira este poema:

Lá para o fim

Já não frequento o café
Nem de subúrbio, nem de cidade:
A minha vida, agora, é
Uma bengala e a saudade.

Perdi interesse pela evasão.
O rodear-me de nova gente.
Ganhei o gosto por outro pão
Mais indicado para o meu dente.

Nenhuma escrita já é memória.
Já não me perco por qualquer lado.
Deixei o nome na sua glória.
Deixei o corpo no seu pecado.

Fluía o verso. Mas, hoje, estanca
Ante uma alma de austero porte.
Foi rosa rubra. É rosa branca.
Que imaculada lhe seja a morte.

http://www.editora-averno.blogspot.com/
http://www.harmoniadomundo.net/Poesia/Couto_Viana.htm

Consciência e Ilusão

"Tudo é ilusão.
A ilusão do pensamento, a do sentimento, a da vontade.
Tudo é criação, e toda a criação é ilusão.
Criar é mentir.
[...]
A própria ilusão é uma ilusão.
[...]
Só há uma coisa que não pode ser ilusão, porque ela não é criada: é a consciência. Uma só coisa escapa a toda a crítica - a consciência. A consciência não cria, nem é um conceito nosso, porque a não podemos pensar nem como sendo, nem como não-sendo. Pensar, sentir, querer, são ilusões, mas ter consciência não é uma ilusão.
[...]
Temos todos a noção de que há qualquer coisa: isso é falso. Não há; não há nem não há. A própria consciência não existe, mas é a única verdade"
- Fernando Pessoa, "O Desconhecido", in Textos e Ensaios Filosóficos, I, estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho, Lisboa, Ática, 1993, pp.44-46.

Jardins



Sorriem as flores

dentro do nosso sorriso?


Floresce

o olhar

nas paisagens?

terça-feira, 8 de julho de 2008

POEMA PARA ILUSTRAR EM CASA

Olha, Daisy
(perdoa, tentei tudo:
Rita, Eva, Amélia, Margarida
Lucy de Lucília – nada joga certo como Daisy )

Está um calor aqui no Alentejo
Neste magrebino Junho
Que me sinto grelhar
Por um Sol inclemente
Sinto-me num forno de lenha em plena combustão
Num microondas à máxima potência
Num ferro-de-engomar com o botão do termóstato
Rodado todo à minha mão direita

Já fechei janelas e postigos
Que vertem directamente para a Rua
Já corri cortinas
Baixei estores
Já vedei frinchas das portas
Com os clássicos chouriços virtuais – de serradura
E olha, Daisy,
Nem assim me liberto
Deste insustentável
Pinatubo

O calor perturba, Daisy,
Com pouca coisa pode levar-nos a uma pontinha de loucura

Sei que não adianta nada o que fui fazer agora:
Fechar à chave
As portas todas
Que atiram para a Rua

Bruteza

A bruteza pura da flor
É como a bruta pureza do amor
A arte mais velha, mais longa
É o subir do olho ao alto azul
Sobre uma terra amena e ampla ao sul
Em sudação de lágrima com sal
E comoção ao ver-se tão diverso e tão igual

Do homem que vem da menina
Que não sabe de onde vem
E é rainha sem vintém
De um Paraíso numa página
Da Lei

A pureza bruta da flor
É a bruteza pura do teu lábio
A latejar de cor e em cada laivo
Um riso, uma procura
Talvez febre
De ser ébrio

e por falar em...

segunda-feira, 7 de julho de 2008

ANIVERSÁRIO DE CHAGAL

Hoje lembrei que não nasceste. Não morreste. Trouxeste flores para a tarde do teu regresso. Nunca saíste daqui. Mesmo que me desmintam direi que nunca aqui estiveste.

Mesmo assim, ofereceste à nossa iludida voz, a tinta com que pintaste a tua passagem na barca. Dissolveste em tinta azul a pétala da rosa e foste com ela florir o outro lado do rio.

domingo, 6 de julho de 2008

this fire is out of control, we have got to burn this city!


