O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Brinde a Omar Kayam!

O poder se esvanece:
pó de nada.
Mas as rosas florescem mesmo do pó.
Do mesmo pó de estrelas
o poder torna escravo
Quem das rosas só as pétalas colhe
Descuidado.

Bebei, pois, de uma taça mais funda
Como quem se esquece
E no esquecer se lembra
que do cálice rubro
transborda a seiva que embriaga mais.

M.S.

sábado, 26 de março de 2011

“Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.”
...
António Ramos Rosa

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Doce é o momento quando me esqueço
Floresce o campo na Primavera
Abunda a neve no cimo da montanha
Canta o rouxinol no bosque
E o dia cede lugar à noite gentilmente

Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Sudário de Silêncio



Despe mais o teu corpo
Despe mais os teus véus,
as tuas vestes, a tua poesia!
Despe mais o teu sangue, a tua ferida
Despe-me (te) solenemente;
Despe mais ainda em mim a tua alma.


E quando fores só luz
E brilhares como uma transparência de ti:
Despida estrela da terra e do chão;
Quando já nada tiveres para despir:
Nem palavra, nem silêncio,
Nem infinito espaço
nem infinito tempo
Quando fores só luz de Luz
Despe-te ainda mais de ti e de mim.


E sê-me no imo Um Nada trasparente,

mais do que luz!
Deposita em meu colo esse Nada de palavras
Deixa -o florir no canteiro de mim!
E vamos colher as estrelas
Em outra dimensão que nos iguale em sonho!


Em outro Real nos quisémos Anjos
Em outros olhos nos quisémos boca
E com nossa saliva colámos as palavras
Ao Nada que sabemos e somos:
Sudário do nosso vazio e conhecido rosto

De Poetas.


Maria Sarmento

domingo, 31 de maio de 2009

És Música e a Música Ouves Triste?

És música e a música ouves triste?
Doçura atrai doçura e alegria:
porque amas o que a teu prazer resiste,
ou tens prazer só na melancolia?
se a concórdia dos sons bem afinados,
por casados, ofende o teu ouvido,
são-te branda censura, em ti calcados,
porque de ti deviam ter nascido.
Vê que uma corda a outra casa bem
e ambas se fazem mútuo ordenamento,
como marido e filho e feliz mãe
que, todos num, cantam de encantamento:
É canção sem palavras, vária e em
uníssono: "só não serás ninguém".

William Shakespeare, in "Sonetos (8)"

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Cá nesta Babilónia

Cá nesta Babilónia, donde mana
Matéria a quanto mal o mundo cria;
Cá, onde o puro Amor não tem valia,
Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
E pode mais que a honra a tirania;
Cá, onde a errada e cega Monarquia
Cuida que um nome vão a Deus engana;

Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
O Valor e o Saber pedindo vão
Às portas da Cobiça e da Vileza;

Cá, neste escuro caos de confusão,
Cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

Eu não Quero o Presente, Quero a Realidade

Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 25 de abril de 2009

O Cravo / Joaquim Pessoa


25 de Abril de 1974


O cravo trevo levado
lavado cheirando a água
cravo meu sangue pisado
peito nora a puxar mágoa.

Mágoa sirene do vento
que o vento grita ao correr
mágoa que acende no tempo
um cravo punho a doer.

Cravo que é a morte ou é a vida
da vida mais desgraçada
tantas vezes mal sofrida
sofrendo a vida parada.

Até que a morte parida
seja a vida libertada.

Joaquim Pessoa
in Amor Combate
Litexa, 1985, p.157

segunda-feira, 13 de abril de 2009

pintura "La Nuit Espangnole, c.1922" by Francis Picabia

Devora-me, luz que gritas na sombra!

