O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A quem devemos estar mais gratos? A quem nos elogia ou a quem nos critica ou insulta?

E obvio que ha algo de construtivo na critica que visa edificar, chamar a atencao de certos pontos para que estes possam ser melhorados.

Mas havera algo de libertador no insulto? Por detras do seu aspecto desagradavel, nao havera um "koan" que nos obriga a estarmos mais presentes no aqui e agora?

The Boys of Summer (Don Henley)

Daria tudo por tudo para voltar atras e nao mais desperdicar a minha infancia e adolescencia Algarvia da maneira que desperdicei ... Trocando o sol, o mar e a sensualidade do Sul por algo que se revelou nao ser nada mais do que uma balela ...

Mas nunca e tarde demais para se recuperar o "ser-se crianca". Agora, dou tudo por tudo para nunca mais deixar a vida de sol, mar e sensualidade que a Providencia me esta ofertando em terras ainda mais a Sul. Nunca mais voltarei a desdenhar da Providencia, e nunca mais voltarei a acreditar em balelas. Agora e de vez. Nunca mais quero ter vontade de cantar esta cancao de despedida de tudo o que ha de mais belo. Em vez de me despedir, quero dissolver-me nessa beleza.

Bem hajam.

sábado, 13 de setembro de 2008

Amor-Saudade



«L'amor che move il sole e l’altre stele»
Dante Alighlieri


Para os deuses e para os amantes, o Amor é o Sol. O abraço é como um nó. Não o que prende, mas o que une, o que abraça. Esse círculo místico que sustenta o corpo dos amantes não se desfaz na morte – não há morte nesse abraço – nem se dissolve no ar essa esfera de luz. Por isso, uma estrela distante move-se na paisagem dos céus, e próxima, mora no coração dos amantes sempre a nascer. Sempre a tempo de nunca haver nascido. A vida, para os amantes, é o Amor. Mas o Amor tem véus que cobrem e encobrem. É esquecimento. Eis porque as rosas bebem nas águas e mergulham nos lagos, e nascem depois de ter morrido. Re.nascem e re.morrem como o Sol, círculo de Luz que, antes e depois da carne do tempo, já soprava na boca dos deuses e enchia o vazio e esvaziava o cheio. O Amor é Criação e Saudade... e o Sol desocultado oculta-se na sombra dos amantes e nasce do círculo dos seus braços.

Boa noite

Talvez eu atravesse o ventre de pesadas montanhas
por veios duros, sozinho como um mineral;
é tal a profundidade que não vejo nem fim
nem distância: tudo se fez próximo
e a proximidade transformou-se em pedra.
Ainda não sou mestre em sofrimento, -
por isso a grande escuridão me torna pequeno;
mas se ela és tu, então faz-te pesado e entra em mim:
possa a tua mão atingir-me
e eu chegar a ti com as minha relíquias.
Rainer Maria Rilke
Fotografia: Piromorfite, Mina Naica, México
por Vergílio Torres

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

O princípio do despertar...

"O fim da nossa história?
Portugal está sem destino. (...) [Sócrates e Manuela] falam uma nova (?) «língua de pau», que os portugueses não ouvem ou que não registam. (...) O PS e o PSD são o regime e não podem ou tencionam tocar no regime. A reforma de Portugal, se por absurdo vier, não virá dali."
Vasco Pulido Valente, Público

Quando morres

"Quando morres não findas nem nasces noutro mundo. Manifestas o mundo oculto que já e sempre em ti trazes. Ou a sua ausência"

- Aforismo corrigido de A Cada Instante Estamos a Tempo de Nunca Haver Nascido, Sintra, Zéfiro, 2008, p.118.

Quando há amanhã


Contemplando... entre a luz e a sombra, num espasmo incolor. Sentei-me ao longo deste patamar e deixei para ontem os bancos de jardim. Ao longe, não vi nada... Ninguém me viu contemplar.

VT

in http://www.banhosdecinza.blogspot.com/

A Almada Negreiros

Espelho-me eu...
Em regresso, uma onda.
Lento recuar,
espelhado pela areia...


a minha sombra sou
é ela que me arranca da sombra em mim atrelada
sombra de mim
não me segue
finjo que sou eu e vou
não para longe de mim
e sempre,
sempre às portas de mim
VT

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Espelha-te! Espalha-te!

