
| O deserto é um silêncio depois do mar, É o êxtase da luz sobre o coração da areia. Vai-se e volta-se e nada se esquece. Tudo se oculta para depois se dar a ver No ponto em que os ventos se cruzam E as almas gritam no fundo dos poços. Os cestos sobem e descem prometendo água, Uma frescura que derrete a febre. Não são as tâmaras que adoçam a boca, É a beleza das mulheres dissimulando O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus. As serpentes assobiam ou cantam Conforme o veneno que lhes molda o sangue. Enroscam-se sobre as pedras como fragmentos de lua à espera da manhã. E a sombra alonga-se nas dunas Ondulando rente às palmeiras Como a última cobra do medo das crianças. Não há ruído maior que este silêncio Que se serve com tâmaras e com chá Na mesa rasteira, sobre a terra molhada. É no que não se nomeia que está o infinito.
|