Ilumina-me estas mãos feitas de pedra;
sangra os meus versos de amor, e tão
somente neles, te deites para dormir.
Seguirei por estas linhas tortas,
para dançar junto à tua cintura;
dar-te-ei uma maçã, para abrirmos
num dia de Sol, e fecharei
todas as portas que a Morte abre
para receber o teu corpo.

poema Liliana Jasmim

terça-feira, 7 de abril de 2009

Diálogos III


Na Fontaine Sainte-Marie / encontrei a única nascente da grande cidade, / o único fio de água vivo e natural. / Se dele me aproximo, / nunca aí deixado por um automóvel, / mas sempre a pé, / posso, logo no limiar do bosque, / esperar uma atracção, / em que todo o cismar habitual de mim se ausenta / e o meu pensamento se torna unicamente a reflexão do mundo. / Em lugar de todo o falatório que há em mim, / do suplício que infligem muitas vozes, / surge a meditação, / uma espécie de silêncio redentor, / mas do qual se desprende, ao chegar ao local, / um pensamento explícito, o meu pensamento mais elevado: / salvar, salvar, salvar! / Num impulso tão doce como poderoso / arredondam-se os olhos, / há um ranger nos canais auditivos/ e eu celebro na clareira / a festa de agradecimento da presença no lugar.

Peter Handke, Poema da Duração, p.67

Na fotografia encontrei a nascente e o pensamento. A nascente e o pensamento fazem despertar a sede. A sede nasce da escuta do que vem não se sabe de onde, nem como nos atravessa mas nos inclina para esse outro lado da vida onde fomos nus. Ouvindo-a, à nascente, o pensamento suspende o impulso irreprimível para adiante e para trás. E o pensamento que nem sempre se dirige para o indireccionado, avançando e recuando, sobretudo quando deixa o ramo poético de onde desponta, experimenta uma melodia que desperta os fantasmas que os conceitos fecham em silêncio. A nascente, abrindo a sede, desperta os que só na melodia, sem instrumentos ou palavras, se deixam escutar. Os fantasmas do Ausente erguem-se num fundo que é sem contexto e sem horizonte temático. Os fantasmas não se deixam dizer ou julgar. Os fantasmas são as vozes da nascente a cantar. A sede da nascente é uma alucinação em que as presenças não nascem dos objectos reais ou mentais, as presenças acordam da Ausência de haver mundo e objectos. Face a estas presenças, que nascem da Ausência, o pensamento, que não as pode judicar ou analisar, compraz-se em dançar. O pensamento baila uma melodia sem instrumentos. O pensamento, atravessado pela voz da nascente, tocado pela sede e preso ao anel mais antigo do tempo, fora do tempo, não discorre, não tem nas palavras meios, nem recurso; o pensamento é um ritmo dançarino, um sopro por onde se movem fantasmas como bolhas líquidas que arrastam a nascente até ao instante. A música que toca a alma do poeta é a água do mundo que escorre antes de haver rio e mar. A água do mundo por haver, a água da nascente que canta em vez de correr, abala o pensamento de uma sede de retorno e regresso à eternidade. O pensamento, animado pelos fantasmas, conhece uma espécie de bailado cantado, de ópera com figuras imprecisas, vozes estonteantes e movimentos cambaleantes. A tragédia foi o pensamento mais poético que a alma experimentou. O estado líquido do pensamento do poeta trágico não mais se voltou a ouvir, fosse pela proximidade ao rio dos mortos de que nos afastámos por nos termos esquecido que somos mortais e imortais, fosse pela torrente de reenvio e regresso, que era a voz humana no palco jorrando versos, ou interjeições que substituímos pela narrativa e pela argumentação, a verdade é que, embriagado pelas presenças que vinham do Ausente, o poeta tinha no pensamento o coro e não uma voz individual. Na nascente há um coro, há um gorjeio multíplice, há a pluralidade dos sons reverberantes e remanescentes do grande Silêncio. Na mente do poeta trágico, voltado para a nascente, os sons teriam sido indistintos. O humano, o animal e o mineral, não tinham nomes diferenciados para os seus sons, para o seu soar, ressoar em cada um. Os homens expressavam-se como pássaros e como pedras. Enlevavam-se e feriam-se. A voz tanto vinha do céu como do fundo da terra. Caía das nuvens e ou subia das grutas. Na nascente, para onde olhaste _______, o som era pluriforme e as vozes caosmícas. O poeta trágico escutou a nascente e junto à fonte ouviu o grito, o vórtice de um corpo dilacerado por ser e não-ser. O grito, o espasmo, a dor de Diónisos ou de Osíris, ou dos dois num só, de todos num só. Homens, em cada caso, dizem os mitos fundantes, que se simbolizaram por animais, homens largados em margens, junto ao rio que os afasta das nascentes. Como Orfeu, poeta sem cabeça e de grito eterno na poesia, o olhar-grito na fotografia trouxe até aqui a origem perdida de um mito que fomos e de que nos esquecemos. Filhos desses homens largados nas margens e abandonados ao tempo, afastados da origem e dos sons animais e minerais, aprendemos a pensar sem os vestígios do que nos moldou junto à nascente, na proximidade da foz. E fomos pássaros a cantar e pedras a ferir. O pensamento trágico, por ser poético, por ser musical, por ser pré-linguístico tantas vezes, por ser excessivo ou metafísico, por ser a força do indireccionado, trazia ao Homem que ainda se sabia animal e mineral, a força secreta de um rumor que o lançava na aventura de expressar a vida com o corpo. Há no corpo um pensamento que canta. Foi esse pensamento que gerou a dança com o imperscrutável.