Já muita coisa foi escrita, mas o que falta é escrevermo-nos. Muito conhecimento já foi descoberto, mas o que falta é descobrirmo-nos. Desde sempre, nada faltou ao Homem, só o Homem se faltou a si mesmo. Nada ficou por ser cumprido, só o Homem cumprir-se. Nenhuma peça do "puzzle" está em falta, o que sentimos que falta está em nós, somos nós a própria peça que falta... que falta encaixar-se em Si.
Concordar todo o Ser, integrando a inevitável parte discordante, para ser-se tudo, de-o corpo inteiro, da Terra... do Sol.

Vídeo baseado na obra O Ponto de Mutação de Fritjof Capra, em que é proposta um visão sistêmica, múltipla e relacional da vida.

Vídeo disponibilizado por Laercio Antonio Pilz.

CUIDADO!!!!!

Posso dizer-vos que este filme e um dos mais perigosos que alguma vez foram feitos. Dois meses depois de ver este filme, embarquei num aviao em Brasilia com destino a Berkeley, California, para uma conversa "tete-a-tete" com o proprio Fritjof Capra. Ainda nos correspondemos por E-mail, e espero encontra-lo de novo em breve, possivelmente no proximo Forum Social Mundial em Belem do Para.

Tres anos e meio depois de ver este filme, deixei um emprego prestigioso e bem pago na Comissao Europeia, assim como um belo apartmento, uma vida cultural riquissima e uma muito querida roda de amigos em Bruxelas para cruzar o Atlantico com destino aos EUA, um pais com o qual nunca me identifiquei e sabia que nao me iria identificar, para estudar questoes que a perigosa alquimia provocada pelo encontro entre a vivencia no Brasil e o mergulho no Paradigma Holistico fez surgir na minha cabeca.

Sete anos depois de ver este filme, encontro-me no Brasil a fazer pesquisa em locais marcados pelo sofrimento e pela opressao causada pelo crime organizado, onde encontro pessoas extraordinarias que, no meio do caos, inspiradas por esse paradigma emergente, fazem surgir formas extraordinarias de sociabilidade, producao economica e espiritualidade que muito tem a ensinar ao mundo, especialmente aos "paises desenvolvidos" (entre grandes aspas), que teimam em continuar acomodados a sombra do paradigma Cartesiano, roido pelo caruncho e que ameaca cair a qualquer momento sobre as suas cabecas.

Quem sabe os nossos amigos do CERN nao ajudarao a precipitar essa queda;-)?

BENDITA CRISE?



Bendita crise que sacudiu o mundo e a minha vida.

Bendita crise que sacudiu o mundo e a minha vida.

Bendita crise que está reciclando tudo.

Bendita crise que veio tirar a minha ilusão de permanência.

Bendita crise que vai trazer evolução.

Bendita crise que vai fazer o mundo se reestruturar.

Bendita crise que traz a transformação.

Bendita crise que vai me ensinar o que é verdadeiramente importante.

Bendita crise que é um desafio.

Bendita crise que vai me revelar a minha própria sabedoria.

Bendita crise que dissolve meus apegos.

Bendita crise que vai ampliar minha visão.

Bendita crise que me faz humilde.

Bendita crise que vai abrir meu coração.

Bendita crise que me traz de volta a confiança.

Bendita crise que vai me mostrar outras oportunidades.

Bendita crise que me faz dar mais importância à vida.

Bendita crise que me tirou do marasmo.

Bendita crise que leva a um novo paradigma.

Bendita crise que está me mostrando a Luz.

Bendita crise que me fez voltar a ter fé.

Bendita crise que me traz de volta a aventura de viver.

Bendita crise que é o Ponto de Mutação.

Bendita crise que me traz de volta o amor pela humanidade.

Em honra dos cientistas do CERN que neste preciso momento estao a fazer historia.

Em honra de grandes pensadores que nas ultimas decadas tem contribuido para a emergencia de um novo paradigma de consciencia, pensamento e accao a partir da sistematizacao de alguns dos mais importantes avancos da ciencia no seculo XX, como por exemplo Humberto Maturana, Arne Naess, Fritjof Capra, Hazel Henderson, James Lovelock, Vandana Shiva, Ernst von Weisaecker, Marcos Arruda, Rose Mary Muraro, Jean-Yves Leloup, entre outros.

