O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro; viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".

"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"

- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente

Saúde, Irmãos ! É a Hora !


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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Morte e apetite de vida

"É o amor que gera o objecto amado. "O objecto do amor, qualquer que seja, não preexiste ao amor, mas é por ele criado" (Gentile). Nesta ordem de ideias, portanto, no mundo apareceria como o correlato projectivo de nosso amor natural, do nosso sistema de impulsos que dilataria diante de nós o contínuo empírico. "Nichts ist, das dich bewegt, du selber bist das Rad, das aus sich selbsten läuft und keine Ruhe hat" [Nada há que te mova, tu próprio és a roda, que por si mesma corre e nenhum repouso conhece] (Angelus Silesius). A doutrina platónica do corcel indócil que, pesando sobre o carro da alma, o arrasta para a terra relaciona-se a esta mesma tese que vê em nossa constituição apetitiva a instância responsável pelo nosso nascimento na carne. Nosso corpo e o complexo de seus órgãos tais como se manifestam no espaço seriam a exteriorização dos nossos impulsos, uma espécie de transposição espacial de nossa concupiscência ontológica. Isto já nos disse Schopenhauer: "O corpo com todas as suas mudanças e actos não é mais do que a Vontade objectivada, isto é, transposta em representação". O corpo como símbolo de nossa devoção, de nossa militância, é um documento vivo de nosso assentimento ao jogo da vida; a presença corporal já é um índice dessa escolha metafísica que nos põe como dilectores mundi [amantes do mundo]. Na menor parcela de tecido vivo, enquanto a vida se alça como um ramo para o céu, subsiste esse profundo e radical assentimento. O reino dos vivos se definiria, portanto, como a assembleia daqueles que, pela determinação do seu amor e do seu zelo, pelo sentido prospectivo de seu cuidado, gerariam sempre mundo ao seu redor. É justamente essa comunidade de libido e de cuidado que o evento da morte vem interromper, destruindo o vínculo exteriorizado dessa comparticipação" - Vicente Ferreira da Silva, "Meditação sobre a morte", in Dialéctica das Consciências e outros ensaios, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2002, p.45.

sábado, 25 de outubro de 2008

Sobre o Todo

I.

Será o todo apenas a soma das partes?
Para mim, o todo é mais do que a soma das suas partes.

Se calhar não estou correcto. Muito provavelmente.
Mas parece-me ser demasiado limitativo que o todo seja apenas a soma das partes.

Se algo for criado a partir de uma parte, fará com que o todo seja ainda mais todo.
Ou seja, se uma parte evoluir, o todo que daí surgir será diferente daquele que apenas seria sem essa evolução.

II.

A minha intuição é que é precisamente isso que faz com que o universo não seja apenas um, mas uma multiplicidade de possibilidades intermináveis.

Cada possibilidade nova, abre-nos um universo dentro do universo.

III.

O mesmo tempo dá origem a vários espaços e até a desfasamentos dimensionais dentro do mesmo espaço e tempo.

Diferentes frequências que coexistem no mesmo espaço

Será apenas a soma das partes o todo?
in Livro dos Pensares e das Tormentas

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Identidade

Ó vil criatura
de vãs fantasias,
vives socialmente
no “plasma amorfo das sensações”.
Descontraído.
Habituado.

Mas nada criaste!
Absorveste,
as normas e os comportamentos
que a sociedade te deu
ou impôs.

Então,
como sabes que és?
Onde está o teu Eu?

in Metafísica [Poética]