Olhando esta fotografia, a leitora não pode deixar de sentir um estremecimento de mudo encanto nos lábios. O poema, como a água, corre líquido pelo corpo e rumoreja dentro das palavras que toca. As palavras liquefazem-se no som, soam como água que escorre pelo corpo e sobe como gás ao pensamento. O som instala a estranheza e por isso, pensa, em certas religiões Deus não é dito, mas cantado, entoado, porque só o canto convoca o estranho e o convida a durar. No canto, as palavras tornam-se leveza, vapor, ar rarefeito. O poema poderia ser a água para o que no Homem é animal e mineral, a fonte a cantar no íntimo da sede, como escreveu Pascoaes, mas poderia ser mais. O poema, ou o próprio pensamento quando se apercebe que se afasta da origem, sustem o curso da sua indirecção pela duração. Percebendo o que perde no percurso e na relação que estabelece entre os seres e logo de seguida entre conceitos, condensando a palavra no sentido frio, em gelo e não em neve exposta ao sol que brilha junto à nascente original, o pensamento poético trava o que está em fuga em relação ao impulso originante. Fazer perdurar/durar o que reverbera e remanesce do inaudível e do primitivo: eis a vocação do poeta, ou do que pensa poeticamente, que escreve a água o que corre desde a nascente e tem na voz a foz [ante primeva] e um coro. Só o poeta tem um corpo que dança com o imperscrutável.

O impulso da duração / já começa por si a entoar o poema, / marca um compasso sem palavras, / segundo o qual, / como um ingrediente libertador, / nas artérias me pulsa uma epopeia, / em que no fim o bem há-de vencer. / Com a imposição das mãos, como a duração o faz, / fecha-se a ferida, / de que só tomo consciência / quando ela se fecha. / (…) A duração não aliena, / leva-me ao caminho certo. / Fujo da luz dos projectores que ilumina os acontecimentos do dia / e refugio-me decididamente no campo incerto da duração. (…) Lágrimas da duração, tão raras! / Lágrimas da alegria. / Impulsos inconstantes da duração, / que não se podem pedir / nem numa prece implorar: / estais agora reunidos e articulados / para formar o poema.