Despertemos senhores e senhoras,
esqueçam que tripam com camas e pódios,
nossa vida decorre adormecida vacina
na busca pelo transversal perverso
que nos desperta sem querermos descobrir
o que atrái a simplicidade à matéria.

Como raios de luzes a rasgar as nuvens,
estrelas organizam seu legado orgânico
sempre oposto, danada dádiva de epena,
ter que falar sobre o que cresce e insere-se
nos símbolos do presente lacrimejante,
perante moldes compostos falhados de geleia
cujos sonhos semelhantes não se entesam,
são sobrestimados facilmente, requer
características mais masoquistas
que arrogantes, com a velhice começam
a interromper a experiência crua
e, aos magotes de lulas deixo-me
largar ante o desconforto filosófico
para relembrar quem fui e quem serei;
mera lenga lenga a desejar o milho
do vizinho, querido hipocampo FMI,
picuinhando cada tela pombalina como
quem ainda nunca foi experimentado,
dominando-se a implementar o polvo
que nasceu no céu e para lá não voltará,
será nunca libertino da honesta cola uhu
que vive o diário sozinho, acompanhando
este fim do mundo onde se repetem
trepadeiras cobrirem casas inteiras,
é supra geometria sem enfeites falsos,
é a predisposição de quando ouves a
palavra poesia, só arrancada com dentes
afiados à força porque, cada padeiro ama
cabalamente seus bolos recheados e,
não será minha pupila soporífera que,
algum dia, o fará não saborear sua criação
e impedi-lo de a instituír para dEU's provar.

Seremos mártires de voodoo-iluminatii?

A buganvília laranja-pálido cheira a
nicotina alcatroada e bloqueia a passagem
ao carteiro até à moradia onde durmo,
plebeus cardeais intrigam-me, respirando
tudo é erradicável e fácil de respeitar
e, sem querer, implementei grelhas de
desastres hipotéticos que acho desejar,
quando exprimo nada interessar alguém
acreditará nesta ténue e torturada escrita.


in quimicoterapia
2004

Foliar! Porque EU sou ISSO!


Algarve, anos 80

(...) Lá não há espaço para lamúrias. A única saudade concebível é a de viver o momento presente até ao limite dos possíveis, à dissolução naquele calor líquido ao qual os elementos nos convidam e que o nosso corpo, qual hóspede mal-educado, não consegue corresponder. Ah, que alegria transbordante, que diferença em relação ao recem-adquirido siso pequeno-burguês que eu pressentia em casa, correspondência etérea do guinchar dos guindastas e das linhas severas dos prédios que começavam a emergir que nem cogumelos à nossa volta. Mas é preciso lembrar que o sentido da nossa existência, a dos filhos da nova promessa de mobilidade social, era redimir os nossos pais de todo o cheiro a pasto, a mosto e a estrume que lhes tivesse ficado entranhado, se não no corpo na alma quase paranóica de medo de "voltar atrás", à "parvalheira" das aldeias, das casas térreas e da distância em relação ao mundo de maravilhas que lhes era prometido pela rádio e pela TV barulhenta do café local. Por isso, era preciso saber merecer todas essas benesses trazidas pela recem-adquirida prosperidade com uma higiene imaculada, com um exorcismo de tudo o que fossem odores corporais e quaisquer vestígios de matéria orgânica. Para merecer a verticalidade e o cheiro marmóreo dos prédios novos, para nos parecermos donos das "sedans" Japonesas que finalmente se tornavam acessíveis aos ex-filhos da miséria e do obscurantismo, era preciso mostrar um controle absoluto sobre tudo o que fosse entusiasmo, excesso, qualquer impulso que fosse sub, extra ou humano, demasiado humano em nós. O objectivo supremo, incosciente para todos e para bem da nossa saude mental, seria a quimera de transmutar o invólucro carnudo e aquoso do nosso corpo na solidez higiénica do mármore.(...)

Notas para um futuro romance