O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ele desejava que a sua amada estivesse morta

Se fria e morta jazesses,
E a Oeste se fossem apagando as luzes,
Virias até mim, inclinando a cabeça,
E a minha fonte em teu peito repousaria;
Murmurarias ternas palavras,
Perdoando-me, porque estavas morta:
Não te havias de levantar e partir tão apressada,
Ainda que teu seja esse querer de ave selvagem,
Ainda que saibas que o lugar dos teus cabelos
Junto às estrelas e ao sol e à lua:
Desejava, amada minha, que na terra jazesses
Sob as grandes folhas,
Enquanto uma a uma se fossem apagando as luzes.

W. B. Yeats
in Uma Antologia
Assírio & Alvim, 1996

segunda-feira, 22 de junho de 2009



"A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down Forgot in cruel happiness
That even lovers drown."


William Butler Yeats

sábado, 4 de abril de 2009

after long silence

speech after long silence; it is right,
all other lovers being estranged or dead,
unfriendly lamplight hid under its shade,
the curtains drawn upon unfriendly night,
that we descant and yet again descant
upon the supreme theme of art and song:
bodily decrepitude is wisdom; young
we loved each other and were ignorant.

w.b. yeats from words for music perhaps, 1932.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

"Quando fores velha" - Yeats (a uma amiga de alma grisalha e alegre encanto)



Quando fores velha

Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

William Butler Yeats (1865-1939)
(Tradução de José Agostinho Baptista)


(Em aceno a uma Amiga, que o sabe, sabe o “alegre encanto” destes versos e sabe ser "grisalha" antes mesmo de sê-lo, aqui deixo este amado Yeats, “escondendo o rosto numa imensidão de estrelas”.
Sempre presente, na lareira do ser...)