Peter Handke, Poema da Duração, pp.77-79

Estando como leitora no âmago do bosque - em dias de luz o bosque parece uma gruta iluminada pelo ouro de uma idade perdida – e imersa nas árvores plenas de pássaros e outras vozes poéticas, Rilke e Gabriela Llansol, outro som, que não de aqui e agora, perpassou-a por dentro da voz. Um vapor vindo do Ausente, um som perdido dentro da liquidez das palavras – belos são os textos da Gabriela quando lidos em voz alta e, junto às folhas, entregues como decifração de um palimpsesto primitivo que reuniu palavra e árvore num só ser, numa só entidade rumorejante – aqueceu-lhe a voz de luz, habitou-lhe a voz de címbalos vibrantes. A leitura conta, entre os seus poderes, chamar pelo Antigo, prometer ao Outrora outra possibilidade improvável no tempo. E como uma corrente, ler é ter um rio na voz e correr por entre as margens à procura de impulsos que refaçam o corpo dilacerado, desfeito do poeta que, como Poe para escrever, se iniciou nas águas torrenciais de um vórtice, ou de um naufrágio baptismal, onde o poeta submete as palavras, como outrora Deus os animais, a um dilúvio redentor dos sons. O mistério das palavras não está na sua consolidação como sentido, está na sua imersão ou submersão no rio da memória - onde as musas profetizam o mais escondido como o mais benigno - que as faz descer e respirar, libertar sopros cada vez mais distanciados na abundância da água junto às nascentes arcaizantes, onde elas se tornam como bolhas de cristal, transparentes ao olhar mais fundo e penetrante.

Nessa descida ao Maelstrom, o poeta perde o corpo como a palavra o sentido. A palavra perde em significado o que ganha em som. Como o poema ganha os sons antigos do animal e do mineral na voz única do humano a devir natural, naturante e contagiante. Mais próxima do canto, a palavra, percorre, como fuga musical, o mundo submerso pela passagem do tempo e desencadeia, no dizer e no pensar suspenso no ramo da árvore dourada da poesia, o impulso da duração que luta com o impulso do tempo. E se o poeta não volta e parece que o seu corpo se destroça nessa descida ao fundo imemorial do som e não do sentido – na raiz do sentido está a depuração de um som, sabor único do espírito, turbulência líquida, movimento em convulsão do que fecunda o campo incerto do devir – é porque encontra a rosa perfumada da memória, os jardins das serpentes que combatem contra a existência de homens que apenas se querem imortais e se esquecem que o são por serem mortais. O poeta entrega-se às águas remotas onde uma flor lhe promete mais duração do que experiência, mais duração do que pedra inteiramente escrita dos muros do seu reino. Nessas águas repousa a rosa da duração e nela o poeta escuta os sons das lágrimas do rei e do primeiro homem que conheceu a dor. A duração tem um som que só as lágrimas repetem. O som do que vem do que é só som, signo sem sentido, a dor. As lágrimas são poemas em estado líquido e os poemas hinos e cantos lacrimosos de quem sente saudades dos sons e do perfume da rosa que está guardada nos jardins da serpente onde corre o único fio de água vivo e natural: o Amor. O Amor sustém o impulso da duração nos sons de uma harpa sagrada que guarda os tons do mais íntimo e do mais distante. Só o coração sabe a arte de fazer durar e só o poema consegue cantar.

Para um dançarino que entoa poemas de silêncio na memória e no corpo.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Disparos de uma máquina fotográfica

Um semblante melancólico pela partida dos amigos;
um mar de gente a acenar a despedida;
o quartel
a casa que, apesar de tudo, fora o lar daquele tempo;
o rio sem o garrido das capulanas
das mulheres que faziam a barrela
o rio
sem o chilreio vivo e alegre da pequenada
que nele se banhava
o rio parecia carpir um pranto dolente e triste
junto do canavial emudecido
e sem alma para lhe fazer coro.
No entanto, a manhã uma manhã de encanto
a manhã revestia-se de uma formosura diáfana.
Recordei Camões:
“Aquela triste e leda madrugada...”
Invadia-me uma nostalgia profunda
que me impedia de ser totalmente feliz
naquele instante.
Naquele instante, sabia que ficavam ali
muitos pedaços de mim.
Já o último olhar:
o rio...
o rio era já só uma pequena franja
em jeito de espelho cada vez mais baço.

