A leitora não sabe como acordou no deserto. Os que chegam ao deserto nunca sabem como lá chegaram. O deserto, num certo sentido, é o não-lugar. Os que lá chegam desfiguram-se e desnorteiam-se. Na mão, a leitora tem “O Louco” e tem uma vaga lembrança de L. deitada junto ao rio a receber as ninfas que se enrolavam nos seus cabelos. Sem nunca ter estado no deserto, Hölderlin é dos homens mais desérticos que poderia ter conduzido a leitora ao seu não-lugar. Foi o deserto como não-lugar que o tornou um vate, um profeta da Grécia por haver. O poeta, [como o João], procurava e dirigia-se para uma Grécia mais perto do seu orion. Foi no deserto que a leitora encontrou dispersos os ecos dos poemas desfragmentados do último Hölderlin que, desencantado e louco, lhe segredou enigmas que a sua paciência descobriria na conjuntura e num mesmo fio de luz e sombra. No deserto não há norte. Não há início nem retorno. É um invulgar lugar do irretornável. A última poisagem. O lugar por onde já nem os flamingos, nem as corças, nem os corvos, nem as outras aves e animais da arca ou da realidade inútil passam ou fazem caminho, ou se cruzam no olhar da leitora. No deserto, a leitora torna-se cega porque as páginas, as paisagens, não têm margens e são rasgos alucinados de memória. O que se lê, no deserto, não está escrito, nem inscrito, nem gravado, nem preso a caracteres ou frases. O que se lê não se encontra ou se procura; encontra-nos, procura-nos, como a voz de Deus aos profetas. O lido elege-nos para uma desorientação que deixa de atormentar, o lido é uma desorientação vital para a alma de quem leu os poetas e quer com eles alcançar os píncaros da Vida (Pascoaes, “O Poeta”).
Os cegos, relembrava Ernst Junger, dirigiam-se para estes lugares. Os lugares da luz, mas os lugares da luz são os lugares da sombra. Onde ela é também mais extensa e mais intensa. A sombra, como o bastão do cego, orienta não os que se afastam do mundo, mas do imundo em que a alma combate com o outro o que ela deveria combater com o seu duplo, o seu daimon. Há muitos anos a leitora foi colhida numa tempestade de areia, tinha nas mãos a arca vazia do passado e ainda assim, no corrupio dos ventos, na sua movimentação de dervixe, as saias dos ventos recolheram o vazio e espalharam-no nas páginas abertas do livro do deserto. A leitora vislumbrou linhas de aves invisíveis e perscrutou o imperceptível que atravessa a vida. As aves soletravam e cantavam o hino à vida que nenhum humano soube entoar. Ela admirou o seu bailado em fundo azul. E leu com o coração, de cor, nas páginas sem margens e plenas de memória das areias do deserto, para que aves raras conhecessem a melodia do mundo antigo, os versos do último Hölderlin. Essa memória era o convento onde fechara os sonhos para se entregar às vertigens. A leitura era um voo e os livros o peito aberto do pelicano que alimentou os pobres de espírito. Misturando a sua voz à dos versos ininteligíveis com a dos pássaros sem nome, a leitora recebeu Messiaen no céu do deserto. De um lado tinha o rosto de Hölderlin e do outro a música de Messiaen. O inexistente oitavo livro dos pássaros era Hölderlin a cantar os seus próprios versos, cego no indireccionado do bailado das aves. Acolhido o milagre, como a revelação a que toda a leitura conduz, a leitora prosternou-se diante dos seus pés, dos pés do poeta da escrita iluminada. O da escrita iluminada, caminhou pela sombra e o único bastão que levou na mão foi a pena dos pássaros que com ele fizeram corona sua derradeira experiência trágica da música e da poesia. Esta foi a pena que a leitora encontrou na areia sem rasto por onde, na sombra do poeta, a leitora fez a mais densa experiência da leitura. Ler o que não se vê, mas a memória sabe na sua cegueira de Tirésias, é esquecer a liturgia e receber o que é divino. O deserto transfigura a voz da leitora em sons de harpa divina. Ler com o coração é ler mais do que ler com a inteligência. A voz aquecida nos fios da harpa solar, tocados pelo vento desértico, faz a leitora pronunciar a verdade sem o nome e ler o mundo como composição musical, mesmo quando ele é ruído e devastação.