NOTA IMPORTANTE: Temos a honra de informar os nossos estimados leitores que o proximo numero da revista "Nova Aguia" contara com um artigo do proprio Jean-Yves Leloup e outro da esposa de Arne Naess, Kit-Fai Naess.

Aos amores tristes

Tu foste
E o teu rastro
Ao afundar-se na lonjura tudo apagou
O mar subsumiu-se na terra
A rosa dos ventos secou
O desalento ecoou, incessante
E os meus sonhos por inteiro adormeceste
Perdi todo o meu norte
Tu que eras o meu nordeste
Tesouro inesgotável de vagas de calor e verde e dunas mansas
Deixei crescer as tranças
O corpo cicatrizou
Mas sempre que anoitece sopra uma triste canção
E o sol nascente
Só deixa luzente
O ermo do meu dia
Na tua ida
Apenas ficaram pelo caminho estátuas de cinza
A luz varada de escuro, puro buraco negro, insólita lombriga
Fizeste do tempo um robot néscio e indirigível
Mataste tudo o que é tigre, leopardo e leão
E data venia, mais ainda:
Lançaste em vias de extinção
O meu coração

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Para o Paulo Borges: um comentário ilustrado


George Frederick Watts

Sentada sobre o mundo labirinto, de cabeça caída, de olhos tapados por causa da vertigem e da rotação da Terra, de ouvidos fechados por causa do silêncio desejado, a Sensível Existência Humana, coberta de musgo – esperança viçoso no Inverno da vida – e de coração pendido, tecido no tear de Penélope, está e não está no mundo.
Acima dele, a Sensível Existência Humana, tece e retece, toca e retoca a harpa e o coração-arca na mão. A Sensível Existência Humana, presa ao que não esquece e a tece, cria e recria os infindos caminhos do perdão. “Saudade”, dizem os seus lábios imobilizados num rosto ovo-criação. “Ai Saudade!” clama o seu corpo entregue ao ritmo de um grito de invocação. Grito vertido num corpo já convertido, já rendido nos braços da eterna mãe, a Criação.
Mulher sentada, mulher curvada, chegam-nos de ti espasmos e traços de silenciosa compaixão. Que te converte nesta terna e esplêndida composição?
Que te contorce para essa doce, suave e ínclita inclinação?
(…)
Vislumbro no teu centro um berço, perscruto no teu âmago um pranto. E choro o que nenhuma palavra diz e o caminho que com nenhuma palavra condiz. E choro e, em pranto, desfaço o meu limite traçado a giz. Junto a ti deixo o meu tear e a minha harpa. É junto de ti, Saudade, que deixo os instrumentos com que os Amigos resgatam a humanidade, com a sagrada composição e a enlevada inspiração, da veemência dos nomes e entregam as nossas vidas na suave e doce melodia da sua respiração. Ao, Paulo, deixo o tear e a harpa, porque o sei espírito puro desta visão: a Saudade viva a compor uma canção, o poema redenção.

Saudade e Instante

"Para a radical imobilidade da nossa vertiginosa vida e para o gritante silêncio com que clama absurdamente por si mesma, onde encontraremos uma mais sensível figura que nessa Saudade em que o mesmo Pascoaes resumiu o nosso ser profundo? Enganam-se os que vêem nela apenas a disposição anímica prevalente da nossa particular existência. É só uma atenção aguda ao que ela traduz o que nos pode ser imputado. Enganam-se mais ainda os que nela denunciam a mera complacência pelo nosso pasado. A Saudade é a sensível existência humana, a si mesma incessível e próxima. Inacessível porque próxima. Como a de Teseu, a nossa circular aventura decorre num labirinto buscando o dono dele, desde sempre aí esperando-nos, mas impossível de tocar se para ele não nos encaminham os fios do amor e da esperança. São eles que nos asseguram o regresso que a Saudade significa. Nela vemos que os meandros sem fim da nossa caminhada não conseguiram expulsar-nos da terra incircunscrita do Instante. Quem encontramos é o mesmo que buscava, o labirinto é a própria busca antes que a Saudade, de súbito, a faça reverter para o lar da nossa perpétua infância. Aí vemos que o esquecimento não triunfou, que o Instante onde enraizamos corre imóvel sob o seu reflexo tornado criatura a que chamamos Tempo. A segunda vez, o re-conhecimento que a Saudade manifesta é a verdadeira primeira vez, terra de nascimento e não túmulo. Com profunda justiça foi que Pascoaes lhe chamou Criação..."
- Eduardo Lourenço, "Tempo e Poesia", in Tempo e Poesia, Lisboa, Relógio d'Água, 1987.