Manuel Maria
Metamorfoses
in Farol das Letras, 2006

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Nem Sempre Sou Igual no que Digo e Escrevo

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...


Alberto Caeiro
in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIX"

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sem Título

Durante três noites escutei o canto do pássaro. Poisado no parapeito da janela ou no fio do estendal, não sei, o pássaro veio prenunciar-te sob a forma de um encanto. Três dias volvidos e apareces-me assim. Foi ao passar por entre as folhas, na perseguição de uma antiga recordação – tinha seis anos e no baloiço pendurado na árvore, uma pomba branca poisou no meu rosto – digo pois, de uma antiquíssima espera, a do Espírito sobre mim, que assim te reconheci.
Vinhas vestida de azul e trazias nos lábios o sagrado mutismo dos infelizes. Vinhas manhã grega em dia de tenebrosa tempestade. Poisada no meu e mesmo chão, sob a forma de um clarão, como um rasgão e como um vaso pleno do que por mim foi esperado, colheste-me em flor de memória em sangue e viva. As flores que nos colhiam, e que os teus pés encobriam, sofrida a espera de uma revelação ou de uma redenção, eram de uma espécie e cor de sangue diferido, transferido, indefinido. As flores cobriam no chão alguém-ninguém que por ti tinha sido ferido ou em ti tinhas sofrido. Foi então que percebendo, sem saber como e por causa de meu nome, Isabel, todo o mistério das rosas, que corri a buscar aquela passagem em mim, que sei sem corpo de texto, da criança pelo espírito tomada. Essa criança, que me percorria e para ti também corria, vinha para ser tornada mulher, primavera e rainha. Vendo-te assim tão próxima, tão etérea, tão quase divina, não parei de tremer, por saber que foi a minha espera que te coroou, foi ela que te transformou em menina, criança e rainha.
Assim, pela primeira vez não cega me vias e eu te recolhia, e havia no teu corpo um ser outro do qual também eu – no teu sem nome como a flor da memória – me compadecia. Era do medo, era do segredo, mas era algures e não alhures, que outros sons originais, em nós se percutiam, assim menina, criança e rainha, parecia que ao receber-te ensandecia, desvairada e louca, enquanto escrevia.
Era do espanto, era do encanto, mas lentamente se pressentia que a menina, a criança e rainha me sobrevinham de um mundo, para mim ignoto, em que jamais somente se sofria, enquanto eu nas palavras e nos símbolos, num relance súbito, me expandia. Menina, criança e rainha, perguntava, com que asa da infância cobres ainda o meu rosto de medo com outras antigas penas da lembrança?
Tu, menina, criança e rainha, nada me respondias. Tinhas a boa fechada e já nada arrolavas. Dos teus lábios cerrados e a meus olhos confinados confiavas o segredo e o medo e eu, sob a divina mania, no pano da escrita perscrutava-te antiga e ouvia, escrevia e, tolhida e recolhida, neste silêncio dentro do tempo, te inscrevia.
Era do tempo, era do desalento, que o teu sorriso se escondia, ele que preso à mão do inverno lentamente te arrefecia e por dentro do teu rosto o esmaecia. Era eu quem, menina, criança, rainha, to pedia para o depor junto ao canto dos pássaros e da rima da poesia. O teu sorriso, menina, criança e rainha ainda dentro te ti ressurgia. Era para dentro de ti que a escrita ria e fugia. Escrita dançarina que contigo se envolvia em movimento-vento, em movimento-lento. As duas tristes dançarinas insufladas pelo vento pairavam sob o poema-canto, no canteiro, no poema com a forma de um campo-campa. As duas dançarinas, a escrita e a rainha, acompanhavam os passos em luta, em luto, do poema em que os mortos e os vivos renasciam. E eram penas o que assim, da escrita saía e na saia da dançarina, docemente nos envolvia. A das aves e a dos mortos.
Era como rosto e como corpo, mas já sem desgosto, que assim toda inteira e rarefeita, em castas gotas, me surgias e ungias, a pobre que assim escrevia e te recebia. O poema que da flor da terra remanescia eras tu, menina, criança, rainha, propulsionadora, no meu pulso do impulso, no curso do decurso, da escrita como incerta cartografia e caligrafia das lágrimas na paisagem de um rosto refeito do desgosto. Tu, quase divina em nós, sobre mim descias e comigo, aos céus, subias.
Durante três noites escutei o canto do pássaro que vinha do mar – também tu de lá vinhas coberta de lágrimas e escamas, sereia, criança e rainha –, durante três dias escrevi em pranto, em flor de memória e impotente, contra a força da Palavra, mas em vão, Menina (!), o pássaro escrevia agora com os movimentos da minha mão. O pássaro, que vem do mar e se reveste da espuma da onda e só em canto do silêncio se pronuncia, vinha sobre mim como um símbolo que enfim se aproximava para me chamar e ao fundo da arca da Língua me entregar. Eu que nunca compreendi o mundo, eu que nunca contei o tempo, eu que sempre caminhei na direcção do vento, era assim daqui roubada e, de súbito, raptada para o interior de uma aparição, para o esplendor de uma transfiguração.
Roubada ao mundo e ao tempo, presa a uma asa de escamas e imersa numa saia de arcaicas lamas, entregava a vida ao movimento enamorado do olhar da alma com a mão. Comum à escrita, na viagem dentro da arca, levavas-me sem rumo por entre o fumo, para além daqui, Além, para em mim cumprir a tarefa espiritual de a vida e a morte renomear e cantar.
Dentro de ti serei(a) a que, cantando o verbo morto, deixará o poema renascer e como a flor, reflorescer.
É enquanto as rolas arrolam e os cabelos se enrolam que a voz cantando, semeia no corpo, terra canteiro, o poema. Canto em Língua pura, pátria imemorial para os mortos que florescem. O poema, revelas, é a outra eucaristia.




Para a Luíza e para a Sereia. A quem devo a partilha do incomunicável e da verdade. Para as duas chega muito atrasado, bem sei, mas é só numa certa contagem do tempo. Este texto é para o tempo incontável a que chamaremos outros nomes. Uma breve nota também de agradecimento ao João Serra que me ofereceu a fotografia de uma certa composição em que se escreve para haver entrega aos outros, na absoluta entrega e confissão do que se é aos Amigos.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Página de escrita

Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis…
Repitam! Diz o professor
Dois e dois quatro
quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis.
Mas eis que o pássaro da poesia
passa no céu
a criança vê-o
a criança ouve-o
a criança chama-o:

Salva-me
brinca comigo
pássaro!

Então o pássaro desce
e brinca com a criança
Dois e dois quatro…
Repitam! Diz o professor
e a criança brinca
e o pássaro brinca com ela…
Quatro e quatro oito
oito e oito dezasseis
e dezasseis e dezasseis quanto é que faz?

Dezasseis e dezasseis não faz nada
e sobretudo não faz trinta e dois
e de qualquer maneira
eles vão-se embora.
A criança escondeu o pássaro
na sua carteira
e todas as crianças
ouvem a música
e oito e oito por sua vez também se vão
e quatro e quatro e dois e dois
por sua vez desaparecem
e um e um não fazem nem um nem dois
um e um também se vão dali.

E o pássaro da poesia brinca
e a criança canta
e o professor grita:
deixem de fazer palhaçadas!

Mas todas as outras crianças
escutam a música
e as paredes da sala
desmoronam-se tranquilamente.
E os vidros voltam a ser areia
a tinta volta a ser água
as carteiras voltam a ser árvores
o giz volta a ser falésia
e a caneta volta a ser pássaro.

Jacques Prévert

(Tradução de José Fanha)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Uma folha de erva

fotogafia "Death is not the end" by Paulo A. in www.olhares.com/Dion

Pedes-me um poema.
Ofereço-te uma folha de erva.
Dizes que não chega.
Pedes-me um poema.