À Rainha Elis em Nós, Mundo Novo... a Redescobrir

"Buscar um mundo novo, vida nova
E ver, se dessa vez, faço um final feliz
Deixar de lado
Aquelas velhas estórias
O verso usado
O canto antigo
Vou dizer adeus
Fazer de tudo e todos bela lembrança
Deixar de ser só esperança
E por minhas mãos, lutando me superar
Vou traçar no tempo meu próprio caminho
E assim abrir meu peito ao vento
Me libertar
De ser somente aquilo que se espera
Em forma, jeito, luz e cor
E vou
Vou pegar um mundo novo, vida nova
Vou pegar um mundo novo, vida nova.
//
Como se fora
A brincadeira de roda
Memórias!
Jogo do trabalho
Na dança das mãos
Macias!
O suor dos corpos
Na canção da vida
Histórias!
O suor da vida
No calor de irmãos
Magia!

Como um animal
Que sabe da floresta
Memórias!
Redescobrir o sal
Que está na própria pele
Macia!
Redescobrir o doce
No lamber das línguas
Macias!
Redescobrir o gosto
E o sabor da festa
Magia!

Vai o bicho homem
Fruto da semente
Memórias!
Renascer da própria força
Própria luz e fé
Memórias!
Entender que tudo é nosso
Sempre esteve em nós
História!
Somos a semente
Ato, mente e voz
Magia!

Não tenha medo
Meu menino povo
Memórias!
Tudo principia
Na própria pessoa
Beleza!
Vai como a criança
Que não teme o tempo
Mistério!
Amor se fazer
É tão prazer
Que é como fosse dor
Magia!..."
Elis Regina
Composição: Luiz Gonzaga Jr.

A pior das Sedes I



Fotografia: Rosemary Laing -Flight Research

Quando era ainda muito nova houve uma revolução. A minha mãe, tal como todos os dias fazia, veio acordar-me. Abriu as portadas das janelas do quarto e disse:
- Hoje não vamos à escola porque houve uma revolução!
Estremunhada pela emoção que lhe sentia na voz, que carregava aquela palavra desconhecida de uma carga mágica, sentei-me na cama e perguntei-lhe:
- O que é uma Revolução, Mãe?
Não fiquei muito entusiasmada com a explicação. Porque haveriam de querer afastar o senhor mais lindo da RTP ( logo a seguir ao Eládio Clímaco, claro está)?
Aprendi muito nos anos que se seguiram mas, aquela não foi a minha Revolução! Contudo, a poesia da música que deu o sinal aos Coronéis de Abril ainda continua a fazer sentido, ecoa profundamente dentro de mim.
Ainda choro quando oiço a raça da canção. Desculpem este desabafo; é mais forte do que eu! Lamento também, se vos incomodo mas vou obrigá-los a ouvir as palavras de José Niza, que o Paulo de Carvalho canta, inflamado pela música de José Calvário:

O choro foi durante muito tempo um reflexo a que eu chamaria condicionado. Sim, é tal e qual como os cães de Pavlov, se substituirmos, obviamente, a campainha logo baba, pela música logo lágrimas.
Era uma Saudade extrema que me rasgava, uma ausência sem fundo, como se aquela letra contivesse uma mensagem que me era dirigida pessoalmente, por alguém de quem me havia esquecido. Assim começou a minha demanda, a pior das Sedes: - Perguntar: Quem sou? O que faço aqui? De quem me esqueci?
( continua...)

E Tudo As Vagas Levaram! - Ou Trouxeram?

Stromboli e outro Paulo de quem também sou muito fã


Mar e declaração de amor em Siracusa, Etna, Stromboli do barco, Tricolor, Strombolicchio