Eu digo que esta folha de erva basta.
Vestiu-se de orvalho.
É mais imediata
do que alguma imagem minha.

Dizes que não é um poema.
É uma simples folha de erva e a erva
não é suficientemente boa.
Ofereço-te uma folha de erva.

Estás indignada.
Dizes que é fácil oferecer uma folha de erva.
Que é absurdo.
Qualquer um pode oferecer uma folha de erva.

Pedes-me um poema.
E então escrevo uma tragédia acerca
de como uma folha de erva
se torna cada vez mais difícil de oferecer

e de como quanto mais envelheces
uma folha de erva
se torna mais difícil de aceitar.


Brian Patten
Qual é a minha ou a tua língua?
Cem poemas de amor de outras línguas,
organização - Jorge Sousa Braga,

sábado, 17 de janeiro de 2009

A cintura é a parte mais importante

photography by Edward Weston, American, (1886-1958)


a cintura é a parte mais importante

do corpo de uma mulher,

o pequeno arco em que gira

todo o seu movimento.


para baixo e para cima fica a desordem

que as rotações imprimem:

imagens fugitivas, desfocadas,

de costelas, seios,

braços, ombros e cabelos;

ou virilhas, nádegas,

pernas múltiplas, como

na dança, sob a retina fotográfica.


formam-se assim linhas circulares,

pura luz,

mas com uma trajectória, que cria

o espaço e o tempo.


quem quisesse porém encontrar

um eixo vertical imóvel, ou seja,

possuir ilusoriamente a mulher,

teria de a pontuar no olhar, no meio

dos lábios, no umbigo,

no ponto mais sensível do clítoris,

na junção dos pés.



esta é a ciência antiga do tacto

- o que fixa o fluido,

e crucifica a carne

à eternidade do conceito.


Vítor Oliveira Jorge
“Pequeno Livro de Aforismos
Seguido de Algumas Alumiações”
Porto, 2005




Perguntas a Pablo Neruda no centenário de seu nascimento

“Quando se dita debaixo da terra
a designação da rosa?”
Pablo Neruda, Libro de las Preguntas

Janeiro é um pedaço de brasa extraviada
que inaugura o ciclo da água?


É verdade que os ingleses não saltam?
Os presidentes estão isentos de subir nos colectivos?

Por que às vezes quando dói a alma ri a poesia?
Por que não tem emprego se sobra o trabalho?

Um operário da Ford
vale menos que um carro?

O pedreiro que ergue maravilhas vive numa casa
sem reboco? Tem janela para ver o vizinho?

É que os varredores leva a terra do centro
das cidades para que reviva nas ourelas?

Tem essa mulher um homem em seu braço
ou uma carteira?

Quem se anima a jurar que o Chê é morto?
E por certo, querido Pablo, Miguel e Frederico?

Dobram os sinos?

Vale mais um homem ou a palavra?
Ou um homem de palavra?

Desmancha de rir o menino com chocalho
Ou é o chocalho que solta gargalhadas da justiça?

É que quem vai embora tinha pátria
ou a pátria é virtude em vias de extinção?

Sabe a história se alguma vez, o mundo,
respirou livre de impérios e traidores?

É a lua o jasmim mais próximo do abraço?

Terminará no cárcere também o silêncio cúmplice?

É que há muitos gatos ou os pássaros não morrem?

Desprendeu-se um retalho constelado
ou um menino traçou seu mapa da noite com um dedo?

Que aconteceria se nos hospitais
se deixasse de administrar amor em generosas doses?

Quando entenderá o homem que a mulher leva

a gota de sumo do mundo nos seus lábios?


Regressei um navio?

Por que os ministérios da Economia
são mais importantes que os ministérios da Cultura?

Onde se acabam as perguntam? Então calo, na boca?

Por que a poesia, Neftalí Reyes, companheiro,
entre os escombros como uma rosa indomável?

Poema de Gabriel Impaglione

Tradução de António Miranda